Entrevista exclusiva

Ualid Rabah: “há um processo de limpeza étnica e de apartheid”

Presidente da FEPAL afirmou que há um apartheid na Palestina e defendeu o fim das relações com o Estado de Israel

Após a realização de um ato em apoio ao povo palestino realizado na Universidade de São Paulo, no dia 9 de novembro, a equipe do Diário Causa Operária entrevistou Ualid Rabah, presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal).

Em cerca de vinte minutos de entrevista, Rabah defendeu o direito à resistência armada palestina, afirmando que “as condicionantes gerais é o que gera a resistência”. O presidente da Fepal defendeu ainda o fim das relações diplomáticas com Israel, país que, segundo ele, sequer teria o direito de estar na Organização das Nações Unidas (ONU).

Confira abaixo a entrevista na íntegra.

Diário Causa Operária: O que o companheiro achou do ato em defesa da Palestina, contra o genocídio?

Ualid Rabah: Ele representa um crescendo, ele acontece de uma maneira que até me surpreendeu. O auditório estava lotadíssimo em uma das mais importantes universidades do continente, na mais importante universidade do País. Eu nunca gosto de dizer que existe uma plateia mais qualitativa que outra, mas essa é uma plateia qualitativa que tem interferência no pensamento crítico no Brasil, no continente e no mundo.

Ela tem interferência naquilo que a gente chama de formação de opinião qualitativa, qualificada, que alcança os produtores de conhecimento, que alcança aqueles que fazem a gestão do pode, a gestão do Estado, que conduzem os grandes debates na sociedade brasileira, na sociedade latino-americana, e que incidem, é claro, um grande debate de formulação na sociedade global.

Isso é fundamental, é importante porque muito diferentemente do que muitas pessoas podem acreditar, e infelizmente acreditam até, não é absolutamente verdadeiro que a questão palestina e a luta anticolonial e a percepção clara de que na Palestina há um regime de apartheid, que há um experimento social genocida, que há um experimento colonial único na nossa história baseado exclusivamente na limpeza étnica seja tão claro nas universidades. Isso não é verdade.

Não é porque há um ativismo dentro das universidades, especialmente o juvenil, que é mais propenso a essa visão mais generosa de mundo que a academia necessariamente o seja. Que o domínio das bancas, que a produção do conhecimento científico, especialmente História, Sociologia, Relações Internacionais, Direito e Direito Internacional, seja verdadeiramente orientada por uma visão libertária.

Não é absolutamente verdadeiro. E, quando isso não é verdadeiro, repercute na indústria da cultura, na indústria daquilo que a gente chama de “produção do conhecimento publicado”. E, eu diria até, no mercado editorial, nos livros, por que é que você não vê a questão palestina, a questão árabe, aquilo tudo que desafia a percepção orientalista? Coincidência ou não, o debate favorável ao que é o projeto sionista, inclusive os isentando direta ou indiretamente é fantástico.

Então, eu acho, com muita franqueza, que o que nós vimos aqui é absolutamente fundamental e eu fiquei muito feliz de ver isso. Eu não estou dizendo isso da boca para fora.

DCO: em relação aos atos que vêm ocorrendo em São Paulo e no Brasil inteiro, em comparação com o resto do mundo, começaram muito pequenos. Há uma pressão do sionismo, a imprensa brasileira praticamente não noticiou que houve os atos em São Paulo, foi um silêncio total. 

UR: eu acho que há uma dupla visão quanto a isso. Os grandes veículos de comunicação promoveram o que nós chamamos no Brasil e no mundo o último estágio conhecido da propaganda de guerra. A propaganda de guerra tem funções próprias, clássicas, que as pessoas conhecem, mas ela teve, neste momento, uma componente chamada choque e pavor. O choque e pavor foi o apelido dado à operação estadunidense  de destruição do Iraque em 2003. Então, choque e pavor é para imobilizar o máximo de atores possíveis, inclusive os atores não hegemônicos e até mesmo os anti-hegemônicos.

Isso paralisou inclusive o campo democrático-popular no Brasil, o campo humanista no Brasil no primeiro momento ficou imobilizado. Imobilizou-se também os veículos de comunicação não hegemônicos e até mesmo os anti-hegemônicos, e isso dificultou, patinou a reação. A FEPAL, lógico, vocês acompanharam, já no dia 7 de outubro, denunciou a propaganda de guerra, denunciou o dia todo, e construiu uma série de documentos e intervenções em suas mídias sociais.

Eu não quero dizer que houve uma inflexão já naquele momento, mas já no dia 8, isso começou a aparecer. Eu fico muito orgulhoso de nós termos enxergado o problema como ele era e indicado uma luz, um farol naquele caminho. É obrigação nossa, de representantes da diáspora palestina e representantes da luta palestina aqui, sermos úteis inclusive para a solidariedade. Então, a gente ficou feliz com isso, embora tristes com o que está acontecendo. 

Então, veja, não é porque isso estava acontecendo, necessariamente, que nós tínhamos desesperança. Não! Quando essa chave começou a virar, os grandes atores, as grandes organizações gerais romperam com esse imobilismo e aí nós começamos a tracionar. Por isso que nós tivemos, em São Paulo, no dia 4, o maior ato da história do Brasil pela Palestina. Então, isso que é fato, isso que nós temos de analisar. Aquilo que nunca houve na história do Brasil. Como disse um dos integrantes do Brasil, o Socol, foi preciso, para que houvesse as grandes manifestações em defesa do Vietnã, dez anos e milhões de mortos.

E isso tudo está acontecendo apesar dos governos ocidentais, apesar dos grandes veículos de comunicação, apesar dos centros de reprodução de discurso hegemônico e de poder. Então, isso é fundamental, isso merece uma reflexão e eu acredito que é possível que nós tenhamos, inclusive para a análise da propaganda de guerra, do papel dos grandes veículos de comunicação, que se implicaram diretamente no genocídio, um pré e um pós Palestina-Gaza, 7 de outubro de 2023.

DCO: no oitavo capítulo de seu livro, “Dez Mitos sobre Israel”, do professor Ilan Pappé, ele inicia o capítulo falando do Hamas – Movimento de Resistência Islâmica. Ele diz: “o Hamas foi rotulado como organização terrorista, tanto pela imprensa como pela Lei. Eu digo que é um movimento de libertação e legítimo”. Essa não é uma posição defendida por praticamente nenhum setor, nem popular, nem de esquerda. Qual a sua opinião sobre o Hamas? É legítima a luta armada contra o genocídio que Israel comete?

UR: Quem defende a Palestina, deve se comportar da seguinte maneira: há um processo colonial, há um processo de limpeza étnica e há um regime de apartheid. As condicionantes gerais é o que gera a resistência. Então, eu não preciso perguntar o que é o CNA na África do Sul para dizer que sou contra o apartheid. Os movimentos de libertação nacional, todos eles, utilizaram os meios que estavam à sua disposição, conforme o colonialismo agia. Foi assim em Moçambique, foi assim em Angola, foi assim na África do Sul. Lembrando que Mandela ficou 27 anos preso com uma acusação clara: a de terrorismo. Tanto que ele foi retirado da lista de terroristas do Departamento de Estado estadunidense apenas no final do governo Obama. Então, isso não é uma novidade.

Em segundo lugar, por que, durante o tempo todo, falar “isto” ou “aquilo”, adjetivos que não correspondem à Palestina? É preciso dizer: “Palestina”. Antes, era “a OLP”, depois o Arafat em si, como pessoa abjeta, depois o Fatah. E não mudou até agora. O que é preciso compreender: o povo palestino tem direito, primeiro, a lutar por sua libertação nacional e pela restauração dos direitos nacionais, civis e humanitários, inclusive o retorno dos refugiados. Portanto, a restauração demográfica da Palestina histórica.

Segundo, entender que o povo palestino tem o direito de escolher a sua visão de mundo. Uma parcela dos palestinos tem o direito de enxergar “assim” ou “assado”. É importante destacar, que recentemente, o centro de mídia e comunicação “Jerusalém”, sediado em Jerusalém, um dos mais respeitados institutos de opinião pública na Palestina, realizou uma pesquisa entre todos os palestinos – não todos, porque não realizou naquilo que hoje é considerado “Israel”, mas apenas Jerusalém Oriental, Cisjordânia e Gaza – e detectou que, em três perguntas, que diziam respeito, a como você se entende como pessoa, como você se define, quais os critérios que você tem para escolher o partido que vai governar e qual critério que você adota para escolher uma causa política, em todas essas perguntas, as respostas que tiveram como critério a religião foram um total de 5,2%. E todos esses índices foram maiores na Cisjordânia que em Gaza e, em um deles, a população de Gaza, que é o critério de escolha para o Estado – isto é, se o Estado seria teocrático ou não, e quero deixar bem claro que sou contra -, apenas 0,2% da população fez essa opção.

Ou seja, a população palestina é fortemente laica, democrática, fundada nos direitos humanos, e Gaza, por incrível que possa parecer aos olhos da propaganda ocidental, é assim mais que a população da Cisjordânia. Eu acho que isso que é importante verificar, em vez de ficar pegando os rótulos desse Ocidente do aparheid, da guerra do Vietnã, da guerra do Ópio, do Hitler.

DCO: em 2006, o Hamas venceu as eleições em Gaza. Mesmo sendo uma população majoritariamente laica, a população palestina enxerga no Hamas a força que pode lutar, neste momento, efetivamente, contra Israel?

UR: Hamas não venceu apenas em Gaza, mas sim em todo o território para a Palestina de Oslo, e ganhou com aliados. Em segundo lugar, é bom destacar que, à essa altura, o Arafat já estava morto, em 2004. É preciso destacar que não apenas o Arafat tinha sido já assassinado por envenenamento, por polônio, como já tinha sido assassinado o fundador do movimento do Hamas, Ahmed Yassin, e também o seu sucessor, Abdel Aziz Rantissi. É preciso destacar que há uma eleição em 2005, e quem ganha essa eleição é o Abbas. É preciso destacar que a eleição de 2006 é legislativa, em que ganha o Hamas, com aliados e forma um governo. O Ocidente, esse Ocidente do Hitler, não aceitou.

Em 2007, foi formado um governo de unidade. O Ocidente, novamente, objetou. Novamente, misteriosamente, tivemos circunstâncias anômalas, de rachadura, no tecido social e político palestino. Misteriosamente, acontece uma sequência de eventos e, todos eles, de lá para cá, conduzem a vida política e social palestina. Ou seja, uma secção territorial, uma secção política, a ausência de um processo democrático permanente, inclusive em Gaza, porque ninguém foi eleito em Gaza desde 2006. Na Cisjordânia, pelo menos tivemos eleições municipais.

Essas anomalias todas precisam entrar no debate, para que nós digamos o que de fato está acontecendo. Eu não posso me pautar por aquilo que é apresentado pela mídia ocidental, porque as nossas preferências e ódios também são motivados. Eu sinto que a questão palestina é muito cheia de nuvens e, mesmo o campo anti-hegemônico e anti-imperialista aceita essas nuvens para a questão palestina com certa tranquilidade. A população palestina é muito mais “normal” do que todos nós podemos pensar. Ela é bem normalzinha, inclusive.

DCO: gostaria de fazer algumas considerações finais?

UR: quando a gente fala em ruptura das relações diplomáticas, políticas, comerciais e militares com Israel, nós não estamos de birra com isso. A África do Sul viveu a mesma experiência, e a comunidade internacional boicotou, sancionou o regime supremacista branco na África do Sul pelo seu crime de apartheid. E teve uma resolução de 1962 especificamente para esse propósito.

Em 1986, há uma convenção aprovada, que é a convenção do apartheid. Ela é muito clara, ela tipifica o crime de apartheid, para qualquer lugar do mundo e diz que é um crime de lesa-humanidade. Aliás, ele diz claramente: é um crime contra toda a humanidade.

No dia 9 de dezembro de 1948, foi aprovada a convenção do genocídio, e ela tipificou muito claramente o genocídio. A 10 de dezembro de 1948, foi aprovada a Carta das Nações Unidas. E, finalmente, em 11 de dezembro de 1948, foi aprovada a primeira resolução da história humana que reconhece o genocídio, que é a 194, que determina o retorno de refugiados e reconhece a limpeza étnica. Isso é fundamental: num dia, o genocídio, do outro dia, das Nações Unidas, e, no outro, a do retorno dos refugiados.

Esses três elementos são, depois, condicionantes de uma resolução enumerada 273/3, de 11 de maio de 1949, que é a da admissão de Israel, proposta pelos britânicos. Ela não passaria, então teve cláusulas condicionantes isso tudo que eu citei, mas a resolução 81 da partilha, portanto, restaurar a Palestina para pelo menos 42,9% do seu território, e a 194, que é a do retorno. Portanto, a restauração demográfica da Palestina histórica. Israel aceitou. É a única resolução da história da ONU de admissão de um Estado-membro sob cláusula condicionante. Israel não acatou até hoje.

Israel, além de nunca ter acatado uma só resolução da ONU, está ilegalmente na ONU. Portanto, o Brasil não pode ter relações com esse país. Por fim, se alguém estiver preocupado com os prejuízos econômicos com Israel, também se enganam. Em 2021, 2022 e até setembro deste ano, a balança comercial do Brasil com Israel era deficitária em 1,3 bilhões de dólares; portanto, em 7 bilhões em desfavor do Brasil. Uma balança comercial que não vai mudar. E eu pergunto: o que nós ganhamos com isso? Absolutamente nada: desemprego para o Brasil, porque nós estamos em déficit.

E o que a gente compra de Israel é: arapongagem, armamentos, munição e sistemas, que são testados sobre o povo palestino, depois vendidos para o mundo. E se nós podemos comprar francamente, com todo respeito a nossos irmãos paraguaios, no Paraguai. Não precisamos de Israel para isso.

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