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Teoria da conspiração

Seria Soros o único bilionário que não conspira e não manipula?

Jornalista afirma que criticar os interesses por trás do financiamento de Soros a ONGs é "racismo" e "antissemitismo"

O jornalista Luis Carlos Azenha fez uma coluna no sítio da revista Fórum chamada “Quando racismo e antissemitismo são esgrimidos em defesa de Lula” onde procura relacionar as críticas que setores da esquerda fazem às ONGs financiadas do exterior a um antissemitismo da extrema-direita.

Para quem não sabe, George Soros, bilionário norte-americano de origem húngara, é talvez o maior financiador de ONGs pelo mundo. Soros, além de bilionário, é judeu. Essas ONGs, além de receberem muito dinheiro de bilionários, defendem a ideologia que convencionamos chamar de identitária. Essa ideologia é o instrumento com o qual Soros, um homem ligado aos principais monopólios imperialistas, combate os inimigos políticos, incluindo aí a extrema-direita mundial.

Nessa briga entre burguesias, a extrema-direita acusa Soros de estar propagando o “globalismo” e as ideologias “esquerdistas”. Alguém mais radical até aproveita para acusar Soros de ser judeu.

Azenha vê tudo isso e, impressionado, demonstrando uma total ausência de experiência política, acredita que a esquerda que crítica as ONGs estaria sendo antissemita, assim como a direita que valoriza a origem judaica de Soros para provar seu mal.

Segundo Azenha, Soros seria apenas um bode expiatório, tanto da esquerda quanto da direita, para o racismo e o antissemitismo.

“Já não é possível discernir entre direita e esquerda. O globalismo é inimigo de ambos”, ironiza Azenha, sem maiores explicações posteriores. O que ele não quer discutir é que “globalismo” é termo recente inventado pela direita que faz oposição a outros setores capitalistas, como explicamos acima.

Acontece que a esquerda sempre foi inimiga, não do “globalismo”, mas do imperialismo, conceito cunhado há mais de 100 anos e que foi muito bem definido por Lênin. Nesse sentido, não é um problema de discernir esquerda e direita, mas de explicar porque a direita se aproxima de uma posição que é tradicional do movimento socialista. Mas Azenha insinua o contrário, é como se a esquerda devesse abandonar seus princípios para poder se “discernir” da direita.

O problema do texto de Azenha é que sua ironia não tem conteúdo. Ele afirma: “Um dos símbolos dele [do globalismo] é o bilionário financista húngaro-estadunidense George Soros, que manipula corações e mentes por uma esquerda ‘internacional’, apartada do nacionalismo e calcada no identitarismo vazio de significado”. Nos dá a impressão de que a frase era para ser irônica, afinal, é realmente impensável que um bilionário tenha interesses escusos em suas ações.  É como um desavisado que, em 1964, dissesse ironicamente: “falam que os Estados Unidos apoia os militares”.

Não sabemos se Azenha acha que o bilionário Soros tem ótimas intenções ou se simplesmente ele não despeja muito dinheiro nessas ONGs. Alguma coisa ele deveria explicar, mas tudo fica no ar. A única coisa que se conclui lendo o artigo de Azenha é que a esquerda está “esgrimindo” seus racismo e seu antissemitismo junto com a direita. Conteúdo, argumentação, “é assim ou não é assim?” nada disso o leitor encontra na coluna de Azenha.

De passagem, Azenha defende Jean Wyllys: “Dado o confronto que travou com o ministro Paulo Pimenta por espaço no governo, nesta categoria também se enquadra o ex-deputado federal Jean Willys. Outra ‘marionete’ de Soros.”

Solta o comentário e vai embora. Passa para o próximo assunto sem explicar que 1) Wyllys, ao menos enquanto esteve na Europa, foi bolsista da Open Society (a organização de Soros), como admite em carta a Márcia Tiburi publicada em livro; 2) as críticas a ele foram políticas e é politicamente que precisam ser rebatidas.

Justamente o mérito da questão é ignorado por Azenha. Ele não precisa concordar com os que acusam George Soros e as ONGs de serem agentes estrangeiros tentando intervir na política nacional, mas ele deveria ao menos apresentar seus argumentos contrários. No entanto, Azenha apenas repete frases como se todas as colocações sobre o problema fossem absurdas de antemão.

Soros – afirma ele – é “um bode expiatório perfeito, à esquerda e à direita, para uma ideia tão antiga quando atual: a manipulação da sociedade global por uma conspiração judaica.” Talvez para uma extrema-direita, a origem judaica de Soros seja relevante, mas é desonesto da parte de Azenha dizer isso da esquerda que o critica.

Não se trata de conspiração judaica, mas de conspiração pura e simples. Azenha acredita que não há manipulação de interesses ou que George Soros é inocente? Não fica clara a posição dele porque ele não entra no mérito do argumento.

Ficamos em dúvida se devemos acreditar na pureza do bilionário Soros ou se devemos rejeitar toda e qualquer ideia de que há alguma conspiração e manipulação dos capitalistas no mundo. Se Azenha acredita que pode haver essa manipulação, então sobre a primeira hipótese e ele teria que explicar porque Soros é o único bilionário no mundo que não manipula e não conspira.

Azenha desempenhou um papel importante durante o golpe de Estado. Foi um dos que denunciaram a conspiração golpista, o que nos faz acreditar que ele não ignora a possibilidade de haver conspiração.

A impressão que se tem ao ler o artigo de Azenha é a de que ele foi ludibriado pela campanha ongueira. Ele realmente acredita na pureza da campanha pela “mulher negra no STF”. Ele reduz a coisa a um “racismo disfarçado”.

“As supostas pressões internacionalistas para que Lula escolha uma mulher negra para o STF não passam de racismo disfarçado. O argumento é de que Lula, tendo escolhido Joaquim Barbosa para uma vaga no STF, foi ‘traído’ pelos negros.”

Novamente, Azenha ignora todo o debate em torno do caso. 1) Colocar uma mulher negra no STF, muda alguma coisa; 2) quem seria essa mulher negra; 3) de onde vem a campanha e por que ela tem tanta força a ponto de colocar outdoors em Nova Deli e Nova Iorque, além de ser apoiada pela imprensa golpista brasileira.

Para Azenha, questionar tudo isso é ser “racista”, o que é uma forma completamente desonesta de fazer o debate. Dizer que o único argumento contra é o de que Joaquim Barbosa foi uma escolha errada também é desonesto. O exemplo foi apenas levantado para mostrar que a cor da pele não faz ninguém mais ou menos progressista.

Talvez a rase que melhor resume o artigo de Azenha seja: “Racismo e antissemitismo mal disfarçados se escondem sob a argumentação de quem defende a infalibilidade papal de Lula.” Lula pode não ser nenhum Papa, mas por que a crítica a ele deveria vir com esse viés? Quer dizer, pressionar Lula para escolher uma mulher negra no STF seria o suprassumo da política progressista e a prova cabal de que Lula é um direitista?

Essa ideia só prova que a política das ONGs é nefasta. Ela não serve para nada além de desgastar o governo Lula com uma campanha que não vai mexer uma vírgula na situação do povo brasileiro.

Mas Azenha, impressionado pela campanha que ele ironicamente diz ser “internacionalista” está tranquilo para criticar Lula. Da Times Square até a revista Fórum (que parece estar se especializando em atacar Lula “pela esquerda”), Lula é um mau-caráter por não escolher a tal mulher negra que ninguém sabe quem é. Ou melhor, a julgar pela lista tríplice apresentada pela ONG “Mulher negras decidem” (que também tem ligações com a Open Society) pelo menos uma delas é lavajatista.

Mas podemos ficar tranquilos, porque Azenha já explicou que tudo isso é teoria da conspiração. Não há interesses estrangeiros nem manipulação de interesses capitalistas. Além disso, falar isso é ser “racista” e “antissemita”. Não há nenhum interesse de desgastar Lula, é tudo coincidência e é tudo feito com as melhores intenções progressistas.

Azenha diz que nós, que vivemos na “periferia do capitalismo”, temos pobreza de ideias e gostamos de importar ideologias. No final das contas, ele tem sua dose de razão: um jornalista como ele, por exemplo, está repetindo exatamente a campanha ideológica do momento cuja origem são os Estados Unidos.

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