Fábio Picchi

Militante do Partido da Causa Operária (PCO). Membro do Blog Internacionalismo e do Coletivo de Tecnologia do Partido da Causa Operária. Programador.

Xandão?

Rede Globo: os especialistas em “fake news”

A sutileza da imprensa golpista nacional, em oposição aos absurdos bolsonaristas, faz com que suas mentiras sejam tidas como verdade

Já há algum tempo não temos o hábito de acompanhar o jornalismo da Rede Globo, a não ser pela curiosidade de se saber o que pensa a ala mais reacionária e pró-imperialista da burguesia brasileira. Esse acompanhamento marginal fez com que deixássemos passar detalhes importantes do jornalismo golpista, algo que foi retificado por denúncia que recebemos há alguns dias.

No último dia 15, em meio à enorme propaganda em favor do sionismo, o Jornal Nacional veiculou uma reportagem na qual dizia que “empresas estatais brasileiras devem fechar 2023 com um rombo de mais de R$5,5 bilhões”. A denúncia nos foi feita por um companheiro que trabalha numa das estatais que atuam no setor de tecnologia da informação, o Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro).

Dados sobre o suposto déficit do Serpro sequer são mencionados na reportagem, a não ser por um “especialista” da Fundação Getúlio Vargas que menciona a empresa como uma das supostas responsáveis pelo “rombo” das estatais. Num determinado momento, a reportagem aponta os principais “vilões” do orçamento estatal:

  • Empresa Gerencial de Projetos Navais (EMGEPRON) – R$ 3,17 bilhões
  • Correios – R$ 596,7 milhões
  • Indústrias Nucleares do Brasil (INB) – R$328,2 milhões
  • Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência (Dataprev) – R$198,2 milhões

Nossa fonte estava indignada com a reportagem porque segundo relatórios internos da empresa (de acesso público, dado que são estatais), o Serpro nunca deixou de lucrar desde 2017. Pouco após a veiculação da reportagem no Jornal Nacional, o Serpro publicou nota:

“O Serpro não é uma empresa pública deficitária. Pelo contrário, temos projeções para ao final do exercício de 2023 de resultado líquido em torno de R$ 402 milhões e superávit orçamentário acima de R$ 500 milhões, ou seja, o desempenho econômico-financeiro do Serpro contribuirá positivamente para o alcance das metas fiscais por meio da distribuição de dividendos. Além disso, é importante destacar que o Serpro não faz parte do Orçamento Geral da União desde 2004 e, portanto, a associação da marca Serpro por meio da utilização de imagens de sua fachada no contexto de uma reportagem sobre aporte da Secretaria do Tesouro Nacional não condiz com a realidade.”

Sim, esquecemos de mencionar que imagens da facada do Serpro aparecem na reportagem sem que nenhum dado sobre a empresa seja sequer mencionado. O problema se agrava no caso das empresas em que os dados foram mencionados. A Dataprev, por exemplo, emitiu nota criticando o Jornal Nacional:

“Com relação à notícia ‘Estatais brasileiras devem fechar 2023 com rombo de quase R$ 6 bilhões’, no Jornal Nacional de quarta-feira (15), a Dataprev esclarece que, a partir de dados atualizados sobre seus resultados financeiros, a expectativa para 2023 é de um lucro próximo a R$ 500 milhões, e um resultado primário positivo de R$ 26 milhões.”

A EMGEPRON, que seria a principal responsável pelo “rombo”, também:

“No último Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas (4º bimestre/2023), em seu Anexo III, consta a projeção do resultado primário aparentemente “negativo” em R$ 3,17 bilhões, calculado com base no regime de caixa. Cabe aqui destacar que o valor mencionado se refere a dispêndios com investimentos, que não representam um “rombo” ou má administração de recursos, conforme explicitado na reportagem, ou seja, tais recursos, que estão disponíveis no caixa da empresa, são destinados efetivamente ao pagamento dos marcos contratuais que serão executados ao longo de 2023, na construção de quatro Fragatas da Classe Tamandaré.”

Até o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos esclareceu que “o Tesouro não vai ter de cobrir déficit de estatais”, algo que a peça de propaganda privatista exibida no Jornal Nacional dava a entender.

“O déficit é uma medida calculada com receitas e despesas de cada ano, então não considera os recursos que existem em caixa de anos anteriores.

Desde abril de 2022, já havia a previsão do déficit de estatais de R$ 3 bilhões. E a revisão feita em maio deste ano foi para incorporar o grupo ENBPar, porque não tinha sido feito pelo governo anterior, após a privatização da Eletrobras”, diz nota do ministério. A ENBPar, antes parte da Eletrobras, abriga o INB e não era considerada na prestação de contas estatal até o ano passado.

É importante destacar que não somos jornalistas profissionais como aqueles que trabalham na Rede Globo, aqueles que nunca mentem, segundo eles próprios e o Supremo Tribunal Federal. As mentiras, finalmente, estão nas redes sociais e são veiculadas por cidadãos comuns como este colunista. Realizamos, porém, o árduo trabalho de verificar o que as empresas e o governo têm a dizer sobre os déficits, algo que os arautos da verdade não se deram o trabalho de fazer. Será que seremos processados por “fake news”?

Quem veicula notícias falsas – em português bem claro – é a imprensa golpista. E suas mentiras não têm nada a ver com “mamadeiras de piroca” ou qualquer bobagem da mesma categoria. São mentiras elaboradas, embasadas por “especialistas”, porta-vozes da burguesia nas universidades, que atuam contra o interesse nacional. As consequências dessas mentiras são desastrosas e de difícil reversão, visto que ainda vivemos com as consequências da devastação da privataria tucana dos anos 1990.

Finalmente, por que um país como o Brasil, com quase 7,5 mil quilômetros de costa, deveria ter como empresa estatal a EMGEPRON? Certamente o interesse privado – imperialista, provavelmente norte-americano – defenderá melhor nossa fronteira marítima que uma empresa ligada diretamente à marinha brasileira. Por que deixar nas mãos do Estado o controle dos dados previdenciários e de outros serviços públicos prestados aos cidadãos brasileiros? Vamos privatizar! Empresas como a Meta e o Google são famosas por seus cuidados com os dados de seus usuários. Aposto que nunca compartilhariam esses dados com seguradoras e bancos privados. 

Correios, então? Nada melhor que o serviço privado para entregar correspondências em Serra da Saudade, município de Minas Gerais com o menor número de habitantes do País. Uma nação continental como a nossa não deve onerar o Estado com serviços secundários como logística…

Em outras palavras, mesmo que o déficit fosse real, o Brasil não pode entregar setores estratégicos da economia nas mãos de investidores que vão apenas sugar suas capacidades e devolvê-las sucateadas ao Estado. Observemos a situação da Enel em São Paulo, cidade mais rica da América Latina que teve mais de 10% de sua população sem luz por dias há algumas semanas.

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