Balanço de dez dias

Que conclusões já podemos tirar do golpe militar no Gabão?

Acontecimento de 30 de agosto deixou importantes lições

Com apenas dez dias de governo do Comitê para a Transição e Restauração das Instituições (CTRI) do Gabão, já é possível extrair uma série de conclusões sobre o golpe militar de 30 de agosto.

A primeira de todas, que ficou evidente de imediato, é que a situação na África é um barril de pólvora. Isto é, que basta que se acenda uma faísca em qualquer lugar para que o continente entre em convulsão. Isso ficou evidente nas primeiras horas após o golpe com as declarações de Josep Borrell, Alto representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, que disse que, caso o golpe se confirmasse, “aumentaria a instabilidade em toda a região”, E ele tinha razão.

No mesmo dia, o presidente de Camarões reorganizou as forças armadas, temendo que o mesmo pudesse acontecer em seu país. Pouco tempo depois, Ruanda e Uganda fizeram o mesmo. Mais recentemente, o presidente da Guiné-Bissau fez mudanças em sua guarda pessoal.

Não há dúvidas, portanto, que o golpe no Gabão, estimulou os setores nacionalistas dos países africanos a se rebelarem. Chama a atenção, inclusive, que essas medidas de precaução extrapolaram a África francófona.

A segunda conclusão, que ajuda a explicar a primeira, é que os governos africanos são ditaduras odiadas pela população, que só se sustentam por causa do apoio do imperialismo. Ali Bongo, o presidente deposto do Gabão, caiu de podre. Nem uma única voz saiu em sua defesa no Gabão. Mais de R$4,1 bilhões de reais em dinheiro vivo foram encontrados nas casas de membros do governo, tamanha era a corrupção.

A terceira conclusão é de que não existe nada nem perto de “democracia” na África. Nem mesmo o que há de mais elementar, que seria a realização de eleições, pode ser levado a sério. As eleições organizadas por Ali Bongo foram todas flagrantemente fraudadas. Em um dos casos mais grotescos, o presidente deposto reconheceu ter perdido em sete das nove províncias, mas venceu no final porque alegou que teve mais de 93% dos votos na duas províncias, que, por sua vez, tiveram 98% de presença.

Isso tudo, obviamente, acontecia porque o sistema eleitoral era controlado pela própria Família Bongo. A presidente do Tribunal Constitucional, que tutelava as eleições, era ninguém menos que a amante de Omar Bongo, o pai de Ali Bongo e o mais longevo presidente do país.

Opor-se aos golpes militares na África por causa da defesa da “democracia” é, portanto, ridículo.

A quarta conclusão importante é que não é necessário que haja um forte sentimento anti-francês para que os golpes militares tenham um conteúdo nacionalista e anti-francês. Os golpes partem de uma grande insatisfação popular com os regimes. Mas acontece que a podridão dos regimes vem justamente da corrupção por parte da França. Não há dinheiro no Gabão para construir estradas simplesmente porque houve uma época em que, do petróleo extraído no país, 57% dos recursos iam para na França, 25% ficava no país e 18% ia direto para os cofres da Família Bongo.

Por mais que a população não hostilize a França nas manifestações em apoio ao golpe, como o faz no caso do Níger, as demandas do Gabão só poderão ser cumpridas se houver algum tipo de enfrentamento com a dominação francesa. O presidente da transição, Brice Oligui Nguema, tem se comprometido em desenvolver o país, em trazer de volta exilados políticos e em retomar programas assistenciais, como o de bolsas estudantis. Um dia após sua posse, ele determinou a soltura de presos políticos do regime, incluindo uma importante liderança sindical. Essa política não poderá ser levada adiante se a pilhagem francesa continuar na mesma intensidade.

Ainda que o novo governo e a França entrem em um acordo, o acordo será ruim para a França, pois será inferior ao que tinha antes, sob o governo de Ali Bongo. Não só isso irá enfraquecer economicamente o país europeu, como também será visto como mais um sinal de fraqueza.

A quinta conclusão é a de que não se pode subestimar a pressão popular por trás dos golpes militares recentes. Por mais que os setores nacionalistas tenham chegado ao poder por meio de uma conspiração, eles não só são apoiados pelas massas como foram efetivamente empurradas por elas. O discurso de posse de Brice Oligui Nguema foi bastante esclarecedor neste sentido:“O povo gabonense simplesmente pediu que seus direitos fossem garantidos através de instituições. As forças de defesa e segurança tinham apenas duas opções: matar gabonenses que protestariam legitimamente ou pôr fim a um processo eleitoral viciado”. Isto é, se as forças armadas não interviessem, era provável que as massas o fariam.

Por fim, a última conclusão importante é a de que o combustível para todos esses golpes são as demonstrações de fragilidade do imperialismo. Governos como o de Ali Bongo, que ainda possui vários pares, como Paul Biya, em Camarões, só se sustentam pela força. No entanto, quando o imperialismo se mostra fraco, esses governos podem simplesmente cair da noite para o dia.

Após ser preso, o todo-poderoso Ali Bongo, que mandava para cadeia seus opositores, apareceu em um vídeo clamando para que seus “amigos” o ajudassem. Ninguém ajudou. O recado de Ali Bongo só reforçou a situação delicada do imperialismo. Paul Biya e os demais capachos do imperialismo na África agora estão avisados que seus “parceiros” – na verdade, seus patrões – não irão lhes salvar quando o povo perder a paciência.

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