"Mega-pogrom" é Gaza

O sionismo e seus clichês em defesa dos opressores

Diante da reação do povo palestino contra os sionistas, nada mais natural do que o regojizo público das camadas oprimidas da população mundial

O acadêmico da Universidade de São Paulo Felipe Catalani, publicou no sítio Passa Palavra o artigo “Tempestade de Al-Aqsa: Banho de sangue, sacrifício e convite ao suicídio” (14/11/2023), tendo como um dos pontos centrais a tese de que “para o atual ‘anti-imperialismo’ elites russas e árabes são aliados objetivos, assim como o proletariado israelense e americano são inimigos naturais.” Nada mais falso do que dizer que o “proletariado israelense e americano são inimigos naturais”, mas sobre a burguesia dos países atrasados, o fenômeno não seria nada estranho a um marxista que verdadeiramente compreendeu o problema do imperialismo. É perceptível, no entanto, que Catalani não tem o marxismo como sua bússola política, mas o sionismo.

Ao tratar do proletariado israelense como “inimigo”, o autor indica seguir a formulação pouco criativa dos sionistas de que a extinção de Israel implicará na extinção da população israelense, algo que nunca esteve no programa de nenhum partido revolucionário consequente. A tese levantada desde a Quarta Internacional é que a Palestina seja restabelecida como uma nação unificada, multinacional e que seja dado aos imigrantes judeus a possibilidade de viverem lá de maneira harmoniosa com os palestinos, em uma nação democrática.

Os que considerarem demasiadamente insuportável viver com árabes no país, naturalmente, poderão voltar aos seus países de origem, mas de maneira alguma, o repúdio ao Estado de Israel se estende à população civil. Catalani coloca esses termos por sua sinergia com o sionismo, o que também aparece com o desprezo do autor pelo fato de a esquerda lembrar a importância de distinguir a violência do oprimido da violência do opressor (“já convertida em clichê”, diz o acadêmico).

Não se trata, como critica o autor, de mero “clichê”, mas da importância de se analisar com mais concretude o conflito a fim de melhor compreendê-lo, justamente para evitar o “ultra-moralismo hipersensível” apontado no artigo, mas que se origina exatamente da falta de uma percepção mais precisa sobre o que ocorre na Palestina. O desprezo pelo aprofundamento da análise termina por levar o autor a repetir o que diz a propaganda sionista, por exemplo, sobre o suposto ataque do Hamas a jovens em uma festa realizada nas proximidades da Faixa de Gaza.

Depoimentos de israelenses atestam que a famigerada Diretriz Aníbal está sendo aplicada contra civis israelenses, como denunciou em entrevista ao Electronic Intifada a israelense Yasmin Porat, moradora do kibbutz Be’eri, localizado próximo à Gaza e onde pelo menos 100 pessoas morreram pela própria FDI. Depoimentos de brasileiros que estiveram na festa onde muitas pessoas teriam morrido dão a versão pró-israelense do fato, mas deixam claro que houve troca de tiros entre a FDI e o Hamas, com os participantes no meio do fogo cruzado.

Po rque o Hamas iria ao local promover um banho de sangue aleatório ao invés de retornar para locais seguros e se preparar para a ofensiva israelense, é um mistério, mas aparentemente, é o que crê o autor do artigo, que diz:

“Na mesma gravação de Mohammed Deif [comandante militar das Brigadas Izz ad-Din al-Qassam, a milícia do Hamas] citada pela Reuters, o chefe do braço armado do Hamas se refere a Israel como uma ‘orgia’. O fato de que, nessa operação complexa e minuciosamente planejada, justamente uma rave tenha sido escolhida como principal alvo de uma chacina, como local da imoralidade e da devassidão ocidental, não é um acaso.”

Aqui, a percepção de Catalani e os depoimentos de testemunhas, sejam elas favoráveis a Israel como os brasileiros que estavam na festa quanto a da crítica da FDI no kibbutz Be’eri se chocam. Se era o plano do Hamas promover uma chacina em um “local da imoralidade e da devassidão ocidental”, por que simplesmente não o fizeram de uma vez? Por que perder tempo atacando bases militares como denunciado pelo general de brigada israelense Avi Rosenfeld? O próprio autor informa que segundo “uma matéria da Reuters, uma ‘fonte próxima ao Hamas’ conta que ‘foi em maio de 2021, depois de uma invasão do terceiro local mais sagrado do Islã que enfureceu o mundo árabe e muçulmano, quando [Mohammed] Deif começou a planejar a operação [Dilúvio de Al-Aqsa].’” Duas hipóteses restam: ou os comandantes do Hamas e das forças que os auxiliaram são péssimos planejadores por terem ido atacar bases militares no lugar de atacar “o local da imoralidade e da devassidão ocidental”, ou a base para a afirmação de que a escolha da festa como palco de uma chacina – que não se deu por “acaso” – nada mais é do que um reflexo da submissão intelectual do autor aos órgãos de propaganda sionista. Claro que o segundo caso é o mais próximo da verdade.

“A fim de ornamentar de vermelho um ato bárbaro, evocou-se a heroica temporalidade histórica da época de Mandela, Argélia, Vietnã e mesmo de Che Guevara. Podemos estar equivocados, mas talvez o recado do próprio Hamas seja o de que a causa palestina, ao menos em Gaza, é uma causa perdida — daí a disposição de oferecer de modo sacrificial a própria população em um ato militar autodestrutivo”, continua Catalani, mais uma vez, refletindo seu real posicionamento sobre o tema, uma vez que considera a luta pela libertação nacional “um ato bárbaro”, mas considera a monstruosa reação israelense o mero atendimento do desejo suicida da vanguarda política palestina. Como são humanitários os infanticidas que até o último dia 14, superavam a marca de 4,6 mil crianças mortas?

“A relativização ‘decolonial’ ou mesmo a positivação ‘anti-imperialista’ de tais grupos [movimentos armados da resistência palestina] é deprimente”, diz o acadêmico, evocando o clichê sionista para o incriticável Estado de Israel: “Para além do antissemitismo de sempre”, diz Catalani, “há de se constatar uma certa fascinação pelo espetáculo da violência como frisson compensatório em uma situação de impotência política agudizada”, diz.

Ora, nada mais natural do que o regojizo público das camadas oprimidas da população ao ver um povo oprimido se insurgindo contra seu opressor. Tivesse um mínimo de sensibilidade social, o autor certamente entenderia o mecanismo psicológico atuante.

Catalani, contudo, opta por abster-se de indagar a razão de amplas massas em todo o planeta ir às ruas apoiar a ousada ação palestina, tratando como mera “impotência política agudizada” a simpatia que os povos do mundo dedicam à luta pela libertação da Palestina. Ao creditar a tal fenômeno a explosão social mundial vista, seu objetivo não é outro além de colocar na defensiva os setores mais ativos da população, que saíram às ruas para demonstrar seu entusiasmo pelo e apoio ao martirizado povo palestino.

Declarar-se um “bom materialista” não faz do autor um marxista e chamar de “mega-pogrom” a ação palestina de 7 de outubro o torna tão esquerdista quanto verdadeiros carniceiros como David Ben-Gurion, primeiro-ministro dito socialista, que de socialista, não tinha nada.

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.