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Henrique Áreas de Araujo

Militante do PCO, é membro do Comitê Central do partido. É coordenador do GARI (Grupo por Uma Arte Revolucionária e Independente) e vocalista da banda Revolução Permanente. Formado em Política pela Unicamp, participou do movimento estudantil. É trabalhador demitido político dos Correios e foi diretor da Fentect (Federação Nacional dos Trabalhadores dos Correios)

Coluna

‘O Cortiço’, de Aluísio Azevedo

Denúncia social e crise revolucionária da Proclamação da República

Publicado em 1890, ou seja, um ano após a Proclamação da República e dois após a Abolição, o romance de Aluísio Azevedo retrata um Brasil que passava por tais transformações revolucionárias.

Por meio das teses naturalistas vigentes entre os intelectuais da época, Azevedo procura não apenas mostrar a sociedade brasileira, como compreendê-la. É a busca, tão presente entre a intelectualidade, da chamada “identidade nacional”, tema que será constante entre todos os movimentos intelectuais até as vanguardas modernas do século XX.

Pode-se dizer que, desde os românticos, essa preocupação existiu de maneira mais organizada. Enquanto os românticos buscavam a identidade nacional criando heróis ideais, no entanto, os naturalistas procuravam num cientificismo a explicação de nossa formação social e cultural.

Como parte dessa preocupação também está a denúncia social. O autor de O Cortiço se volta para as camadas baixas da sociedade numa Rio de Janeiro em lento processo de modernização e urbanização. Otto Maria Carpeaux, em sua História da literatura Ocidental, afirma que, ainda que tenha “os defeitos dos naturalistas menores e seja pouco original” se comparado aos grandes expoentes internacionais dessa corrente, os romances de Aluísio Azevedo “sugerem até hoje a impressão de ‘cheio de vida’; e o mérito de ter descoberto a vida baixa na capital brasileira dá valor permanente a romances que já se transformaram em documento de sociologia histórica.”

As teses levantadas por Azevedo nem sempre são corretas, muitas vezes são confusas, mas refletem bem o esforço da intelectualidade nacional em busca da “essência” da sociedade brasileira. A ressalva é importante pois, logicamente, apesar do esforço de apresentar teses científicas, não podemos exigir do autor o máximo rigor e devemos analisar o livro como obra de arte, não como tratado sociológico, mas como um documento sociológico, como destaca Carpeaux. 

O naturalismo 

O naturalismo brasileiro está ligado ao processo revolucionário da crise do Segundo Império, que resultaria na abolição da escravidão em 1888 e na Proclamação da República em 1889 e que se radicaliza nos anos seguintes. As idéias materialistas e positivistas, que vinham dos movimentos revolucionários europeus de um século antes disso, tornaram-se a cobertura ideológica para os ideais republicanos e abolicionistas que unificaram a intelectualidade brasileira, ou seja, a ala mais progressista da burguesia nacional contra a dominação monárquica do Segundo Império.

A crise do regime político do Segundo Império assume enormes proporções e desemboca em um movimento revolucionário. Tal movimento de rejeição ao regime político se expressou no terreno das artes, na forma de uma ruptura com as correntes estabelecidas. O romantismo, corrente que se estabeleceu até as primeiras décadas da segunda metade do Século XIX se tornando a expressão literária oficial do Segundo Império. O convencionalismo em que caíra o romantismo, com fórmulas transformadas em clichês, acompanha a crise política do regime e não dá conta dos novos ideais que os revolucionários defendiam.

É nesse momento que surgem o realismo e o naturalismo, na prosa, e o parnasianismo, na poesia. A linguagem sentimental e espiritualista do romantismo dá lugar a uma atitude rigorosa, e à busca pela perfeição formal e técnica, a frieza racional.

O naturalismo é, portanto, a expressão desse movimento revolucionário que começa “por cima”, com a crise política resultante da divisão da burguesia no final do Império e acaba se refletindo nos “debaixo”, ou seja, nas camadas mais pobres da população. Essa é a origem da preocupação de Aluísio Azevedo com retratar as camadas baixas da capital brasileira. A preocupação é tão notável, que o autor, de família abastada, de fato vai viver em um cortiço para a partir de suas observações poder escrever o romance. A denúncia da situação social daquela gente do cortiço, composta por trabalhadores de vários tipos e origens é a marca do romance. Mas ali está também a denúncia da hipocrisia da burguesia que está disposta às maiores imoralidades para se enriquecer. É esse o retrato de João Romão, proprietário do cortiço, e de Miranda, dono do casarão vizinho e até mesmo dos setores moderados do movimento abolicionista, que surpreendem como uma instituição social de aparência.

Nesse sentido, a preocupação com as classes sociais mais pobres, indicam uma radicalização do movimento revolucionário que influenciou a literatura. O caráter progressista do interesse e do empenho de Azevedo pode ser comparado, com as devidas ressalvas, ao que Friedrich Engels desenvolveu de forma acabada, como um verdadeiro tratado histórico e sociológicos, em sua Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra (1845), livro que, por assim dizer, assentou as bases da análise materialista da economia e iluminou o caminho para a pesquisa científica que culmina com O Capital de Karl Marx (1867).

Formação da sociedade brasileira

No romance, cada personagem, cada acontecimento importante e cada conflito têm um objetivo. Aluísio Azevedo está mais preocupado em provar suas teses, retratar os ambientes e a vida das classes sociais do que propriamente contar uma história. Não seria justo dizer que O Cortiço não tenha uma trama interessante. Pelo contrário, a história, os diálogos, os conflitos, as descrições vão atraindo o leitor conforme a história flui. A principal preocupação do autor está, evidentemente, nos aspectos objetivos da realidade social.

A “personagem” principal é o próprio cortiço, a quem Aluísio dá vida própria por meio de seus moradores. E é justamente nas relações de seus moradores, na descrição do caráter de cada uma das personagens, que o autor busca desenvolver suas teses. A história toda é recheada de episódios cujo objetivo do narrador é apresentar algum aspecto da cultura nacional, alguma consideração sobre o caráter do povo.

A descrição da personagem Jerônimo é um exemplo bastante interessante de como o autor procura compreender a própria formação do povo brasileiro. Jerônimo é um português e operário que vem ao cortiço trabalhar na pedreira de João Romão, proprietário do cortiço.

O romance marca bem a personalidade inicial do português. Um homem metódico, dedicado ao trabalho e à família, recluso, que sonha retornar a Portugal. A situação vai se modificando progressivamente tanto mais ele se adapta ao ambiente brasileiro e muda completamente quando ele tem contato e se apaixona pela mulata Rita Baiana. Na relação entre os dois, o escritor tem o pretexto para descrever a transformação do português em brasileiro, uma alegoria para a própria formação social brasileira:

Uma transformação, lenta e profunda, operava-se nele, dia a dia, hora a hora, reviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos, num trabalho misterioso e surdo de crisálida. A sua energia afrouxava lentamente: fazia-se contemplativo e amoroso. A vida americana e a natureza do Brasil patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos e sedutores que o comoviam; esquecia-se dos seus primitivos sonhos de ambição; para idealizar felicidades novas, picantes e violentas; tornava-se liberal, imprevidente e franco, mais amigo de gastar que de guardar; adquiria desejos, tomava gosto aos prazeres, e volvia-se preguiçoso resignando-se, vencido, às imposições do sol e do calor, muralha de fogo com que o espírito eternamente revoltado do último tamoio entrincheirou a pátria contra os conquistadores aventureiros. E assim, pouco a pouco, se foram reformando todos os seus hábitos singelos de aldeão português: e Jerônimo abrasileirou-se. (…) A revolução afinal foi completa: a aguardente de cana substituiu o vinho; a farinha de mandioca sucedeu à broa; a carne-seca e o feijão-preto ao bacalhau com batatas e cebolas cozidas; a pimenta-malagueta e a pimenta-de-cheiro invadiram vitoriosamente a sua mesa; o caldo verde, a açorda e o caldo de unto foram repelidos pelos ruivos e gostosos quitutes baianos, pela muqueca, pelo vatapá e pelo caruru; a couve à mineira destronou a couve à portuguesa; o pirão de fubá ao pão de rala, e, desde que o café encheu a casa com o seu aroma quente, Jerônimo principiou a achar graça no cheiro do fumo e não tardou a fumar também com os amigos.

Note como o narrador atribui a mudança da personalidade de Jerônimo ao meio natural e social em que ele se insere. A síntese do homem brasileiro está descrita ali naquela fusão do europeu com o negro e o mulato. E não se trata apenas de uma descrição biológica, mas mais ainda de uma descrição cultural. Até mesmo o fado, que o português cantava à janela de sua casa no cortiço, vai sendo gradualmente substituído, no interesse do português, pelo samba: “A guitarra! substituiu-a ela pelo violão baiano”.

As teses naturalistas são usadas por Aluísio Azevedo para a formação do caráter das personagens. No naturalismo, a moral está completamente desnuda, não é nada mais do que a cobertura do meio natural e social. Embora se possa notar excessos em algumas caracterizações, não há dúvida de que, do ponto de vista artístico e do esforço do escritor por compreender o Brasil, o livro é uma grande obra de arte.

O esforço para compreender a “identidade nacional” está nas relações sociais e na caracterização das personagens, mas está também nas cenas cotidianas nas quais são mostradas a roda de pagode, a capoeira, o café e a cachaça: toda a cultura popular brasileira está presente na narrativa.

A denúncia social 

Alguns críticos assinalam que Aluísio Azevedo, exagera ao destituir de moralidade todas as personagens. Em seu romance, ninguém está a salvo. Tal crítica, no entanto, não parece muito precisa, primeiro pois os esforços do autor estão voltados justamente para a ausência de moral, ou melhor dizendo, para provar que a moral não é nada mais do que um produto do meio.

Em segundo lugar, porque o autor, se por um lado desnuda a moralidade ao descrever as personalidades, de outro, não ignora o efeito que a convivência social exerce sobre os indivíduos, ou seja, ao estarem subordinados à sociedade, são capazes, por exemplo, de se unificar em torno de interesses coletivos. Assim, uma espécie de “moral” coletiva se sobrepõe sobre o indivíduo.

Um bom exemplo é a passagem do livro na qual é narrada uma invasão do cortiço pela polícia:

De cada casulo espipavam homens armados de pau, achas de lenha, varais de ferro. Um empenho coletivo os agitava agora, a todos, numa solidariedade briosa, como se ficassem desonrados para sempre se a polícia entrasse ali pela primeira vez.” 

O trecho é bastante revelador. No Rio de Janeiro da segunda metade do Século XIX, o tratamento da população pobre pela polícia era exatamente o mesmo de hoje. Aluísio Azevedo não fica apenas nesta denúncia. Procura mostrar a consciência coletiva da população contra a violência do Estado, a ponto de se unir para impedir a invasão policial.

Se de um ponto de vista individual as personagens não estão “salvas” moralmente, de um ponto de vista social elas estão dispostas a agir coletivamente em torno de seus interesses materiais que, em última instância, são o verdadeiro motor dos movimentos sociais. Ao contrário do que exige a esquerda pequeno-burguesa, acadêmica, idealista e portanto anticientífica, mesmo que destituídas de ideologia ou qualquer moralidade, as classes oprimidas são capazes de se levantar contra a opressão. Tal pode ser uma das conclusões políticas mais importantes da leitura desse romance nacional, publicado em 1890, mas que continua “cheio de vida” e revolucionário.

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