Coluna

O antissemitismo na Alemanha e a volta dos que não foram

"Infelizmente, os alemães não têm a mesma sorte que os brasileiros. Aqui não se vê um judeu como Breno Altman e nem um partido como o PCO"

O ataque do Hamas a Israel no dia 07 de outubro provocou uma generalizada preocupação do governo e da mídia alemã com o crescimento do antissemitismo. A Alemanha tem mais de 25% de sua população composta por estrangeiros, sendo maior parte oriunda de países árabes. Depois da Turquia, é a Alemanha quem possui o maior número de turcos, conforme dados da DW. A preocupação, então, é com a população de origem judaica, que poderia sofrer agressões por parte da população de origem árabe, já que o apoio de grande parte da população tenderia mesmo a apoiar a Palestina. Rapidamente o governo promoveu uma grande manifestação pública em Berlin, declarando apoio incondicional ao Estado de Israel, ao seu “direito de existir” e também o direito de “reagir ao ataque do grupo terrorista Hamas”. A mídia, que é pública na Alemanha, tratou de promover mesas de debate com especialistas, políticos e entidades sobre a questão, como é comum por aqui. Claro que nenhum representante do povo palestino ou de qualquer instituição que o apoie nunca foi convidado. 

Os “terroristas do Hamas” e a “soberania do Estado de Israel”

A tal “democracia mais avançada” não se importou, e ainda não se importa, com os crimes e violações cometidas por Israel contra a população palestina durante todos estes anos. Quem conhece a história da ocupação, pode imaginar que a colonização foi uma jogada de mestre dos imperialistas: eles se livraram dos judeus e, ao mesmo tempo, mantiveram sua presença no Oriente Médio. Este assunto, no entanto, não é visto nestes debates promovidos pela TV aberta, que o tempo todo se refere ao Hamas como um grupo terrorista, e não menciona uma palavra sequer sobre o regime de apartheid imposto aos palestinos.

Embora o Direito alemão tenha se desenvolvido e exerça grande influência nos países de tradição romano-germânica, e, portanto, burguesa, o Direito aqui não se faz presente nos pronunciamentos das autoridades políticas, nem muito menos da mídia. Tal como no Brasil, a legislação internacional, o Direito Internacional dos Direitos Humanos, que são tão estudados nas universidades, bem como as resoluções da ONU são cinicamente ignorados e toda sorte de adjetivos pejorativos são atribuídos à resistência palestina, especialmente ao Hamas. 

Mas ninguém esperava que o volume de manifestantes pró-palestina nas ruas seria tão expressivo. À medida que elas cresceram nas ruas e também nas redes sociais, as agressões policiais cessaram e ao menos a Ministra das Relações Exteriores, Beabock, atenuou seu discurso pró-Israel. Ela chegou a encontrar-se com uma autoridade palestina para anunciar o envio da ajuda humanitária aos palestinos quando as manifestações pró-palestina crescia em várias cidades alemães. Mas isso não atenuou nem as manifestações, nem discordância dos alemães do apoio incondicional do governo ao massacre que Israel está promovendo diante dos olhos do mundo.

A responsabilidade da Alemanha segundo os alemães

Segundo o jornal Frankfurt Allgemeine, 76% dos alemães estão extremamente preocupados com o conflito, mas apenas uma minoria considera que a Alemanha tenha responsabilidade com Israel: “No entanto, há apenas um apoio limitado à resposta de Israel. A população está dividida quanto a essa questão: 35% consideram que Israel tem o direito de invadir a Faixa de Gaza e tomar medidas duras contra o Hamas para restaurar a segurança de seu próprio país. Por outro lado, 38% são a favor de uma abordagem comedida para evitar baixas entre a população palestina e o crescente apoio ao Hamas. Essa posição é defendida principalmente por mulheres e pela população da Alemanha Oriental. 37% dos alemães ocidentais e 45% dos alemães orientais são a favor do cessar-fogol” (tradução livre).

A ideia principal, então, é evitar o crescente apoio ao Hamas e, consequentemente, o direito dos palestinos de retomarem suas terras e terem seu país livre e independente reconhecido. Apesar de todo o esforço do governo e da mídia, não parece que os alemães estejam enganados quanto à hipocrisia e à crueldade do governo ao apoiar Israel incondicionalmente. Os comentários nas redes sociais, nos perfis das autoridades e da mídia são quase sempre contrários ao Estado de Israel. Não faz muito tempo que os israelenses estavam nas ruas protestando contra Netanyahu e isso foi amplamente noticiado e debatido pela mídia alemã. Além disso, tanto o governo quanto a mídia sempre associaram o governo de Israel ao problema do crescimento da extrema-direita em toda a Europa, o que é um enorme problema para os alemães devido ao seu passado nazista. Pois agora o Chanceler declarou na manifestação pública pró-Israel em Berlin que a Alemanha deveria apoiar a democracia de Israel. 

Não é possível enganar todo o povo durante todo o tempo. 

Perseguição ao Hamas e ao Samidou

Logo após o dia 07 de outubro, o Chanceler Scholz declarou a proibição do movimento Samidou de atuar, assim como qualquer manifestação pública de apoio ao Hamas. As demonstrações públicas de apoio à Palestina que inicialmente foram reprimidas pela polícia de modo truculento, após o volume de manifestantes ter aumentado significativamente, a repressão ostensiva diminuiu, ao passo que a inteligência e os órgãos de vigilância passaram a atuar mais fortemente para combater o que eles chamam de terrorismo e de “internacional do Hamas”. O argumento do antissemitismo é frequentemente utilizado pelas autoridades para tentar legitimar essa perseguição. 

Esta semana, a Ministra do Interior Nancy Faeser declarou que a “ação consistente contra os islamitas radicais continua”. Ela declarou que “islamistas e antissemitas não se sentirão seguros em nenhum lugar na Alemanha”. E ainda declarou que “Os extremistas devem ser confrontados com todo o rigor do Estado de Direito” (tradução livre). Isso é o que Alemanha chama de sistema de proteção à Constituição – Verfassungsschutz – e ao Estado de Direito: foram mobilizados 350 policiais para policiamento ostensivo, além do serviço de inteligência dos órgãos de proteção à Constituição (uma espécie de SNI do Estado de Direito).

O antissemitismo continua presente e sorrateiro

Pouco se fala sobre sionismo por aqui. Encontram-se duas ou três palestras no sítio da Fundação Rosa Luxemburgo, que pertence ao Die Linke, o partido de esquerda marxista. A esquerda alemã recentemente rachou por divergências ideológicas, que se acirraram ainda mais a respeito da guerra da Ucrânia. Os canais alternativos embarcam no discurso hegemônico de que o antissemitismo é um grande perigo e não chegam a enfrentar a raiz do problema no que se refere ao Estado de Israel e sua ilegitimidade. 

O grande pensador alemão da contemporaneidade, Jürgen Habermas, cuja obra é muito conhecida nas universidades brasileiras, assinou, juntamente com alguns professores, uma carta de solidariedade no site da Escola de Frankfurt. A carta foi tão perversa, não somente pelo que dizia, mas sobretudo pelo que deixou de dizer. Eu não resisti e escrevi uma carta ao professor, e mesmo sabendo que ele não a lerá, eu não poderia ficar em silêncio. Você pode ler aqui

Embora seja frequentemente utilizado pela burguesia para tentar legitimar o inaceitável, a questão é que o Direito não se propõe à barbárie, e é neste sentido que Habermas enfrenta a questão entre Direito e a Democracia em sua obra, a qual eu me dedico a estudar há mais de 10 anos. 

Se a academia alemã, o governo e a mídia consideram que defender Israel ajuda a combater o antissemitismo, parece que eles estão profundamente e/ou cinicamente enganados. Esconder a verdadeira face do sionismo e apoiar o direito de Israel existir” pode levar as pessoas a não distinguir o judaísmo do sionismo. A barbárie anunciada e perpetrada por Israel é vista pelas telas dos smartphones no mundo inteiro e o apoio aos palestinos é uma questão de humanidade. Ainda mais para quem conhece a História e o Direito. 

Nada está a favor do Estado de Israel. Nada além dos imperialistas, sionistas e antissemitas cujos interesses econômicos convergem às custas do sangue palestino.

Se tanto os professores quanto as autoridades conhecem a História de Israel e o fundamento de sua constituição, assim como o regime de apartheid vigente, a conclusão obvia é que são eles os primeiros e mais cruéis antissemitas: concordam em livrar-se dos judeus, afirmando que eles precisam ter a própria terra, e continuam autorizando e apoiando que os sionistas exterminem outros povos semitas. Afinal, “os palestinos não passam de um bando de miseráveis terroristas que merecem morrer mesmo” e também “não há inocentes em Gaza”. De brinde, ganham uma base no Oriente Médio e garantem o fornecimento do gás do qual dependem. 

Esta é uma das faces do sionismo, a ideologia mais antissemita, cínica e sanguinária dos nossos tempos.

Infelizmente, os alemães não têm a mesma sorte que os brasileiros. Aqui não se vê um judeu como Breno Altman e nem um partido de esquerda que seja fiel ao seu programa, corajoso e audaz como o PCO.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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