STF

Gordo, pardo e repressor ou mulher negra e lavajatista?

A campanha da "mulher negra para o STF" retorna à cena de forma tímida, o que diz muito sobre a indicação de Flávio Dino. As ONGs não ficaram tão incomodadas

A indicação de Flávio Dino ao Supremo Tribunal Federal requentou uma polêmica que parecia superada, a de que Lula deveria indicar uma mulher negra para o STF. Inicialmente uma tentativa de impedir a indicação de Cristiano Zanin e trocá-lo por alguma defensora da Lava Jato, a campanha está calcada na política identitária promovida pelo imperialismo. Agora, alguns parecem ainda estar presos ao passado e ecoar as ideias. Dino, um homem pardo e gordo, de certa forma cumpre duas cotas, mas isso não é o suficiente para os identitários. Por isso a Folha de S.Paulo publicou o artigo “Dino deve ser 5º negro na história do STF, mas compromisso com pautas raciais é incógnita” de Priscila Camazano.

O artigo conta a história do STF: “Criado em 1891, o STF teve apenas 4 ministros negros entre os 170 que já passaram pela corte. São eles: Pedro Lessa, Hermenegildo de Barros, Joaquim Barbosa e Kassio Nunes Marques. Nenhuma mulher negra foi ministra até agora.” Os identitários se limitam a falar o tanto de negros que foram ministros ignorando, só na história recente, que Joaquim Barbosa foi um dos homens que iniciou a campanha golpista contra o PT e Nunes Marques é bolsonarista. Os homens brancos, no entanto, são mais variados: há ultragolpistas como Luís Roberto Barroso, houve também ministros como Ricardo Lewandowski, que tentou se equilibrar em cima do muro, e Cristiano Zanin, que até agora foi um dos menos ditatoriais na Corte. Conclusão: sexo e cor não têm relevância nenhuma.

O artigo então cita “representantes do movimento negro”. Um deles afirma: “A partir do campo político que Flávio Dino se posiciona, ele deveria, sim, ter compromisso com teses defendidas pelo movimento negro, como a legalização do aborto, a descriminalização da maconha, o habeas corpus de perfilamento racial e a ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) Vidas Negras.” É uma colocação que coloca Dino como um opositor da repressão, algo que está muito longe da realidade. Toda a sua atuação no governo Lula foi a do fortalecimento das forças de repressão do Estado inclusive com políticas abertamente de direita como a ocupação das favelas do Rio de Janeiro e um pacote de armamento para a Polícia Militar. Nesse sentido, qualquer membro sério do movimento negro já deveria saber que Dino é um inimigo.

O texto segue citando “Dino foi governador do Maranhão por dois mandatos, e o estado é o que mais tem conflitos com remanescentes quilombolas.” Outra representante do movimento negro citada no artigo afirma: “A política do Dino frente a essa questão foi precária, foi aquém do que deveríamos esperar de um governador que se autodeclara negro”. Isso fala menos sobre a preocupação de Dino com os negros do que sobre a sua subordinação aos latifundiários do Maranhão. Em um estado com uma grande população rural isso é uma demonstração de que Dino nunca de fato combateu as forças de repressão do Estado. O seu passado como juiz também é indicativo disso, ele sempre foi parte do sistema de repressão estatal.

Então o texto cita um membro da ONG Educafro que afirma: “O Flávio Dino fez uma excelente equipe de negros e negras lá no Ministério da Justiça. Ele foi o ministro que mais levou essas pessoas para o primeiro escalão [da pasta]. Nós queremos que o futuro ministro, além de manter essa equipe, amplie para chegar a 56,1% o total de negros nos cargos de autoconfiança [no STF]”. Aqui está a defesa identitária do ministro da Justiça. Dino levou empregou muitos burocratas negros, mas o que fez em relação aos presídios, o problema mais brutal da população do Brasil? O que fez em relação à repressão policial nos bairros operários?

Esse argumento se soma à própria questão dos quilombolas. A defesa dessa população rural ante os ataques violentos dos latifundiários é importante, contudo no fim isso ainda é um argumento identitário. Dino atuou como ministro que está diretamente encarregado da repressão em todo o Brasil por onze meses. Nada de concreto é comentado pelos identitários além de que ele “enegreceu” uma pequena parcela do setor da burocracia estatal. Como sempre, os identitários fogem da luta real do negro para defender os interesses daqueles que financiam as ONGs.

Para fechar a colunista da Folha cita uma ONG de mulheres negras: “As Mulheres Negras Decidem avaliaram a indicação de forma negativa, por um motivo simples, não era o que o grupo reivindicava. Segundo Gabrielle, faltou um compromisso de Lula com a população negra. Sobretudo com as mulheres negras, faltou escuta. O que mais chama atenção é ele nem sequer ter se reunido com os movimentos. Isso é muito grave.’” A ONG Mulheres Negras Decidem tem financiamento da Open Society de George Soros. O que ela exige na verdade é que Lula escute mais a burguesia imperialista, que financia essas organizações, do que outras forças políticas por trás da indicação de Dino.

Enquanto todas essas ONGs faziam campanha por uma mulher negra no STF, em nenhum momento elas defenderam a população negra do Brasil contra os ataques de Flávio Dino. Seu alvo era Zanin, o advogado que enfrentou a operação Lava Jato. Já ao ministro que deseja colocar as Forças Armadas nas ruas do Rio de Janeiro, como fez o governo Michel Temer, não há críticas. Quando ele propõe a construção de mais presídios no Brasil, onde já há quase 1 milhão de presos, não há críticas. O problema é quando ele assume o local da mulher negra lavajatista que gostariam que Lula indicasse para o STF.

No fim, os identitários querem usar o ‘histórico genético’ para esquecer ou esconder o histórico político. Quando o processo que levou Lula à cadeia foi derrubado, por exemplo, com a participação do branco Zanin, caiu também a prisão em segunda instância que afetava milhares de pessoas, facilitando a sua prisão arbitrária. Mas se tem algo com que o identitarismo não se importa é com a vida horrenda dos presos no Brasil. Para eles, quanto mais grades, muros e guardas houver, mais lindo e menos racista será o mundo.

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