Isaias Filho

Membro da Direção Nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e da Aliança da Juventude Revolucionária (AJR).

Coluna

Camp David e a capitulação do nacionalismo árabe

Os acordos de Camp David selaram a quebra da frente única dos países árabes contra Israel

Em 1977, o presidente egípcio da época, Anwar Sadat, sucessor do nacionalista Gamal Adbel Nasser, visitou Jerusalém em busca de firmar um acordo de conciliação após mais de três décadas de conflito com Israel. Desde a criação do Estado de Israel, em 1948, os dois países entraram em choque em quatro conflitos de grandes proporções ― a Guerra de 1948, a Crise de Suez em 1956, a Guerra dos Seis Dias, em 1967 e a Guerra do Yom Kippur, em 1973 ― que deixaram enormes rastros de sangue árabe pelo caminho e acabaram por permitir que Israel anexasse uma grande faixa de território, incluindo a península do Sinai, que outrora pertencia ao Egito.
A ida de Sadat a Israel em novembro de 1977 representou o reconhecimento implícito do Estado de Israel, desvinculando o Egito, por um largo período, de qualquer iniciativa conjunta com os demais países árabes.

A iniciativa do presidente egípcio encontrou correspondência do lado israelense. À frente do governo de Israel estava Menachem Begin, do Likud, partido fundado em 1973 e herdeiro das correntes mais direitistas do sionismo. 

Sob protestos e críticas dos demais países árabes, entre os dias 05 e 17 de setembro de 1978, o primeiro encontro entre representantes de um Estado árabe – Egito, e o Estado de Israel aconteceu em Camp David, base militar e casa de campo localizada em Maryland, nos Estados Unidos, para firmar um acordo de paz, sendo mediados pelo então presidente Jimmy Carter. Sadat e Begin receberiam o farsesco Prêmio Nobel da Paz por esse acordo, no final de 1978.

Os Acordos de Camp David compreendiam dois acordos separados: “Quadro para a Paz no Oriente Médio” e “Quadro para a Conclusão de um Tratado de Paz entre o Egito e Israel”.

O primeiro previa rodadas de negociação entre os representantes do Egito, Israel, Jordânia e Palestina a fim de resolver a disputa sobre os territórios da Cisjordânia e Faixa de Gaza, que em sua grande maioria foram ocupados por Israel após a Guerra dos Seis Dias (1967). 

Essa etapa seria dividida em três estágios: durante um período que não deveria exceder cinco anos, através da mediação da Jordânia, seriam feitos arranjos a fim de uma “transição pacífica de poder” para o povo palestino, com a retirada dos militares e administração civil israelenses, que se iniciaria assim que eleições livres fossem realizadas para a escolha de uma “autoridade autônoma” para os palestinos ; os atores envolvidos (Israel, Egito, Jordânia e Palestina) iriam definir os poderes e responsabilidades da autoridade autônoma da Palestina; e por fim, quando for estabelecida a autoridade autônoma da Palestina, que atuará sobre os territórios da Cisjordânia e Faixa de Gaza, o período transicional terá início e incluirá negociações que definirão a localização de fronteiras e a organização de medidas de segurança para os territórios. 

Os termos do acordo não mencionavam as Colinas de Golã, Síria ou Líbano, assim como deixava de fora deliberadamente a questão do destino de Jerusalém. 

O segundo “Quadro” delineou uma base para o tratado de paz que seria de fato assinado seis meses depois (março de 1979), em particular dispunha sobre o futuro da península do Sinai. Israel concordou em retirar suas forças armadas do Sinai, evacuar seus 4.500 habitantes civis e devolvê-lo ao Egito em troca da normalização das relações diplomáticas normais com o país árabe, garantias de liberdade de passagem pelo Canal de Suez e outras vias navegáveis ​​próximas (como o Estreito de Tiran), e uma restrição às forças que o Egito poderia colocar na península do Sinai. Esse processo levaria três anos para ser concluído. Israel também concordou em limitar suas forças a uma distância menor (3 km) da fronteira egípcia e em garantir a passagem livre entre o Egito e a Jordânia. 

Enquanto as disposições do acordo relativas à relação entre Egito e Israel, em especial no que se refere ao destino da península do Sinai, foram em parte colocadas em prática, a questão dos territórios palestinos permaneceu como letra morta. O conteúdo do acordo era tão escancaradamente prejudicial aos palestinos que a própria ONU, uma das principais responsáveis pela crise palestina, rejeitou o “Quadro para a Paz no Oriente Médio”, haja vista que o acordo foi concluído sem a sua própria participação e de representantes dos palestinos.
O tratado nada fez para efetivar a retirada das forças de ocupação israelenses de Jerusalém oriental, da margem ocidental do rio Jordão e das colinas do Golã, na Síria, e, principalmente, deixou intocada a raiz do problema ―  a condição dos palestinos. Com efeito, o tratado ocasionou o recrudescimento da tensão no Oriente Médio, que se manifestou por um aumento da intransigência israelense nos territórios ocupados e no isolamento do Egito do restante do mundo árabe. 

Graças ao tratado, Israel se fortaleceu na sua posição de não negociar a ocupação da Cisjordânia e da Faixa de Gaza em favor de um Estado palestino: o acordo de Camp David quebrava a frente única dos países árabes, removendo as possibilidades do Egito, maior potência militar árabe, situar-se como parte de uma eventual aliança militar contra o Estado sionista. Como parte do acordo, Israel comprometeu-se a retirar-se da península do Sinai, retornando a área para o Egito em 1983. 

Para o Egito, a paz com os israelenses significou seu isolamento da comunidade árabe e muçulmana. Os estados árabes romperam relações com Egito, suspendendo o país, inclusive, da Liga Árabe (o que perdurou até o final da década de 1980) e transferindo a sede da Liga para a Tunísia. Apenas a Jordânia seguiria o exemplo do Egito, celebrando um tratado de paz com Israel em 1994. A Organização para a Libertação da Palestina (OLP) rejeitou a ideia de autonomia limitada e fragmentada proposta pelo acordo Israel-Egito, proposta que, quinze anos mais tarde, como veremos adiante, aceitaria em Oslo. 

Anwar Sadat, por seu turno, sequer chegou a ver completada a retirada das tropas israelenses do Sinai, pois, em 6 de outubro de 1981, foi assassinado durante uma parada militar em El Cairo por membros da “Jihad Islâmica Egípcia” infiltrados no exército egípcio, que o acusavam de “haver traído o mundo árabe com o acordo de paz” e de caucionar a entrega da Faixa de Gaza para o Estado de Israel. A “morte anunciada” de Sadat evidenciou o retorno à cena política egípcia do islamismo político que o regime nacionalista combatera ferozmente. O falecido Sadat foi sucedido pelo seu vice-presidente, Hosni Mubarak.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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