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Futuro do país em jogo

RAIO-X ELEITORAL E PÓS-ELEITORAL

Resultado consolida polarização e anuncia grandes transformações políticas nos próximos anos


Conforme a expectativa que havia ao final do 1º turno, tanto o petismo quanto o bolsonarismo foram parcialmente vitoriosos e derrotados, por motivos espectralmente opostos. Nenhum dos dois conseguiu vencer conforme o desejado mas ninguém foi massacrado.

No campo petista, Lula conseguiu, pelo voto popular, um inédito terceiro mandato, o que consolida o PT como a maior força presidencial do século XXI, no qual perdeu apenas uma das seis eleições disputadas. Esse triunfo tem especial importância devido à perseguição judicial e prisão sofridas por Lula no bojo da Operação Lava-Jato, e o posiciona como um dos grandes nomes da história política brasileira. A resiliência petista explica-se, em parte, pelo bom desempenho econômico e social da maior parte do seu governo e, também, por ter como oposição uma direita extremamente alheada dos problemas sociais de que padecem a grande maioria dos brasileiros. O discurso de sensibilidade social do PT é muito mais convincente que o de seus adversários – quando o possuem –, o que garante ao PT uma base social fidelizada em todas as regiões, aconteça o que acontecer, e apesar de todas as máculas de corrupção e de associação a pautas identitárias impopulares. Por outro lado, a vitória apertada, por cerca de 2 milhões de votos, mostra que a “cruzada civilizatória” que o PT empreendeu no último quadriênio ao lado da grande mídia contra o “fascista” e “genocida” Bolsonaro não foi capaz de unificar a política e a sociedade em torno do neoiluminismo representado pela chamada Frente Ampla. Dessa forma, o governo Lula terá o desafio de governar um país no qual cerca de metade do eleitorado não comunga dos seus valores e do seu programa. Isso não será um problema para Lula, afeito a heterogeneidades, mas sobretudo para o PT e seus aliados de esquerda, como PSOL e PC do B, que não terão no próximo governo o espaço que imaginavam ter. Essa heterogeneidade social se reflete na composição de forças no Congresso e nos governos estaduais, o que de partida acabresta o governo Lula e o obriga a um nível de conciliação institucional inviabilizador de qualquer “guinada à esquerda” ou mesmo qualquer guinada fora do neoliberalismo, representado dentro da própria Frente Ampla por neoliberais de quatro costados como Henrique Meirelles, Armínio Fraga, Pérsio Arida, Simone Tebet e João Amoedo, para não mencionar o próprio vice, Geraldo Alckmin. Também abre um potencial de mobilização social disruptiva tão ao gosto das agências estrangeiras de inteligência devotadas à disseminação da “guerra híbrida”, principal forma de ingerência imperialista nos dias atuais. A depender do grau de desilusão social que possa advir caso não se realizem as promessas de abundância material traduzidas no linguajar popular para “picanha e cerveja”, haverá tanto mais possibilidades para desestabilizar o governo Lula e o Brasil como um todo, fazendo do antipetismo o combustível de uma estratégia de desintegração nacional. Porém, a depender da habilidade de Lula para costurar acordos com as oligarquias e criar políticas que ao menos aliviem a crise econômica e o mal-estar social, o PT terá bastante gás para recompor em 2024 sua hoje aviltada base de prefeituras e montar palanques fortes para 2026.

No campo bolsonarista, a expressiva votação de Bolsonaro, contra toda a campanha midiática contrária no último quadriênio, demonstra a força social do bolsonarismo e do antipetismo. A desqualificação de “fascista” e “antidemocrático” não tem mais razão de ser, pois, sendo a democracia um regime político real e não uma fórmula de manual ou um devaneio poético, não pode desconsiderar a mentalidade e os valores de 58 milhões de brasileiros. Todavia, a derrota de Bolsonaro justamente para Lula, um político de alta rejeição, demonstra a fragilidade da estratégia bannonista de “guerra cultural” para a manutenção do poder. Mesmo com a máquina federal na mão, Bolsonaro praticamente não avançou no Nordeste em relação ao 2º turno de 2018 e ainda recuou significativamente no Sudeste e no Sul, o que selou a sua debacle. O antibolsonarismo, restrito a nichos de esquerda em 2018, hoje é uma força mais decisiva que o antipetismo. Vários foram os motivos para isso: a tática olavista de confrontação permanente com os poderes institucionais, desde prefeitos até o STF, que impediu uma coalizão mais firme em prol de Bolsonaro; o ultraliberalismo de Paulo Guedes, que afastou o governo da realidade social e o fez investir mais em propaganda enganosa do que em realizações efetivas; a negligência e a irreverência na pandemia, que chocaram grande parte da sociedade, e o ataque ensandecido às universidades públicas, o maior sonho de consumo e fator de ascensão social das classes médias e, também, a única instituição que elas efetivamente controlam. Tudo isso explica o insucesso de Bolsonaro, primeiro presidente a não se reeleger. Ao mesmo tempo, candidatos bolsonaristas alcançaram importantes posições ao longo do país, mostrando a força do bolsonarismo, que, independente do que venha a acontecer com Bolsonaro, não desaparecerá, mas poderá se metamorfosear. As Forças Armadas e a Lava-Jato, protagonistas da eleição de 2018, carimbaram sua entrada para a grande política institucional com a eleição de Tarcísio de Freitas para governador de São Paulo, do Astronauta Marcos Pontes, de Hamilton Mourão e de Sergio Moro para senadores de São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná, respectivamente. A direita tucana, neutra em relação a Bolsonaro, também ganha sobrevida com a reeleição de Eduardo Leite no Rio Grande do Sul e com a importante vitória de Raquel Lyra para o governo de Pernambuco, que encerra o ciclo pessebista de duas décadas e fissura a “muralha vermelha” do Nordeste. Ao que tudo indica, haverá um reagrupamento de forças no campo da direita, com o bolsonarismo “linha-dura”, de inspiração bannonista, alijado do controle orçamentário do país, e, portanto, dos meios financeiros de compra de apoios, sendo preterido em prol de uma nova direita liberal tecnocrática ancorada no centro-sul e em vários estados do Norte, em grande parte oriunda do bolsonarismo e que o atualizará para condições mais viáveis de disputa efetiva do poder.

Outros elementos também apontam para uma redefinição do cenário político nos próximos anos. O triunfo eleitoral de Lula e Haddad na cidade de São Paulo, tanto no 1º quanto no 2º turnos, abre uma expectativa muito favorável de eleição de uma prefeitura de esquerda, possivelmente Guilherme Boulos, para 2024. Considerando que a cidade de São Paulo é a mais cosmopolita e a mais capitalista das metrópoles brasileiras, não seria absurdo aventar a hipótese de que a cultura política paulistana tende presentemente a reproduzir a dos grandes centros metropolitanos ocidentais como Nova Iorque e Londres, na qual a hegemonia da esquerda neossocialista pós-moderna no âmbito político coexiste com e expressa o aceleracionismo capitalista financeirizado. Por outro lado, a vitória do bolsonarismo no Rio de Janeiro e a consolidação da inversão do padrão eleitoral existente até 2014, com Lula e Freixo se sobressaindo na rica zona sul, e Bolsonaro e Claudio Castro nas zonas norte e oeste, Baixada e interior, justamente as mais pauperizadas, mostra como a colonização do campo de esquerda pelo progressismo da elite carioca a posicionou como ideologia dos setores dominantes e dos setores médios a eles vinculados. Em relação ao Nordeste, o bolsonarismo repete a mesma prepotência tucana de atribuir sua acachapante derrota na região à inferioridade dos índices sociais e educacionais, escancarando o preconceito de classe que, num país de maioria pobre e remediada como o Brasil, tende a repelir o eleitorado. Foi exatamente o caso do PSDB, que, tendo sido compreensivelmente rotulado como elitista, colapsou perante o próprio bolsonarismo em 2018, visto na época como uma versão popular da direita e que, aos poucos, perde essa fama, se encaminhando para o mesmo fim do tucanato e abrindo as portas para a reorganização do campo de direita. Finalmente, no âmbito internacional, em que a emergência da multipolaridade capitaneada por China e Rússia rompe a dicotomia da Guerra Fria entre esquerda terceiro-mundista e direita ocidentalista e constrói uma nova dicotomia entre a unipolaridade estadunidense-atlantista e a multipolaridade pluricivilizatória, com a esquerda ocidental aderindo em massa ao primeiro, Lula, celebrado tanto em Caracas quanto em Nova Iorque, saudado internacionalmente tanto como pai dos BRICS quanto aliado da “democracia ocidental”, e saudado efusivamente tanto por lideranças mutipolaristas e antiimperialistas como Miguel Díaz-Canel e Daniel Ortega quanto por ícones atlantistas e globalistas como Biden e Macron, representa uma transição de dois tempos da esquerda. Somente o desenrolar dos fatos poderá mostrar qual aspecto prevalecerá na política externa de Lula.

À guisa de conclusão, o petismo e o bolsonarismo, em parte vitoriosos e em parte derrotados, encaram um futuro bastante incerto pela frente. Parece haver consenso entre os observadores e analistas de que os próximos anos não serão fáceis. Objetivamente, o Brasil sofre e continuará sofrendo a derrocada do ocidente, ao qual o país ainda é muito ligado, e o fortíssimo poder das finanças transnacionais, presentes e atuantes na coalizão vitoriosa da Frente Ampla lulista. Nem a “nova era” bolsonarista se concretizou nem o Brasil voltará a 20 anos atrás. Novas realidades, tanto as que já se fazem presentes quanto as que ainda são indiscerníveis na penumbra do porvir, chamam novas mentalidades e posturas. Não se trata nem de lamentar nem de celebrar os novos tempos, mas de atuar lucidamente nas condições postas, pois, como disse Hegel, a realidade efetiva é racional.

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*As opiniões dos colunistas não expressam, necessariamente, as deste Diário.


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