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Polícia não protege oprimidos

PE: 3 travestis foram assassinadas em apenas um fim de semana

Nos primeiros 45 dias de 2022, já são 4 mulheres transexuais assassinadas no estado, três por armas de fogo


─ Vinícius Sobreira, Brasil de Fato ─ No último fim de semana, pelo menos três travestis foram assassinadas a tiros no estado de Pernambuco. Os crimes aconteceram na cidade de Palmares, na zona da mata sul do estado; e em São Bento do Una, na região agreste.

Já são quatro transexuais assassinadas no estado em um intervalo de 40 dias – e só se passaram seis semanas do ano. Em 2021, foram onze assassinatos contra essa população. A avaliação das organizações que atuam junto às travestis reclama que o poder público não tem feito o suficiente para mudar este cenário.

Na última sexta-feira (11) a transexual Júlia, 23 anos, estava na rua, no bairro de Santa Rosa, Palmares. Segundo relatos de pessoas que viram a cena, um homem que pilotava uma motocicleta se aproximou de Júlia, sacou uma arma de fogo, atirou nela e fugiu. Até o momento a polícia não encontrou o assassino e desconhece a motivação do feminicídio. A Polícia Civil tem até 30 dias para concluir o inquérito.

No sábado (12), no povoado de Queimada Grande, em São Bento do Una, o ataque foi contra três pessoas num sítio, sendo um homem e duas mulheres trans. O local e a circunstância do crime não foram detalhados pela política. Mas as duas travestis, uma de 18 anos e outra de 31, morreram na hora. O homem foi baleado, mas sobreviveu. Novamente a polícia ainda não conhece a motivação ou os autores do crime.

Na noite do dia 2 de janeiro a vítima foi Blenda Schneider, 34, moradora do Cabo de Santo Agostinho. Ela retornava da casa de uma amiga, no bairro da Bela Vista. Foi assassinada a tiros na rua. 

Semanas antes, em outubro de 2021, também em Palmares, a travesti Robertinha, 43, foi dada como desaparecida no dia 30 de setembro. Foi encontrada morta, no dia 4 de outubro, às margens de um rio na zona rural do município. Autor, motivação e mesmo a causa da morte não foi informada pela polícia.

Estes dois últimos casos, de janeiro e outubro, já superaram o prazo de 30 dias. O Brasil de Fato Pernambuco entrou em contato com a corporação solicitando informações sobre os quatro casos, com cinco vítimas fatais (quatro delas mortas por armas de fogo). A Polícia Civil informa que, tanto dos casos mais recentes como dos anteriores, “as investigações foram iniciadas e seguem [na delegacia local] até a elucidação do crime. (…) Outras informações poderão ser fornecidas após a completa elucidação”.

A corporação também informa que não há recortes estatísticos sobre pessoas transsexuais, de modo que não é possível determinar o número exatos de vítimas deste grupo populacional.

A Polícia Civil pontua que sua taxa de resolução de crimes de homicídio é de 56,9%, “uma das mais altas taxas de resolução do país”. “Em paralelo, a PC-PE, por meio dos seus departamentos, busca formar parcerias com secretarias e diversos órgãos com ações dentro das comunidades, visando combater e prevenir esse tipo de crime”, conclui a nota enviada à reportagem.

Rayanne Romanelly, colaboradora da Articulação e Movimento para Travestis e Transsexuais de Pernambuco (Amotrans-PE), avalia que as investigações poderiam ser “mais cuidadosas”. “Às vezes parece que quando é uma travesti, ‘se morrer, morreu’, sabe?! As investigações poderiam ser mais detalhadas, um trabalho mais minucioso, que nos mostrasse os motivos para o crime”, diz ela, que sente que esses casos não são tratados com seriedade.

De acordo com o Dossiê Antra 2022 (com dados referentes ao ano anterior), em 2021 foram registrados, em todo o Brasil, 140 assassinatos de pessoas trans, sendo 135 contra travestis e 5 de homens trans. Só em Pernambuco foram 11 assassinatos ano passado, colocando o estado em 4º no ranking nacional. No acumulado dos últimos cinco anos (2017-21) Pernambuco tem 46 homicídios contra travestis, deixando o estado como o 6º mais perigoso para pessoas trans.

Sobre a atuação do poder público para mudar este cenário, Romanelly resume: “O que os gestores públicos fizeram até hoje ainda não foi o suficiente para que nós [trans] possamos andar na rua tranquilas”. Ela diz que falta empatia e prioridade para a questão. “Eles deveriam mostrar à sociedade que tem espaço para todo mundo. Nós podemos viver em sociedade sem precisar passar por isso tudo”, diz a ativista.

“A rua é mundo cão. É faca, navalha. 

É a cara da morte a todo momento. 

Vacilou, um passo em falso, um erro, no ponto. 

Uma falha, um retalho, remato sangrento. 

(…) É a cidade inteira que quer me matar!” 

(trecho do musical Brenda Lee e o Palácio das Princesas, de Fernanda Maia e Rafa Miranda; retirado do Dossiê Antra 2022). 

Rayanne reclama da exposição ao risco em que vivem ela e outras trans. “Para a gente é assustador. Esses números de transfobia só crescem”, diz.

Num dos casos acima relatados, a polícia chegou a dizer para a imprensa, informalmente, que a principal suspeita é de morte por associação ao tráfico de drogas. Romanelly reclama. “Afirmar aquilo foi precipitado. A sociedade já nos associa à criminalidade”, pontua.

A ativista diz que também se pergunta sobre os motivos dos outros. “Por que as pessoas matam tanto as transexuais? Queremos viver e trabalhar como qualquer ser humano, independente de sexualidade, ter oportunidade de trabalho. Mas muitos não aceitam que nós podemos ter espaço na sociedade”, avisa.

Ela pondera que, mesmo que alguma morte seja por associação a atividades criminosas, também isso é reflexo da exclusão social. “Infelizmente a sociedade marginaliza a população travesti e transexual. A falta de oportunidades leva muitas das meninas e meninos trans a buscarem caminhos que não são os melhores para a nossa vida”, lamenta Rayanne.

“Às vezes é a forma que encontramos de nos sustentar, sobreviver. E tudo isso tem o peso da exclusão que a sociedade nos coloca”, avalia ela.

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