Agora que o ex presidente Lula está eleito são tantos abutres que o cercam que ele está sempre na sombra. Aqueles que não ajudaram em nada para conquistar a vitória na eleição, que até mesmo jogaram contra sua vitória, querem cargos no novo governo e, para justificar as escolhas mais absurdas, são levantados os argumentos mais absurdos. É o caso do artigo de Ricardo Bruno no Brasil 247 “Rio não pode ser sub-representado no ministério de Lula” que tenta usar o estado do Rio de Janeiro como justificativa para infiltrar dois dos piores direitistas da política fluminense, Pedro Paulo e André Ceciliano.
A grande falha do texto, que embasa todo a argumentação para que Lula indique seus inimigos para dentro do governo está no primeiro parágrafo. Ele afirma que “a vitória foi essencialmente de Lula”, o que está correto de certa forma com personagem única, mas é preciso destacar toda a mobilização popular gigantesca que se formou em volta dele a partir do ano de 2017 e que conquistou a sua vitória após 5 anos de muita luta. Contudo Ricardo Bruno expõe uma realidade invertida, Lula na verdade não seria o líder do movimento da classe operária, mas sim de um movimento “democrático”.
Em suas palavras: “mais do que um nome, um personagem consagrado, suprapartidário, que ultrapassa os limites do PT e da própria esquerda para abarcar todo o arco democrático da política nacional”. Está aqui a fraude. Nem na própria esquerda houve um movimento em defesa de Lula, além do PT e das organizações ligadas ao partido como MST e CUT, somente o PCO defendeu Lula durante toda a campanha eleitoral e de luta contra o golpe. Se nem os demais partidos de esquerda defenderam Lula muito menos a direita, que o sabotou constantemente até o segundo turno.
A direita “democrática” estava organizada em torno da 3ª via e tinha como objetivo derrotar tanto Lula quanto Bolsonaro. Ao ficar claro que ela seria um fracasso total alguns setores se aproximaram de Lula para fingir que o apoiavam quando, na verdade, ele que os estava apoiando, cedendo um pouco de sua enorme popularidade. Esses setores não ajudaram Lula em nada, muitos deles foram os golpistas de 2016 e de 2018 como Simone Tebe e Alckmin. E não só foram anti Lula no passado como na prática não deram nenhum voto para Lula no ano de 2022. A farsa do apoio democrático a Lula está sendo usada agora para infiltrar o seu governo.
O texto segue com outra afirmação absurda: “o recente triunfo de Lula se deu em meio à afirmação nas urnas de um país extremamente conservador.”. A eleição de Bolsonaro não expressa nenhuma onda conservadora, mas sim uma revolta de muitos setores contra o sistema político vigente, principalmente contra esses setores “democráticos” que foram os maiores derrotados das eleições. Ciro, Tebet e toda a 3ª via não tiveram nem mesmo 10% dos votos. O bolsonarismo cresce nas camadas mais populares como uma revolta, assim como a extrema-direita na Europa e nos EUA. Afirmar que a população é conservadora é apenas um argumento para apoiar uma política direitista, que é a posição de Ricardo Bruno.
O autor segue com o argumento mais absurdo, já que Bolsonaro teve 56% dos votos no Rio de Janeiro é preciso indicar os derrotados na eleição pois isso aumentaria a popularidade de Lula, um surrealismo. André Ceciliano, o quarto colocado para as eleições no senado e Pedro Paulo, o afilhado político de Eduardo Paes, que de tão desesperado que está para vencer as próximas eleições se tornou “lulista” em 2022, não tem popularidade nenhuma no Rio de Janeiro. O apoio a esses setores foi claramente um erro do PT visto que Lula não conseguiu transpor quase nada de seus eleitores para esses elementos.
É o caso de Marcelo Freixo, por exemplo, que atualmente faz parte do bloco democrático com Eduardo Paes e também já foi citado em fofocas para compor ministério. Freixo foi um gigantesco erro do PT, perdeu no primeiro turno para o governador bolsonarista que tem em seu currículo a privatização da CEDAE e o recorde de chacinas da PMERJ! O caso Freixo na realidade é um dos que escancara a falência total dos “democratas”, onde o PT acreditou que esse setor teria alguma chance ele foi humilhado pelo bolsonarismo, já onde o PT lançou candidatos próprios houve uma disputa real.
Eduardo Paes é também um exemplo do falso apoio a Lula, o prefeito da segunda cidade mais rica do Brasil não só não garantiu a vitória de Lula como nem sequer conseguiu aumentar a diferença de votos entre Lula e Bolsonaro do primeiro para o segundo turno. O seu apoio foi uma farsa, o aparato estatal não foi mobilizado em apoio a Lula como é o caso dos prefeitos de direita que apoiaram Bolsonaro em todo o país. Paes apenas limpou a sua imagem de direitista pois quer ser o candidato da direita apoiado pela esquerda nas próximas eleições.
O autor da coluna segue elogiando Pedro Paulo e André Ceciliano de forma um tanto vergonhosa, com elogios técnicos as suas gestões, os argumentos típicos para defender a direita. Pedro Paulo, como dito acima, é afilhado de Paes, é um representante da burguesia do Rio, um parasita inimigo dos trabalhadores, repressor da greve dos garis que nem mesmo venceu Crivella nas eleições de 2016. Já Cecilinao é um político de direita dentro do PT, ligado as milícias do Rio, não só conseguiu ser presidente da ALERJ apoiado pela direita como fez campanha para o governador bolsonarista Cláudio Castro. É um político tipicamente fisiológico que não tem nenhuma relação com os trabalhadores.
O artigo fecha com o último argumento: “Lula tem, portanto, a oportunidade singular de reconquistar cariocas e fluminenses com seu governo. O primeiro ato a ser avaliado será a escolha do ministério.” Aqui há um ponto de fato relevante, reconquistar os cariocas e fluminenses que foram cativados pelo bolsonarismo. Contudo, a receita para isso passa longe de se apoiar em setores direitistas e golpistas que foram totalmente esmagados pelo bolsonarismo em 2022. A fórmula, no entanto, foi dada pelo próprio Lula no segundo turno das eleições.
O Rio de Janeiro foi o segundo estado do Brasil em que Lula ganhou mais votos, em comparação com Haddad em 2018. Isso devido à mobilização popular, que também foi a segunda maior do Brasil nos últimos 4 anos. Lula estimulou essa mobilização realizando grandes comícios vermelhos nas periferias, em Belford Roxo, em Padre Miguel, no Complexo do Alemão e em São Gonçalo. É com esse tipo de organização que se reconquista os trabalhadores para a esquerda, e não se cercando de abutres direitistas. Lula sabe muito bem disso e por isso levantou essa onda vermelha no segundo turno das eleições.
Os abutres sedentos por cargos no governo Lula estão todos ouriçados querendo se aproveitar da tendência de conciliação do presidente eleito. Eles, no entanto, serão justamente o calcanhar de aquiles do novo governo, que pode se sustentar somente no setor que o elegeu, a classe trabalhadora. O fato de Lula não ter a maioria dos eleitores no Rio de Janeiro é uma fraqueza em seu governo, sua política, portanto deveria de fato ser voltada para a classe operária do sudeste, e não é com direitistas nos ministérios que isso se tornará possível.





