A crise na Argentina chega a um novo patamar com a renúncia de Máximo Kirchner. A saída do deputado da presidência da bancada da Frente de Todos causou perplexidade. O motivo se deve ao fato de Alberto Fernández ter feito um novo acordo com o FMI, e a dívida, firmada em 2018, no governo Macri, deverá ser paga nos próximos dois anos. O que significa que o governo terá de fazer ajustes fiscais; ou, em outras palavras, entregar o boleto para a população pagar.
Toda vez que se elege um governo mais à esquerda na América Latina, uma onda de euforia percorre a esquerda pequeno-burguesa. Este Diário, e o PCO, se notabilizaram em cumprir o papel de “desmancha-prazeres” dessa gente festeira. Buscamos analisar a situação política real, e não alimentar fantasias apresentando os fato de acordo os desejos das pessoas. Quando acaba a festa, e a realidade se impõe, invariavelmente todos aqueles que celebraram a eleição deste ou daquele presidente “esquerdista” se esquecem de tudo o que festejaram, se negam a olhar a realidade e ficam calados atônitos até a próxima festa. Foi assim no caso das eleições da Bolívia, do Peru e agora no Chile.
Um governo mais à esquerda não precisa ser necessariamente um governo de esquerda. O próprio Fernández pertence a uma ala direita do peronismo. Toda a festa que se fez foi motivada pelo figura de seu opositor, Mauricio Macri, extremamente direitista e um verdadeiro capacho do imperialismo.
Se formos apenas contrastar as duas figuras, Macri e Fernández, podemos colocar este um pouco mais à esquerda, apenas isso.
Alberto Fenández
O atual presidente argentino nunca foi um alguém de esquerda. Sequer se pode dizer que tenha sido um progressista. Sua trajetória política sempre o ligou em relação a figuras como Carlos Menem, o ex-ministro da Economia Domingos Cavallo no governo Menem e no Fernando de La Rúa. A passagem de Cavallo pelo de La Rua foi tão catastrófica, causou tamanha crise popular que o presidente se viu obrigado a renunciar. Houve enfrentamentos enormes nas ruas em dezembro de 2001. Eventos conhecidos como A Grande Crise, que deixou um saldo de dezenas de mortos.
Fernández nada mais é que um neoliberal. Apesar de encabeçar inicialmente a chapa para a presidência, Cristina Kirchner capitulou e se lançou como vice. A ex-presidenta estava sofrendo uma série de perseguições judiciais e corria o riso de ir para a cadeia. O mesmo fenômeno que vimos tão bem aqui no Brasil e tantos outros países da América Latina, continente que tem sofrido diversos golpes com a participação direta do Judiciário. Como Honduras, Paraguai
Quando Cristina Kirchner fez a manobra, imposta pela burguesia, de sair na chapa como vice, uma boa parte da imprensa progressista e setores da esquerda a elegeram como uma grande estrategista. A mesma proposta queriam que fosse cumprida por Evo Morales e Lula. A esquerda pequeno-burguesa não perde uma única chance de fugir do confronto com o Estado burguês. No Brasil, o PT, em 2018, deveria apostado na crise, errou ao não insistir na candidatura de Lula para a presidência, lançando a candidatura de Fernando Haddad.
Quem ganha com o acordo
A política de Fernández nada mais é do que a continuação daquela que foi iniciada no governo Macri, que recebeu do FMI nada menos que R$ 57 bilhões como empréstimo, dos quais US$ 44 bilhões já foram entregues. O empréstimo causou alta da inflação, desabastecimento e, como sempre, os imperialistas pedem as empresas estatais como parte do negócio. A experiência mostra que quando os setores são privatizados os preços vão às alturas. Como é caso no Brasil da alta do gás, combustíveis, energia elétrica, telefonia.
Fernández já havia se habilitado para o cargo ao se reunir previamente com o FMI e garantir os acordos firmados por Macri com esse órgão. Os planos sempre são bonitos no papel, prometem recuperação da economia, combate à pobreza, geração de empregos. Enquanto isso, vamos vendo toda a economia saindo do controle do Estado e indo para as mãos dos tubarões do mercado financeiro.
Pressão
Cristina Kirchner seguramente está sofrendo pressão de sua base popular e por isso suas contradições com o presidente se tornem insuperáveis e ela tenha que romper com Fernández. Esse tipo de pressão é muito visível aqui no Brasil e se materializa na figura do ex-presidente Lula que deverá concorrer às próximas eleições. Por mais que ele venha tentando sinalizar para acalmar a burguesia e tentar atrais setores secundários da burguesia para formar um eventual futuro governo. O fato é que a burguesia não confia, pois esta sabe que há uma grande expectativa de que sua reeleição traga de volta empregos e melhoria nas condições de vida. A burguesia, por seu lado, não pretende ceder, pois ela própria precisa desesperadamente de recursos para estancar a crise na qual se encontra.
A tentativa do PT em colocar Geraldo Alckmin como vice tem provocado muitas reações, o demonstra que a temperatura política está subindo. Isso se reflete no discurso de Lula, que defende que o preço dos combustíveis volte a patamares aceitáveis, tem defendido publicamente a eleição de Daniel Ortega. E a burguesia sabe que será difícil conter as massas.
Nesse sentido, é importante salientar a necessidade de se avaliar corretamente o cenário político para que não se caia em ilusões e se enfrentem de modo apropriado a burguesia e se interfira na política de maneira apropriada. Se, por um lado, a eleição de certas figuras não representam uma guinada à esquerda no Continente; os acenos do PT à direita não significam que um governo petista seja um mergulho no neoliberalismo. Muitos setores passam de uma posição à outra por falta de um programa e de clareza. Ora estão eufóricos com as eleições na Argentina, Chile, etc; outra se desesperam com as manobras do ex-presidente Lula tentando formar uma base parlamentar para um eventual governo.
Tanto o desespero quanto a euforia são sinais de uma leitura equivocada da política, e isso nos induzirá fatalmente a erros. Por isso a política revolucionária se diferencia e é a única que realmente pode fazer com que a classe trabalhadora tenha cada vez mais eficiência e avance na luta política.