Luiz Henrique
Certa vez, em um de seus livros, Wilhelm Reich escreveu que “a autoridade do estado exige dos adultos a mesma atitude obediente e submissa que aquela que exige o pai dos seus filhos quando são pequenos ou adolescentes”. É verdade. Na família, uma velha instituição que tem servido às classes dominantes, na história do mundo, e que a burguesia soube muito bem captar e reformular aos seus próprios interesses, os adultos assumem inevitavelmente papéis opressores contra as crianças; é bem isso, também, que o próprio Marx e Engels nos atestam no Manifesto. No entanto, não para por aí.
Dentro do sistema capitalista, a situação social da criança atingiu um estado de miséria humana e social que poucos poderiam prever. À criança foi negada, com a mais virulenta das histerias, o mais básico do convívio social, a mínima exploração do mundo e dos outros, o conhecimento do seu próprio corpo, da sua sexualidade; e nem precisamos falar da agremiação política. A criança assumiu o estado de mascote… Aliás! Até mesmo esses gozam de algum suposto respeito nesse sistema, que é indevido comparar a qualquer coisa que a burguesia direciona às crianças. No capitalismo, a criança foi reduzida a escrava.
O seu “direito”, um belo presente grego, é ter uma família e, quando muito, ir à escola. Isso é, a grande liberdade de ser escrava. Todo o seu convívio está limitado aos mesmos ambientes de controle burguês e às mesmas pessoas suas opressoras. Os únicos “estranhos” que terão o direito de contato com a criança, são aqueles representantes da burocracia social burguesa: pediatras, psicólogos, pedagogos, padres etc. Qualquer contato fora desse verdadeiro cerco será considerado um crime – literalmente.
Os interesses da burguesia com esse cerco histérico à criança, podemos encontrar na própria continuação da fala do Reich, quando ele diz que “a falta de espírito crítico, a proibição de protestar, a ausência de opinião pessoal caracterizam a relação das crianças fiéis a sua família, com os pais, assim como as dos empregadores e funcionários devotados às autoridades, com o estado, e as, na fábrica, dos operários não esclarecidos e sem consciência de classe, com o diretor ou o proletário de fábrica.”.
A burguesia quer uma criança alheia do mundo e dos outros, trancafiada e alienada, castrada, desconhecedora, submissa às instituições e aos agentes que ela mesma, a burguesia, possa submeter; como bem nos mostra Reich, é o mesmo esquema, por formas diferentes, que a classe dominante busca aplicar contra os proletários para que esses se submetam a ela. A fábrica da criança é a sua casa e escola; seus patrões são os próprios progenitores e professores – adultos esses que, numa sociedade livre, poderiam, também em socialização livre, trocar verdadeiros conhecimentos com as crianças, mas que, nessa sociedade, pervertem-se em verdadeiros opressores. E a essas crianças ainda é negado, com extrema virulência, qualquer possibilidade de “sindicalização”.
O Caso Henry
Pergunto, senhoras e senhores, quem seria capaz de se surpreender, então, quando os efeitos colaterais desse verdadeiro estado de miséria que é a vida das crianças, aparecem? Ora,
recentemente a mídia burguesa tem dado bastante amplidão para o caso do menino Henry, de 4 anos, que passou por diversos momentos de tortura em seu seio familiar e que, por fim, foi assassinado pelo político burguês direitista Dr. Jairinho, seu padrasto, com a conivência de várias figuras circundantes como a própria mãe e o pai do menino.
A mídia burguesa já começa a fazer sua presepada tradicional: todo aquele sentimentalismo barato e familista, termos como “monstros”, “desumanos”, “covardes” etc começam a ser aventados. A primeira coisa que a burguesia tenta esconder com esse chilique é que casos como esse são tão recorrentes que os burgueses deveriam assumir já como um esporte mundial; acontecem verdadeiramente todo dia, em todo o mundo. O que a mídia burguesa faz é dissimular, obscurecer ou simplesmente não noticiar.
Há situações, no entanto, em que isso se vê desafiado, especialmente quando os envolvidos são pequeno-burgueses/burgueses e/ou figuras públicas. E é aí que a burguesia pinça esses casos que vez ou outra nos jorram aos ouvidos (Nardoni, Bernardo, Terra, Henry…) e aproveita o limão caído em suas mãos para fazer limonada e beber de canudinho: muita demagogia que buscará esconder os reais fundamentos da situação miserável da criança na sociedade.
Demagogia burguesa, ou o cúmulo da cara de pau
Então descobrimos que tudo não passa de um problema individual… a falta de caráter de alguns indivíduos. Tudo poderia ser solucionado com mais família, escola, igreja, psicologia e psiquiatria, pedagogos, pediatras, médicos, polícia, leis… É esse o tipo de mentira deslavada que a burguesia, num surto de cara de pau, terá a audácia de cantar.
Ora, senhores, não são justamente a essas instituições e a esses agentes que as crianças estão encarceradas e escravizadas? Não é justamente de suas garras e seus olhares histéricos que elas não podem escapar nem por um segundo? Que diabos de solução é essa que vem do acirramento dos próprios meios causadores de desgraças e não de seu abrandamento? A burguesia é cínica.
Ainda mantendo o Caso Henry em vista, podemos constatar que a mãe desse menino, conivente com seu assassinato, era uma… pedagoga! O padrasto Dr. Jairinho, assassino direto, político burguês por mais de 10 anos do, adivinhem, Partido Social Cristão!, além de… médico! E se nos dedicarmos aos detalhes, encontraremos a tia desse menino, informada dos “comportamentos estranhos” do mesmo (por conta das torturas que era submetido no ambiente familiar)… pediatra! E veremos que a mesma criança estava aos cuidados de uma… psicóloga! E a mãe já tinha planos de levá-la a uma… psiquiatra! Ora, senhores! As crianças não morrem por estarem alheias aos “cuidados” das instituições e agentes burgueses, muito pelo contrário, morrem por estarem trancafiadas aí!
A burguesia dissimula, parte de um princípio pervertido que ela mesma criou, onde assume se que essas instituições, causadoras das desgraças das crianças, são como fundamentos naturais, inquestionáveis, necessários para a vida digna da criança na sociedade. Logo, mesmo que as maiores aberrações contra as crianças sejam cometidas por esses mesmos mecanismos, saiam desse mesmo seio, as soluções também deverão ser encontradas aí. É
como se a burguesia dissesse para alguém que vê sua mão sangrar ao apertar uma faca: aperte com ainda mais força, isso resolverá.
Não, não resolve. E isso podemos constatar com os nossos próprios olhos: uma classe dominante nunca controlou tanto a infância como faz a burguesia; a histeria em torno da “defesa da criança e da infância” (e “defesa”, aqui, não significa mais que dominar e explorar, assim como “infância” não significa nada mais que aquilo que a burguesia quer que signifique) nunca esteve tão alta; vivemos a era da classe dominante “científica”, as crianças nunca estiveram tão cercadas de agentes “a seu favor”: pedagogos, psicopedagogos (sic), pediatras e todo tipo de parafernália vendida como fundamental para “o bom desenvolvimento da criança e da infância”.
Mesmo com tudo isso, o que continuamos a ver? O fortíssimo esmagamento da criança na sociedade. E por quem? Pelos temidos “desconhecidos”? Pelos “estranhos da rua, com balas nas mãos”? Ou talvez pelos “comunistas que papam criancinhas”? Bom, a burguesia bem que gostaria que sua ficção se fizesse realidade, mas não. Irônica porém não surpreendentemente, é justamente do âmago dessa parafernália que brota toda a virulenta opressão contra as crianças.
Dando continuidade a sua demagogia, que reforça as instituições dominantes e opressoras como a própria solução para os problemas da criança, a burguesia ainda fará algo que sempre busca fazer: fortalecer a justiça burguesa outorgando-se ainda mais poder ao passo que aprova mais leis repressivas com a demagogia de que visa a “proteção” de não sei lá quem, nesse caso, das crianças.
Sempre que pinça um caso desses para fazer demagogia e alarde, recebemos como presente, ao fim do circo, uma nova lei e o endurecimento das já existentes. É isso que já podemos ver nesse Caso Henry. Vejam o cúmulo: deputados direitistas, bolsonaristas, inclusive do próprio partido do Dr. Jairinho, aprovaram aos berros sentimentalistas, e entre lágrimas de crocodilo, no congresso nacional, o endurecimento de várias leis que visa “proteger a criança e a infância”, além de criar tantas outras.
Quem a burguesia quer enganar nos dizendo que ela mesma, criadora e mantenedora dos mecanismos de opressão de todos, inclusive das crianças, será também a heroína de todos, inclusive dessas? São os políticos burgueses direitistas, os juízes golpistas e o judiciário burguês que salvarão a criança de algum mal? São os próprios amigos dos assassinos das crianças que detêm a solução para tais males? Esses mesmos que só em ouvir “redução da maioridade penal” já se excitam, esses que brigaram com unhas e dentes para enviar as crianças às escolas em plena pandemia do corona vírus? Poupe-nos!
Esse, no entanto, é o nível de confusão e alienação que a burguesia tenta criar e impor ao perverter demagogicamente a realidade, negando que é o próprio funcionamento natural de sua sociedade capitalista que proporciona o esmagamento da criança, e propagando, como solução, o recrudescimento dessa mesma sociedade de miséria, exploração e opressão.
A criança está tão bem na escola, na igreja, na clínica psicológica e na família, como o escravo está em sua senzala. E a quem recorre o escravo trancafiado na senzala? Aos senhores? Aos seus irmãos tão escravos quanto? É esse o estado da criança nas instituições
burguesas, em especial na instituição familiar. Reich já havia dito-nos que “as crianças fiéis a sua família” estão num estado de “proibição de protestar”. E a solução para isso é acirrar ainda mais esse estado de coisas? A burguesia diz que sim, nós sabemos que não.
A solução para as crianças
Ora, toda a gritaria da burguesia é para tentar esconder o óbvio: a miséria social da criança começa a arrefecer ao passo que arrefece as instituições burguesas, enfraquecem os agentes burgueses; em suma, ao passo que enfraquece a própria burguesia e seu sistema capitalista.
Subjugada à família e outras instituições burguesas, a criança está a mercê de sua própria sorte, torna-se alvo fácil de uma sociedade capitalista perturbada, desesperada e inevitavelmente violenta, com poucas chances de defesa. Só o progresso rumo ao socialismo e ao comunismo poderia minar as necessidades dessas instituições até suprimi-las por completo e, dessa forma, inserir livre e verdadeiramente as crianças na sociedade. Pois, diferentemente do discurso safado e demagogo da burguesia, as reais armas da criança para o esquive de quaisquer possibilidades de violência não são o aprisionamento e a submissão, mas, justamento pelo contrário, a liberdade absoluta, a vida verdadeiramente socializada e comunitária.
Hoje, a criança que se encontra ameaçada por seus pais, familiares, professores e outros, pouco encontra possibilidades para escapar de sua desgraça, e justamente por isso morrem como moscas todos os dias, em todos os lugares. O socialismo iniciará o processo de reconfiguração social que abaterá as bases dessa opressão e possibilitará uma vida muito mais segura, digna e livre às crianças, rumo ao aperfeiçoamento que será o comunismo. Nessa outra sociedade, a criança – ser livre e social, não tratado como ser inferior, como acontece hoje – que se sentir perturbada por qualquer coisa que seja, terá todas as possibilidades de se comunicar, de reagir, de migrar para onde desejar, com quem desejar; abandonará mesmo seus progenitores no momento assim que deseje e escolherá como e com quem deseja viver.
Essa socialização, essa liberdade são os fundamentos da independência da criança, de sua defesa e autonomia; independência que hoje, na sociedade de classes, capitalista, se vê completamente interdita justamente pelo fundamento pervertido: a criança é um ser privado, um escravo subjugado aos interesses da classe dominante, aprisionada às garras das instituições burguesas e seus agentes.
É por esse entendimento ímpar da situação da criança que os comunistas não fazem demagogia com a instituição familiar e outras. Justamente pelo contrário, temos encarado mesmo os “mais radicais” confusos que “se indignam com esse propósito dos comunistas”, como bem escreveu Marx e Engels; o propósito? “A supressão da família!”.
Vivemos um período histórico de refluxo da classe trabalhadora, o que indica o recrudescimento da política burguesa contra os oprimidos do mundo, inclusive as crianças. O período é de forte histeria e demagogia a tudo que envolve criança e infância. Vemos camadas da pequena-burguesia, especialmente as feministas, que ontem poderiam assumir posições minimamente democráticas (mesmo que no sentido burguês), pularem, hoje, para um conservadorismo acachapante, mesmo que transvestido de progressismo. Ser mãe e ter
uma família é um ato revolucionário, dizem as feministas pequeno-burguesas; a família não é um problema a ser suprimido, mas uma instituição a ser ampliada, dizem os tais militantes “LGBT”.
Toda essa porcaria é o vômito dos interesses burgueses em cima do povo, mesmo que apareça mais “cheirosinho” pela linguagem pequeno-burguesa acadêmica e identitária. Mais do que nunca, é o momento de reafirmar contundentemente o “crime” que os comunistas já assumiram há séculos: a libertação da criança.
A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste diário.





