Sem respaldo científico

“Imunidade de rebanho” colocada em prática no Brasileirão

Ignorando o cenário devastador da pandemia de COVID-19 no Brasil, a CBF libera jogadores testados positivos enquanto dirigentes apostam na imunidade de rebanho.

Quem acompanha nossa seção de esportes sabe que o cenário atual de intenso contágio entre os jogadores de futebol já era muito previsível. Atendendo aos interesses dos capitalistas do setor, jogadores e demais profissionais envolvidos, além de seus familiares, estão sendo tratados como cobaias, como aponta acertadamente essa matéria do El País.

Como já citamos em outra matéria deste Diário, a CBF autorizou a participação de quatro jogadores do Atlético Goianiense que haviam testado positivo num jogo contra o Flamengo. O argumento acatado pela entidade foi de que os quatro estavam em estágio final da infecção e não podiam transmitir a doença para outras pessoas. Em meio à divulgação de estudos sobre casos de reinfecção e à enorme flutuação das “certezas” sobre a doença que só no Brasil já causou quase 110 mil mortes (em números oficiais), a atuação da CBF aparece como uma aberração.

Obviamente que, como um órgão da imprensa imperialista, o El País deixa escapar os verdadeiros responsáveis pelo retorno dos campeonatos de futebol, preferindo apontar apenas para cartolas, CBF e políticos. A atuação completamente irresponsável desses agentes é coordenada por quem controla os setores econômicos envolvidos, em especial os grandes bancos.

A aplicação dessa estratégia nos campeonatos, ao mesmo tempo em que a economia é aberta no mundo inteiro, aparece realmente como uma experiência macabra. Ao contrário dos clubes mais abastados, que podem fretar aviões, a maioria dos times está tendo que viajar pelo país em voos comerciais e ônibus para atender à programação dos campeonatos.

Recentemente mais de 80% do elenco profissional do CSA, que disputa a Série B do Brasileirão, testou positivo para COVID-19. O presidente do clube chegou a declarar que esperava que o clube fosse agraciado pela imunidade de rebanho.

A tal imunidade de rebanho, ou imunidade coletiva, pressupõe uma quantidade suficiente de indivíduos recuperados de uma infecção ou preventivamente vacinados, tendo adquirido resistência à infecção. Essa população imunizada serviria como uma barreira, quebrando a cadeia de transmissão dessa infecção.

Os casos de reinfecção pelo novo coronavírus já servem como alerta de que a imunização no cenário atual ainda precisa ser estudada. Porém o interesse dos capitalistas tem se imposto sobre estudos e sobre as milhares de vidas perdidas até agora.

Para se ter uma ideia do que significaria a imunidade de rebanho sem a vacinação de pelo menos 60% da população, a aplicação dessa estratégia em nível nacional poderia deixar um saldo de mortos entre 1 e 2 milhões de pessoas, como explicado neste artigo escrito por acadêmicos do Instituto de Química da USP.

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