Artigo publicado no portal Alma Preta retoma a polêmica sobre o caráter racista da obra de um dos maiores escritores brasileiros, Monteiro Lobato. O artigo, escrito por Juliana Correia, busca demonstrar que Monteiro Lobato era um dos principais expoentes das ideias eugênicas no Brasil. De um modo resumido, a eugênia defendia a superioridade racial branca frente às outras raças, em particular aos negros.
A autora discorre sobre o vínculo de Monteiro Lobato com a Sociedade Eugênica de São paulo, fundada em 1918. Aborda ainda que durante o tempo que morou nos EUA, Monteiro Lobato teria tentado publicar o livro, intitulado “O Presidente Negro”, seu único romance adulto. A história se passa nos EUA, quando em 2228 seria eleito um presidente negro para governar aquele país, o que causa uma revolta na população branca que passa tomar medidas para que os negros não tomem conta do poder por completo.
O livro foi recusado pelas editoras norte-americanas, o que fez com que Monteiro Lobato voltasse ao Brasil e passasse a publicar as suas ideias de maneira mais sútil, em histórias infantis, a mais conhecida “O Sítio do Pica-Pau Amarelo”.
A autora usa para justificar seu argumento, o caráter supostamente estereotipado de alguns personagens de Lobato, como a negra Tia Anastácia, descrita de forma inferiorizada e maltratada por outros personagens da obra.
Os argumentos usados no artigo não são novos. A polêmica sobre as obras de Monteiro Lobato é antiga e há um ano ela ganhou força inclusive com a tentativa de censurar a obra do autor tendo como pretexto o suposto racismo der Monteiro Lobato.
A autora do artigo, Juliana Correia, faz coro com essa política quando em determinado trecho afirma: “É lamentável ver o esforço do mercado editorial para manter em circulação as obras deste escritor a qualquer custo, inclusive maquiando o texto. O racismo opera no Brasil de maneira tão sutil, tão sofisticada, que se beatifica um algoz e se articulam esforços para canonizá-lo. No limite, afirmam-no como alguém apenas “contraditório”, quase romantizando o contexto.”
A defesa da retirada de circulação dos livros de Monteiro Lobato, ou da censura de sua obra é uma política que só serve à direita, e no final dos casos é um ataque à cultura nacional.
Primeiro é preciso deixar claro que interpretar se uma obra é ou não racista está relacionado diretamente à opinião de uma ou de outra pessoa. E por isso também a censura e a “correção” das obras estão sujeitas à arbitrariedade e portanto sujeitas àqueles que detêm o maior poder para impor seu ponto de vista.
Em segundo lugar, mesmo supondo que a obra de Monteiro Lobato seja, de fato, racista, não existe nenhum motivo para censurá-la. Pelo contrário, o ataque à obra de um autor importante, como Monteiro Lobato, abre a brecha para um ataque em larga escala contra toda cultura nacional, outros autores e livros. O que na aparência pode parecer uma política progressista de “combate ao racismo”, pode servir de pretexto para o fim da liberdade de expressão no campo das artes e em todas as áreas.
No caso de Monteiro Lobato, é preciso reafirmar a posição nacionalista que autor teve, por exemplo, na defesa do petróleo nacional. Impulsionador do movimento conhecido como “O Petróleo é Nosso”, autor da famosa personagens que retratavam aspectos da vida do nosso povo, como o Jeca Tatu, em seu livro “Urupês”, que narra a rotina de caipiras do interior de São Paulo e que deu conteúdo progressista às suas histórias infantis, nas quais – por exemplo – faz críticas ao governo de Getúlio Vargas tendo como mote a tímida exploração do petróleo, já que o escritor queria que Vargas realizasse mais perfurações de campos de petróleo, pois sabia do potencial benefício para o País.
No final das contas, o ataque da esquerda pequeno-burguesa a Monteiro Lobato, tendo como pretexto o racismo deste autor, é resultado da pressão da própria direita, inimiga declarada da cultura brasileira, que busca criar subterfúgios para colocar abaixo o patrimônio histórico e cultural nacional e restringir a liberdade artística.
É preciso defender a cultura brasileira e se colocar contra a qualquer tentativa de censura aos autores e aos livros, sejam eles quais forem. A arte só pode se desenvolver como elemento de progresso se for completamente livre e independente.



