A IMPORTÂNCIA DA REVOLUÇÃO RUSSA E SEUS ENSINAMENTOS

Rui Costa Pimenta – Transcrição da palestra realizada em novembro de 2012 sobre o aniversário da Revolução Russa

 

Bom dia, companheiros.

Nós dividimos esta atividade de palestras em dois temas diferentes. Nesta primeira exposição, vamos tratar da importância histórica da Revolução Russa e na segunda palestra da importância da revolução do ponto de vista da luta revolucionária nos dias de hoje. Nela, iremos tratar de um conjunto de polêmicas que dão lugar a muita confusão, como as consequências da Revolução Russa, o stalinismo e os problemas que normalmente se discutem sobre a ditadura e a democracia no socialismo.

manifestação em Cronstadt em 1917
Cronstadt, 1917

Gostaria de começar chamando a atenção para o fato de que a Revolução Russa, além de ser, talvez, o mais importante acontecimento político da história da humanidade, é também o mais polêmico dos últimos cem anos. Talvez seja mesmo o acontecimento que mais deu lugar a polêmicas em toda a história política da cultura humana. Normalmente, não temos a ideia do volume de críticas, de calúnias, de interpretações de todos os tipos, mas principalmente de interpretações negativas que existem sobre a Revolução Russa. Eu calculo, embora isso seja difícil de saber com certeza, que milhões de livros, ensaios etc. foram escritos sobre esse tema. É um dos assuntos, sem dúvida, mais discutidos dos últimos cem anos, senão o mais discutido. Daí que o problema seja naturalmente confuso para quem aborda a questão. Minha intenção com essa palestra é dar uma contribuição para o esclarecimento das questões centrais que dizem respeito à Revolução Russa.

Uma delas, e esta é uma das maiores deformações sobre o assunto, serve como indicativo da dimensão dessa polêmica. Discute-se, sobretudo, a legitimidade, a viabilidade, o benefício da Revolução Russa.

Os ideólogos da direita, do capitalismo, do imperialismo, procuram a todo momento colocar em questão o fato de se a Revolução Russa teria sido um acontecimento histórico positivo, progressista, que teria promovido um progresso para a humanidade. As revoluções são inevitáveis na história da humanidade, não são resultado de uma ação artificial, mas o resultado do desenvolvimento histórico, de forma que discutir se é positivo ou negativo ter uma revolução ou julgar a validade das revoluções com base no resultado obtido em dado momento, o que é uma coisa muito relativa, é ocioso. As revoluções são o meio pelo qual a história avança.

A primeira coisa que devemos esclarecer é que esse debate, embora atraia muito a atenção, é na realidade um debate secundário e em grande medida distracionista. Porque se nós estamos interessados na luta política dos dias de hoje, a Revolução Russa deve ser vista antes de mais nada como um laboratório da política revolucionária. Como um acontecimento que encerra um conjunto de ensinamentos para quem está travando a luta política aqui e agora, e não uma coisa que se discute como se fosse um fenômeno de tipo religioso, que tivesse um valor moral A ou B, que é a discussão que normalmente se faz.

Esse aspecto da Revolução Russa, como ensinamento da luta política aqui e agora, normalmente não é discutido. A tal ponto que podemos ouvir pessoas em todas as facções da esquerda brasileira e internacional argumentarem frequentemente que a Revolução Russa é um acontecimento em alguma medida ultrapassado. Então, se falamos, por exemplo, que “na Revolução Russa aconteceu tal e tal coisa”, logo algum desses esquerdistas responde: “mas a Revolução Russa foi há 95 anos!”, ou seja, está implícito nessa consideração que a Revolução Russa estaria desatualizada. Ela estaria para a suposta revolução dos dias de hoje, que ainda não conhecemos, como a máquina de datilografia está para o computador. Isso é falso.

É uma impressão que as pessoas têm, mas carece de fundamentação. A Revolução Russa não é uma tecnologia, é um processo social e como um processo social tem uma continuidade, principalmente se estamos falando dos processos sociais de uma determinada época, que guarda uma unidade econômica, política, como a época atual, que embora mude e se transforme, mantém, na base da situação, características homogêneas. Quando foi feita a Revolução Russa, havia o capitalismo, hoje há também o capitalismo. Na época, o capitalismo já havia evoluído para sua etapa imperialista, hoje continuamos nessa etapa. Quando foi feita a Revolução Russa o mundo estava dividido entre países opressores, imperialistas e países coloniais, oprimidos, hoje há a mesma coisa. O capitalismo estava em crise, hoje ele vive a mesma crise, mas ainda maior. Há uma base comum para a análise da Revolução Russa, assim como há uma base, não tão extensa, para que nós possamos aprender, para os dias de hoje, com a Revolução Francesa, da mesma forma como Marx aprendeu com a Revolução Francesa para discutir a revolução na época capitalista. Há essa continuidade.

O primeiro problema, portanto, é justamente esse. A Revolução Russa deve ser objeto de uma discussão moral, que procura debater se ela foi “boa”, “ruim”, se ela teria um “valor positivo” ou se teria um “valor negativo”? Ou ela deve ser acima de tudo um terreno para o aprendizado da revolução? Lênin e Trótski, que foram seus principais dirigentes e teóricos, sendo Trótski o principal historiador da Revolução Russa, consideravam que sim. Lênin considerava que a Revolução Russa nada mais era que o ensaio geral da revolução mundial. Ela seria a última apresentação que se faz no teatro, quando os atores estão vestidos a caráter e ensaiam a peça toda para ver se tudo está correto.

Eu gostaria de chamar a atenção aqui para essa comparação que Lênin faz da revolução com o teatro. Ela é muito importante, porque a revolução tem que ser praticada, pelo menos da parte dos revolucionários. Se a sociedade não pode praticar a revolução, no seu conjunto, os revolucionários devem praticá-la. Quer dizer, a revolução se desenvolve através do aprendizado, como qualquer coisa que os seres humanos fazem. Antes da Revolução Russa, houve uma série de episódios revolucionários menores. Houve inclusive uma revolução em 1905, que os revolucionários disseram ser o ensaio geral da Revolução de 1917; e a Revolução de 1917, o ensaio geral da revolução mundial.

Sobre essa ideia, que é muito importante, vejam uma coisa: a burguesia diz (não sei se todos aqui já perceberam quando veem essa polêmica) que a classe operária, o marxismo, o comunismo, fizeram a Revolução Russa. É isso. Se deu certo, ótimo, se deu errado, pronto; está provado que não dá certo. Finalmente, a burguesia daria à classe operária, porque a burguesia é uma classe muito generosa, uma única oportunidade de acertar. Isso é totalmente absurdo. Totalmente. Por isso Lênin diz que a Revolução Russa não é um acontecimento definitivo; não é a última palavra da história; não é tudo o que poderia ser feito. Não é nem mesmo a revolução mundial: é apenas e tão somente o ensaio geral da revolução mundial. Um ensaio. Vejam que Lênin poderia ser uma pessoa mais vaidosa e exaltar a revolução que ele dirigiu como sendo a coisa mais maravilhosa que já aconteceu. Mas ele era uma pessoa, nesse sentido, bastante concreta, bastante realista a ponto de dizer: “a revolução que fizemos aqui na Rússia, que teve um impacto tremendo na vida de todos, nada mais é que o ensaio geral da revolução mundial”.

Vocês vejam que a revolução burguesa teve, calculando grosso modo, no mínimo 500 anos para se desenvolver. No século XIV, a burguesia de Lisboa, de nossos patrícios e antepassados, realizava uma revolução burguesa que levou o famoso Mestre de Avis, que depois seria Dom João I, ao poder. Um rei a partir do qual irão se desenvolver as grandes navegações. Um empreendimento típico da burguesia, que só foi possível em virtude dessa revolução, que impôs uma derrota à nobreza portuguesa, aos partidários da Coroa espanhola, e deu a supremacia no poder político do País à pequena nobreza e aos comerciantes de Portugal. Isso foi em 1383. A época das revoluções burguesas termina em 1871, com a revolução da Comuna de Paris. Façam as contas, do século XIV ao século XIX. Foram 500 anos para que a burguesia conseguisse consolidar seu poder político sobre o mundo.

Já da revolução proletária, espera-se que ela conclua tudo em alguns anos. Lógico que não faz sentido esse tipo de avaliação. Nós não estamos aqui esperando que a revolução proletária demore 500 anos, mas também não esperamos que demore 15 anos. Até porque já não demorou; ela começou há 95 anos.

Quer dizer, há todo um processo político e esse é o processo de desenvolvimento de uma época revolucionária que é a revolução proletária. Não é a Revolução Russa que é a revolução proletária; a Revolução Russa é um episódio, um capítulo da revolução proletária mundial. E segundo um de seus dirigentes, seria o ensaio geral da revolução mundial. Se ela é um ensaio geral, logicamente nós temos que aprender daquilo que aconteceu naquele ensaio geral. Se estamos interessados nesse drama, nessa peça que é a revolução mundial, então nós temos que começar nos interessando pela primeira grande realização, que foi a Revolução Russa de 1917.

Uma segunda ideia que eu gostaria de colocar aqui está ligada à ideia anterior. A Revolução Russa inaugura uma nova época na história da humanidade. É muito importante que tenhamos isso claro. Não é a época do socialismo; ela inaugura a época da transição do capitalismo para o socialismo. Nós temos um período de estabilização social e temos os períodos em que a sociedade começa a mudar, que são os períodos de transição.

A Revolução Russa foi uma revolução de grandes proporções. Um terço da população mundial esteve envolvida nessa revolução e dezenas de países. Essa é uma coisa também que muita gente não leva em conta quando pensa nesse acontecimento. A Revolução Russa não foi feita em um único país, mas em um conjunto de países que fazia parte do império do czar. Em cada um desses lugares a revolução foi tomando conta; não foi tudo de uma vez e não foi somente com a tomada do poder dos bolcheviques em Petrogrado em outubro de 1917. Em alguns lugares, o processo se desenvolveu inclusive posteriormente. Com a queda da União Soviética, esses países inclusive se separaram porque já eram anteriormente países separados, como a Ucrânia ou a Geórgia. A União Soviética, que veio a se formar como resultado da revolução, era uma república federativa de vários países, não era um único país. Ela foi feita no sentido de constituir um país único, mas dela participaram vários países. Ou seja, era uma revolução de grandes proporções e marca, de maneira indiscutível, a abertura desse período de transição. Nós podemos discutir aqui, como muitos discutem, se o socialismo morreu ou não morreu, o que até debateremos na segunda palestra dessa atividade, mas uma coisa tem que ficar clara: com a Revolução Russa e com os acontecimentos posteriores, as centenas de revoluções que aconteceram depois no mundo, fica claro que o mundo entrou em uma época revolucionária e que ele continua nessa etapa, por mais que a imprensa capitalista procure apresentar tudo como uma grande estabilidade, como não havendo uma revolução. As guerras e revoluções, as catástrofes sociais que são extremamente familiares para nós, são parte do período de transição. Do período de transição da época capitalista para a época socialista. Nós estamos no meio desse período e pode acontecer muita coisa, muitas idas e vindas, pois esses períodos não são um desenvolvimento em linha reta, muito pelo contrário, mas esse processo é irreversível. Não adianta a imprensa capitalista falar que acabou o socialismo. Isso não tem a menor importância. Seria preciso reverter o período de transição, que marca uma crise profunda do capitalismo, e o capitalismo rejuvenescer, coisa que, obviamente, logicamente, é impossível de acontecer, nunca aconteceu com nada. Só acontece no mito. No mito há o rejuvenescimento, há o mito da fonte da juventude, mas no mundo real as coisas costumam crescer, amadurecer, envelhecer e morrer. O destino do capitalismo é esse e nós estamos na fase final de desenvolvimento do capitalismo, que é a etapa de transição. O período de ouro do capitalismo já passou há muito tempo. Todos os males que nós vemos vêm daí.

Uma terceira ideia que eu gostaria de colocar aqui diz respeito à importância histórica da Revolução Russa, que é algo também propositalmente ignorado. Marx, quando descreve o processo da revolução, quando descreve que a revolução é toda uma época de revolução social e não um ato único, destaca também que a revolução proletária é diferente das revoluções que aconteceram anteriormente. Isso porque essas revoluções anteriores acabaram por reestabelecer alguma forma de sociedade de classe, de sociedade contraditória dividida entre exploradores e explorados, oprimidos e opressores, entre pobres e ricos. A revolução proletária, por sua vez, não apenas acaba com o capitalismo, que é uma forma específica de sociedade contraditória, mas acaba com milhares de anos de uma sociedade dividida em classes. Ela coloca em pauta a reunificação interna dessa sociedade, abolindo essa contradição entre ricos e pobres, entre exploradores e oprimidos. A Revolução Francesa acabou com o feudalismo, que era uma forma de sociedade contraditória, dividida em classes, e deu lugar ao capitalismo, que é outra forma de sociedade contraditória dividida em classes. A revolução proletária socialista tem a tarefa não só de acabar com uma determinada forma de exploração, como de acabar com toda a exploração.

A classe operária é a última forma de classe explorada. Ela não é, como acontecia com a burguesia, uma classe potencialmente opressora e exploradora. Ao abolir a sociedade capitalista, a classe operária não se constitui como classe dominante, ela abole também a sua própria existência enquanto classe social. Então, quando falamos em revolução socialista, nós estamos falando de uma mudança social que é muito maior que a revolução burguesa ou as revoluções anteriores. É uma mudança muito mais radical na história da humanidade. Por isso Marx fala que com o capitalismo encerra-se a pré-história da humanidade, pois ele considerava que, do capitalismo para trás, não há uma verdadeira história humana, mas uma história prévia, uma história preparatória. Isso porque o grau de controle que o ser humano tem sobre a sociedade onde ele vive no capitalismo é praticamente nenhum, e o socialismo daria ao ser humano um controle consciente de sua própria sociedade. Essa é uma transformação muito profunda, é o que Engels chamou de “o salto do reino da necessidade para o reino da liberdade”.

É lógico que o homem sempre irá viver no reino da necessidade do mundo material, disso não há como escapar. As ações humanas são ações necessárias, determinadas pelo mundo material. No entanto, no que diz respeito à sua organização social, o ser humano deixaria de ser comandado e passaria ao comando da sociedade. Ele passaria de ser uma vítima da economia para comandar a economia; passaria de sofrer passivamente os efeitos de uma economia que ele não controla, para colocar a economia a serviço de toda a humanidade e assim por diante. O salto do reino da necessidade, daquela escravidão dos fatos sociais e econômicos, para o reino da liberdade, ou seja, a liberdade que o ser humano teria de controlar conscientemente a sociedade em que ele vive.

Para compreendermos bem o problema da Revolução Russa são necessárias essas explicações prévias. Que ela foi uma necessidade histórica, que ela é um marco divisório da época, que ela é um primeiro passo, um ensaio geral, e que implica em uma transformação muito maior. Esse último fato, inclusive, é importante porque temos que prever que para que o socialismo possa ser implantado, a convulsão social, a transformação social, teria que ser muito maior do que aconteceu com as revoluções burguesas. As revoluções burguesas parecerão, até parecem já hoje em dia, se olharmos bem, uma tempestade em um copo d’água perto da convulsão que é a revolução proletária, a transformação da sociedade capitalista em uma sociedade socialista, dada a profundidade da modificação que está em pauta e a complexidade da sociedade que está se criando. Levando-se em consideração tudo isso, podemos dimensionar adequadamente o problema da Revolução Russa.

Dito isso, eu gostaria de chamar a atenção de todos, porque nós não temos a possibilidade aqui de fazer um estudo detalhado da Revolução Russa, de alguns aspectos centrais do mecanismo político interno da revolução.

Primeiramente, é importante assinalarmos que a Revolução Russa em grande medida é, ao mesmo tempo, o resultado do amadurecimento das contradições internas da sociedade russa, e também o resultado do amadurecimento político dos revolucionários russos.

Uma coisa que chama a atenção na Revolução Russa é que ela foi preparada por uma longa luta política dentro da Rússia.

As primeiras manifestações da Revolução Russa são de 1825, quase cem anos antes da Revolução de 1917. Nesse período, os revolucionários foram lutando e a luta deles tinha um caráter muito claro, no sentido de definir uma teoria, uma compreensão da realidade, assimilando aquilo que seria o mais avançado da ciência social, da política revolucionária, dos países europeus próximos da Rússia.

Foram travadas inúmeras lutas e inúmeras organizações políticas se formaram e despareceram até que o movimento operário russo assimilou, como teoria, como doutrina, como ideia revolucionária, o marxismo. O que vem a acontecer já no final do século XIX.

Um dos aspectos chave da Revolução Russa é a existência de um partido capaz de fazer aquela revolução e o amadurecimento desse partido foi um processo muito longo. Muitos estudiosos falam, por exemplo, que a Revolução de Outubro foi um “golpe de mão” do Partido Bolchevique. Não foi. A Revolução Russa se desenvolveu lentamente. Ela se desenvolveu como se fossem as camadas geológicas do planeta Terra. Houve muitos tropeços, muitos erros, organizações que foram destruídas pela repressão, ideias erradas que foram sendo substituídas, até que se chegasse em uma organização política da envergadura do Partido Bolchevique.

Quando encontramos uma personalidade como Lênin, que é, sem dúvida nenhuma, uma das maiores personalidades políticas que o mundo já viu até hoje, ficamos até dominados por um sentimento supersticioso. De onde teria surgido uma pessoa com tal capacidade? Mas não há nada de sobrenatural. Ele é o desenvolvimento de quase cem anos de luta.

Quando Lênin começa a militar, ele tinha tido a possibilidade naquele momento de estudar todos os processos revolucionários, todas as teorias revolucionárias; em certo sentido, a Rússia havia sido um laboratório da revolução. Tudo havia sido testado. Havia sido testado o trabalho para conscientizar os camponeses, os atentados terroristas dos populistas organizados contra dois czares. Havia sido testado o trabalho clandestino, o trabalho de imprensa legal, tudo já havia sido feito em algum sentido. Lênin é o homem que irá recolher de maneira mais consciente, de maneira mais coerente, essa experiência extremamente vagarosa, extremamente longa da Revolução Russa na sua luta para construir o Partido Bolchevique. Sem a formação desse partido, logicamente, não seria possível a Revolução Russa.

Só quando a classe operária russa, através desse processo de evolução, se coloca sob a liderança desse partido, é que ela se unifica como classe, é que ela se transforma em um ator unitário e consciente da Revolução.

Esse é um aspecto chave do problema, que é importante discutir, principalmente hoje, no Brasil, quando a crise política dos últimos anos, com a esquerda, principalmente com o PT e com o stalinismo também, deu lugar a uma ampla difusão de ideias anarquistas as mais variadas possíveis. No centro dessas ideias anarquistas existe a rejeição à constituição de um partido político.

Essa ideia é equivalente à ideia de que a pessoa vai participar de um tiroteio sem um revólver. É uma ideia sem sentido, porque a revolução proletária necessita da agregação de toda a classe operária detrás de um programa único de classe e isso não pode ser feito espontaneamente; só pode ser feito por meio de um determinado partido político operário, revolucionário, socialista. É uma tarefa central no mundo hoje e é a grande contradição que o mundo enfrenta.

O próprio Leon Trótski, muitos anos depois da Revolução Russa, coloca no programa de transição a ideia de que a contradição fundamental da época atual é a contradição entre as premissas objetivas da revolução, que estão tão maduras que já começam até a apodrecer, segundo ele diz, e a imaturidade subjetiva da classe operária, que se expressa na falta de um partido político.

O grande segredo da revolução é a constituição desse partido político e esse partido político, conforme estamos vendo, que foi tão fundamental na Revolução Russa, não é um aglomerado circunstancial, casual, ocasional de pessoas, mas é o amadurecimento de uma determinada ideia revolucionária; é o agrupamento da classe operária detrás de seu próprio programa de classe. É a evolução da classe operária para ter consciência de seus objetivos sociais e políticos. É um processo social complexo, por isso é que não ocorre também tão facilmente.

Não basta que nós proclamemos a necessidade de um partido operário e agrupemos pessoas para que esse partido operário exista. O partido precisa ter um programa que se torne o programa objetivo, prático da classe operária em luta. Sem esse processo não é possível fazer a revolução. Nós poderíamos dizer inclusive que esse processo é a própria essência do mecanismo revolucionário. Nós podemos dizer que dadas as condições materiais para a revolução, a revolução consiste no processo de agrupamento da classe operária detrás de um programa que expressa a evolução da sua consciência em um sentido revolucionário. Quando acontece essa evolução, nós temos a revolução. A revolução é a própria classe operária, é o processo de desenvolvimento da classe operária. Isto em um aspecto muito essencial.

A primeira questão que surge da Revolução Russa é justamente o problema do partido. O Partido Bolchevique desempenhou um papel fundamental. Eu gostaria de chamar a atenção para algumas etapas e para alguns mecanismos que são peculiares justamente da relação entre o partido e a massa de trabalhadores.

Quando a Revolução Russa acontece, Lênin, que está no exílio, manda um telegrama para os militantes bolcheviques que chegaram na capital, no qual ele diz: “Nenhuma confiança no governo provisório, temos que lutar pelo poder dos sovietes” etc. e traça uma linha que, vendo as coisas retrospectivamente, parece óbvia, mas na realidade não era, porque ninguém defendia aquele programa naquele momento. É na realidade uma mudança, se não de 180º, de 90º na política do partido. E ela só vai ser adotada através de uma crise no partido bolchevique. O problema é que se ela não fosse adotada, o que aconteceria? Qual era o panorama da revolução dentro do qual o partido atuava?

Toda a esquerda russa, toda ela praticamente, era favorável a defender o poder da burguesia, o que seria mais ou menos a política do PT, mas em uma situação revolucionária. O único partido que desafiou esse senso comum da época foi o Partido Bolchevique. Como ele desafiou esse senso comum, através de uma luta que vai de fevereiro até outubro, ele serviu como uma espécie de ponto de aglutinação das massas que se desenvolviam rapidamente no sentido de rejeitar o acordo com a burguesia, ou das massas que, já tendo rejeitado essa aliança com a burguesia, precisavam se organizar de uma tal maneira que permitisse que essa compreensão da rejeição da política da burguesia se transformasse em uma política prática e ativa para a tomada do poder. Essa política foi organizada pelo Partido Bolchevique. Quem conduziu em todos os momentos o desenvolvimento dessa luta, clareando o caminho, especificando, fazendo propostas que permitiam um avanço, foi o Partido Bolchevique. Sem esse partido, a revolução seria estrangulada por uma série de mecanismos demagogicamente democráticos ou pseudodemocráticos. Ou, também, como esteve para acontecer, por um golpe de Estado. Quem bloqueou todas essas variantes e colocou a revolução no sentido da tomada do poder foi o Partido Bolchevique. O partido político cumpre um papel fundamental e essa é uma das grandes lições da Revolução Russa.

Trótski, na História da Revolução Russa, analisa justamente esse papel do Partido Bolchevique. Ele diz que a revolução é como uma caldeira a vapor. As massas revolucionárias seriam uma fonte de energia, de força extraordinariamente grande como é o vapor, mas o vapor não é uma força em si. Ele precisa ser canalizado, para que se crie aquela pressão, e depois nós precisamos de determinados mecanismos que vão soltando a pressão em um sentido funcional para que ela possa ser usada para movimentar outra parte daquela engrenagem. Sem essa válvula de pressão o vapor não é uma força. Ele então se dispersa. Então ele fala: “o Partido operário é essa válvula de pressão”. Mas onde essa força se concentra e adquire um determinado direcionamento prático? Através do partido político. Ou seja, não dá para a classe operária, sem um partido, organizar essa força, é preciso que isso seja canalizado para um mecanismo que tenha uma válvula, que regula e que dá vazão a essa pressão e que a torna um fator efetivo no funcionamento daquele mecanismo. Essa é uma questão chave.

Uma segunda questão muito importante é o problema da independência política da classe operária. No Brasil nós vivemos esse problema de forma intensa. Toda a política brasileira nos últimos 30 ou 35 anos gira em torno do problema da independência da classe operária diante da burguesia. A classe operária, mesmo que não saiba, e também a juventude, esbarram nesse problema de que as organizações políticas brasileiras atrelaram todo mundo à burguesia e ninguém sabe como sair. Foi o que aconteceu recentemente nas eleições em São Paulo. A maioria da população gostaria de derrubar o governo Serra, se eles soubessem como, se tivessem os meios, derrubariam o governo até mesmo por fora das eleições. Mas isso ainda não está claro como se faz, como se chega nesse resultado, então a população foi para as eleições. Nas eleições se apresentaram vários partidos e esses partidos criaram um mecanismo no qual finalmente a população foi sendo envolvida, como se fosse um teatro onde se movimentam os cenários, e foi por fim colocada a seguinte questão: Serra, Haddad ou voto nulo? Serra teve uma votação insignificante, votação essa que em grande medida é produto do clientelismo da prefeitura e do apoio de um setor ultraminoritário e conservador da burguesia e da pequena-burguesia da cidade. A maioria das pessoas, inclusive que não gostam do PT, votou no PT porque não queria que Serra ganhasse e uma outra parcela, que não tolerava mais votar no PT, votou nulo. Mas o fato é que a população teve que trocar Serra, um representante da burguesia, por Haddad, que é um outro representante da burguesia. É como se nós tivéssemos entrado num buraco e saíssemos no mesmo lugar por onde entramos.

Tudo bem que a vitória de Haddad tem um significado um pouco diferente, porque finalmente quem votou nele é porque não aguentava mais a direita, o PSDB. Quem votou nele queria se livrar de José Serra e, portanto, não vai aceitar que o Haddad imponha a mesma política do PSDB, o que vai gerar uma enorme crise. Mas, enfim, do ponto de vista político é isso. Os trabalhadores, os intelectuais, a juventude, criaram um partido de trabalhadores que acaba sendo também um partido da burguesia. É como se tudo que você fizesse caísse no mesmo lugar.

Por exemplo, eu cheguei a participar da fundação do PT. Em Diadema, nós passávamos de porta em porta para legalizar o PT. Naquele momento, o que a população queria era se livrar do Arena e do MDB, por isso íamos de porta em porta para apresentar o PT e filiar pessoas. Agora, em 2012, perguntamos: quem é o vice de Dilma, do PT? É o PMDB, ou seja, é o mesmo partido de que nós queríamos nos livrar. Esse problema é chave: como constituir um partido que seja efetivamente o partido de todas aquelas pessoas que decidiram se opor a todos os partidos e políticos da burguesia?

Outro exemplo é a criação do Psol, que foi realizada depois da decepção com a subida do PT ao governo. Mas o que aconteceu? O Psol fez exatamente a mesma política. Nas últimas eleições, fizeram aliança com o DEM, o PP, o PSDB, PSC, PT, PCdoB, produzem uma enorme confusão política. Isso não significa que seja um defeito moral de ninguém, ou de nenhuma organização política, mas o fato é que esse é um processo chave na transformação social. Essa transformação só poderá ocorrer quando os trabalhadores, a juventude de esquerda, chegarem à conclusão, através de sua própria experiência, de que eles não devem ficar a reboque da burguesia. Mais ainda – pois essa conclusão muitos deles já tiraram –, quando chegarem à conclusão de como é que se faz para não ficar a reboque da burguesia, porque esse exemplo do PT também é um exemplo de pessoas que decidiram não ficar a reboque da burguesia mas acabaram ficando de qualquer maneira. Então é preciso que a classe operária evolua através de sua própria experiência, massivamente, para se separar totalmente da burguesia, entendendo como é que se faz para se separar totalmente da burguesia. Só assim teremos um desenvolvimento verdadeiramente revolucionário.

Na Revolução Russa, esse processo, que no Brasil já dura mais de 35 anos, acontece como se fosse um filme em alta velocidade. Isso porque uma característica da revolução é que ela concentra os problemas de uma maneira extraordinária. Aquilo que demora 10 anos para acontecer em tempos não revolucionários, na revolução acontece em uma semana. A experiência das massas é muito mais aguda porque as contradições são muito mais agudas.

Então os trabalhadores russos que fazem a revolução, pelas coordenadas políticas que se colocam na revolução e pela ação do Partido Bolchevique, passam a entender de que lado está a burguesia e de que lado está a classe operária, e o que é preciso fazer para se livrar da burguesia.

O Partido Bolchevique compreende as contradições da política burguesa logo num primeiro momento. Lênin fala que a primeira revolução russa, em fevereiro, é uma revolução na qual as expectativas estão confusas porque é feita pela classe operária e pela burguesia para derrubar o Czar. Porém, os objetivos da burguesia e dos trabalhadores são diferentes e eles são contraditórios uns com os outros, e por isso Lênin conclui que é inevitável uma segunda revolução.

Lênin identifica quais são as contradições. Uma delas é a continuidade da guerra, que interessa à burguesia e não à classe operária. Há o problema do desabastecimento, que se tornava cada vez mais grave na Rússia, que estava lançando a classe operária à miséria. Por fim, havia a questão da terra dos camponeses. Os bolcheviques lançam então um programa básico com as palavras de ordem de “Paz, Pão e Terra”. Esse programa expressa a linha de clivagem, de ruptura, entre a burguesia e o proletariado, e os bolcheviques fazem propaganda nessa linha.

Enquanto os partidos da esquerda pequeno-burguesa procuram levar o proletariado a apoiar a burguesia, a guerra, e procuram confundir os operários com uma série de ideias enganosas, os bolcheviques denunciam a todo o tempo esses golpes.

Na medida em que são feitas manobras para iludir o proletariado, os bolcheviques vão intervir e esclarecer que de um lado está a burguesia e de outro a classe operária, e que esse é o aspecto chave da revolução.

Em um dado momento, eles lançam uma palavra de ordem que foi um desafio para os partidos da esquerda pequeno-burguesa, para que eles assumissem todo o poder político e expulsassem a burguesia do poder. Vejam que os bolcheviques não pedem para si o poder num primeiro momento; eles propõem o poder para os partidos da esquerda pequeno-burguesa, que na Rússia seriam o PT, o Psol etc. No entanto, esses partidos rejeitam romper com a burguesia e vão caindo em descrédito com as massas. As massas observam a conduta desses grupos em não querer romper, e começa a crescer a deterioração da autoridade desses partidos sobre as massas.

Em um determinado momento, as massas saem às ruas para obrigar essas lideranças a romper, porém percebem que isso não iria acontecer. Há um enfrentamento e então as massas percebem que é necessário romper também com esses partidos.

No livro do John Reed, um jornalista norte-americano que também era comunista, esse problema está muito bem retratado de uma maneira simples. Em dado momento ele descreve uma cena entre um operário, um camponês, pessoas simples da Guarda Vermelha, que estão parados em frente a um prédio, quando chega um estudante pequeno-burguês, que insulta os operários e afirma que eles não sabem nada, que são ignorantes etc. Um dos trabalhadores, embora intimidado, reconhecendo que o estudante é uma pessoa mais instruída diz: “Uma coisa nós sabemos, de um lado está a classe operária, do outro a burguesia, e quem não está com um, está com o outro”. Então o estudante começa a ficar irritado e acusa os soldados de terem participado da repressão contra uma determinada manifestação há vários anos. Os operários então reconhecem novamente a autoridade do estudante, mas voltam a afirmar: “Uma coisa nós sabemos, de um lado está a classe operária do outro a burguesia, e quem não está com um está com o outro”. Ou seja, esse fato simbólico, embora seja real, demonstra que as massas haviam compreendido, mesmo entre os setores mais pobres, que havia uma verdadeira guerra civil entre a classe operária e a burguesia, e esse era um problema chave. Para eles, quem não estava com o proletariado estava com a burguesia e nada mais.

Por aí dá para termos uma ideia de como se processa a compreensão. Não é que aqueles dois milicianos da Guarda Vermelha tinham uma consciência profunda dos problemas da luta social, mas eles tinham uma compreensão prática, concreta do que estava acontecendo, que é o que a maioria dos trabalhadores tem dos problemas, dos interesses em jogo etc. Eles não são cientistas sociais, nem especialistas em política. Esse problema foi chave. A Revolução de Outubro aconteceu quando toda a classe operária e o campesinato começam a romper com a burguesia depois de uma campanha gigantesca dos bolcheviques. Esses são problemas fundamentais de todo o desenvolvimento da revolução e nós podemos dizer ainda que esse é o problema mais central também de seu desenvolvimento prévio.

Finalmente, há uma terceira questão, que é o problema da insurreição. Hoje em dia, a Revolução Russa é tratada como um fenômeno dado. Isso pode induzir a uma incompreensão do que acontecia na época. Naquele momento, a ideia de que um partido poderia conduzir à tomada do poder organizando conscientemente uma insurreição era uma ideia que não passava pela cabeça de ninguém.

Os grandes dirigentes da socialdemocracia da época acusaram os bolcheviques, depois da insurreição, de “blanquismo”, que foi uma corrente política francesa, de um grande revolucionário chamado Blanqui, que era um especialista da luta de barricada e da insurreição. Ele participou de várias insurreições em Paris, antes e depois da revolução de 1830. Blanqui ficou preso dezenas de anos pela burguesia francesa e mesmo quando os revolucionários da Comuna de Paris propuseram trocar ele por mais de 200 prisioneiros políticos, incluindo o bispo da cidade, a burguesia negou a proposta. O blanquismo, portanto, era mal visto porque subentendia-se que era uma tática equivocada. A socialdemocracia, ao contrário, estava há muito tempo comprometida pela política eleitoral, esquecendo o problema da revolução. Para eles, a revolução era um movimento geral das massas, um movimento de opinião, mas não um movimento de força.

Os bolcheviques foram os únicos que levantaram esse problema, de que somente uma revolução, com a utilização da força, com a tomada do poder, poderia conduzir a classe operária à vitória. Isso vai se tornar um divisor de águas entre aqueles que apoiam a tomada do poder pela força, dos que acham que não há outro caminho; e de outros que defendem a ideia da democracia, que em última instância significa que ninguém nunca tomará o poder.

Em certo sentido, a esquerda brasileira se apoia na ideia de que tem que haver eleições. Não há a ideia de que as eleições são a forma natural de perpetuação do domínio da burguesia sobre a sociedade e que para a sociedade se liberte, constitua um governo operário, passe para o socialismo, é preciso uma revolução. Não só uma revolução espontânea, mas efetivamente a tomada consciente do poder pelos revolucionários organizados. Isso implica em uma grande distinção dos métodos de ação.

Os revolucionários podem participar das eleições. Os revolucionários podem e devem participar da organização de sindicatos, associações e outros. Mas para quê? Qual o sentido dessa ação? O sentido dessa ação tem de ser organizar a classe operária para que, no momento em que a situação transbordar, no momento em que se colocar o problema da revolução, exista uma força capaz de levar a classe operária efetivamente ao poder. Sem o poder político da classe operária, essa seria a quarta conclusão, não é possível nenhuma transformação social efetiva.

No Brasil, por exemplo, hoje em dia muitos acham que com o governo do PT, do Psol, ou com um governo qualquer, é possível fazer transformações sociais. Talvez não todas, talvez algumas ficassem de fora, mas que daria para transformar bastante coisa. Isso é uma ilusão, uma fantasia. Não é possível transformar nada, é preciso desmantelar o mecanismo político que mantém a exploração social para que a exploração social possa ser atacada. Se alguém for atacar a exploração social sem desmantelar esse mecanismo político, vai se defrontar com uma barreira insuperável. Toda tentativa de fazer transformações por dentro desse mecanismo político está fadada ao mais completo fracasso. Nós temos aí três mandatos do PT para ver. Não foi feito nada. Se conversarmos com alguém do PT, a única coisa que ele dirá é que distribuíram o Bolsa Família. Menos do que isso também, seria demais. Até a ONU é a favor da Bolsa Família. A ONU é dirigida pelo imperialismo, pelos bancos internacionais. Se um governo de esquerda não é a favor de dar comida para quem está passando fome, do que ele seria a favor? Já quanto à reforma agrária, que significaria uma modificação real na relação real entre o capital e o trabalho, nada. Uma modificação real na situação da mulher, do negro, do índio, de todos os setores oprimidos da sociedade, nada. Uma transformação, por mínima que fosse, no sistema educacional, que está totalmente falido em todas as esferas, também não acontece. Não há nenhum projeto nesse sentido. Desenvolveram até o paroxismo o ensino pago, que é um grande ônus para a população. Esse é um exemplo prático que os brasileiros estão experimentando.

Na Revolução Russa, a população fez uma experiência com um governo pseudodemocrático rapidamente, porque as questões estavam colocadas de uma maneira muito acesa. Aqui no Brasil, não. Aqui as coisas vão se desenvolvendo lentamente.

Alguém poderia argumentar: “será que tal medida não representa uma mudança?”. No final do processo veremos que não só a situação não melhorou em nada, como se deteriorou, igual aconteceu no governo Sarney, Collor, FHC e segue ladeira abaixo.

 

 

A REVOLUÇÃO NA GRÉCIA TRAÍDA PELO STALINISMO

Júlio Santos –

 

A guerra civil grega transcorreu entre os anos de 1944 e 1949, logo após o término da Segunda Guerra Mundial, em duas etapas.

A maioria dos historiadores analisa este episódio inspirada pelo senso comum pseudo intelectual da luta entre o capitalismo e o comunismo, ou seja, a luta entre o bem o mal, entre a democracia e o totalitarismo, sendo que na verdade se tratou de uma luta entre a burguesia e a classe operária, resultante da luta contra o nazismo que durante a guerra passou a dominar o Estado Grego.

Afirmam ser este o primeiro conflito armado na chamada Guerra Fria e a primeira “insurreição comunista” após a guerra. Porém, o que passam longe de explicar e de entender é justamente o processo histórico da evolução das massas que levou à guerra civil grega e a derrota da revolução proletária pelo imperialismo com a cumplicidade da burocracia stalinista, neste caso específico, por orientação do próprio Stálin, ou seja, o exato oposto da mitologia da guerra fria.

A vitória das forças reacionárias do governo levou a Grécia a ingressar na OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e consolidar o país como um ponto de equilíbrio da contrarrevolução nos Bálcãs e na Europa pós-guerra.

 

Antecedentes

 

No período que vai de 1915 até a Segunda Guerra Mundial, a sociedade grega sofreu profundas transformações derivadas de uma longa crise política, econômica e social influenciada pela ingerência das potências imperialistas apoiadas na repressão ao movimento de massas imposta por um regime fascista monárquico que rapidamente levou o país a uma situação revolucionária sem precedentes.??A Primeira Guerra Mundial havia assestado um duro golpe ao capitalismo mundial, iniciado o processo de liquidação do império britânico e francês e derrubado quatro impérios (russo, alemão, austro-húngaro e otomano), catapultando toda a Europa para um movimento revolucionário jamais visto pela humanidade.

A Revolução Russa de 1917 foi a ponta de lança da revolução proletária mundial. Na Alemanha, a maior revolução que a humanidade já vira só pôde ser derrotada com a traição da social-democracia e o assassinato de todos os seus líderes, como Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo.

Nos Bálcãs, não por acaso palco da eclosão da Primeira Guerra Mundial, a situação não era diferente.

Acabada a Segunda Guerra, o imperialismo se via novamente diante de uma revolução mundial.

 

A independência da Grécia

 

A Grécia é um país independente desde 1832, fruto da guerra pela soberania nacional ocorrida entre 1821 e 1839 contra a dominação turca otomana, o primeiro a conquistar status de independência frente ao Império turco após mais de quatro séculos ocupado.

O crescimento do nacionalismo revolucionário na Europa e as revoluções burguesas entre os séculos XVIII e XIX influenciaram sensivelmente a Grécia, em especial a Revolução Francesa.??As primeiras manifestações da luta grega por sua independência neste período formaram-se no interior das etnias klefte e armatola. Ambos os grupos tiveram uma importância crucial para a revolução grega. Após a Grécia ser tomada pelos otomanos, muito do que restou das tropas gregas se marginalizou. Eram em geral homens que recusavam submissão ao Império e desejavam preservar sua identidade cultural e religiosa cristã-ortodoxa.??Estes sobreviventes partiram para as montanhas, onde formaram milícias independentes. Ambos os grupos se insurgiram em armas contra a ocupação estrangeira.??Em 1814, inspirados pelo grupo revolucionário italiano Carbonários, comerciantes gregos fundaram a Filiki Eteria (Sociedade dos Amigos), que logo teve apoio dos outros impérios para derrubar Constantinopla e restaurar o antigo Império Bizantino. Enquanto o Império Otomano mantinha um custoso conflito contra a Pérsia, as Grandes Potências da época – Inglaterra, Rússia e França – preocupavam-se com as revoluções na Itália e na Espanha. Os gregos se aproveitaram dessa situação para iniciar sua revolta.??A revolução ganhou fácil apoio entre intelectuais e aristocratas na Europa atraídos pela forte influência cultural grega do período clássico. Personagem dos mais importantes neste meio foi o poeta romântico inglês Lord Byron, que não só contribuiu financeiramente com a revolução como pegou em armas, formou um exército próprio e se juntou aos revolucionários. Além dele, o historiador escocês Thomas Gordon escreveu as primeiras histórias da revolução grega como testemunha ocular e militante revolucionário.??Não foi difícil para a Grécia conseguir o reconhecimento das grandes potências coloniais europeias. Os britânicos, após as massas estarem controladas, apoiaram a revolução de 1823 com o intuito de derrubar os otomanos, mas os russos acompanhavam de perto os interesses dos ingleses. Por isso a revolução, apesar da vitória sobre os otomanos, via-se no meio das disputas entre britânicos, russos e franceses. Nascia então entre os gregos a chamada Grande Ideia, que pretendia unificar todos os gregos numa única nação independente. No entanto, a incipiente burguesia grega mostrava-se incapaz de realmente tornar o país independente e resolver as contradições que, desde o século anterior, vinham impulsionando a revolução e continuariam a fazê-lo pelo futuro.

 

Uma colcha de retalhos

 

A Grécia está situada em meio a uma verdadeira colcha de retalhos. A península dos Bálcãs é um dos centros de disputa de antigos e novos impérios que até hoje continua sendo palco de guerras, divisões e revoluções. Povos eslavos, gregos, albaneses, romenos, búlgaros, turcos e sérvios foram, durante décadas, vítimas das disputas pelos territórios remanescentes do colapso do império turco. Estas disputas, ao invés de diminuir, acentuaram-se com o aparecimento dos grandes estados imperialistas da Europa Central e do Mediterrâneo: Alemanha, Áustria e Itália que passaram a disputar a região com o imperialismo inglês e francês.??Em 1912, a Liga Balcânica, inspirada pelo imperialismo foi criada para gerenciar estes países que estavam à deriva, resultando no Tratado de Londres, que reconfigurou o mapa político dos Bálcãs. Mas, pouco tempo depois, a Bulgária e a Romênia estiveram envolvidas em novos conflitos em razão da falta de um acordo.??Em agosto de 1913, foi assinado o Tratado de Bucareste, no qual Grécia e Sérvia dividiram a Macedônia. A Romênia ficou com parte da Bulgária e a Albânia se tornou um Estado independente muçulmano. Já a Sérvia, formada na época por sérvios, croatas e eslovenos, se tornou uma ameaça para a Áustria-Hungria.??O estopim desta escalada se deu com o assassinato do herdeiro do trono austro-húngaro, Francisco Ferdinando, em Sarajevo. Este fato foi o estopim para a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914.

Na Segunda Guerra Mundial, a península se dividiu entre os Aliados e o Eixo. Eslovênia, Croácia, Bulgária e Albânia apoiaram a Alemanha de Hitler, enquanto que Grécia e Sérvia apoiaram o outro bloco imperialista capitaneado por Inglaterra e França, com o apoio dos EUA.?Em 1941, a Alemanha invade a Iugoslávia e forma um governo croata-fascista, mas esta ação é contida por uma forte oposição da Sérvia – apoiada pela União Soviética – que resiste ao nazismo e derrota os alemães com o apoio dos aliados.??A Iugoslávia é unificada pela revolução dirigida pelo Exército do marechal Iosip Broz Tito, líder do Partido Comunista, fiel aliado de Stálin até 1948, quando rompe com Moscou.

A morte de Tito em 1980 e a desintegração da União Soviética dez anos depois, despertariam nos anos 90 os conflitos mais sangrentos na Europa desde a Segunda Guerra.??Esta mudança política abriu as portas para o imperialismo aprofundar os seus interesses na região, mas acima de tudo para conter uma revolução em marcha.

 

A guerra civil

 

O domínio do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) sobre os Bálcãs durante a Segunda Guerra Mundial fez nascer uma enorme resistência grega contra a ocupação. A resistência era dirigida fundamentalmente pela Frente Nacional de Libertação (EAM, na sigla em grego) e seu braço armado, o Exército Nacional Popular de Libertação (ELAS), ambos controlados pelo Partido Comunista da Grécia (KKE), orientado pela União Soviética.

Da mesma forma que a resistência iugoslava, dirigida por Tito, havia se transformado em um movimento revolucionário de massas que crescia e se radicalizava à medida que a ocupação nazista desabava, a resistência grega tinha a mesma envergadura e possibilidades de vitória.??Do outro lado, em completa inferioridade, encontravam-se as forças monárquicas e conservadoras apoiadas e financiadas pelo imperialismo britânico dirigido pelo ultra-conservador Winston Churchill.

O ELAM-ELAS formou um governo próprio, colocando em questão o governo exilado na Inglaterra, liderado pelo rei George II.

Stálin, que contava com a confiança do imperialismo e agindo no marco dos acordos realizados com este em Teerã e Potsdam, durante a guerra, orienta o Partido Comunista grego a formar um governo de unidade nacional presidido pelo liberal burguês Georgios Papandreu, homem de confiança do imperialismo. O novo governo é, no entanto, incapaz de conter a revolução, a despeito dos esforços dos stalinistas de manter um governo de frente popular que contivesse as massas no marco do capitalismo e do Estado burguês.

Em dezembro de 1944 irrompe pelas ruas de Atenas uma greve geral operária que logo se transforma em insurreição. Os combates de Atenas duram cinco semanas.??Churchill e o imperialismo britânico compreendem que a política de colaboração de classes havia fracassado e que a única solução para conter a revolução seria esmagá-la pela força das armas. Stálin frearia a resistência por dentro e Churchill a esmagaria pela força armada.

Para derrubar o poder instituído pelo Exército Nacional Popular de Libertação, que controlava praticamente todo o país, exceto a Salônica e Atenas era necessária a intervenção direta das forças britânicas na guerra civil.??A verdadeira relação entre o imperialismo e a burocracia stalinista contrarrevolucionária neste episódio fundamental do período imediato após a guerra é dada pelo próprio primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, que escreve para o ministro das relações exteriores do imperialismo britânico Anthony Eden: “dado o alto preço que pagamos para a Rússia para ter as mãos livres na Grécia, não devemos vacilar no emprego de tropas britânicas para sustentar o governo real de Papandreu (…) Antevejo o choque com o EAM e não devemos evitá-lo, com a condição de escolher bem o nosso terreno” (citado por Fernando Claudín, em A crise do movimento comunista).

A resistência é, de fato, enfrentada com extrema violência pelos britânicos, inclusive com o uso de bombardeiros, com Stálin como observador passivo diante do massacre realizado pelo imperialismo.??Apesar da ampla demonstração de força e da violência usada contra a população grega, a vitória britânica é precária. Somente poderia ser consolidada com a ajuda de Stálin.??O próprio Winston Churchill foi até a Grécia para intervir pessoalmente e promover um acordo de unidade nacional entre monarquistas e comunistas. No mesmo sentido, Stálin pressionava para que o ELAS aceitasse uma trégua, culminando no Pacto de Varkiza em fevereiro de 1945, mediado pela Igreja Católica, apoiadora de Hitler e Mussolini, na pessoa do arcebispo Damaskinos. Segundo o próprio EAM declarou posteriormente, o acordo “foi um compromisso inaceitável e, de fato, uma capitulação ante os imperialistas ingleses e a reação grega” (idem).??O acordo previa uma série de medidas democráticas, anistia para prisioneiros políticos e a realização de eleições sob a supervisão do imperialismo para distender a situação.

Para completar o quadro da completa traição da burocracia stalinista à revolução grega, Churchill declara, quando as tropas britânicas entram em Atenas em uma reunião com o chefes da resistência que “os britânicos chegaram à Grécia com a aprovação do presidente Roosevelt e do Marechal Stálin” (idem), o que foi confirmado pelo chefe da missão militar russa.

A capitulação, no entanto, não poupou a classe operária e as massas populares gregas da repressão: “Dois dias depois, suspensas as negociações entre a Resistência e o governo monárquico, enquanto os aviões ingleses metralhavam a população ateniense o governo soviético nomeava um embaixador junto ao governo monárquico grego. E na conferência de Ialta, mal terminado o combate entre os intervencionistas e os resistentes, Stálin declarava: ‘confio na política do governo britânico na Grécia’” (idem).

 

Reabertura da guerra civil

 

No dia 1º de setembro de 1946, um plebiscito manipulado estabeleceu a restauração da monarquia e a volta de George II.

Diante da iminência de uma revolução que passasse por fora das rédeas do stalinismo e da burguesia imperialista, o acordo de coalizão estava longe de se tornar realidade. Diante do caráter cada vez mais reacionário do governo, os stalinistas gregos e outros grupos armados prepararam um novo levante contra a monarquia, eclodindo em maio de 1946, apesar do freio da burocracia stalinista.

A efetividade da guerrilha e sua expansão por todo o país puseram em evidência a fragilidade do Exército real e sua completa dependência do apoio britânico e dos EUA.??Sob a direção de Markos Vafiadis, as forças do KKE estabeleceram um governo autônomo na cidade de Konitsa, na região de Épiro.

O Reino Unido, tradicional defensor da monarquia grega, ultrapassado na sua capacidade contrarrevolucionária, convocou a ajuda do imperialismo norte-americano para que este assumisse uma posição ativa.??Em 1949, a ofensiva das forças monárquicas na Macedônia e em Épiro, até então controlada pelo braço armado do Partido Comunista, levou ao fim da guerra em outubro do mesmo ano. A vitória das tropas do rei Paulo I, que em 1947 havia sucedido seu irmão George II, encerraram o longo período revolucionário e de guerra civil que se seguiu à débâcle do imperialismo alemão na Grécia.??Durante o conflito, os países vizinhos aproveitaram para reivindicar seus interesses territoriais sobre a Grécia. Muitos membros do ELAS eram eslavos-macedônios e, com a ajuda do líder iugoslavo Tito, que pretendia anexar a Macedônia grega, acabaram fundando o SNOF (Frente de Libertação da Macedônia), em 1944. Posteriormente, o ELAS e o SNOF se enfrentaram por diferenças políticas e romperam a aliança.

 

Um instantâneo da política contrarrevolucionária de Stálin no período pós-guerra

 

Esta política de traição da revolução da parte da burocracia sob as ordens de Stálin, esteve muito longe de ser um caso isolado.

A burocracia russa tentou a mesma manobra traiçoeira na Iugoslávia e na China e fracassou. Teve, no entanto, êxito em atrelar a resistência operária e popular na Itália e na França à burguesia local sob o comando dos imperialismos britânico, francês e norte-americano.??A ocupação militar nos países do Leste da Europa e na Alemanha teve como uma das funções centrais desarmar e bloquear a mobilização revolucionária das massas em inúmeros países onde o regime político burguês entrou em colapso após a debandada alemã e preservar ali o capitalismo, objetivo que acabou por fracassar.

Os acordos de divisão do mundo entre a URSS e o imperialismo anglo-americano, em Teerã, Potsdam e Ialta tornaram insignificante por comparação o pesado acordo de Versalhes que sucedeu a I Guerra Mundial, indo ao extremo de dividir a Alemanha entre as potências vencedoras ou mesmo os tratados da Conferência de Viena após a queda de Napoleão.

Apesar deste acordo contrarrevolucionário, o imperialismo demorou ainda três anos para recolocar em movimento a economia capitalista na Europa a partir de 1848, com o Plano Marshall e somente o fez sob a ameaça de uma nova explosão revolucionária.??A recuperação capitalista na Europa e, por conseguinte, no mundo, não teria sido possível sem a atuação contrarrevolucionária do stalinismo e, logicamente, dos partidos socialistas e dos partidos “democráticos” do imperialismo com os exércitos contrarrevolucionários. Nestes episódios, que a historiografia burguesa e os ideólogos de direita e de esquerda da burguesia falsificam até o desespero, repousa o mito da capacidade permanente de recuperação do capitalismo.

ERNESTO “CHE” GUEVARA E A REVOLUÇÃO CUBANA

 

Um grupo de pesquisadores cubanos e argentinos confirmou a descoberta da ossada do líder guerrilheiro Ernesto “Che” Guevara, enterrada em uma vala comum na cidade boliviana de Vallegrande junto aos restos mortais de outros seis combatentes da guerrilha, próximo ao local onde foram capturados e mortos pela CIA e pelas forças de repressão da ditadura Barrientos na Bolívia. O fato coincidiu com o aniversário de 30 anos de seu assassinato e tem dado lugar a um verdadeiro processo de canonização do dirigente da Revolução Cubana de 1959.

Chama a atenção, embora não surpreenda, a insistência dos meios de comunicação em destacar a grande popularidade de “Che” entre a juventude de todo o mundo, não em geral, mas particularmente o caráter mais despolitizado desta popularidade. Guevara teria se transformado em mais um logotipo, sem qualquer significado, para o consumo transitório de uma juventude ávida de novidades.

A campanha “a favor” do “Che” contrasta tanto com a situação política atual, onde qualquer manifestação de insubmissão – particularmente as armadas – são reprimidas com uma selvageria sem precedentes, como vimos recentemente no caso dos integrantes do agrupamento peruano Tupac-Amaru, que foram literalmente executados pelo governo de Fujimori, como com o silêncio sobre a participação do imperialismo norte-americano no seu assassinato a sangue-frio no interior boliviano depois de ferido, desarmado e capturado pelas forças de repressão há 30 anos.

O papel de Guevara na história merece ser analisado pela denúncia que representa o seu sacrifício na luta contra o imperialismo, o seu combate até certo ponto pela expansão internacional da revolução e o seu idealismo e desprendimento dos privilégios e das benesses materiais tão característicos das burocracias cubana, soviética e dos demais estados do leste europeu, posições estas tão contrastantes com as de uma expressiva parcela da esquerda latino-americana e dos países atrasados, que cada vez mais transforma-se em pilar de sustentação do imperialismo em seus países (PT no Brasil, FSLN na Nicarágua etc.). A canonização de “Che” pela imprensa burguesa procura colocar um enfeite na guinada pró-imperialista de boa parte da pequena-burguesia dos países atrasados.

Mais importante que tudo, o papel político do líder guerrilheiro deve ser avaliado sobretudo com olhar crítico frente aos seus brutais erros políticos, que contribuíram para desencaminhar toda uma geração de militantes latino-americanos que ingressaram no caminho desastroso da guerrilha nas décadas de 60 e 70.

 

Cuba e o domínio espanhol

 

Do ponto de vista prático, a atividade política de Ernesto “Che” Guevara começa com sua participação no processo que resultou na Revolução Cubana de 1959, iniciado efetivamente com a partida do iate Granma do porto de Tuxpan no México, de onde 82 homens liderados por Fidel Castro, que formavam o Movimento 26 de Julho, saíram em direção à Província do Oriente, no extremo sudeste de Cuba, por onde planejaram invadir a ilha caribenha e derrubar o ditador Fulgêncio Batista.

Cuba ainda estava submetida ao colonialismo quando a maioria dos países latino-americanos, no início do século XIX, já haviam se tornado independentes.

A luta pela independência começou em 1868, quando o fazendeiro Carlos Céspedes organizou um exército de libertação que chegou a agrupar dezenas de milhares de homens sob o comando militar do ex-escravo negro Antonio Maceo e lutou por um período de 10 anos sem no entanto conseguir alijar os espanhóis do poder.

Em 1895, José Martí, poeta e nacionalista cubano, desembarcou na Província do Oriente – a mesma em que Fidel e seu Movimento 26 de Julho desembarcariam 61 anos mais tarde – com um punhado de homens para tentar a independência de Cuba. Morto um mês depois numa batalha com os espanhóis, Martí tornou-se o herói nacional do país.

 

O domínio norte-americano

 

Já nesta época os Estados Unidos estavam interessados em estabelecer sua própria zona de influência em Cuba, mais em função da sua localização geográfica, próxima à costa norte-americana e portanto uma importante zona estratégica para a defesa do Canal do Panamá, do que econômica, se bem as belezas da ilha caribenha oferecessem grandes possibilidades para a exploração imobiliária e do turismo.

Utilizando como pretexto a explosão de um navio norte-americano no porto de Havana, os Estados Unidos acusaram os espanhóis e após uma curta batalha da qual saíram vitoriosos e declararam a independência de Cuba em 1902, com a retirada de suas tropas e a nomeação de Tomás Estrada Palma como o primeiro presidente do país.

Contudo esta independência era apenas formal. Através de uma legislação chamada Emenda Platt, os Estados Unidos tinham o direito perpétuo de manter bases militares em Cuba, assim como intervir nos assuntos do país sempre que considerassem necessário.

Nos 23 anos que se seguiram à independência de Cuba, por três vezes os norte-americanos enviaram tropas para reprimir revoltas e assegurar a lealdade cubana aos seus interesses. Nesse período, durante sete anos o governo de Cuba foi controlado  diretamente por representantes dos Estados Unidos.

 

Fulgêncio Batista

 

De 25 a 33 a presidência esteve nas mãos do general Gerardo Machado, governo marcado pela corrupção, fraude eleitoral e por uma profunda repressão e miséria econômica. Em 1933 uma onda de manifestações e greves varre o país e derruba Machado, cujo sucessor fica pouco tempo no cargo, derrubado por um sargento líder de um grupo de oficiais que se apodera do comando do exército. Seu nome era Fulgêncio Batista.

Nos sete anos seguintes sucedem-se presidentes civis e militares, todos controlados por Batista e em 1940 o próprio Fulgêncio Batista elege-se presidente, sobre a base da elaboração, no mesmo ano e por ele mesmo, de uma constituição que nunca viria a ser cumprida. A corrupção, o servilismo diante dos norte-americanos, o aprofundamento da miséria das massas cubanas e a repressão aos trabalhadores continuaram sendo a marca registrada desses governos.

Os sucessores de Batista, Ramón Grau San Martín e Carlos Prío Socarrás, ambos do Partido Autêntico, um partido burguês que agrupava setores conservadores pró-imperialistas e grupos liberais-burgueses. É deste partido que vão sair, em 1947, vários integrantes desta última ala para formar um novo partido, o Partido Ortodoxo, fundado por Eduardo Chibás e depois integrado por Fidel Castro.

Os governos do Partido Autêntico não resolvem os problemas mais fundamentais das massas cubanas e com isso Chibás torna-se um político bastante popular. Em 1951 sua eleição para a presidência da república era dada como certa quando ele suicida-se.

Mas o fato não impede o crescimento dos ortodoxos que, no entanto, vêem-se frustrados no início de 1952, quando, a três semanas da eleição, Fulgêncio Batista, que havia retornado de Miami, dá um golpe, depõe Carlos Prío Socarras e implanta uma violenta ditadura militar. O Partido Ortodoxo capitula e dezessete dias depois os Estados Unidos reconhecem oficialmente o governo de Batista, cuja camarilha estava associada a fortes grupos capitalistas norte-americanos, que haviam convertido Havana em um centro de investimento imobiliário e turístico. Batista também contava com o apoio dos latifundiários açucareiros.

A única voz de oposição veio do setor juvenil do Partido Ortodoxo. Os estudantes liderados por Fidel que vão organizar “grupos de ação” evoluindo para a luta armada contra a ditadura, cuja primeira atividade é o fracassado ataque ao Quartel de Moncada em 26 de julho de 1953. Preso e condenado a 15 anos de prisão, Fidel é anistiado dois anos depois. Tenta fazer oposição governo, mas não encontra respaldo nos partidos de oposição que passam a colaborar abertamente com o ditador e decide deixar a ilha indo para o México junto com alguns combatentes de Moncada. Lá conhece Ernesto “Che” Guevara e organiza o Movimento 26 de Julho, que quatro anos depois tomaria o poder em Cuba.

 

O programa de Fidel

 

O ambiente universitário na Cuba dos anos 40 era marcado por uma efervescência e uma radicalização política extremas, onde dominavam grupos como o Movimento Revolucionário Socialista e a União Insurrecional Revolucionária. Fidel ingressou na Universidade de Havana em 1945 e à partir daí ingressou na política alinhando-se posteriormente com os setores da burguesia democrática cubana.

Forma-se advogado em 1950 e filia-se ao Partido Ortodoxo, uma cisão do partido Autêntico de Grau e Socarrás.

Pouco tempo depois Fidel vai desiludir-se com os ortodoxos e fundar o Movimento 26 de Julho. Desde o golpe de Batista em 53 Fidel tenta derrubar o ditador cubano, primeiro recorrendo aos tribunais de justiça e depois adotando o caminho da luta armada.

No ataque ao Quartel de Moncada, o único programa da operação era a queda de Batista e a entrega do governo ao Partido Ortodoxo. No famoso discurso pronunciado por ocasião de seu julgamento pela ação de Moncada, Fidel deixa claro o caráter liberal-burguês de seus objetivos. “No sumário desta causa constam as cinco leis revolucionárias que seriam proclamadas imediatamente após tomar o Quartel de Moncada” (…) “A primeira lei revolucionária devolveria ao povo a soberania e proclamava a Constituição de 1940 como a verdadeira lei do Estado”. Ou seja, Fidel não postulava sequer a reivindicação de uma nova Constituição, aceitando a de 1940 elaborada pelo próprio Batista. Mas neste mesmo discurso o líder cubano torna ainda mais explícitas suas idéias. “É sabido que na Inglaterra, no século XVIII, foram destronados dois reis, Carlos I e Jaime II, por atos de despotismo. Estes fatos coincidiram com o nascimento da filosofia política liberal, essência ideológica de uma nova classe social que lutava então para romper as cadeias do feudalismo. Frente às tiranias de direito divino esta filosofia opôs o princípio do contrato social e o consentimento dos governados, e serviu de fundamento à revolução inglesa de 1688 e às revoluções americana e francesa de 1775 e 1789. Estes grandes acontecimentos revolucionários abriram o processo de libertação das colônias espanholas na América, cujo último eslabón foi Cuba. Nesta filosofia se alimentou nosso pensamento político e constitucional (…)”.

 

II. Revolução e contra-revolução

 

Em 1925 assume a presidência de Cuba o general Gerardo Machado, formando um governo ligado à oligarquia latifundiária e totalmente submisso aos americanos. Os EUA pretendiam desta forma estabelecer uma etapa de maior estabilidade política após as crises das duas primeiras décadas do século que se seguiram à “independência” do país.

No entanto, o crash na Bolsa de Valores de Nova Iorque em 1929 provoca uma profunda depressão econômica no coração do regime capitalista. Cuba, totalmente atrelada aos Estados Unidos, sente os efeitos da crise e ingressa novamente em um período de grande instabilidade. O governo subserviente de Machado desmorona e abre-se um vazio político no país.

Em 1930 inicia-se uma onda de manifestações estudantis e greves de trabalhadores e no dia 8 de agosto de 1931 começa a revolução proletária com a eclosão de uma verdadeira guerra civil. O movimento é reprimido violentamente mas a instabilidade é tamanha que em 1933 uma nova insurreição, dirigida por setores da burguesia nacionalista sob a liderança de Antonio Guiteras, importante liderança da juventude estudantil, ocorre em meio a um aprofundamento da crise econômica.

O governo de Machado decompõe-se rapidamente, a tal ponto que é enviado a Cuba um novo embaixador americano para tentar uma mediação com o apoio do setor mais conservador da oposição. A sublevação popular faz fracassar a mediação e uma greve dos transportes transforma-se em uma greve geral revolucionária. Diante da situação, os EUA passam a conspirar contra Machado e derrubam-no. Carlos Manuel de Céspedes y de Quesada é nomeado presidente como produto de um acordo entre os EUA e a oposição conservadora cubana. Guiteras repudia o acordo. Um mês depois Céspedes é derrubado por uma rebelião nas forças armadas. Um sargento de nome Fulgêncio Batista lidera um grupo de oficiais, apodera-se do comando do exército e dá um golpe militar. O movimento teve o apoio de Guiteras. Batista é designado chefe militar mas não toma o poder, entregando-o nas mãos de uma coalizão entre a pequena burguesia nacionalista revolucionária (Guiteras) e a oposição burguesa direitista, na pessoa de Ramón Grau San Martín.

Esse governo inclina-se para uma política nacionalista e os Estados Unidos negam-se a reconhecê-lo, começando a conspirar contra ele. Para tanto, cooptam Batista e passam a utilizá-lo com este propósito. Pressionado pelo ex-sargento, Grau abandona o governo em 1934, o que precipita a queda de Guiteras, que tenta reagir através de um novo levante popular mas é assassinado pelo Exército no dia 8 de maio de 1935.

A crise é abafada e abre-se um período de contra-revolução e sobre a base de uma violenta repressão, de maior estabilidade, de distensão política. A questão, no entanto, não estava resolvida e a situação política voltará a esquentar poucos anos mais tarde. A contra-revolução, como tantas vezes ocorreu na América Latina dará lugar a um parlamentarismo dominado pelas oligarquias e pelo imperialismo. O árbitro fundamental do novo regime saído da contra-revolução são as Forças Armadas e, dentro delas, Fulgêncio Batista.

Em 1940 o próprio Fulgêncio Batista elege-se presidente, sobre a base da elaboração, no mesmo ano e por ele mesmo, de uma constituição demagógica que nunca viria a ser cumprida.

 

Autênticos e Ortodoxos

 

Os sucessores de Batista, Ramón Grau San Martín e Carlos Prío Socarrás, ambos do Partido Autêntico, um partido burguês que agrupava setores conservadores pró-imperialistas e grupos liberal-burgueses, representavam a incorporação da oposição ao regime político articulada pelo governo fantoche de Batista.

Em 1947 uma ala da oposição racha para formar um novo partido, o Partido Ortodoxo, fundado por Eduardo Chibás, que já não procurava apresentar uma plataforma claramente nacionalista, substituindo-a por colocações democráticas e de fundo moral para fazer frente à gigantesca corrupção dos governos a qual era apenas o aspecto mais secundário de uma política totalmente submissa ao imperialismo americano. O Partido fora depois integrado por Fidel Castro, quando jovem estudante universitário. A nova oposição, pelas suas colocações políticas, é obviamente uma expressão do profundo retrocesso ideológico e político das tendências revolucionárias que dominaram a cena política nos anos 30, resultado da vitória da contra-revolução.

Os governos do Partido Autêntico, porém, não resolvem os problemas mais elementares das massas cubanas, mergulhando em uma profunda corrupção, e com isso Chibás torna-se um político bastante popular. Em 1951 sua eleição para a presidência da república era dada como certa quando ele suicida-se em meio a um discurso transmitido pelo rádio.

 

Novamente Batista

 

O suicídio de Chibás precipita uma nova onda de manifestações e de intensa agitação política. Os ortodoxos continuam crescendo mas vêem-se frustrados no início de 1952, quando, a três semanas da eleição, Fulgêncio Batista, que havia retornado de Miami, dá um golpe, depõe Carlos Prío Socarrás e implanta uma violenta ditadura militar. Era o fim do papel político exercido pela burguesia democrática na contenção das massas, que aceita a situação e segue para um confortável exílio em Miami.

O Partido Ortodoxo fica paralisado diante do golpe, posteriormente dividindo-se em várias frações. A única voz de oposição veio do setor juvenil do partido. Os estudantes da Universidade de Havana, liderados pelo jovem estudante de direito Fidel Castro Ruiz vão organizar “grupos de ação” e realizar inúmeras manifestações, evoluindo depois para a luta armada contra a ditadura, cuja primeira culminação é o fracassado ataque ao Quartel de Moncada em 26 de julho de 1953. Preso e condenado a 15 anos de prisão, Fidel é anistiado dois anos depois. Tenta fazer oposição ao governo, mas não encontrando respaldo nos partidos de oposição que passam a colaborar abertamente com o ditador, decide deixar a ilha indo para o México para organizar do estrangeiro um movimento armado para derrubar a ditadura. Lá conhece Ernesto “Che” Guevara e organiza o Movimento 26 de Julho, que quatro anos depois derrubaria Fulgêncio Batista.

 

“Che”: Bolívia, Guatemala, México e Cuba

 

Ernesto Guevara de La Serna, o “Che”, nasceu no dia 14 de junho de 1928 em Rosário, Argentina, em uma família de classe média. Seus pais, Ernesto Guevara Lynch e Célia de La Serna, tiveram alguma participação política em acontecimentos importantes, como a guerra civil espanhola nos anos 30, a segunda guerra mundial e a oposição ao governo de Juan Perón na Argentina, sempre em torno de posições políticas tradicionais da pequena burguesia argentina.

Em 1944, a família muda-se para de Córdoba para Buenos Aires, quando Ernesto, então com 16 anos, já havia se decidido a estudar medicina. Já com 21 anos, Guevara não tinha ainda nenhum tipo de compromisso político, preferindo a vida de viagens e aventuras de um jovem despreocupado com a vida. É com esse espírito que, em 1949, resolve fazer uma longa viagem de moto em companhia de um amigo para conhecer vários países da América Latina. Passa pelo Chile, Peru, Colômbia e Venezuela, onde conhece a miséria dos camponeses e da população pobre desses países, todos com a mesma característica de Cuba, o país que mais tarde viria a revolucionar: o controle despótico de países imperialistas que lhes impunham um selvagem atraso econômico e cultural.

Voltando a Buenos Aires, depois de uma rápida passada por Miami, Guevara retoma o curso universitário e em 1953 forma-se em medicina. Então com 25 anos, “Che” prefere não exercer imediatamente a profissão, decidindo viajar novamente com outro amigo, desta vez para a Bolívia. Em julho do mesmo ano, momento em que seu futuro companheiro, Fidel Castro, atacava sem sucesso o Quartel de Moncada em Cuba, seu batismo de fogo na luta armada contra Batista.

Na capital boliviana de La Paz, “Che” Guevara encontra a revolução proletária de 1952, onde as massas operária haviam destruído as Forças Armadas e criado as milícias operárias e camponesas, estatizado as minas e proposto o controle operário da principal indústria do país. Estes acontecimentos decisivos da revolução latino-ameicana, porém, não causam uma profunda impressão no futuro líder guerrilheiro. Durante a estada na Bolívia, fez amizade com o advogado exilado argentino Roberto Rojo, que o convence a desistir dos seus planos de ir à Venezuela para acompanhá-lo até a Guatemala. Neste pequeno país da América Central, o governo estava nas mãos do coronel Jacobo Arbenz Guzmán desde 1950, um governo nacionalista com o qual a classe dominante local e os norte-americanos não estavam dispostos a conviver em função do receio de ter seus interesses econômicos prejudicados.

No caminho, “Che” passa pela Costa Rica, onde encontra-se com exilados cubanos, vários do quais remanescentes de Moncada, que lhe garantem voltar a Cuba para derrubar Fulgêncio Batista. Segundo Rojos, que escreveria uma pequena biografia do “Che”, nenhum dos dois os levaram à sério.

Já na Guatemala, Guevara conhece a peruana Hilda Gadea Costa, com quem se casaria mais tarde, e Nico Lopez, um dos líderes da revolta de 1953 em Cuba, que no futuro o apresentaria a Raúl Castro, irmão de Fidel.

O país vivia um período de grande efervescência política. A poderosa United Fruit, por exemplo, empresa norte-americana que explorava o plantio e a exportação de frutas tropicais em diversos países da América Central, já havia perdido 91 mil hectares de terra. O governo norte-americano conspirava abertamente contra o governo guatemalteco.

Sob as ordens do presidente Dwight Eisenhower, a CIA – o serviço secreto dos Estados Unidos – armou um pequeno exército de mercenários e “exilados” que no dia 18 de junho de 1954 invadiu a Guatemala. Guevara, que vinha simpatizando com as reformas sociais do governo, decidiu aderir à resistência ao golpe. No entanto, uma semana depois Arbenz capitulara à investida e estava deposto e substituído por uma ditadura militar.

A facilidade com que os norte-americanos derrubaram o governo impressionou muito “Che”. “A última democracia revolucionária da América caiu como resultado da fria e premeditada agressão conduzida pelos EUA (…) Isto foi visivelmente encabeçado pelo secretário de Estado Dulles, um homem que, não por coincidência, é também acionista e advogado da United Fruit Company”, escreveu. Segundo sua esposa, “foi a Guatemala que o convenceu da necessidade da luta armada, de tomar iniciativa contra o imperialismo”.

Por sua participação na resistência ao golpe, “Che” estava correndo sérios riscos ficando na Guatemala. Decidiu então ir para o México, onde se aglomeraram os simpatizantes do governo deposto, e, após um período trabalhando como fotógrafo de rua, conseguiu emprego no Hospital geral da Cidade do México e como professor na Universidade Autônoma do México.

Certo dia, no hospital, encontra com Ñico Lopez, que havia conhecido na Guatemala e que o apresenta Raúl Castro, irmão de Fidel. Guevara e Raúl tornam-se amigos e este último, em julho de 1955, o leva a conhecer o irmão, Fidel Castro.

Assim “Che” descreve o primeiro encontro com o futuro principal líder da revolução cubana: “eu o encontrei em uma dessas noites frias da Cidade do México e lembro que nossa primeira discussão foi sobre política internacional. Algumas horas mais tarde – na madrugada – eu era um dos futuros expedicionários. Depois das minhas experiências de viagem por toda a América Latina e depois da Guatemala, seria preciso muito pouco para me convencer a me juntar a qualquer revolução contra a tirania. Mas Fidel provocou uma grande impressão em mim. Ele estava absolutamente certo de que nós iríamos a Cuba, que chegaríamos lá; que, uma vez lá, nós lutaríamos; e que, lutando, venceríamos. Seu otimismo era contagiante. Nós tínhamos que agir, lutar para consolidar nossa posição. Parar de cogitar e começar a luta real. E para provar ao povo cubano que podia confiar em sua palavra, fez seu famoso discurso: ‘Em 1956, nós seremos livres ou mártires’, anunciando que, antes do fim do ano, ele desembarcaria em algum lugar de Cuba no comando de uma força expedicionária”.

 

Do México à Sierra Maestra

 

Com seu amigo Ricardo Rojo, “Che” acompanhava atento o panorama político da Guatemala. O país vivia um período de grande efervescência política. O presidente nacionalista Arbenz Guzmán levava adiante uma reforma agrária que se defrontava com a oposição dos EUA. A poderosa United Fruit, por exemplo, empresa norte-americana que explorava o plantio e a exportação de frutas tropicais em diversos países da América Central, já havia perdido 91 mil hectares de terra.

Sob as ordens do presidente Dwight Eisenhower, a CIA – o serviço secreto dos Estados Unidos – armou um pequeno exército de mercenários e exilados guatemaltecos que no dia 18 de junho de 1954 invadiu a Guatemala. “Che” Guevara, que vinha simpatizando com as reformas sociais do governo, decidiu aderir à resistência ao golpe. No entanto, uma semana depois Arbenz estava deposto e substituído por uma ditadura militar.

A facilidade com que os norte-americanos derrubaram o governo impressionou muito “Che”. “A última democracia revolucionária da América caiu como resultado da fria e premeditada agressão conduzida pelos EUA (…) Isto foi visivelmente encabeçado pelo secretário de Estado Dulles, um homem que, não por coincidência, é também acionista e advogado da United Fruit Company”, escreveu. Segundo sua esposa, “foi a Guatemala que o convenceu da necessidade da luta armada, de tomar iniciativa contra o imperialismo”.

Por sua participação na resistência ao golpe, “Che” estava correndo sérios riscos ficando na Guatemala. Decidiu então ir para o México, onde, após um período trabalhando como fotógrafo de rua, conseguiu emprego no Hospital Geral da Cidade do México e como professor na Universidade Autônoma do México.

Certo dia, no hospital, encontra com Nico Lopez, que havia conhecido na Guatemala e que o apresenta Raúl Castro. Guevara e Raúl tornam-se amigos e este último, em julho de 1955, o leva a conhecer o irmão, Fidel Castro.

Assim “Che” descreve o primeiro encontro com o futuro principal líder da revolução cubana: “eu o encontrei em uma dessas noites frias da Cidade do México e lembro que nossa primeira discussão foi sobre política internacional. Algumas horas mais tarde – na madrugada – eu era um dos futuros expedicionários. Depois das minhas experiências de viagem por toda a América Latina e depois da Guatemala, seria preciso muito pouco para me convencer a me juntar a qualquer revolução contra a tirania. Mas Fidel provocou uma grande impressão em mim. Ele estava absolutamente certo de que nós iríamos a Cuba, que chegaríamos lá; que, uma vez lá, nós lutaríamos; e que, lutando, venceríamos. Seu otimismo era contagiante. Nós tínhamos que agir, lutar para consolidar nossa posição. Parar de cogitar e começar a luta real. E para provar ao povo cubano que podia confiar em sua palavra, fez seu famoso discurso: ‘Em 1956, nós seremos livres ou mártires’, anunciando que, antes do fim do ano, ele desembarcaria em algum lugar de Cuba no comando de uma força expedicionária”.

 

O primeiro programa de Fidel

 

A contra-revolução organizada pelos Estados Unidos e conduzida por Fulgêncio Batista após 1935 vai propiciar um período de maior estabilidade política, mas não por muito tempo. Os governos dos sucessores de Batista (1940), Grau San Martín (1944) e Prío Socarrás (1948), ambos do Partido Autêntico, representavam a incorporação da oposição burguesa ao regime e a continuidade da corrupção e da submissão cubana aos interesses norte-americanos.

O ambiente universitário na Cuba da segunda metade dos anos 40 era marcado por uma grande radicalização política, onde dominavam grupos como o Movimento Revolucionário Socialista e a União Insurrecional Revolucionária. Fidel ingressou na Universidade de Havana em 1945 e à partir daí ingressou na política alinhando-se posteriormente com os setores da burguesia democrática cubana.

Forma-se advogado em 1950 e filia-se ao Partido Ortodoxo, fundado em 1947 à partir de uma cisão do partido Autêntico de Grau e Socarrás.

Pouco tempo depois Fidel vai desiludir-se com os ortodoxos e fundar o Movimento 26 de Julho. Desde o golpe de Batista em 52 Fidel promovia ações para tentar derrubar o ditador cubano, recorrendo aos tribunais de justiça e realizando manifestações estudantis. Sem obter grandes resultados, decide adotar o caminho da luta armada. Como ocorrerá durante toda a duração da Revolução Cubana, a evolução política e programática de Fidel vai ocorrendo empiricamente, à luz da sua própria experiência.

No ataque ao Quartel de Moncada, o único programa da operação era a queda de Batista e a entrega do governo ao Partido Ortodoxo. No famoso discurso pronunciado por ocasião de seu julgamento pela ação de Moncada, que depois foi publicado em forma de livro com o título A história me absolverá, Fidel deixa claro o caráter liberal-burguês de seus objetivos iniciais, apresentando aquilo que viria a ser conhecido como o primeiro programa da revolução cubana. “No sumário desta causa constam as cinco leis revolucionárias que seriam proclamadas imediatamente após tomar o Quartel de Moncada” (…) “A primeira lei revolucionária devolveria ao povo a soberania e proclamava a Constituição de 1940 como a verdadeira lei do Estado”. O caráter não apenas burguês, mas inclusive moderado do programa é evidente: Fidel não postulava sequer a reivindicação da democracia revolucionária através da convocação de uma assembléia constituinte apoiada nas massas populares, aceitando a Constituição de 1940 elaborada pelo próprio Fulgêncio Batista. Mas neste mesmo discurso o líder cubano torna ainda mais explícitas suas idéias. “É sabido que na Inglaterra, no século XVIII, foram destronados dois reis, Carlos I e Jaime II, por atos de despotismo. Estes fatos coincidiram com o nascimento da filosofia política liberal, essência ideológica de uma nova classe social que lutava então para romper as cadeias do feudalismo. Frente às tiranias de direito divino esta filosofia opôs o princípio do contrato social e o consentimento dos governados, e serviu de fundamento à revolução inglesa de 1688 e às revoluções americana e francesa de 1775 e 1789. Estes grandes acontecimentos revolucionários abriram o processo de libertação das colônias espanholas na América, cujo último elo foi Cuba. Nesta filosofia se alimentou nosso pensamento político e constitucional (…)”.

 

O desembarque do Granma

 

No ano de 1956, enquanto Fidel organiza, sob o treinamento militar do coronel Alberto Bayo, veterano da guerra civil espanhola, a força expedicionária que no final do ano partiria para invadir a ilha, Cuba vive momentos de intensa agitação política, que estão assinalando o esgotamento do regime de Batista.

Em dezembro de 1955 já havia ocorrido uma greve dos trabalhadores açucareiros e várias manifestações estudantis. Em abril de 56 há uma tentativa de tomar de assalto o quartel de Goicuría na província de Matanzas e as forças de repressão do governo ocupam a Universidade de Havana.

Não obstante ter sofrido uma batida policial que resulta na prisão de vários combatentes e no confisco de várias armas, o Movimento 26 de Julho continua o treinamento no México e Fidel segue com os planos iniciais.

A idéia era fazer coincidir, no dia 30 de novembro, a invasão de Cuba pela Província do Oriente dirigida por Fidel com um levante popular conduzido pelo líder estudantil Frank País na cidade de Santiago de Cuba.

No dia 27, um telegrama em código ordena o início dos preparativos na cidade e a partida do grupo de Fidel, que havia levantado fundos e comprado um iate velho, o Granma, para conduzir seus 81 homens, entre eles “Che”, até o local combinado para o desembarque, onde o esperariam na praia armas, munições e suprimentos.

Conforme combinado, no dia 30 começa o levante popular dirigido por Frank País em Santiago de Cuba. Membros do Movimento 26 de Julho da cidade lutam contra o exército e a polícia.

No entanto, a travessia do Granma atrasa quase quatro dias. Péssimas condições de navegação e erros de rota fizeram com que a força expedicionária de Fidel não apenas atrasasse, mas desembarcasse no local errado, não na praia, mas num mangue a 16 quilômetros ao sul. Na cidade, os combatentes liderados por País eram esmagados pelas tropas de Batista. Vários morrem e muitos são presos.

Após sete dias no mar passando enjôo, fome, frio e sede – , Fidel e seus combatentes enfrentavam agora a passagem pelo extenso mangue, no qual foram obrigados a deixar, pouco a pouco, o que restava de armas e suprimentos, para somente três dias depois pisar em terra firme, onde uma nova surpresa, bem mais desagradável, os aguardava.

 

O “Che” e a Revolução Cubana

 

Após o fiasco da viagem e do desembarque do Granma, Castro e seus homens dividiram-se em dois grupos e foram “caminhando” pelo mangue em busca de terra firme. Segundo “Che”, eles estavam “desorientados e andando em círculos, um exército de sombras, de fantasmas caminhando como se estivessem sendo impelidos por algum mecanismo psíquico”. Os dois grupos encontram-se dois dias depois e marcharam para um lugarejo chamado Alegría del Pío, onde fizeram uma pausa para descansar em meio a um canavial.

Mal sabiam eles que o Exército de Batista já sabia de sua presença, através de duas fontes: uma patrulha da guarda-costeira que os havia visto desembarcar e o próprio guia que contrataram para levá-los à Sierra.

À tarde o exército atacou. Apanhados de surpresa, os rebeldes quase foram aniquilados. Dos 82 homens desembarcados muitos foram mortos e outros presos e executados, restando cerca de 15, que se reencontraram somente no dia 21 de dezembro de 1956, após vagarem dispersos pela Sierra e serem posteriormente ajudados pela rede de camponeses do 26 de Julho, organizada pela dirigente do Movimento na cidade, Célia Sanchez.

 

Situação revolucionária

 

O ano de 1957 é marcado pela crescente ação das massas cubanas e pela veloz decomposição do regime político de Batista, ao mesmo tempo em que evidencia as divergências existentes no Movimento 26 de Julho entre sua ala direita, burguesa e pró-EUA (Huber Mattos, Armando Hart), o centro (Fidel), que buscava uma orientação também democrático-burguesa porém independente do imperialismo norte-americano, e a ala esquerda (Raúl Castro, “Che” Guevara), de tendência socialista, ainda que confusa e menos experiente.

A guerrilha de Fidel permaneceu durante meses vagando, isolada da massa camponesa – os guajiros, camponeses pobres, em sua maioria analfabetos, que somavam 60 mil e viviam em casebres espalhados ao longo dos 160 quilômetros da cadeia de montanhas chamada Sierra Maestra.

Por outro lado, na cidade de Santiago, próxima à Sierra, vivia-se um clima de grande agitação política. Quase todos os dias havia manifestações e greves massivas, bem como explosões de bombas em prédios governamentais e atentados contra personalidades do regime. Sob a liderança de Frank País – o jovem estudante que Fidel incorporara ao Movimento em 1955 logo após sair da prisão e pouco antes de ir para o México -, o 26 de Julho havia se convertido em uma organização popular e vinha desenvolvendo-se rapidamente. Também em Havana crescia a agitação revolucionária à medida em que a ditadura corrupta, violenta e subserviente aos interesses dos grandes proprietários cubanos e do imperialismo norte-americano tornava-se cada vez mais insuportável para o conjunto da população.

Fidel exercia sua autoridade política e do campo comandava as ações do Movimento na cidade, de onde provinha a subsistência da guerrilha na Sierra através do envio de dinheiro, armas, mantimentos, medicamentos e inclusive a quase totalidade dos militantes.

 

Contatos com os EUA

 

O governo Batista tentava propagandear a insignificância da guerrilha e dizia que os rebeldes haviam sido dizimados no desembarque. Mas ao mesmo tempo em que nas cidades a situação tornava-se cada vez mais insustentável, a imprensa, inclusive internacional, vinha dando um certo apoio a Fidel Castro. Num certo momento, um veterano jornalista do The New York Times, Herbert Mathews, vai até a Sierra e fala com Fidel.

Sua reportagem cai como uma bomba em Cuba: “Fidel Castro, o líder rebelde da juventude cubana está vivo e lutando duramente e com êxito nas profundezas quase impenetráveis da Sierra Maestra (…) Centenas de cidadãos altamente respeitáveis estão com o senhor Castro (…) [e] um feroz antiterrorismo do Governo levou o povo a ficar ainda mais contra o General Batista. Pelo jeito que tomam as coisas, o General Batista não tem possibilidade de esperança de eliminar a revolta de Castro.”

O Ministro da Defesa de Batista ataca dizendo que a entrevista era uma farsa e desafia Mathews a publicar uma foto sua com Fidel, o que ocorre poucos dias depois, desmoralizando ainda mais Batista. Tais acontecimentos demonstravam que os EUA já haviam percebido a decomposição do governo e faziam jogo duplo, mantendo o apoio à Batista mas também dialogando com o setor mais direitista, de tendências pró-imperialistas, do 26 de Julho. O governo norte-americano era favorável à incorporação da oposição burguesa ao regime, o que exigia a sua “democratização” e traria como resultado ou a cooptação da burguesia dos partidos Autêntico e Ortodoxo e também do grupo de Fidel, ou então provocaria o isolamento político deste último.

Em seu diário, “Che” faz referência a uma carta de Armando Hart, dirigente do Movimento na cidade, que estaria “sugerindo um acordo com a Embaixada ianque”. Numa carta à Fidel de 5 de julho, Frank País faz outra referência ao fato: “A muito meritória e valiosa Embaixada norte-americana veio a nós e ofereceu qualquer tipo de ajuda em troca de pararmos de furtar armas de sua base”. Em outra carta, País afirma-lhe que “María A. me contou que o vice-cônsul norte-americano queria falar com você (…). Já estou farto de tantas idas e vindas e de conversas com a Embaixada, e acho que seria vantajoso para nós cerrar fileiras um pouco mais, sem perder contato com eles, mas não lhes atribuindo tanta importância como estamos fazendo atualmente”.

Em sua resposta, Fidel escreveu: “Não vejo porque deveríamos levantar a mais leve objeção à visita do diplomata norte-americano. (…) Se eles desejam ter laços mais estreitos de amizade com a triunfante democracia de Cuba? Magnífico! Isso é um sinal de que reconhecem o desenlace final desta batalha”.

 

Greve Geral

 

O 26 de Julho começa a fazer propaganda de uma greve geral, mas esta vai ocorrer como resultado de um fato imprevisto: o assassinato de Frank País aos 23 anos de idade em 30 de julho. País tinha sido preso e quando foi libertado passou vários dias escondendo-se da polícia. Mas seu esconderijo foi encontrado e, em plena luz do dia, ele e um companheiro foram sumariamente executados na rua.

O assassinato desencadeou enormes manifestações antigovernistas, com greves que se espalharam por toda a ilha. A situação revolucionária amadurecia em todo o país.

A erupção produzida pela greve geral traduz-se em um rápido fortalecimento da guerrilha urbana e rural, demonstrando que era a ação insurgente das massas o verdadeiro motor da revolução e não as “ações armadas”, ensaiadas primeiro em Moncada, nem as ações fulgurantes como o desembarque do Granma.

Em meados de 57 o grupo de Fidel enfrenta com êxito a primeira grande batalha com o exército na guarnição militar de El Uvero, conquistando uma grande quantidade de armas.

Os rebeldes vão pouco a pouco conquistando a confiança dos camponeses, ao mesmo tempo em que, na cidade, o 26 de Julho ampliava sua base de recrutamento entre a juventude e conquistava a simpatia de setores da pequena burguesia democrática, de onde o Movimento arrecadava importantes somas de dinheiro através da criação de um ramo, a Resistência Cívica. Também vinculou-se a grupos da oficialidade militar e participou do fracassado motim naval na cidade de Cienfuegos.

 

“Che”: de médico a Comandante

 

A esta altura “Che” Guevara já havia se tornado um respeitado dirigente da guerrilha na Sierra. Sua nomeação como Comandante ocorreu de forma totalmente inesperada para ele. Num determinado momento, todos os oficiais do Exército Rebelde foram chamados a assinar uma carta que Fidel enviaria para Frank País expressando suas condolências pela morte do irmão. Quando chegou a vez de “Che”, Fidel lhe disse que colocasse “comandante” como seu posto, o mais alto do exército, que até então somente Fidel detinha.

Desde o México “Che” vinha demonstrando uma extraordinária dedicação à causa revolucionária. Superando sua debilidade física, a asma que tanto o atormentava, tornou-se um dos melhores combatentes e o que mais prezava e assegurava a disciplina, superando inclusive Fidel no rigor com que a defendia.

A conduta de “Che” cumpriu um papel fundamental na formação do exército rebelde. O compromisso ideológico dos novos recrutas, incorporados entre os guajiros da Sierra ou jovens estudantes enviados da cidade, para com a revolução e seus objetivos era frágil ou mesmo inexistente. As deserções e traições eram constantes e “Che” as punia com todo o rigor, executando e ordenando execuções sumárias. Estes recrutas incorporavam-se à guerrilha motivados por sua miséria ou pelo apego superficial à causa democrática ou socialista. Esta situação era o resultado inevitável da ausência de militantes com maior firmeza política e ideológica, ou seja, pela ausência de um verdadeiro partido revolucionário. Na revolução, a ação radicalizada das massas vai superar muito parcialmente esta debilidade fundamental, mas após a tomada do poder este será o principal limitador do desenvolvimento da economia cubana e da própria revolução latino-americana.

Com relação às divergências das facções do 26 de Julho, “Che” assumia claramente uma posição de esquerda, fustigando constantemente a ala direita do Movimento e exercendo uma pressão sobre Fidel, embora não tivesse um programa político alternativo. Em certa ocasião, Fidel aliara-se a dois líderes do Partido Ortodoxo, representante da oposição burguesa, Raúl Chibás e Felipe Pazos, para publicar o “Manifiesto de la Sierra Maestra”, cujo objetivo era repudiar a manobra governista de convocação de eleições presidenciais para 1º de junho de 1958. Comentando o pacto, “Che” disse que “não estávamos satisfeitos com o acordo, mas ele era necessário. Na ocasião, foi progressista. Ele não poderia durar além do momento em que representasse um freio para o desenvolvimento da revolução”.

Sobre os próprios líderes do Movimento 26 de Julho na cidade, “Che” dizia em fevereiro de 57, por ocasião de uma reunião da Direção Nacional na Sierra que “Através de conversas isoladas, descobri as evidentes inclinações anticomunistas da maioria deles, sobretudo de Hart.”

 

As massas dominam a cena política

 

o regime do ditador Fulgêncio Batista decompunha-se a toda velocidade e gerava, como conseqüência, o crescimento da guerrilha na Sierra e na cidade. Um sinal agudo desta decomposição eram as diversas conspirações militares: os norte-americanos, percebendo a incapacidade de Batista em debelar a crise e restabelecer a estabilidade do Estado, o pressionavam para que aceitasse a incorporação da oposição burguesa, os partidos Autêntico de Prío Socarrás, Ortodoxo de Felipe Pazos e Raúl Chibás e “um Movimento 26 de Julho controlado”, ao regime. Era a repetição da manobra que havia sido realizada após o período revolucionário inaugurado no início da década de 30, com a diferença de que, agora, ao invés de estar apoiada em uma etapa de refluxo e esmagamento da revolução, dava-se no seu momento de ascenso.

Nas cidades, continuavam as campanhas de sabotagem e de lançamento de bombas em prédios públicos. Batista havia imposto a censura da imprensa, ao mesmo tempo em que procurava difundir a idéia de que as tropas de Castro eram reduzidas a “bandidos insignificantes”, mas cada vez mais esta versão dos fatos parecia fantasiosa para o conjunto da população.

A desmoralização do governo crescia a tal ponto que alguns cartunistas de Havana furavam o cerco e encontravam formas de satirizar o regime. Uma ilustração famosa mostrava uma longa fila de pessoas, esperando para embarcar em um ônibus com o número 30. Os leitores perceberam que o ônibus dirigia-se a uma localidade próxima chamada La Sierra, para se juntar ao 26 de Julho.

Para ter informações sem censura sobre as últimas batalhas, os habitantes da cidade simplesmente viravam o botão de seus rádios para sintonizar a Rádio Rebelde e os guajiros da Sierra ainda tinham a opção do jornal El Cubano Livre, ambas criações de “Che”.

Nas batalhas, conforme o Exército Rebelde ia derrotando as tropas desmoralizadas de Batista, diversos oficiais passavam-se para o lado da revolução, que cada vez mais acumulava um grande número de homens e armas.

 

A Junta de Miami

 

Porém, esta situação também forçava a oposição burguesa a articular uma alternativa não apenas a Fidel Castro, mas principalmente à revolução em marcha.

Em 1º de novembro, em Miami, foi constituída a “Junta Cubana de Liberação”, com as assinaturas de representantes da maioria dos grupos de oposição. No encontro, através de uma manobra concertada com os membros direitistas do 26 de Julho. O líder dos ortodoxos, Felipe Pazos, negociou representando o Movimento.

O acordo fora realizado com a visível intenção de estabelecer uma frente comum com Washington. Não havia uma única declaração se opondo à intervenção estrangeira no país e nem mesmo à idéia de que uma junta militar sucedesse Batista. Propunha ainda a incorporação “pós-vitória” das tropas de Fidel às forças armadas, assegurando assim a futura dissolução do exército rebelde. Não continha, por outro lado, nenhuma proposta concreta em relação à situação econômica da população cubana, apenas promessas de criação de mais empregos e elevação do padrão de vida. O acordo ea, sobretudo, uma tentativa de suplantar a iniciativa de Fidel, para então negociar uma saída política de conciliação com o ditador e o governo dos EUA.

“Che” Guevara passa a exercer uma forte pressão sobre Fidel para que ele emitisse uma declaração condenando o pacto. Em 9 de dezembro, lhe envia uma carta acusando o Diretório nacional do 26 de Julho de sabotá-lo intencionalmente, opinando que este deveria exigir permissão para adotar severas providências a fim de corrigir a situação, caso contrário deveria renunciar.

Quatro dias depois, Fidel responde. O conteúdo da carta de resposta nunca foi divulgado, mas a reação de “Che” dá a medida do seu conteúdo: “Neste exato momento, chegou um mensageiro com sua nota de treze. Confesso que (…) ela me encheu de paz e felicidade. Não por qualquer razão pessoal, mas sim pelo que esse passo representa para a revolução. Você bem sabe que eu não confiava de forma alguma no pessoal do Diretório Nacional – nem como líderes nem como revolucionários. Mas não pensava que chegariam ao extremo de traí-lo de forma tão aberta (…).”

“Che” continuava insistindo para que Fidel rompesse o silêncio e condenasse o pacto. Disse que ele próprio faria 10 mil cópias da declaração e as distribuiria por toda a província Oriente e em Havana – a ilha toda se pudesse. Dizia ainda que, “depois, se ficar mais complicado, com a ajuda de Célia, podemos demitir todo o Diretório Nacional.”

Confrontado com o desafio da oposição burguesa e da sua própria ala direita, Fidel conservou-se em um terreno de independência do regime político. No mesmo dia, emitiu uma declaração contra o Pacto de Miami: “A liderança da luta contra a tirania está e continuará a estar em Cuba e nas mãos dos combatentes revolucionários (…) O Movimento 26 de Julho reivindica para si o papel de manter a ordem pública e reorganizar as forças armadas da república”. Contra a tentativa de Felipe Pazos de tentar assegurar para si próprio a presidência de um futuro governo de transição, Fidel designava o seu próprio candidato, o idoso jurista de Santiago, Manuel Urrutia, declarando ainda: “Estas são as nossas condições (…) Se forem rejeitadas, então continuaremos a luta por nossa própria conta (…) Para morrer com dignidade, não se precisa de companhia.”

Nesse tempo, o 26 de Julho preparava uma nova greve geral, desta vez incluindo Havana e de comum acordo com os stalinistas do Partido Socialista Popular, que não apoiavam a revolução. A greve começa em abril de 1958, mas não tem êxito, em função das ilusões de “Che” e Fidel nos stalinistas, da sabotagem do PSP e da ala direitista do Movimento, que eram favoráveis à saída eleitoral negociada em Miami.

No entanto, o fracasso da greve foi uma derrota secundária e transitória, incapaz de fazer retroceder as tendências revolucionárias das, que continua a ser impulsionada, em particular com as vitórias do exército rebelde na Sierra e acaba fortalecendo a guerrilha no campo, convertendo-a no centro indiscutido de todo o movimento revolucionário.

Fidel e “Che” aproveitam para desfechar um novo golpe na ala direita do Movimento. Convoca-se uma reunião do Diretório Nacional, na qual “Che” faz uma análise da situação e propõe a destituição de alguns dos principais líderes da cidade, David Salvador, “Daniel” e Faustino. Em 1964, “Che” escreve um artigo intitulado “Uma Reunião Decisiva”, onde afirma que “nessa reunião se discutiu e se decidiu sobre duas concepções que se tinham entrechocado durante toda a etapa anterior quanto à direção a ser dada à campanha. A concepção da guerrilha sairia vitoriosa dessa reunião”.

Batista tenta então uma desesperada contra-ofensiva, mobilizando 10 mil soldados divididos em 17 batalhões e apoiados por tanques e carros blindados em direção à Sierra. Mas a decomposição moral das tropas, as emboscadas guerrilheiras e particularmente a hostilidade dos camponeses transformam o ataque em uma debandada. A afluência de trabalhadores, camponeses e soldados das tropas de Batista para a guerrilha ia se convertendo em um fenômeno massivo. O amadurecimento da situação revolucionária transformava o exército de Fidel em um irresistível movimento de massas.

 

O Pacto de Caracas

 

A comoção revolucionária que sacudia a ilha havia transformado a Junta de Miami em um fantasma. Era o sintoma agudo não apenas do completo esvaziamento do regime de Batista, como do completo esvaziamento do próprio regime político burguês pelo profundo deslocamento das massas para posições revolucionárias. As massas ocupavam as cidades e os campos e só reconheciam a autoridade política do 26 de Julho, o qual se transformava, assim, em um instrumento da dualidade de poderes.

Privados de qualquer sustentação social, os partidos da oposição burguesa e ala direita do Movimento abrem negociação com Fidel e articulam um novo acordo, o Pacto de Caracas, no qual os signatários obrigavam-se a adotar uma estratégia comum para derrotar Batista por meio da insurreição armada e a formar um governo provisório de curta duração. Embora o “Manifesto de União da Sierra Maestra” reconhecesse a autoridade de Fidel castro como “comandante-em-chefe das forças revolucionárias”, era mais uma etapa na manobra – consentida pela ala revolucionária do castrismo – para tentar frear o desenvolvimento da revolução. A oposição burguesa adaptava-se formalmente à política de Castro apenas para tentar recuperar alguma sustentação popular, mantendo alguma iniciativa política enquanto esforçavam-se para criar as condições de um golpe militar.

 

Cai Fulgêncio Batista

 

Em agosto, as colunas de “Che” e Fidel avançavam cada vez mais, cercando importantes cidades como Santiago e o oeste do país. Após a derrota da contra-ofensiva de Batista, Fidel planeja o ataque final. À partir daí, as colunas de “Che”, Camilo Cienfuegos, Raúl e Fidel Castro vão tomando cidade por cidade até a vitória final.

O enviado da embaixada norte-americana, General Cantillo, tenta então dar um golpe militar, mas a tentativa fracassa em função da intervenção final e decisiva de milhões de cubanos no aniquilamento da ditadura. Castro convoca uma greve geral que paralisa o país, em meio à qual ocorre uma nova tentativa golpista, desta feita pelo general Barquin, que é derrotada em poucas horas. O Estado burguês desaparecia e dava lugar ao predomínio da dinâmica revolucionária e as massas retém toda a iniciativa política no país.

Após a tomada da cidade de Santa Clara pelas tropas de “Che”, Batista finalmente desistiria. Às 3 horas da madrugada do dia 1º de janeiro de 1959, ele e um punhado de íntimos colaboradores embarcaram num avião para a República Dominicana, abandonando Cuba para sempre.

Em 1º de janeiro, a coluna de “Che” conquista a cidade de Havana e a de Fidel ingressa em Santiago. As multidões cercavam os guerrilheiros e se iniciava outra etapa da luta política dentro do 26 de Julho que definiria o rumo da revolução.

Fidel demorou uma semana para chegar em Havana. A longa marcha, durante à qual parava inúmeras vezes para fazer inflamados discursos, permitia um intervenção generalizada das massas, que iam desmantelando todo o Estado ditatorial. Ocupavam-se os edifícios públicos, delegacias de polícia, tribunais. Os funcionários de Batista eram destituídos, os torturadores presos, enquanto juízes, governadores e militares fugiam para Miami.

escrito em 1997

Os ANTECEDENTES DA REVOLUÇÃO RUSSA DE 1917

Rui Costa Pimenta

 

bloody sunday shooting workers near the winter palace january 9 1905 1

Fuzilamento dos operários no Palácio de Inverno,

quadro de Ivan Vladimirov

Um dos itens do vasto arsenal de argumentos utilizados pela burguesia na luta ideológica contra a Revolução Russa é a idéia de que esta teria sido um mero acidente histórico.

Para alguns teria sido um resultado da guerra – como se a guerra não fosse precisamente uma componente essencial do regime capitalista e da sua crise revolucionária -; para outros, seria a punição inevitável recebida pelo regime político russo por não ter aderido mais prontamente ao estado mais sagrado da política que é a democracia burguesa.

Tais fábulas, no entanto, servem para obscurecer a realidade para muitos que buscam compreender de fato este inigualável fenômeno histórico.

A Revolução Russa tem, ao contrário da fábula interesseira, um longo passado. Foi um processo histórico de longa e, se podemos dizê-lo, paciente maturação.

O regime feudal russo, apoiado no latifúndio e na servidão e protegido pela monarquia absoluta, encontrava-se em um completo impasse quando Napoleão Bonaparte e seu Grande Exército invadiram o país em 1812. A vitória russa, conseguida através de uma enorme concentração de forças, de gigantescos sacrifícios e do apelo ao martirizado camponês russo tem como resultado o enfraquecimento terminal do regime feudal. Em dezembro de 1825, parte da nobreza militar a primeira tentativa de derrubar a monarquia. O movimento decembrista é o impulso necessário para voltar a sociedade russa para a revolução. A tenebrosa ditadura de Nicolau I, que se inicia exatamente na data do levante, não conseguiu impedir a revolta política de se manifestar em um vasto movimento de opinião liderado pela brilhante geração intelectual de 1848, conhecida na história russa como a “Geração dos anos 40” composta de homens da altura do filósofo e publicista Alexandre Herzen, do poeta Nicolau Ogarev e do crítico literário Vissarion Bielinski. O movimento revolucionário russo nascia também sob a influência das teorias revolucionárias européias que, apesar do atraso econômico e cultural do país, eram absorvidas com grande rapidez e lucidamente pelos revolucionários.

A luta de idéias era a expressão da revolução camponesa em marcha. Em 1861, o Czar Alexandre II, cede ao imperativo da realidade e decreta o final da servidão. Os anos que vão de 1861 a 1862 vêem uma situação revolucionária que, segundo Lênin, marca com a transformação agrária que deles resulta o início da revolução russa que será concluída em 1917.

Nestes anos revolucionários da década de 60 surgiu a nata da geração revolucionária russa de antes das revoluções de 1905 e 1917, geração em que destaca-se, acima dos demais, o político revolucionário russo por excelência do século XIX, Nicolau Chernichévski. Na luta permanente entre a revolução e a contra-revolução, foram passados em revista as teorias revolucionárias, os programas, as táticas e as formas de organização. Tudo foi testado através de fracassos e vitórias e foi confluindo em uma corrente revolucionária extraordinariamente fecunda: a propaganda política através da imprensa, a agitação de massas, as organizações jacobinas conspirativas, o terror individual e várias outras fórmulas políticas e concepções.

O partido operário russo, surgido já no século XX, apóia-se nesta inigualável tradição da escola revolucionária russa que se combina com a teoria marxista elaborada por Marx e Engels e desenvolvida pelos teóricos da social-democracia e com a enorme experiência política em organização de massas, na luta semi-legal, na atividade parlamentar e na organização sindical do socialismo europeu.

Após a derrota da revolução de 1848, a tradição revolucionária declinou na Europa avançada, a qual conhecerá um grande e último surto de verdadeiro desenvolvimento capitalista, como muito bem souberam compreender Marx e Engels. Enquanto a tradição revolucionária decaía na Europa, na Rússia, apesar de toda a repressão, ela conhecia um desenvolvimento oposto, buscando por uma estrela polar que somente ser achada no marxismo. Daí ser fácil compreender que os revolucionários marxistas russos tenham formado a mais importante corrente de pensamento revolucionário do mundo, apesar do enorme atraso do seu país em relação à Europa Ocidental.

Esta experiência foi refundida pelo marxismo e a lição passada a limpo em 14 anos de intensa luta política e duas grandes revoluções proletárias. Mas deixemos a explicação a quem melhor compreendeu este processo: “o bolchevismo surgiu em 1903 alicerçado na mais sólida base da teoria do marxismo. E a justeza dessa teoria revolucionária – e de nenhuma outra – foi demonstrada tanto pela experiência internacional de todo o século XIX como, em particular, pela experiência dos desvios, vacilações, erros e desilusões do pensamento revolucionário na Rússia. No decurso de quase meio século, aproximadamente de 1840 a 1890, o pensamento de vanguarda na Rússia, sob o jugo terrível do despotismo czarista selvagem e reacionário, procurava avidamente uma teoria revolucionária justa, acompanhando com zelo e atenção cada ‘última palavra’ da Europa e da América neste terreno. A Rússia tornou sua (sublinhado do autor) a única teoria revolucionária justa, o marxismo em mais de meio século de torturas e sacrifícios extraordinários, de heroísmo revolucionário nunca visto, de incrível energia e abnegada pesquisa, de estudo, de experimentação na prática, de desilusões, de comprovação, de comparação com a experiência da Europa. Graças à emigração provocada pelo czarismo, a Rússia revolucionária da segunda metade do século XIX contava, mais que qualquer outro país, com enorme riqueza de relações internacionais e excelente conhecimento de todas as formas e teorias do movimento revolucionário mundial.

“Por outro lado, o bolchevismo, surgido sobre essa granítica base teórica, teve uma história prática de quinze anos (1903/1917) sem paralelo no mundo, em virtude de sua riqueza de experiências. Nenhum país, no decurso desses quinze anos, passou, nem ao menos aproximadamente, por uma experiência revolucionária tão rica, uma rapidez e uma variedade semelhantes na sucessão das diversas formas do movimento, legal e ilegal, pacífico e tumultuoso, clandestino e declarado, de propaganda nos círculos e entre as massas, parlamentar e terrorista. Em nenhum país esteve concentrada, em tão curto espaço de tempo, semelhante variedade de formas, de matizes, de métodos de luta de todas as classes da sociedade contemporânea, luta que, além disso, em conseqüência do atraso do país e da opressão do jugo czarista, amadurecia com singular rapidez e assimilava com particular sofreguidão e eficiência a “última palavra” da experiência política americana e européia” (V. I. Lênin, Esquerdismo, doença infantil do comunismo).

A revolução russa foi um produto de longo amadurecimento. Em certo sentido, pode-se dizer que este processo acelerou a formação revolucionária de toda a classe operária européia que, na sua ausência, teria demorado mais para obter uma teoria revolucionária tão acabada e tão rica como a que presidiu à criação da III Internacional em 1918.

Lênin, o Bolchevismo e a classe operária russa, longe de serem um movimento de ocasião, de revolucionários excêntricos que ganharam na loteria da história, foram a síntese e a personificação deste complexo e original desenvolvimento político que uma vez realizado através do lento e cruel trabalho da história tornaram-se patrimônio dos revolucionários de todos os países. Parodiando o grande pioneiro do pensamento revolucionário russo que foi Alexandre Herzen, podemos dizer que da mesma forma que uma criança na escola vai ter que descobrir o teorema de Euclides, mas não ter que descobri-lo do nada, apenas percorrer um caminho já percorrido, a classe operária mundial vai ter que descobrir a teoria revolucionária do bolchevismo, hoje chamada trotskismo, através do estudo e da experiência, mas não vai ter que descobri-la do nada, refazendo em muito menos tempo todo o caminho percorrido pelos imortais revolucionários russos, dos decembristas a Lênin e Trótski.