OBSERVAÇÕES SOBRE A CRISE DA IV INTERNACIONAL

Rui Costa Pimenta –

A IV Internacional foi desmantelada em 1952, dando lugar a criação de dois blocos que, posteriormente, levariam a um maior desintegração em dezenas de organizações internacionais que se reivindicariam, algumas até hoje, da “reconstrução” ou da “reorganização” ou, até mesmo, da manutenção da IV Internacional.

A raiz da ruptura foi a tentativa de revisão radical pela maioria da direção internacional encabeçada pelo seu secretário-geral, o grego Michel Raptis conhecido como Michel Pablo. Esta revisão foi resultado das pressões sociais sofridas pela esquerda pequeno-burguesa sobre a base dos acontecimentos do pós-guerra. No imediato pós-guerra, o stalinismo confirma de maneira cabal o seu caráter contrarrevolucionário conforme a caracterização de Trótski e da IV Internacional. A frente popular mundial concluída entre o governo da URSS e o imperialismo e o estrangulamento da revolução europeia na França e na Itália por esta frente popular, a traição da Revolução Grega não deixam margem a dúvidas. A adesão de Stálin, Togliatti, Maurice Thorez e de todo o aparato stalinista internacional às ilusões da democracia imperialista (o PCB, com Prestes no Brasil, é um exemplo significativo) acaba de confirmar a derrocada direitista do stalinismo e a sua conversão ao regime político burguês. Os acontecimentos de 1948, ou seja, a contraofensiva imperialista, apoiada na derrota da revolução na Europa e na política stalinista de contenção da revolução mundial, que não estava nos planos nem de Stálin e dos stalinistas, nem da inexperiente direção da IV Internacional, leva a uma reviravolta que os dirigentes da organização trotskista serão incapazes de compreender. A expulsão do PCF do governo em 1947, o início da guerra da Indochina, o Plano Marshall, o afastamento do Partido Comunista Italiano e as críticas eleições de 1949 na Itália destroem as ilusões em uma convivência harmoniosa entre as direções stalinistas, e os movimentos que dirigem, e a burguesia imperialista mundial. No Brasil, o PCB será colocado na ilegalidade pelo governo Dutra.

O stalinismo respondeu a estas agressões com uma posição defensiva, trancando-se em um zona de segurança dos países do Leste Europeu os quais havia ocupado militarmente para prevenir a derrubada revolucionária de uma burguesia em completa dissolução e expropriando ali o que restava do capital após a debandada dos capitalistas alemães. Este recuo foi seguido de uma pseudo radicalização ideológica, com a ideia de que o mundo estava dividido em blocos e de que a passava à ordem do dia a luta pela democracia, que três anos antes havia sido saudada como uma conquista definitiva. A vitória da Revolução Chinesa em 1949, em ruptura aberta com a posição contrarrevolucionária de Stálin e da cúpula da burocracia da URSS, contribuiu para acentuar ainda mais a impressão – falsa – de avanço do stalinismo em escala mundial.

O núcleo dirigente da IV Internacional, tendo como porta-voz Michel Pablo, sucumbiu completamente ao impressionismo pequeno-burguês e abandonou os princípios mais elementares do programa marxista, adotando a teoria do blocos, em detrimento do programa da luta de classes, e assimilando a ideia antimarxista de que a burocracia haveria de constituir toda uma era na história da humanidade, algo assim como uma nova etapa histórica entre o capitalismo e o socialismo.

Estas posições foram enfrentadas pela maioria da seção francesa da IV Internacional de maneira extraordinariamente lúcida, com exceção das suas conclusões políticas práticas.[1] Estas conclusões políticas, no entanto, não são compreendidas pela maioria das seções

Não foram, porém, estas posições que levaram à divisão da internacional e sim os métodos administrativos e truculentos com os quais Pablo tratou de impor suas noções às seções nacionais. Esta crise será expressiva na América Latina, onde o lugar-tenente de Pablo, o secretário latino-americano da IV Internacional, Homero Cristali, conhecido como J. Posadas, procura dominar as seções locais por meios administrativos. O resultado será a divisão da seção argentina e, ainda mais grave, o esfacelamento do Partido Obrero Boliviano em três frações, em pleno processo revolucionário em 1952.[2]

Forma-se, em consequência dos ataques às seções nacionais pela direção da IV Internacional, uma ala antipablista que compreende organizações europeias como os partidos inglês e francês, latino-americanas como as da Argentina e Bolívia, os norte-americanos do SWP de Cannon etc. que formam um Comitê Internacional em oposição à direção pablista.

A direção pablista acentua o seu curso pró-stalinista e em direção a uma dissolução nos movimentos nacionalistas. À medida em que as ilusões no stalinismo se dissipam com acontecimentos como a Revolução Húngara de 1956 e a intervenção militar russa, a direção pablista prepara uma guinada que envolverá livrar-se de Pablo e elementos mais comprometidos com a orientação anterior como Posadas.

Já o Comitê Internacional mostra-se não apenas incapaz de formular uma política alternativa coerente como também de conseguir um mínimo de unidade interna, dividido entre tendências que se dirigem à direita como o SWP e ultraesquerdistas como a LSS inglesa de Gerry Healy.

A Revolução Cubana de 1959 acentua todas essas contradições e leva à ruptura dos dois blocos e à reunificação de um novo bloco centrista agora baseado na maioria pablista sob a direção de Ernest Mandel e na ala direita do Comitê Internacional formando o que ficaria conhecido como o Secretariado Unificado da IV Internacional. Esta unificação marca o fracasso da oposição trotskista ao centrismo pablista e a consolidação de uma tendência centrista pequeno-burguesa no comando da antiga IV Internacional, liquidando completamente a organização construída em 1938. Esta organização percorrerá um trajeto de completa adaptação à política pequeno-burguesa com a adoção tática foquista pequeno-burguesa nos anos 60, com um programa nacionalista e concluirá em uma completa adaptação à voga “democrática” imperialista nos anos 80 defendendo o “socialismo com democracia”, expresso no Brasil pela organização Democracia Socialista, que se dissolve no governo de frente popular do PT e pelo PSTU que adota posições claramente pró-imperialistas e contrarrevolucionárias tanto diante da crise dos Estados Operários como da luta das nações oprimidas.

O restante do Comitê Internacional entrará em uma crise paralela de signo oposto. A organização healista recusa-se a reconhecer o caráter proletário da Revolução Cubana e, posteriormente, condenaria a Assembleia Popular da Bolívia como sendo uma frente popular. Destes debates, a fragmentação das forças que se proclamavam trotskista aumentará exponencialmente.

Em 1971, forma-se, entre a forças antipablistas remanescentes, o Comitê de Reorganização da IV Internacional – CORQI – com a Organização Comunista Internacionalista, da França, o Partido Operário Revolucionário Boliviano e a organização argentina Política Operária em uma nova tentativa de agrupamento das correntes antipablistas. Esta tentativa fracassará com a guinada abrupta da organização francesa para políticas sectárias em relação aos sindicatos latino-americanos, os quais considera como organizações não operárias, atreladas ao Estado e propõe a sua destruição e substituição por novas organizações sindicais, “livres”. A tentativa de contestar tais posições leva à utilização de métodos administrativos pela organização majoritária, provocando a expulsão da seção argentina Política Operaria e a ruptura do POR boliviano.

A polêmica, apesar dos entraves burocráticos, é instalada no interior da organização brasileira do CORQI, a OSI, e levará à expulsão sumária dos dissidentes, que, no início de 1979, de agrupam na Tendência Trotskista do Brasil, origem do Partido da Causa Operária.

As organizações que se propuseram a resgatar a IV Internacional da crise mostram-se incapazes de fazê-lo pela sua grande debilidade programática. A tendência geral que se pode discernir neste mais de meio século de crise deve ser resumida em dois fatores: os fundamentos assentados por Leon Trótski permitiram uma sobrevida aos grupos centristas que dirigiram a IV Internacional e suas organizações nacionais. No entanto, esse fato apenas retardou a evolução das tendências centrífugas e à decomposição política e ideológica destas organizações, que agora, está atingindo um ponto culminante com a sua conversão integral à política “democrática” do imperialismo mundial ou, alternativamente, à criação de grupos sectários que são a contrapartida desta primeira tendência.

Está excluída qualquer possibilidade de restauração da IV Internacional sobre a base de manobras organizativas. A IV Internacional somente pode existir sobre a base da luta pelo programa trotskista e esta luta deve ser dar em torno dos acontecimentos políticos do presente.

[1] Para uma melhor compreensão da polêmica consultar “Aonde Vamos?”, de Michel Pablo e a réplica, “Aonde vai Pablo?”, de Bleibtreu-Favre pela seção francesa.

[2] Ver Guillermo Lora,

1905 E A TEORIA DA REVOLUÇÃO PERMANENTE

Rui Costa Pimenta –

 

Um dos episódios mais significativos da história do pensamento marxista é o do processo de formação da teoria da revolução proletária atual, à qual damos o nome de teoria da Revolução Permanente.

Esta teoria é comumente associada ao nome de Leon Trótski, dirigente do partido bolchevique e da Revolução Russa de 1917. Foi obra sua a forma final adotada por esta teoria, formulada pela primeira vez como um balanço da Revolução Russa de 1905 no capítulo final do livro Nossa Revolução, depois publicado em separado, com o nome de Balanço e perspectivas. Esta teoria consolidou-se na luta contra as teorias revisionistas ditas da “revolução por etapas” e do “socialismo em um só país”, formuladas pelos mencheviques a partir de 1905 e retomadas por Stálin, no final dos anos 20.

A teoria associada ao nome de Trótski e defendida em conexão com a sua luta, no entanto, não foi apenas a obra intelectual de um único homem, mas o resultado da luta ideológica dos marxistas do início do século e do próprio processo revolucionário da classe operária russa e mundial

 

Teoria da revolução e o processo social

 

As primeiras formulações apoiadas na experiência do movimento operário moderno sobre a teoria da revolução proletária foram feitas por Marx e Engels tomando como base a decisiva experiência revolucionária na Europa em 1848. O desenvolvimento das classes e suas relações recíprocas em uma revolução, tal como se apresentaram naquele momento, foram exaustivamente estudados em duas obras magistrais, Revolução e contrarrevolução na Alemanha de Friedrich Engels e As lutas de classes na França, de Karl Marx, ambas um balanço da época revolucionária europeia. Fundamentada nestas obras será erigida a teoria dos revolucionários russos antes, durante e depois da Revolução de 1905.

Caberá aos russos realizar este avanço fundamental e isto por um conjunto de motivos. O movimento socialista na Europa, após 1848 e, particularmente após a Comuna de Paris (1871) enfrentou uma situação em que a revolução não esteve colocada na ordem do dia como um problema que necessitasse uma resolução em termos de tática política imediata. Até o final do século XIX, praticamente, a luta da social-democracia concentrou-se nas reformas políticas e econômicas que visavam a fortalecer e preparar a classe operária para a revolução.

Na Rússia, um dos mais importantes países da Europa, as contradições sociais evoluíam em sentido diverso na medida que o lento desenvolvimento do país permitia a sobrevivência da autocracia de caráter feudal. Em conseqüência desta contradição aguda, ali foi onde floresceu um amplo movimento revolucionário, intelectual e ideológico a princípio, prático e militante depois. As diversas gerações de escritores revolucionários (dos anos 50 e 70 do século XIX), que fizeram a fama da literatura russa em todo o mundo, são a expressão desta aguda contradição social.

Estes revolucionários, no entanto, não eram marxistas e não compartilhavam as concepções relativas à evolução histórica dos marxistas. Contra as suas concepções, afins do anarquismo, os marxistas do final do século XIX foram obrigados a travar uma dura luta de idéias e, nesta luta, formar toda uma concepção própria da revolução que tem como principais expoentes, Jorge Plekhânov, Lênin e Trótski.

Este desenvolvimento histórico concreto costuma ser substituído por uma concepção puramente metafísica da evolução da teoria, como podemos ver na afirmação de Isaac Deutscher na mais conhecida biografia existente de Leon Trótski: Trótski “(…) opôs sua concepção às opiniões que então prevaleciam entre os marxistas . Esta foi a reformulação, senão a revisão, mais radical do prognóstico da revolução socialista efetuada desde a aparição do Manifesto Comunista de Marx, isto é, de 1847” (O profeta Armado, Issac Deutscher).

Neste sentido, a teoria da Revolução Permanente não seria o resultado final de um processo de formação ideológica, mas uma “revisão” e uma ruptura com a “tradição” e o resultado do pensamento genial do grande revolucionário.

Segundo este e vários autores, a teoria de Trótski não seria apenas uma revisão do marxismo, mas também uma descoberta das “peculiaridades russas” em abstrato.

Se a teoria da revolução permanente fosse, como afirmam estes autores, apenas uma descoberta das “peculiaridades do desenvolvimento russo”, ela não seria um desenvolvimento do marxismo aplicado à Rússia, mas a volta às teorias populistas do “destino próprio” do povo russo. Na realidade, neste ponto a teoria de Trótski baseava-se inteiramente nas análises já realizadas pelos demais marxistas russos: “Assim, o poder administrativo, militar e financeiro do absolutismo, que se devia manter, apesar do desenvolvimento social, bastante longe, como pensavam os liberais, de excluir a possibilidade de uma revolução, já não deixava outra saída; além disso, a revolução estaria destinada desde a origem, a tomar um caráter tanto mais radical quanto mais profundo era o abismo que separava o absolutismo da nação. O marxismo russo pode sentir-se orgulhoso por ter sido o único a explicar a direção deste desenvolvimento e a predizer as suas formas gerais, enquanto os liberais se moviam no ‘praticismo’ mais utópico e os narodniki revolucionários viviam de fantasmagorias e acreditavam em milagres. Todo o desenvolvimento social anterior tornava a revolução inevitável” (Balanço e perspectivas, capítulo II, “Particularidades do desenvolvimento da Rússia”).

A idéia da inevitabilidade da revolução russa, bem como do seu caráter tardio e mais radical, eram o patrimônio comum de todo o marxismo teórico russo, de Plekhânov a Lênin.

Para entender tanto o processo real de elaboração da teoria, bem como a originalidade do pensamento do próprio Trótski torna-se necessário analisar alguns aspectos fundamentais da evolução do pensamento revolucionário russo antes e durante a Revolução de 1905.

 

As origens do marxismo russo

 

O marxismo foi introduzido na Rússia por um grupo de militantes saídos das fileiras dos populistas da organização Terra e Liberdade (Zemlia y Volia), dos quais o mais importante, em vista da sua contribuição teórica, foi Jorge Plekhânov. A organização formada por uma nova geração de revolucionários rompeu-se em torno do debate sobre a questão do terrorismo, tendo Plekhânov adotado a posição mais coerente com a doutrina anarquista da organização original de condenar o terrorismo como sendo uma definição pela luta política. Como costuma acontecer com a luta teórica, o lado que se mostra mais conseqüente na defesa das suas posições adquire uma melhor compreensão do problema, mesmo quando as suas posições estão equivocadas. Plekhânov veio a considerar que a luta política, que seus ex-companheiros haviam adotado de forma inconsciente, era o verdadeiro caminho para a libertação do povo.

Em 1883, tendo estudado o marxismo no exílio, Plekhânov publica O socialismo e a luta política, um pequeno ensaio dirigido à polêmica contra as concepções populistas, defendendo a luta política da classe operária como a única via efetiva para o desenvolvimento da revolução na Rússia.

No ano seguinte publica uma explicação detalhada da sua nova concepção revolucionária no livro Nossas diferenças. Ali expõe pela primeira vez a idéia de que a Rússia não tem um destino especial, ou seja, que não passará como acreditaram os populistas durante quase meio século diretamente da Comuna Rural, o Mir, para o socialismo através da supressão dos senhores feudais, apoiando-se na propriedade comum camponesa da terra. Segundo Plekhânov, o Mir estava em pleno processo de desagregação pela já avançada penetração capitalista no campo:

“Se, depois de tudo o que dissemos, nos perguntamos uma vez mais: deverá a Rússia atravessar a escola do capitalismo? Devemos responder sem hesitação: por que não deveria ela terminar a escola que começou?

“Todas as mais novas e, portanto, as mais influentes tendências da vida social, todos os fatos mais marcantes nos campos da produção e troca têm apenas um significado que não pode ser nem duvidado nem questionado: estão não apenas limpando a via para o socialismo, eles são em si mesmos momentos necessários e altamente importantes no seu desenvolvimento. O capitalismo é favorecido por toda a dinâmica da nossa vida social, todas as forças que desenvolvem com o movimento da máquina social e por sua vez determinam a direção e a velocidade do movimento. Contra o capitalismo estão apenas os interesses mais ou menos duvidosos de uma certa parcela do campesinato e também aquela força da inércia que ocasionalmente é sentida de maneira tão dolorosa pelas pessoas cultas de todo país agrário e atrasado” (Nossas diferenças, “Conclusão”).

Esta idéia fundamental – que hoje poderia parecer de senso comum ao leitor acostumado com o desenvolvimento capitalista em inúmeros países fora da Europa – estava longe de ser aceita naquele momento, não apenas na Rússia como na Europa. No entanto, esta definição sobre as características do desenvolvimento da sociedade russa foram decisivas para construir um movimento revolucionário da classe operária russa.

A idéia de que não havia desenvolvimento capitalista e de que a revolução em curso não era burguesa tinha a função política de fechar os olhos das massas populares, em primeiro lugar a classe operária, para o fato de que era necessário compreender o caráter social deste processo para afirmar o proletariado como força política independente da burguesia.

A luta pela construção de um partido operário social-democrata na Rússia somente poderia ter como base o desenvolvimento do capitalismo naquele país e, em conseqüência, da classe operária que somente poderia ser criada por ele.

É comum confundir-se a teoria de Plekhânov, que afirmava o caráter capitalista do desenvolvimento russo e, sobre esta base, determinava o caráter burguês da revolução que estava a caminho, com a teoria estabelecida pelo menchevismo, a partir de 1905, e pelo stalinismo a partir da morte de Lênin, a teoria da revolução por etapas.

No momento e nas condições em que Plekhânov formulou a sua teoria, esta tinha um caráter e uma função revolucionária, uma vez que constituía uma hipótese adequada ao nível de desenvolvimento do processo social, do processo de evolução da classe operária e da própria teoria. Nestas condições, a teoria de Plekhânov da revolução burguesa, a qual não definia, porque não se haviam criado as condições, os aspectos táticos da revolução, que serão fundamentais na elaboração das teorias de Lênin e Trotski, assinalava o roteiro real da revolução. Foi por isso que abriu caminho e serviu como alicerce para a construção do movimento revolucionário que resultará na conquista do poder pelo proletariado em 1917. A importância central desta teoria, de um ponto de vista político, era que eliminava as ilusões em uma revolução cujo conteúdo não seria burguês e assim colocaria a classe operária a reboque do programa burguês. A falta de consciência sobre verdadeiro caráter social da revolução somente poderia ser uma fonte de confusão para o proletariado.

A teoria da revolução por etapas do menchevismo e do stalinismo, por sua vez, representa, não um avanço sobre a realidade, mas um recuo diante dela, tendo sido estruturada sobre a base de uma política claramente contrarrevolucionária. A diferença entre as duas teorias pode parecer sutil, mas na realidade, a segunda nada mais é que um dogma da necessidade do capitalismo e da direção da burguesia na revolução, que não estavam presentes na primeira. Sua função política era a de colocar um movimento revolucionário, um partido operário constituído, a reboque da burguesia quando esta visivelmente se desenvolvia em total oposição à burguesia no quadro da revolução burguesa, ou seja, cumpria um papel político oposto à primeira.

Ao contrário das etapas rigidamente separadas por um longo desenvolvimento capitalista que encontraremos depois no dogma stalinista, Plekhânov via a revolução como um processo vivo:

“a presente posição das sociedades burguesas e a influência das relações internacionais no desenvolvimento social de cada país civilizado nos permite esperar que a emancipação social da classe operária russa seguirá muito rapidamente a queda do absolutismo. Se a burguesia alemã ‘veio tarde demais’, a russa veio ainda mais tarde e sua dominação não pode ser longa” (O socialismo e a luta política, grifo nosso).

O passo seguinte na elaboração da teoria marxista da revolução seria dado por Lênin sobre a base do próprio avanço da revolução, em 1905.

 

A concepção revolucionária de Lênin

 

O maior passo da teoria da revolução foi dado com Lênin. Como dirigente da principal ala, a ala revolucionária do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR), fundado em 1903, Lênin procurou responder não aos problemas teóricos da formação da sociedade russa e do seu desenvolvimento, mas aos problemas táticos apresentados pela revolução.

Apoiado nas teorias desenvolvidas por Plekhânov, Lênin havia tido um papel de destaque na luta contra as teorias populistas em obras como O romantismo econômicoPerólas da planomania populista e, principalmente, na monumental obra O desenvolvimento do capitalismo na Rússia, onde demonstra com base nas teses de O capital de Marx, em abundantes dados estátisticos, a penetração do capitalismo em todas as relações sociais agrárias na Rússia do final do século XIX. Para Lênin, a revolução burguesa era um fato:

“Os marxistas estão absolutamente convencidos do caráter burguês da revolução russa. O que isto quer dizer? Significa que as transformações democráticas do regime político, assim como as transformações e econômicas das quais a Rússia sente a necessidade, longe de implicar por elas mesmas em que o capitalismo e a dominação da burguesia sejam colocados em questão, desimpedirão, pela primeira vez, a via de um desenvolvimento amplo e rápido , europeu e não asiático do capitalismo na Rússia; pela primeira vez tornarão possível neste país a dominação da burguesia como classe” (Duas táticas da social-democracia na revolução democrática).

No entanto, conforme Engels havia demonstrado, o aparecimento tardio da burguesia apontado acima por Plekhânov, tinha como conseqüência inevitável o seu caráter não revolucionário. A sociedade russa precisa livrar-se da superestrutura política criada por séculos de permanência do feudalismo russo, porém, no seu interior, criava-se já uma nova luta e nova classe social que expressa interesses que iam além da sociedade burguesa em formação, o proletariado:

“A revolução democrática, burguesa pela sua essência econômica e social, não pode deixar de exprimir as necessidades de toda a sociedade burguesa.

“Mas esta própria sociedade, que aparece hoje como toda levantada contra a autocracia, está irrevogavelmente cindida pelo abismo que separa o Capital e o Trabalho. O povo sublevado contra a autocracia não é uno. Proprietários e assalariados, uma minoria insignificante de ricos (‘os dez mil’) e dezenas de milhões de não possuidores e de trabalhadores, foram realmente ‘duas nações’ como o disse um inglês clarividente na primeira metade do século XIX . A luta entre o proletariado e a burguesia está na ordem do dia em toda a Europa. Esta luta há muito chegou à Rússia. Na Rússia contemporânea, não são duas forças beligerantes que dão à revolução seu conteúdo, mas mais propriamente duas guerras sociais heterogênas e diferentes: uma no interior do atual regime autocrático e feudal, a outra no interior do futuro regime democrático burguês que nasce diante dos nossos olhos. Uma é aquela de todo o povo pela liberdade (pela liberdade da sociedade burguesa) pela democracia, quer dizer pela soberania absoluta do povo; a outra é a luta do proletariado contra a burguesia, por uma organização socialista da sociedade” (idem).

Tendo em vista estas questões, todo o problema concentrava-se na tática a ser seguida pela social-democracia diante da revolução em curso. Como completar o mais rápida e profundamente a revolução burguesa? Como será derrubado o governo autocrático? Quem o irá substituir uma vez derrubado? Quem convocará a Assembléia Nacional Constituinte que irá modificar o regime político?

“Para instituir um novo regime ‘que expresse realmente a vontade do povo’, não basta qualificar de constituinte a assembléia de representantes. É necessário que esta assembléia tenha ainda a força de ‘constituir’. Consciente deste fato, o Congresso (do partido) não se limitou a formular pura e simplesmente na sua resolução a palavra-de-ordem de ‘Assembléia Constituinte’; ele precisou as condições materiais indispensáveis que permitirão a esta assembléia realizar de fato a sua tarefa. É urgente e indispensável indicar as condições nas quais uma assembléia constituinte de nome possa tornar-se constituinte de fato, pois a burguesia liberal, representada pelo partido constitucional-monarquista, deforma conscientemente, diversas vezes assinalamos, a palavra-de-ordem de Assembléia Nacional Constituinte e à reduz a uma frase vazia” (Duas táticas da social-democracia na revolução democrática)

A solução do problema esta em que:

“O proletariado revolucionário, na medida que é dirigido pela Socialdemocracia, exige que todo o poder seja entregue à Assembléia Constituinte; neste sentido, não busca apenas obter o sufrágio universal e liberdade de propaganda integral, mas também a derrubada imediata do governo czarista e sua substituição por um governo revolucionário provisório” (idem).

Desta forma, Lênin tirou as conseqüências táticas de toda a teoria anterior, formulando claramente os aspectos centrais da atuação do proletariado na revolução e o caminho para que chegasse ao seu termo:

“A resolução do Congresso diz que somente um governo revolucionário provisório, que será o órgão da insurreição popular vitoriosa, é capaz de assegurar a liberdade completa da propaganda eleitoral e de convocar uma assembléia que expresse realmente a vontade do povo” (idem).

A teoria da revolução ficava definida de modo concreto a partir das tarefas práticas a serem realizadas: para concluir a revolução burguesa torna-se necessária a insurreição dirigida pelo proletariado, o qual ocupa um papel central na revolução burguesa, a constituição de um governo revolucionário provisório. A questão incumbia fundamentalmente à definição das relações entre o proletariado no interior da revolução burguesa:

“O resultado da revolução depende do seguinte: a classe operária desempenhará o papel de um auxiliar da burguesia, poderosa pelo assalto que realiza contra a autocracia, mas impotente politicamente, ou dirigirá a revolução popular?” (idem).

Esta tática, que constituía todo um plano de ação revolucionário para o partido do proletariado, defrontou-se, de imediato com a vigorosa resistência da ala direita do POSDR, os chamados mencheviques, que refletindo as tendências da burguesia na revolução opunham-se não apenas à insurreição proletária como a qualquer definição da parte do partido proletário sobre o caráter do governo revolucionário provisório. Toda esta teoria, apresentada como sendo uma política marxista ortodoxa, que visava a preservar a independência política do proletariado na revolução, constituía, na realidade, uma política de completo seguidismo diante da burguesia e das suas manobras contra a própria revolução burguesa.

Do ponto de vista das concepções, a política bolchevique baseava-se em uma apreciação completamente falsa da revolução em geral e da revolução burguesa em particular, que Lênin registra com extraordinária clareza:

“Em países como a Rússia, a classe operária sofre menos do capitalismo do que a insuficiência do seu desenvolvimento” (idem).

Neste sentido, a revolução burguesa, que conduz a libertar o desenvolvimento das forças produtivas dos entraves que permanecem da sociedade feudal cria as melhores condições possíveis para o desenvolvimento do proletariado enquanto classe e para a sua luta contra a própria burguesia:

“A classe operária está, portanto, absolutamente interessada no desenvolvimento o mais amplo, o mais livre e mais rápido do capitalismo. É-lhe absolutamente vantajoso eliminar todos os vestígios do passado que se opõem ao desenvolvimento amplo, livre e rápido do capitalismo. A revolução burguesa é precisamente uma revolução que liquida de modo mais decidido os vestígios do passado, os vestígios do feudalismo (que compreendem não apenas a autocracia, mas também a monarquia) e assegura do melhor modo o desenvolvimento mais amplo, mais livre e mais rápido do capitalismo” (idem).

E ainda:

“Mas daí não decorre de forma alguma que a revolução democrática (burguesa por seu conteúdo econômico e social) não seja de um interesse imenso para o proletariado (…) as pessoas da nova Iskra compreendem de um modo radicalmente falso o sentido e a envergadura desta categoria. Surge constantemente nas suas reflexões a idéia de que a revolução burguesa é uma revolução que não pode dar senão vantagens para a burguesia. Ora, nada mais falso que esta idéia. A revolução burguesa é uma revolução que não sai do quadro do regime econômico e social burguês, ou seja, capitalista. A revolução burguesa expressa as necessidades do capitalismo em desenvolvimento; bem longe de arruinar as bases do capitalismo, ela as alarga e afirma” (idem).

No entanto, não se trata apenas do desenvolvimento social capitalista, mas da própria marcha do processo político. A revolução burguesa é, não obstante, uma liquidação dos instrumentos de opressão classista, do Estado, que a burguesia quer modificar, mas preservar como instrumento de dominação sobre a classe operária. Nesse sentido, Lênin demonstra que, na medida que a burguesia seja uma classe cuja época revolucionária tenha passado, a revolução, mesmo burguesa, ocorre, em um certo sentido, mais em proveito da classe operária do que da própria burguesia:

“Esta revolução traduz, conseqüentemente, não apenas os interesses da classe operária, mas também os de toda a burguesia. A dominação da burguesia sobre a classe operária sendo inevitável no regime capitalista, pode-se dizer com justeza que a revolução burguesa traduz menos os interesses do proletariado que aqueles da burguesia. Mas a idéia de que não traduz de forma alguma os interesses do proletariado é francamente absurda. Esta idéia absurda resume-se na ancestral teoria populista segundo a qual, a revolução burguesa sendo contrária aos interesses do proletariado, não temos necessidade da liberdade política burguesa. Ou então ela se resume no anarquismo, que condena qualquer participação do proletariado na política burguesa, na revolução burguesa, no parlamentarismo burguês” (idem).

A revolução burguesa, neste sentido, apresenta toda uma perspectiva política favorável à classe operária, classe revolucionária da sociedade burguesa e classe mais revolucionária da sociedade russa:

“A revolução burguesa apresenta, também, para o proletariado as maiores vantagens. A revolução burguesa é absolutamente indispensável, no interesse do proletariado. Quanto mais ela seja completa e decisiva, quanto mais conseqüente, melhor estará assegurada a possibilidade para o proletariado lutar pelo socialismo, contra a burguesia. Esta conclusão apenas pode parecer nova, estranha ou paradoxal aos que ignoram o ABC do socialismo científico. Ora, desta conclusão decorre claramente que a revolução burguesa é, num determinado sentido, mais vantajosa para o proletariado que para a burguesia. Veja aqui o sentido preciso em que esta afirmação é incontestável: é vantajoso para a burguesia apoiar-se sobre certos vestígios do passado contra o proletariado, por exemplo, sobre a monarquia, o exército permanente etc. É vantajoso para a burguesia que a revolução burguesa não liquide de modo muito resoluto todos os vestígios do passado, que ela deixe subsistir alguns, dito de outro modo, que a revolução não seja inteiramente conseqüente, não vá até o fim, não se mostre resoluta e implacável” (idem).

Levando-se em consideração este conjunto de problemas, toda a questão resume-se à tática revolucionária, a qual deve ser colocada de maneira concreta:

“Abaixo a autocracia! – todo mundo concorda com esta palavra-de-ordem, não apenas todos os social-democratas mas também todos os democratas e, inclusive, todos os liberais, a crer em suas declarações atuais. Mas o que quer dizer isso? Como deve ser derrubado o atual governo? Quem deve convocar a Assembléia Constituinte, eleita pelo sufrágio universal etc. (…)?” (A social-democracia e o governo revolucionário provisório).

A maneira como os diferentes partidos e os diferentes agrupamentos respondem as estas perguntas definem de maneira inapelável todo o seu conteúdo político e social:

“Estas questões conduzem diretamente à do governo revolucionário provisório ; não é difícil de compreender que, sob um regime autocrático, eleições populares e verdadeiramente livres à Assembléia Constituinte, o sufrágio universal igual, direto e secreto, plenamente assegurado, não são apenas improváveis, mas simplesmente impossíveis” (idem).

“Se reivindicamos seriamente a derrubada imediata do governo autocrático, devemos compreender claramente por qual outro governo queremos substituí-lo. Dito de outra forma, como concebemos a atitude da social-democracia em relação ao governo provisório revolucionário?” (idem).

Neste ponto, as divergências no interior da Socialdemocracia concentram-se na questão de saber se a classe operária deve participar do governo provisório que sairá da insurreição. Para os mencheviques, cuja política é pura passividade, resultante do seguidismo diante da burguesia liberal que contemporiza com a autocracia, a resposta é não. Participar do governo é trair o programa do marxismo que diz que não se deve participar de um governo burguês, invocando a crítica da Socialdemocracia internacional à participação da ala revisionista e reformista de Millerand no governo Waldeck-Rousseau na França, na seqüência da campanha pela absolvição de Dreifuss. Lênin rejeita categoricamente a comparação entre a participação em um governo contrarrevolucionário com a participação em um governo revolucionário, destacando a participação de Varlin no governo da Comuna de Paris. O problema consiste em que caracterizações sociológicas abstratas não podem superar as considerações políticas concretas e, desta forma, Lênin coloca o dedo na ferida ao apontar o problema central:

“A recusa incondicional de participar no governo revolucionário provisório, recomendada neste momento pela ala direita do nosso partido, condena inevitavelmente a atividade do proletariado à indecisão, à instabilidade e à dispersão na preparação, organização e execução da insurreição armada” (Suplemento à resolução sobre a participação da social-democracia no governo revolucionário provisório).

As conseqüências políticas surgem naturalmente da marcha da revolução: sem a derrubada da autocracia a revolução burguesa será um aborto; a autocracia somente pode ser derrubada se o proletariado, diante das indecisões das demais classes e frações de classes sociais, levar adiante a insurreição. A insurreição somente tem sentido se estiver dirigida à formação de um governo revolucionário que consolide e conclua a obra da insurreição, conseqüentemente, o proletariado, de quem dependia a insurreição não apenas devia participar como seria, na realidade, a alma do governo revolucionário.

Para Lênin, havia duas classes capazes de formar a base deste governo: o proletariado e o campesinato, daí a sua famosa fórmula de “ditadura democrática do proletariado e do campesinato”, ou seja, o governo revolucionário seria uma ditadura voltada a esmagar a reação das forças derrubadas pela revolução, mas uma ditadura “democrática” e não socialista, isto é, que não poderia escapar do marco do desenvolvimento capitalista da sociedade. Estas indefinições, que ainda não haviam sido resolvidas pelo desenvolvimento da revolução derrotada somente seriam acabadamente desenvolvidos por ele a partir da guerra mundial de 1914 e do realinhamento de forças que ela provoca no interior da sociedade russa e mundial.

Neste momento, Lênin assinala simplesmente os limites históricos da revolução burguesa em curso:

“Mais esta vitória seja completa e pronta, mais rápida e profundamente revelar-se-ão os novos antagonismos, causas de uma nova luta de classes sobre o terreno do regime burguês plenamente democratizado. Quanto mais impulsionemos a seu termo a revolução democrática, e mais nos encontraremos próximos de abordar as tarefas da revolução socialista, mais a luta do proletariado contra as próprias bases da sociedade burguesa será áspera e brutal” (O socialismo e os camponeses).

 

Trótski e o livro Balanço e Perspectivas 

 

Durante a revolução russa de 1905, a luta de idéias e prática em torno dos problemas da revolução serviu para separar nitidamente a ala revolucionária da ala oportunista da Socialdemocracia, saldando os debates anteriores sobre a questão da organização do partido, relativos ao congresso de 1903 da Socialdemocracia. A revolução e as “duas táticas da social-democracia na revolução democrática” iluminaram o verdadeiro conteúdo dos debates sobre a organização, que não diziam respeito à escolha entre um partido democrático e um partido centralizado de maneira burocrática, mas entre uma política revolucionária ativa, que colocava o proletariado à cabeça da revolução burguesa e a levava a seu termo e uma política passiva de completa adaptação à burguesia liberal e às suas propensões a conciliação com a ditadura do Czar.

No entanto, em grande medida por fora da luta interna do partido, coube a um jovem revolucionário, que não se alinhava com as posições bolcheviques mas que havia adotado, no fundamental, a tática da ala revolucionária. Trotski foi capaz, também, de observar em primeira mão um dos aspectos centrais da revolução, o desenvolvimento político do proletariado, de um ponto de vista privilegiado, como presidente do Soviete, o Conselho Operário, da cidade industrial de S. Petersburgo.

Suas conclusões são bastante claras:

“A revolução russa, começando como uma revolução burguesa, em suas tarefas imediatas, desenvolverá rapidamente poderosas contradições de classe e não chegará à vitória a não ser transferindo o poder à única classe capaz de se colocar à cabeça das massas exploradas, o proletariado.

“Uma vez no poder, o proletariado não apenas não quererá, mas não poderá limitar-se ao programa democrático-burguês. Não poderá levar a revolução até o final se a revolução não se transformar em revolução do proletariado europeu. É deste modo que serão ultrapassados o programa democrático-burguês da revolução russa e o quadro nacional; a hegemonia política temporária da classe operária consolidar-se-á em ditadura socialista durável. Se a Europa permanece imóvel, a contrarrevolução burguesa não aceitará um governo das massas trabalhadoras na Rússia e lançará o país bastante para trás, longe de uma república democrática dos operários e camponeses. Chegado ao poder, o proletariado não deverá limitar-se aos quadros da democracia burguesa, mas desenvolver a tática da Revolução Permanente, vale dizer, abolir a fronteira entre o programa mínimo e o programa máximo da Socialdemocracia, avançar rumo às reformas sociais cada vez mais profundas e procurar um apoio direto na revolução no Ocidente europeu” (Préfácio de 1919 a Balanço e Perspectivas).

Estas conclusões, que concluíam as observações e a política traçada por Lênin, são o resultado da aplicação do mesmo método, ou seja, de tirar as conclusões da luta política e não de esquemas abstratos de caráter sociológicos colocados acima do movimento real das classes no processo revolucionário.

Ao mesmo tempo, Trótski rebatia as objeções feitas às possibilidades inscritas no desenvolvimento da revolução:

“É possível que os operários conquistem o poder num país economicamente atrasado antes de o conquistarem num país avançado. Em 1871, os operários tomaram deliberadamente o poder na cidade pequeno-burguesa de Paris; só por dois meses, é verdade, mas, nos centros ingleses ou americanos do grande capitalismo, os trabalhadores nunca tiveram o poder, mesmo por uma hora, nas suas mãos. Imaginar que a ditadura do proletariado depende, de algum modo automaticamente, do desenvolvimento e dos recursos técnicos de um país, é tirar uma conclusão falsa de um materialismo ‘econômico’ simplificado até ao absurdo. Este ponto de vista nada tem a ver com o marxismo.

“Na nossa opinião, a revolução russa criará condições favoráveis à passagem do poder para as mãos dos operários – e, se a revolução prevalecer, é o que se realizará com efeito – antes que os políticos do liberalismo burguês tenham tido a possibilidade de poder mostrar plenamente a prova do seu talento para governar.

“Ao fazer o balanço da revolução e da contra-revolução de 1848-1849 para o jornal americano The Tribune, Marx escreveu:

“‘No seu desenvolvimento social e político, a classe operária está tão atrasada na Alemanha com relação à da Inglaterra e à da França como a burguesia alemã com as destes países. Tal mestre, tal discípulo. A evolução das condições de existência para uma classe proletária numerosa, forte, concentrada e inteligente marcha a par com o desenvolvimento das condições de existência duma classe burguesa numerosa, rica, concentrada e poderosa. O movimento operário nunca é independente, nunca possui um caráter exclusivamente proletário antes que as diferentes frações da burguesia, e sobretudo a sua fração mais progressiva, os grandes industriais, não tenham conquistado o poder político e transformado o Estado de acordo com as suas necessidades. É então que o inevitável conflito entre patrões e operários se torna eminente e já não pode ser adiado’.

“Esta citação é provavelmente familiar ao leitor, porque os marxistas têm abusado de textos semelhantes nos últimos tempos. Ela foi utilizada como um argumento irrefutável contra a idéia de um governo da classe operária na Rússia. “Tal mestre, tal discípulo”. Se a burguesia capitalista não é ainda bastante forte para tomar o poder, dizem eles, então é ainda menos possível estabelecer uma democracia operária, isto é a dominação política do proletariado.

“O marxismo é antes de tudo um método de análise – de análise, não de textos, mas de relações sociais. Será verdade que na Rússia a fraqueza do liberalismo capitalista significa inevitavelmente a fraqueza do movimento operário? Será verdade, para a Rússia, que não pode haver movimento operário independente antes que a burguesia tenha conquistado o poder? Basta colocar estas questões para ver que formalismo sem esperança se dissimula por trás das tentativas feitas para transformar uma observação, historicamente relativa, num axioma supra-histórico” (Balanço e perspectivas, capítulo IV, “A revolução e o proletariado”).

Analisando a luta de classes durante a revolução Trótski pôde perceber, de um modo mais concreto do que a análise do desenvolvimento social à qual a primeira está subordinada, o desenvolvimento concreto das relações de força entre as classes sociais. O desenvolvimento do capitalismo mundial havia colocado, como já se apresentava a análise dos teóricos revolucionários, uma nova relação onde a burguesia já não era capaz de cumprir a sua missão histórica e o proletariado já era o suficientemente desenvolvido para aspirar ao poder político, embora o desenvolvimento nacional ainda não o fosse para o estabelecimento do socialismo.

Desta forma, embora “se pudesse argumentar que as condições sociais russas ainda não estavam maduras para o socialismo”, a luta de classes, por meio da qual as condições sociais se manifestam como ação social dos homens, empurrava o proletariado, pela lógica da sua própria posição” a assumir o poder:

“Afirmando que a nossa revolução é burguesa nos seus objetivos e, por conseqüência, nos seus resultados inevitáveis, fixam-se limites a todos os problemas que levanta esta revolução; mas isto quer dizer que se fecham os olhos perante o fato de o autor principal nesta revolução burguesa ser o proletariado, que todo o curso da revolução empurra para o poder.

“Poder-se-ia então argumentar dizendo que, no quadro de uma revolução burguesa, a dominação política do proletariado será simplesmente um episódio passageiro; seria esquecer que, uma vez que o proletariado tenha o poder nas mãos, não o cederá sem opor uma resistência desesperada; este poder só poderá ser-lhe subtraído pela força das armas.

“Poder-se-ia igualmente argumentar sustentando que as condições sociais da Rússia não se encontram ainda maduras para uma economia socialista; é necessário, no entanto, considerar que o proletariado, uma vez no poder, será inevitavelmente pressionado, pela própria lógica da sua posição, a instalar uma gestão estatal da indústria. A fórmula sociológica geral ‘revolução burguesa’ não resolve de maneira nenhuma os problemas táticos e políticos, as contradições e as dificuldades levantadas pelo mecanismo de uma revolução burguesa determinada.

“No final do século. XVIII, no quadro de uma revolução burguesa cuja tarefa era estabelecer a dominação do capital, a ditadura dos “sans-culottes” revelou-se possível. Este não foi um episódio passageiro; esta ditadura marcou todo o século seguinte, embora tenha rapidamente fracassado contra as barreiras da Revolução Francesa, que a limitavam de todos os lados. No princípio do século XX, numa revolução cujas tarefas objetivas diretas são igualmente burguesas, emerge, como a perspectiva de um futuro próximo, a dominação política inevitável, ou pelo menos provável, do proletariado. E este saberá assegurar que a sua dominação não seja, como esperam alguns filisteus realistas, um simples episódio” (Balanço e perspectivas, capítulo IV, “O proletariado e a revolução”).

Os problemas e as contradições decorrentes desta situação foram resolvidos pelo autor da teoria da revolução permanente de forma também concreta:

“Deixada com os seus próprios recursos, a classe operária russa será inevitavelmente esmagada pela contrarrevolução desde que o campesinato se afaste dela; só terá a possibilidade de ligar a sorte do seu poder político e, por consequência, a sorte de toda a revolução russa, à da revolução socialista na Europa; lançará na balança da luta de classes de todo o mundo capitalista o enorme peso político e estatal que lhe terá dado um momentâneo concurso de circunstâncias na revolução burguesa russa. Tendo o poder de Estado nas suas mãos, os operários russos, com a contrarrevolução atrás deles, lançarão aos seus camaradas do mundo inteiro o velho grito de união que será desta vez um apelo à luta final: Proletários de todos os países, uni-vos” (Balanço e perspectivas, capítulo IX, “A revolução e a Europa”).

Assim como o caráter internacional da economia capitalista havia determinado o caráter “tardio” da burguesia russa, também esta mesma característica fornecia a solução para o problema colocado pelo desenvolvimento da luta revolucionária: do ponto de vista da luta de classes, o proletariado russo chegava ao poder tendo detrás de si os recursos da luta de classes internacional do proletariado europeu e, depois, como o comprovará a Revolução de 1917, do proletariado de todos os países onde havia surgido uma indústria capitalista e dos povos oprimidos pelo imperialismo mundial. Do ponto de vista dos recursos materiais para a superação do atraso russo, era preciso ligar a Revolução Russa com a revolução mundial que criaria as condições para que a Rússia atrasada ultrapassasse todo o período histórico de desenvolvimento capitalista apoiando-se no superior desenvolvimento das forças produtivas de países como a Alemanha, Inglaterra ou a França.

Nestas condições, ao contrário do que pensam muitos, baseados inclusive na propaganda fraudulenta do stalinismo, Trótski não ignorava o caráter burguês da revolução russa ou elaborou uma teoria que, como gostariam muitos esquerdistas subjetivos de hoje, fosse em oposição às concepções materialistas da história do marxismo. Para Trótski, as tarefas da revolução burguesa seriam realizadas pela própria ditadura do proletariado, ou seja, como parte do processo de permanência da revolução que, baseada no regime proletário, resolveria os problemas democráticos que o capitalismo não havia resolvido em um processo permanente que conduzia ao socialismo e não ao estabelecimento do regime democrático. Foi esta compreensão objetiva que lhe permitiu em uma de suas obras teóricas mais importantes, A Revolução Traída, opor o método e as conclusões do materialismo histórico para demonstrar a inviabilidade das alegações dogmáticas e subjetivas da burocracia stalinista de que o socialismo poderia ser realizado na Rússia atrasada, que não havia sequer superado os níveis de desenvolvimento do capitalismo, isoladamente, sem o concurso da revolução e do Estado operário a ser estabelecido por ela nos países capitalistas desenvolvidos.

Com este análise, estava resolvido no plano teórico o que a classe operária russa e sua vanguarda revolucionária resolveria no terreno prático 12 anos depois, com a tomada do poder: a teoria da Revolução Permanente que, a partir daí, sobre a base da simplificação e homogeneização das condições sociais promovida pelo imperialismo em todo o mundo, colocou-se como norma para, senão a maioria, um vasto números de países do mundo.

 

 

O QUE É O TROTSKISMO

Rui Costa Pimenta –

 

Trótski foi, ao mesmo tempo, um dos líderes fundamentais da Revolução Russa de 1917 e o principal oponente da burocracia a qual promoveu a reação contra a revolução proletária, usurpou o poder da classe operária e enlameou o nome do comunismo. O assassinato de Trótski, a mando de Stálin, transformou aquele em um verdadeiro mártir da luta pela revolução proletária.

Hoje, o nome de Trótski é uma bandeira de luta, representativa do socialismo não corrompido e fiel à ideia fundamental da libertação da humanidade explorada e da opressão de todo tipo.

Nessas condições, nada há de estranhar em que inúmeras correntes políticas – a maioria das quais absolutamente nada tem que ver com a luta da classe operária – cobicem para si a bandeira da IV Internacional e do trotskismo.

A crise da IV Internacional, de 1952 a 1961, ou seja, a sua destruição por uma tendência centrista e pequeno-burguesa que, depois, ramificou-se (pablismo, mandelismo, morenismo, lambertismo, healismo etc.) é a expressão mais acabada dessa situação.

Com essa ramificação centrista, o trotskismo assumiu diversas feições, desde o oportunismo mais acabado e partidário declarado da colaboração de classes, até o ultra-esquerdismo  típico da pequena-burguesia democratista.

Se a esse panorama acrescentarmos – o que é parte integrante do quadro geral – o esforço da burguesia para combater o marxismo por meio da mentira, da falsificação e da confusão, temos o retrato completo.

 

O que não é o trotskismo: os mitos e a realidade

 

O primeiro grande mito que se criou sobre o trotskismo é que este seria nada mais do que a contrapartida, o oposto do stalinismo. Alguns chegaram ao extremo de afirmar que, uma vez liquidado o stalinismo com a dissolução da URSS, não haveria mais motivo para se falar em trotskismo. O trotskismo seria, nessa versão, um complemento, uma sombra invertida do stalinismo e não uma corrente política e ideológica de direito próprio.

O segundo é que o trotskismo seria uma corrente do chamado “socialismo democrático” ou “socialismo com democracia”, ou seja, uma variante da socialdemocracia. Hoje, a maioria das correntes que se denominam trotskistas adota esse ponto de vista como programa central. No Brasil, o Psol, como várias corrente “trotskistas” e o partido do socialismo “com liberdade”, o que é uma verdadeira homenagem ao stalinismo: o qual seria socialismo “sem liberdade”, mas de qualquer modo socialismo. O PSTU e todas as correntes da Conlutas são partidários da “democracia socialista”. Essa ideia supõe que o stalinismo teria como aspecto central um caráter ditatorial e o trotskismo seria uma corrente democrática. Tal confusão tem levado muito setores a considerar que o stalinismo seria partidário da ditadura do proletariado e que o trotskismo seria favorável à democracia em abstrato, ou seja, à democracia burguesa.

Trótski combateu o stalinismo devido à política burguesa deste, em nome da luta de classes, da ditadura do proletariado e do marxismo e não em nome da democracia burguesa, o que não impede os seus pretensos discípulos de seguir essa orientação.

Um terceiro mito fundamental sobre o trotskismo diz respeito ao partido. Para muitos, na teoria e na prática, a concepção leninista (marxista) do partido seria a base da ditadura da burocracia na antiga URSS. Nesse caso, também, revela-se o caráter socialdemocrata de todo centrismo, que encobre com a bandeira da IV Internacional. O partido não leninista, “democrático”, nada mais é do que a versão pequeno-burguesa do típico partido de esquerda parlamentar ao melhor estilo da socialdemocracia, do qual o Partido dos Trabalhadores foi e continua sendo o melhor exemplo, e do qual PCdoB, Psol, PSTU e PCB são caricaturas.

Um quarto mito é o de que o trotskismo não seria a continuidade da III Internacional, a qual estaria contaminada de stalinismo já na política revolucionária de Lênin, ou do reformismo “mecanista” da II Internacional, mas toda uma outra doutrina que, no extremo, seria mesmo uma ruptura com o marxismo, ruptura essa expressa na teoria da Revolução Permanente. Nesse sentido, o trotskismo não seria marxismo nem marxismo-leninismo e sim uma espécie de neo-marxismo.

 

Contra o “trotskismo” acadêmico

 

O centrismo antitrotskista trouxe uma degradação ainda maior da ideia de trotskismo ao transformá-lo em uma teoria acadêmica, ou seja, ao adaptá-lo à mentalidade burguesa da esquerda universitária burguesa. O iniciador dessa transposição foi o dirigente da ala centrista majoritária responsável pela destruição da IV Internacional, Ernest Mandel – na realidade um intelectual acadêmico e um professor que complementava essa atividade com a de dirigente de esquerda oportunista. O mandelismo iniciou o amálgama entre algumas ideias retiradas do trotskismo e o “socialismo acadêmico” da Escola de Frankfurt, do lukacsianismo, gramscianismo, luxemburguismo e outras formas de stalinismo ou anarquismo universitário – criando uma verdadeira escola de “neo-trotskismo”. Essa corrente difusa espalhou-se para as disciplinas acadêmicas de política, sociologia, economia, história e filosofia. Sua principal preocupação é a difusão de uma variante de ideologia democrática-parlamentar burguesa para consumo da pequena-burguesia. Na economia, procuraram demonstrar a vitalidade e a capacidade de recuperação do capitalismo (Ernest Mandel, O capitalismo tardio); na filosofia, utilizaram o trotskismo e um anti-estalinismo convencional e burguês para condenar um suposto “marxismo vulgar”, “mecanicista”, “positivista”, ou seja: os motivos tradicionais da filosofia idealista para condenar o materialismo dialético e histórico e o materialismo tout court. Na política, o trotskismo serve como embalagem para a criação de panaceias políticas como o “partido plural”, o “estado de direito socialista” etc., etc., completamente inúteis mas muito ao gosto do socialismo acadêmico pequeno-burguês.

 

O que é o trotskismo

 

A definição essencial do trotskismo é relativamente simples e somente é ignorada ou renegada por motivos de classe. O trotskismo é a continuação do marxismo e do leninismo, em uma etapa de luta gigantesca contra o maior ataque revisionista já sofrido pelo marxismo, a saber, a burocracia stalinista – que se somou ao revisionismo da burocracia socialdemocrata da II Internacional.

O stalinismo representou um desafio revisionista ao marxismo, muito superior ao revisionismo bernsteiniano da II Internacional. Armado com o prestígio da Revolução Russa de 1917, com o primeiro Estado Operário do mundo e com os imensos recursos materiais desse Estado, o revisionismo stalinista procurou soterrar a tradição revolucionária da III Internacional e do leninismo. A doutrina e a luta de Lênin foram transformadas em um fachada para contrabandear a política burguesa da II Internacional de “revolução por etapas”, de frente popular, de defesa dos interesses “nacionais” do imperialismo etc.

A luta de Trótski e da facção revolucionária dentro do Partido Bolchevique não foi porém apenas uma luta ideológica como havia sido o enfrentamento com o revisionismo dentro da II Internacional. Stálin e a burocracia utilizaram a revolução mundial como campo de testes para a sua política revisionista, provocando as maiores derrotas que o proletariado havia conhecido até então: derrota da greve geral de 1926 na Inglaterra, derrota da Revolução Alemã de 1923, derrota da Revolução Chinesa de 1927, da Revolução na França e na Espanha em 1936 pela política de frente popular e, acima de tudo, a derrota sem luta do proletariado alemão diante da ascensão do nazismo na Alemanha.

 

O desenvolvimento do marxismo por Trótski e o trotskismo

 

Embora Trótski fosse um pensador incomum, coube a Lênin desenvolver o marxismo do período de transição, ou seja, da época imperialista de guerras e revoluções. O próprio Trótski não tinha nenhuma dúvida sobre o papel de Lênin como o homem que desenvolveu o marxismo para os tempos atuais. Trótski acreditava ser absolutamente justa a fórmula marxismo-leninismo, uma vez que Lênin teve o papel fundamental de desenvolver todos os aspectos essenciais da teoria marxista diante da emergência da era das revoluções. Para ele, as Obras Completas de Lênin são a maior enciclopédia de política marxista já criada.

Toda a política de Trótski e do trotskismo se apoia na obra teórica de Marx e Engels, na obra de Lênin e nas conclusões dos quatro primeiros congressos da III Internacional.

As principais conclusões politicas de Trótski estão em seu opus magnus A história da Revolução Russa que, para muitos leitores superficiais, seria um relato histórico e não, como efetivamente é, um balanço e um tratado sobre a arte da Revolução cujo personagem principal, além das massas operárias e camponeses, é justamente Lênin.

As teses de Marx, Engels e Lênin sobre o caráter histórico e social do Estado são a base para a crítica de Trótski à burocracia do Estado Operário e, também, a fonte da política revolucionária. Na China, Trótski opõe as lições da Revolução ao menchevismo de Stálin e, na Alemanha, usa o Esquerdismo, doença infantil do comunismo, para advertir sobre o desastre que estava sendo preparado para a classe operária diante do nazismo. As frentes populares são a versão requentada da política da esquerda pequeno-burguesa na Revolução Russa de 1917.

A grande contribuição individual de Trótski para o marxismo foi a teoria da Revolução Permanente, em 1905, quando ainda muito jovem, reconhecida por Lênin e comprovada pela Revolução de 1917, principalmente por meio da política de Lênin.

Os trotskista, quando ainda dentro do Partido Bolchevique, denominaram a si mesmos bolcheviques-leninistas. O nome de trotskismo foi um resultado da luta travada e foi estabelecido principalmente pelos inimigos do trotskismo como uma tentativa de opor o leninismo de Trótski à sua falsificação centrista e burocrática. No entanto, um nome estabelecido em combate, sejam quais forem as circunstância, é um fato concreto da luta de classes, assim o marxismo-leninismo adquiriu o nome de trotskismo e somente esse nome representa a sua defesa e a sua continuidade.

FRIEDRICH ENGELS, UMA NOTA BIOGRÁFICA

 

Um dos fundadores do socialismo científico

 

Aos 100 anos da morte de um dos dois gigantes fundadores do marxismo, sua doutrina continua sustentando o teste da história

 

Rui Costa Pimenta

 

Friedrich Engels nasceu em Barmen, na província do Reno na Prússia, na atual Alemanha, a 28 de novembro de 1820. Foi, juntamente com Karl Marx, um dos fundadores do socialismo moderno, cuja teoria passou à história com o nome de marxismo, mas que deve a sua elaboração a ambos. Escreveram juntos o Manifesto Comunista (1848), o mais importante documento programático da classe operária internacional até os dias de hoje e inúmeros textos de fundamental importância teórica sobre economia, filosofia e política. Engels foi também o executor testamenteiro intelectual de Marx , tendo completado e publicado o segundo e o terceiro volume de O Capital, principal obra científica do socialismo em todos os tempos, após a sua morte.

Engels nasceu de uma família burguesa liberal de sólidas convicções religiosas protestantes, dotada também de um razoável patriotismo prussiano, principal potência entre os diversos estados alemães da época. Seu pai era dono de uma indústria têxtil em Barmen e também sócio da firma algodoeira Ermen & Engels em Manchester, um dos principais centros da revolução industrial na Inglaterra. No entanto, mesmo após Engels assumir abertamente os ideais revolucionários, sempre pôde contar com a ajuda financeira dos pais, tendo trabalhado na administração dos negócios paternos boa parte da sua vida.

Engels cursou a escola secundária, mas a abandonou um ano antes de formar-se. Apesar das propenções intelectuais e, inclusive, artísticas (o futuro co-fundador do socialismo dedicava-se à poesia na juventude) o pai insistiu que fosse trabalhar na expansão de seus negócios. Engels, concordando, passou os três anos seguintes (1838-41) em Bremen adquirindo experiência nos escritórios da empresa de exportação Leupold.

 

Educação revolucionária

 

Em Bremen, Engels trabalhava horas a fio trabalhava como aprendiz de comerciante. Ao mesmo tempo, freqüentava a sociedade burguesa: tornou-se um exímio nadador e praticava esgrima e equitação, participando regularmente da caça à raposa, esporte predileto da aristocracia britânica. Engels também cultivou a capacidade de aprender línguas, orgulhando-se de assinalar que conhecia 24 delas. Ao mesmo tempo cultivava um interesse em obras revolucionárias e socialistas, particularmente as dos membros da Jovem Alemanha, autores como Ludwig Börne, Karl Gutzkow e o poeta Heinrich Heine. Porém, logo os renegou, considerando-os inconseqüentes e adotando a filosofia dos Jovens Hegelianos, um grupo de intelectuais esquerdistas do qual fazia parte o teólogo e historiador Bruno Bauer e Max Stirner, considerado posteriormente um precursor do anarquismo. Eles  defendiam a dialética hegeliana – basicamente, o conceito de que o progresso racional e as mudanças históricas resultam do conflito de opostos, concluindo numa nova síntese. Os Jovens Hegelianos, a partir de uma interpretação revolucionária da dialética de Hegel, rejeitavam a interpretação oficial conservadora da doutrina hegeliana que, nas mãos da burocracia universitária e estatal, havia se transformado em uma ideologia de justificação e apologia da reacionária monarquia prussiana, sofrendo em função disso represálias no interior do mundo acadêmico prussiano. Seus ataques aos fundamentos do cristianismo, atraíram Engels,  um militante ateu, que seria a vida toda.

Neste período, também dedicou-se ao jornalismo publicando artigos sob o pseudônimo de Friedrich Oswald. Engels possuía grande capacidade crítica e estilo claro, qualidades que seriam mais tarde muito valorizadas por Marx em seu trabalho comum e que transformariam seus textos nos mais populares materiais de educação socialista para a classe operária em todos os tempos.

Após retornar a Barmen em 1841, alistou-se por um ano como voluntário num regimento de artilharia em Berlim. Nem mesmo uma predisposição antimilitarista o impediu de prestar com louvor o serviço militar como recruta. Mais tarde, teria uma expressiva participação nos combates da revolução de 1948 na Alemanha e os assuntos militares tornar-se-iam uma de suas especialidades, às quais Marx recorreria com freqüência como o demonstra a sua correspondência comum.

Sua estadia na futura capital da Alemanha e maior centro comercial e intelectual daquela época entre os estados alemães, abriu caminho para a sua educação universitária assistindo ele como ouvinte a cursos na universidade. Seus artigos sob o pseudônimo de Friedrich Oswald lhe facilitou o ingresso no círculo dos Jovens Hegelianos, o antigo Clube de Doutores freqüentado por Karl Marx. Lá adquiriu fama de polemista agudo nos debates de filosofia, particularmente nos dirigidos contra a religião.

 

Passagem para o comunismo

 

Após concluído o serviço militar em 1842, Engels encontrou Moses Hess, o homem que o converteria ao comunismo. Hess, filho de judeus ricos e um promotor de causas e publicações radicais, descortinou a Engels que a conseqüência lógica da filosofia de Hegel e da dialética era o comunismo. Hess também enfatizou o papel que a Inglaterra, com suas indústrias modernas, seu proletariado industrial, e poderosos conflitos de classes, estava destinada a desempenhar num futuro próximo. Engels, ansioso em achar uma oportunidade para ir a Inglaterra, usou o artifício de continuar seu treinamento nos negócios da família em Manchester.

Na Inglaterra (1842-44), Engels, mais uma vez, saiu-se bem no cargo que ocupava. Após o trabalho, porém, ele dedicava-se a seus verdadeiros interesses: escrever artigos sobre o comunismo, tanto para jornais da Inglaterra quanto do continente; ler livros e relatórios parlamentares sobre as condições econômicas e políticas vigentes na Inglaterra; relacionar-se com trabalhadores; reunir-se com líderes revolucionários e colher material para uma história da Inglaterra que confrontaria a pujança da indústria com a miserável condição dos trabalhadores.

Em Manchester, Engels estabeleceu uma forte relação com Mary Burns, uma operária irlandesa e, embora rejeitasse a instituição do casamento, viveram como marido e esposa. Tanto é assim que uma séria tensão na amizade entre ele e Marx ocorreu justamente quando Mary veio a falecer em 1863 e Engels julgou que Marx recebera a notícia de sua morte com indiferença, o que resultou em um pedido de desculpas do amigo.

Em 1844 Engels contribuiu com dois artigos para os Anais Franco-alemães, editado por Marx em Paris. Nesses artigos, Engels antecipa uma primeira versão dos princípios do socialismo científico no seu trabalho Esboço de uma crítica da economia política. Neste livro, que é um verdadeiro precursor das idéias que posteriormente seriam desenvolvidas por Marx e Engels e que, apesar de conter várias noções que posteriormente seriam ultrapassadas, mas que Marx, ainda em 1859 considerava como “genial”. Esta obra revela as contradições da doutrina da economia liberal, do mercantilismo até Malthus e volta-se para provar que o sistema existente baseado na propriedade privada conduzia a um agravamento da contradição entre capital e trabalho e da divisão da sociedade em classes. Assinala que as contradições do capitalismo conduziam inexoravelmente à revolução social e à eliminação da propriedade privada e a “uma reconciliação da humanidade com a natureza e consigo mesma”, ou seja, ao comunismo.

 

Relação com Marx

 

A caminho de Barmen, Engels foi a Paris para uma visita de dez dias a Marx, que já havia conhecido em Colônia. Essa visita resultou numa colaboração permanente que duraria até a morte de Marx. De volta a Barmen, Engels publicou A situação da classe trabalhadora na Inglaterra (1845), livro de fundamental importância porque apontava pela primeira vez as relações entre a indústria e a luta de classe moderna, como o reconheceu o próprio Marx. Seu primeiro grande trabalho conjunto com Marx foi A Ideologia Alemã (1845), uma exposição do materialismo histórico que nunca publicaram em vida, mas que serviu para os autores esclarecerem para si mesmos os seus pontos de vista e que uma vez concluído o abandonaram “à crítica corrosiva dos ratos”, nas palavras de Marx e que acabou vindo à luz apenas em 1932, 15 anos após a revolução russa de 1917. Tratava-se de polêmica que denunciava e ridicularizava os Jovens Hegelianos e atacava vários socialistas alemães que se colocavam sobre uma base idealista, ou seja, um dos primeiros alicerces do materialismo histórico como base para o socialismo. Esta obra – um dos principais trabalhos do marxismo no terreno da crítica filosófica – seria o desenvolvimento do livro que ocasionaria a ruptura de ambos com o Jovens Hegelianos e todo o socialismo utópico e filantrópico, intitulado A Sagrada Família, Crítica da crítica crítica (1844) um outro demolidor ataque ao idealismo. Nestes trabalhos, nas palavras dos seus autores, trataram de colocar a dialética hegeliana de “pés para o alto” eliminando completamente a sua base idealista e substituindo-a pelo materialismo.Os pontos de vista apresentados nestas obras seriam plenamente desenvolvidos em outros mais sistemáticos e mais conhecidos tais como as famosas Teses sobre Feuerbach de Marx, Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã, O Anti-Dühring, A dialética da natureza, de Engels e no popularíssimo Do socialismo Utópico ao Científico, de Engels.

Após reencontrar Marx em Bruxelas (1845), Engels endossa sua nova interpretação econômica, ou materialista, da história, que constituirá o fundamento de uma nova teoria socialista, que viria a ser conhecida como socialismo científico, em função das suas bases materialistas em oposição ao socialismo religioso, idealista e utópico que marcou toda a histórica pregressa do socialismo. Para os dois jovens revolucionários alemães e, a partir daí para todo movimento verdadeiramente socialista e proletário, “o comunismo não é um estado de coisas que ‘deve’ ser estabelecido, não é um ‘ideal’ em direção ao qual a realidade tem que se dirigir. Quando falamos de comunismo, nós queremos dizer o movimento real que extrai do presente estado de coisas um objetivo”.

 

A Liga dos Justos e o Manifesto

 

A colaboração entre Marx e Engels que se inicia está longe de ser apenas um projeto de formulação teórica. Os dois fundadores do comunismo moderno procuram, de imediato, um terreno prático onde materializar as concepções que estão elaborando, ou seja, a organização de um partido político da classe operária. Com esse intuito, vinculam-se a uma organização revolucionária secreta alemã socialista conhecida como a Liga dos Justos, nome que indica a influência da revolução francesa de 1789 e os movimentos revolucionários burgueses de então, mas vinculada à nascente classe operária alemã. No primeiro congresso da Liga realizado em Londres (junho de 1847), Engels advogou sua transformação em Liga Comunista.

Marx e ele, juntos, convenceram o 2º Congresso Comunista em Londres a adotar suas posições. A Liga adota a divisa “Trabalhadores de todo o mundo uni-vos”, em substituição ao dístico idealista e burguês de “todos os homens são iguais” e um programa fundado na teoria da luta de classes Os dois foram indicados para elaborar um declaração política e de princípios do comunismo, que surgiria em 1848 como o Manifesto do Partido Comunista, cujas definições foram articuladas por Engels no seu Princípios do Comunismo (1847), mas cuja redação final coube fundamentalmente a Marx, que o transformou em uma verdadeira obra-prima literária, de forma alguma reduz o caráter de obra conjunta dos dois grandes revolucionários. O Manifesto é um dos mais impressionantes, senão o mais, documentos políticos de toda a história da humanidade. Em poucas páginas seus autores reduzem a pó os fundamentos idealistas da compreensão da história da humanidade, explicando com uma clareza que o transforma em grandiosa obra literária que “a história da humanidade até os nossos dias é a história da luta de classes”, descrevendo em parágrafos magistrais a evolução das classes e suas lutas, passando em seguida a uma análise até hoje não superada das características profundamente revolucionárias da sociedade industrial criada pelo capitalismo onde “tudo o que é sólido desmancha no ar”, evidenciando como o capitalismo transforma em cruas relações mercantis os fetiches morais, religiosos e políticos do passado. Após explicar a relação do comunismo e do movimento operário com extraordinária precisão e demolir em parágrafos extremamente contundentes as variantes de socialismo idealista o Manifesto prognostica a futura revolução proletária como resultado das revoluções de 1948 que estão para começar, terminando com a famosa e eletrizante conclusão: “os comunistas não se rebaixam a ocultar suas opiniões e os seus propósitos. Declaram abertamente que os seus objetivos só podem ser alcançados pela derrubada violenta de toda a ordem social existente. Que as classes dominantes tremam à idéia de uma revolução comunista! Nela, os proletários nada têm a perder a não ser os seus grilhões. Têm um mundo a ganhar. Proletários de todos os países uni-vos!”

 

1948: a revolução permanente

 

A revolução de 1848, surgida da contradição entre os fragmentários estados alemães mergulhados no atraso feudal e as necessidades do capitalismo emergente, ou seja, da predominância dos junkers, os grandes latifundiários, e da pequena aristocracia dos principados em que se fragmentava a nação alemã seria, como explicou León Trótski em seu 1905, o último estertor da revolução burguesa e o primeiro grito de nascimento da revolução proletária. A presença determinante da classe operária alemã na revolução burguesa comprovava a acuidade das análises do Manifesto escrito pelos dois jovens revolucionários. Marx e Engels acreditavam, porém, que a revolução era burguesa pelos seus objetivos e pelas suas possibilidades – conclusão esta que iriam retificar na notória Circular à Liga dos Comunistas -, daí que seu principal instrumento de luta política, o jornal A Nova Gazeta Renana fosse apresentado como um “órgão da democracia”, editado por Marx em Colônia com a colaboração de Engels.

A Nova Gazeta Renana, jornal criado por Marx e Engels e dirigido por Marx, foi o principal meio de ação política concebido por ambos para a revolução, ao qual dedicaram todo os seus melhores esforços. Tal órgão partidário, foi de suma importância para seus propósitos; com ele puderam oferecer diariamente palavras-de-ordem e fazer agitação diante dos novos acontecimentos, aliado a uma crítica sólida dos governos, partidos, políticas e políticos. Seus textos, hoje antológicos, constituem verdadeiras obras primas do jornalismo revolucionário, oferecendo a base para as posteriores teorias de Lênin sobre a importância da luta política e da imprensa como instrumento fundamental da luta de classes.

Após a derrota da revolução, vítima da covardia e da indecisão política da burguesia, por um lado, e da imaturidade política da classe operária por outro, Engels e Marx reuniram-se em Londres, onde reorganizaram a Liga Comunista e esboçaram diretrizes táticas para os comunistas acreditando que outra revolução se seguiria esquematizadas na famosa Circular do Comitê Central à Liga dos Comunistas de 1950, onde pela primeira vez é utilizada a expressão “revolução permanente”. As conclusões da revolução de 1948 estão nos artigos, organizados posteriormente em forma de livro Revolução e contra-revolução na Alemanha (1851-52). Este livro fundamental, assinado por Marx, por motivos econômicos (foram vendidos como reportagem ao jornal norte-americano New York Daily Tribune), foi durante muitos anos atribuído a ele, mas são de autoria exclusiva de Engels. Nele se encontra todo o fundamento daquilo que, posteriormente, viria a ser conhecido na história da revolução russa como a teoria da Revolução Permanente defendida por Trótski contra a prostituição stalinista do marxismo.

 

Exílio

 

A derrota da revolução de 1848 levou Marx e Engels a um exílio que duraria até o final das suas vidas. Este período será para Marx e sua família o de maiores privações em toda a sua vida acarretando, inclusive, a perda de quatro de seus filhos. Engels será um dos principais suportes do amigo em todos os terrenos. Em uma carta de 1855, após a morte de um dos filhos Marx escreve a Engels: “Já passei por muitas dificuldades, mas somente agora sei o que é uma infelicidade real. Sinto-me todo partido (…) O que sempre me agüentou é pensar em ti e na tua amizade e pensar que nós dois temos ainda para fazer nesta terra uma obra inteligente”.

Para sustentar-se a si próprio e ajudar economicamente a Marx, facilitando assim o seus trabalho teórico revolucionário, Engels aceitou trabalhar como subordinado nos escritórios da Ermen & Engels em Manchester. Novamente foi bem-sucedido como homem de negócios. Conseqüentemente, ele poderia enviar dinheiro a Marx constantemente, muitas vezes em notas de cinco libras, porém mais tarde em cédulas de maior valor.

No entanto, Engels considerava este trabalho como uma verdadeira escravidão. Em 1869 Engels vendeu sua parte na sociedade recebendo o suficiente para viver confortavelmente até a sua morte em 1895 e prover Marx com um montante anual de 350 libras, com a promessa de um extra como forma de cobrir alguma eventualidade. Em 1° de julho deste ano escreve ao amigo  em uma carta: “Hurra! Hoje acabei com o doux commerce e sou um homem livre.”

Após a revolução de 1948 e o fracasso das tentativas revolucionárias posteriores a Europa é tomada pela reação em todos os lugares, com os revolucionários sendo colocados na cadeia aos milhares e Marx e Engels dedicar-se-ão a desenvolver a formulação teórica do socialismo científico, cujo maior resultado será justamente O Capital. A este período corresponde também uma intensa atividade jornalística, ditada em certa medida por necessidades econômicas, mas cujo resultado será os principais escritos políticos de ambos: As lutas de classes em França (1872) e o 18 Brumário de Luís Bonaparte (1852); Guerras Camponesas na Alemanha (1850), Revolução e contra-revolução na Alemanha (1851), A questão militar na Prússia e o Partido Operário Alemão (1865), e A questão da habitação (1873) de Engels, além de uma infinidade de artigos menores. Durante o período em que Engels viveu em Manchester (1851 a 1869) os dois colaboradores trocaram mais de mil cartas em uma correspondência com importantes formulações esclarecedoras dos problemas que procuravam resolver em comum. Estas cartas são, conforme enfatizou Lênin, uma parte fundamental da obra política e teórica de ambos.

Engels, forçado a viver em Manchester, mantinha sua colaboração com Marx através da correspondência. Na divisão do trabalho que os dois fundadores do socialismo científico estabeleceram, Engels era o especialista nas questões de nacionalidades, militares, abrangendo ainda assuntos internacionais e até questões de ciências. Marx sempre recorria a ele para esclarecer questões econômicas, principalmente no que dizia respeito à práticas comerciais e industriais. Este aspecto será decisivo na elaboração do seu opus magnus, O Capital, com o qual sua colaboração foi muito superior à que normalmente se apresenta, envolvendo sugestões sobre a organização do trabalho, leituras e críticas francas sobre as falhas do trabalho que se ia elaborando. Em 1870, Engels transferirá seu domicílio para Londres, estreitando, desta forma, a colaboração entre ambos.

Em 1863, Mary Burns, companheira de Engels de vários anos, vem a falecer. Um ano depois passará a viver com sua irmã Lizzy até a sua morte, em 1878.

 

A I Internacional e a Comuna de Paris

 

<T1>Em 1864 será fundada a Associação Internacional dos Trabalhadores, conhecida posteriormente como a I Internacional. Marx e Engels participarão da criação da nova organização, onde procurarão levar adiante um trabalho de estruturação do movimento operário internacional o qual, após a derrota da vaga revolucionária na Europa após 1848 adquire um novo impulso através da guerra da secessão norte-americana e das lutas econômicas em alguns países como a Inglaterra. A AIT representa, na concepção de Marx e Engels, um esforço para unir todas as tendências do movimento operário em um período de reação política Esta retomada do movimento operário culminará em 1879 com a extraordinária experiência revolucionária da Comuna de Paris a qual será, ao mesmo tempo, uma culminação e o princípio do fim da Internacional. Ao mesmo tempo, Marx e Engels dedicam boa parte das suas energias ao combate às variantes socialistas pequeno-burgueses que buscam adquirir influência determinante sobre a AIT como as tendências anarquistas de Proudhon e Bakunin. Este trabalho, que consumirá boa parte das energias de ambos e contará com o empenho pessoal direto de Marx na condução dos assuntos da internacional, será de decisiva importância para afirmar a predominância posterior do marxismo na Europa através da II Internacional superando os preconceitos lassalianos, bakuninistas e anarquistas como teoria da luta de classes do proletariado mais avançado do mundo.

Em 19 de julho de 1870 estoura a guerra franco-prussiana que levará ao colapso do Segundo Império, de Luís Bonaparte, na França e à primeira revolução proletária conhecida como a Comuna de Paris. Marx e Engels acompanharam de perto o desenvolvimento da guerra, particularmente o segundo com a redação de inúmeros escritos militares. Os dois opunham-se à uma insurreição – que analisavam que estava para ocorrer na França – porque a acreditavam prematura e fadada ao fracasso, isso, no entanto, não impede que Marx se transforme no maior defensor da luta dos operários de París contra a imensa campanha de calúnias internacional contra os derrotados.

A derrota da Comuna conduz ao esgotamento da Internacional a qual será dissolvida em 1876. Após 1870, Engels vem realizar um amplo trabalho de organização no seu interior e conduzi-la ao seu final. Em 1972, Marx e Engels escrevem em nome do Conselho Geral da AIT, o texto As pretensas cisões da Internacional onde combatem os inimigos da Internacional e seus adversários no interior dela.

 

<I1>Últimos anos com Marx

 

<T1>Após a derrota da Comuna – analisada por Marx em As lutas de classes na França – os dois caracterizam que as tendências contra-revolucionárias tomam conta da Europa e que o que corresponde à situação é o trabalho teórico que servirá como alicerce às lutas futuras do movimento operário e a organização de sólidos partidos operários em cada país como base para a futura reconstrução da Internacional. Neste sentido, Marx irá se dedicar de corpo e alma para terminar O Capital, tarefa que, infelizmente, não conseguirá realizar, cabendo a Engels concluí-la.

Ao mesmo tempo coube a Engels desenvolver os demais aspectos da teoria que ambos haviam construído, preenchendo na medida do possível as lacunas deixadas e defendendo as idéias comuns dos sistemáticos ataques dos seus inimigos. Neste sentido, Engels, praticamente sozinho, escreveu o Anti-Dühring (O Sr. Duhring revoluciona a ciência,1878), livro que, provavelmente, mais promoveu o pensamento marxista, destruindo a influência de Karl Eugen Dühring, um professor de Berlim, representante do chamado “socialismo de cátedra”, que pretendia suplantar a influência de Marx entre os social-democratas alemães, escreveu Do socialismo Utópico ao Socialismo Científico (1880), um resumo que popularizava aspectos do livro anterior, e Dialética da Natureza (1883), que deixou sem terminar e não foi publicado em vida.

No terreno prático, dedicam-se ambos às discussões, à correspondência e às críticas com os elementos e partidos revolucionários de diferentes países para a recomposição do movimento socialista na Europa. Na Alemanha acompanham a unificação dos seus partidários com os lassalianos com vistas a construir um partido operário, discussão retratada no texto de Marx, Críticas ao programa de Gotha. Estabelecem discussões com os revolucionários populistas russos nas quais procuram estabelecer as peculiaridades da evolução social daquele país ao qual consideram que não se aplicam as fórmulas de O Capital. Deste trabalho fundamental de organização vão surgir os partidos social-democratas na Alemanha, na França, na Itália, Bélgica e outros países.

 

<I1>A II Internacional

 

<i1>Após a morte de Marx (1883), Engels tornou-se a mais importante autoridade do movimento operário socialista internacional e testamenteiro da herança teórica de Marx da qual havia sido, na realidade, em grande medida, co-realizador. Escreveu sobre diversos assuntos e redigiu introduções, as quais em si mesmas são uma importante contribuição criadora ao marxismo, a novas edições dos trabalhos de Marx. Engels realizou ainda a tarefa, para a qual era insubstituível de completar o segundo e terceiro volumes de O Capital (1885 e 1894), baseando-se nos manuscritos incompletos e rascunhos escritos na “famosa letra de Marx”, na definição do próprio Engels, apesar da sua saúde. Não pôde porém completar a publicação do quarto volume, que estava apenas em esboço. Este último volume será publicado por Karl Kaustky em 1905 sob o título de Teorias sobre a mais-valia.

Além da elaboração teórica, dará continuidade ao trabalho político que, juntamente com Marx havia desenvolvido. Neste período, acompanhava sete jornais diários e 22 semanários em mais de 10 línguas. O resultado será a fundação da II Internacional em 1889, onde os marxistas predominarão sobre os anarquistas. Neste momento, Engels será a maior autoridade político do movimento operário. No entanto, fará questão, como no próprio discurso no I Congresso da nova internacional de se colocar apenas como um colaborador de Marx, a quem atribuiu, com enorme modéstia, a quase totalidade do papel criador nesta admirável associação intelectual e política.

Pouco antes de morrer foi acometido de câncer, o que o impossibilitou de prosseguir com o seu trabalho. Morreu em 5 de agosto de 1895, em Londres, aos 75 anos de idade.

Em um artigo escrito a respeito da morte do companheiro de Marx e co-fundador do socialismo moderno, Lênin, maior revolucionário do século XX, escreveu:

A seguir do seu amigo Karl Marx (que morreu em 1883), Engels foi o mais notável sábio e mestre o proletariado contemporâneo em todo o mundo civilizado. Desde o dia em que o destino juntou Karl Marx a Friedrich engels, a obra a que os dois amigos consagraram toda a sua vida converteu-se numa obra comum. (…) Marx e engels foram os primeiros a demonstrar que a classe operária e suas reivindicações são um produto necessário do regime econômico atual, que, juntamente com a burguesia, cria e organiza inevitavelmente o proletariado; demonstraram que não são as tentativas bem intencionadas dos homens de coração generoso que libertarão a humanidade dos males que hoje a esmagam, mas a luta de classe do proletariado organizado. Marx e Engels foram os primeiros a explicar, nas suas obras científicas, que o socialismo não é uma invenção de sonhadores mas o objetivo final e o resultado necessário do desenvolvimento das forças produtivas da sociedade atual. Toda a história escrita até os nossos dias é a histórias da luta de classes, a sucessão no domínio e nas vitórias de uma das classes sociais sobre as outras. E estado de coisas continuará enquanto não tiverem desaparecido as bases da luta de classes e do domínio de classe: a propriedade privada e a produção social anárquica. Os interesses do proletariado exigem a destruição destas bases, contra as quais deve, pois, ser orientada a luta de classe consciente dos operários organizados. E toda a luta de classe é uma luta política”.