AFONSO SCHMIDT, ESCRITOR DA GERAÇÃO DE 22, PROLETÁRIO E SOCIALISTA

Filipe Rios –

 

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Cartaz da Semana de Arte Moderna de 1922

Jornalista, poeta, contista, romancista e militante socialista, Schmidt aderiu em 1922 ao programa estético da Semana e concebeu as primeiras obras sociais do modernismo. Uma contribuição do romancista está relacionada ao período que antecede à Semana, quando ele forma o hoje completamente esquecido Grupo Zumbi. O autor seguiria por um caminho próprio, mas sua atividade literária entre as décadas de 1910 e 1920 atesta a radicalização da intelectualidade brasileira ligada ao movimento operário.

O movimento modernista brasileiro, ao longo de seu desenvolvimento na década de 1920, manifestou diferentes tendências que foram, todas elas, expressões específicas da luta de classes que se desenvolvia na esfera da política.

Como manifestação cultural da revolução brasileira, o modernismo fragmentou-se entre as três alas fundamentais que disputavam o poder político: Uma ala de direita, que se alinharia ao movimento integralista; uma de centro, que se iria incorporar no governo varguista após 1930; e uma de esquerda, que se aproximaria do movimento operário.

Cada uma dessas três alas fundamentais do modernismo era também bastante heterogênea. No grupo modernista que se ligou à ala esquerda revolucionária, há tanto figuras como Tarsila do Amaral, membro da alta burguesia paulista, que expressou essas posições apenas por um breve momento de sua vida; quanto figuras como Oswald de Andrade, também oriundo da burguesia, que se aproxima brevemente do trotskismo, filia-se ao PCB e inicia um período importante de produção literária influenciada pelo movimento operário e suas lutas na década de 1930.

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Capa do jornal anarquista A Plebe

Pertence também à ala esquerda, mas desenvolveu uma obra muito distinta, o escritor socialista Afonso Schmidt, que não possui uma origem burguesa, mas pequeno-burguesa, e que muito cedo teve contato com o movimento operário.

A ligação de Schmidt com as ideias socialistas deu-se ainda antes da guerra de 1914. Sua atividade literária inicial compreende principalmente o jornalismo, tendo trabalhado em dezenas de órgãos da maior importância para o movimento dos trabalhadores, principalmente entre jornais anarquistas.

Afonso Schmidt desenvolveu assim, muito cedo, uma adesão a um programa revolucionário e a uma militância operária. O início de sua vida foi principalmente dedicado à militância dentro do jornalismo anarquista, e apenas com certo esforço que ele voltou-se também, paralelamente, a uma produção literária.

A importância desse autor dentro do modernismo é grande, pois, foi ele um dos mais destacados literatos a expressar em sua obra – e isso já desde 1919 – uma clara adesão à luta do movimento operário. Ele é um representante do grupo politicamente mais radicalizado da ala esquerda do movimento modernista.

Os intelectuais do modernismo, todos de origem burguesa, iriam se aproximar das posições decisivas da revolução no transcorrer da década de 1920, definindo suas posições mais claramente entre 1926 e 1928. Já a trajetória de Schmidt é um tanto distinta.

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Cartaz anunciando as atividades da Semana de 22

Seu primeiro impulso literário ocorre entre 1910 e 1914, época em que ele publica seus primeiros poemas nos jornais da época, ainda como um epígono do parnasianismo e do simbolismo. Com a Guerra, Schmidt inicia um sua militância no movimento operário dirigido pelos anarcosindicalistas. Ele funda jornais, escreve e participa da Greve Geral de 1917.

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Henri Barbasse

Schmidt trabalha em diferentes jornais da imprensa socialista e, já em 1920, participa da organização de um grupo literário ideologicamente bastante avançado em relação ao restante do movimento literário nacional. Era o Grupo Zumbi, que, apesar de sua natureza efêmera e de não ter deixado uma produção literária, tem grande importância como indicador do processo de radicalização da intelectualidade brasileira em direção à revolução proletária, por um lado, e da evolução política da própria classe operária. Schmidt, como militante operário, esteve, portanto, na linha de frente desse processo de radicalização, assumindo as posições da classe operária praticamente uma década antes dos demais autores do modernismo, que o fariam apenas quando a Revolução de 1930 estava já às portas do país. Sua obra é marcada por romances de grande importância sobre as lutas sociais e políticas brasileiras tais como A marcha, sobre a abolição, A locomotiva, sobre a chamada Revolução Constitucionalista de 1932, Colônia Cecília, que trata das experiências sociais de comunas anarquistas no Brasil etc.

Nesse artigo, apresentamos o período inicial da atividade de Afonso Schmidt que acompanha a primeira etapa modernismo paulista. Desde os primeiros escritos de Schmidt em versos, até a década de 1930, o período em que ele define claramente sua ideologia literária: sua intenção em escrever, não para uma pequena burguesia culta, mas para amplos setores das camadas populares.

 

<i1>O início da atividade jornalística

 

<t1>Afonso Schmidt nasceu em 1890 na vila de Cubatão, que então era parte da cidade de Santos, no litoral paulista. Ele descendia de uma tradicional família da pequena burguesia local, descendente de imigrantes alemães. Seu bisavô fora um funcionário da corte de D. Pedro I. Um militar alemão encarregado de ensinar táticas de combate ao Exército brasileiro e foi ainda diretor da Imperial Colônia de Cananéia.

Afonso passou parte importante da infância em Cubatão, e sobre essa época, ele escreveu anos mais tarde: “Nasci em Cubatão, passei a infância à beira do rio, entre bananais. Com o tempo, troquei o Sítio primitivo com a casa de pau-a-pique, os doze mil pés de bananas, as quatro laranjeiras amargas e uma canoa com dois varejões, pela cidade com suas praças, avenidas, palácios e uma população diligente que trabalha para viver, e vive para trabalhar. Sinto que mudei. Por outro lado, os que chegam Serra abaixo, contam-me que os bananais também mudaram.”

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Cartaz do Movimento de 32 em S. Paulo

Uma parte de sua infância foi passada também em São Paulo, para onde a família mudara-se tentando ganhar a vida duas vezes, em 1899 e em 1904. Depois que a família se estabelece pela segunda vez a Cubatão, Afonso permaneceu sozinho em São Paulo, e foi nesse período que ele manifestou seu primeiro interesse pelo jornalismo. Ele tem suas primeiras experiências como redator escrevendo pequenas notas para o semanário paulistano A Concórdia.

De volta a Cubatão, aos 15 anos, ele chegou a trabalhar na construção civil, na construção da Estrada de Ferro Sorocabana, o que o aproxima pela primeira vez dos operários cubatenses. Por volta dessa época ele procurou organizar também o que poderia ter sido o primeiro jornal de Cubatão, que chamou O Janota, mas, sem experiência, tentando aprender o ofício de tipógrafo de forma independente, acabou fracassando, e o jornal idealizado nunca foi impresso.

Depois dessa experiência, ele retornou a São Paulo, onde começou a colaborar com diferentes jornais do interior do Estado. Aos 16 anos teve sua primeira experiência como editor. Schmidt criou em colaboração com Oduvaldo Viana, o futuro dramaturgo, o jornal de quatro páginas, o Zig-Zag. Eles adquiriram duas caixas de tipos e pagaram cinco mil réis à tipografia que imprimiu o primeiro e único número do periódico.

Apesar de sua pouca idade, Schmidt vivia nesses anos em constantes viagens entre São Paulo e Rio de Janeiro. Nessa época estudou no Conservatório Dramático Musical, em São Paulo, e publicou seu primeiro livro, a coletânea de versos Lírios roxos, que publicou com dinheiro emprestado por sua mãe. Para conseguir alguma renda, o garoto vendia o livro de porta em porta, uma prática comum na época entre os poetas que tentavam sobreviver em um magro mercado editorial.

 

A viagem ao coração das vanguardas

 

A boa acolhida de Lírios roxos faz com que Schmidt consiga editar ainda um segundo livro no mesmo ano, Miniaturas. O garoto enviava também, por essa época, poemas para pequenos jornais de bairro e jornais municipais na esperança de ver seus escritos publicados. Uma redação de jornal que ele frequenta regularmente por volta de 1906, é A Lanterna, um dos periódicos anarquistas fundado em São Paulo por Edgard Leuenroth. Foi um de seus primeiros contatos com as ideias socialistas.

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Os fundadores do Partido Comunista Brasileiro, ao meio em pé Astrogildo Pereira e João Jorge Costa Pimenta

Em 1907, com 17 anos, após juntar algum dinheiro, comprou uma passagem de terceira classe só de ida para Lisboa, e embarcou no navio Benenguer-el-Grande sem qualquer plano e sem passaporte. Estabelecido na capital portuguesa, planejou partir para a Angola, mas acabou seguindo para a França.

Desembarcou então em Paris, que vivia naqueles anos um dos períodos culturalmente mais efervescentes de sua história. Dois anos antes, havia causado escândalo em Paris o surgimento da primeira vanguarda pictórica do século XX, o fauvismo, de Henry Matisse. Em 1907, ainda desconhecida de todos, exceto de uma pequena boêmia artística, nascia a pintura cubista, a partir da obra-prima de Pablo Picasso, Les Demoseilles D’Avignon. Na literatura, Max Jacob, Guillaume Apollinaire e Pierre Reverdy, lideraram o movimento de renovação das letras francesas.

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Edgard Leuenroth

Quando o jovem Schmidt chega a Paris, ele fica deslumbrado com o que vê. Assiste a conferências literárias e passa incontáveis tardes no Louvre, vendo não apenas os mestres do passado, mas os jovens pintores que copiavam tais obras como forma de estudo. O garoto não tardou a conseguir um emprego, assumindo um posto em uma editora de dicionários, onde trabalhou com traduções de verbetes do francês para o português.

Schmidt não tarda em se aproximar de exilados políticos em Paris. Conversando com russos que haviam tomado parte na Revolução de 1905, o jovem poeta toma conhecimento dos grandes movimentos políticos que tomavam conta do Leste europeu. Inspirado por essas histórias, e, mais tarde, pela Revolução de Outubro, Schmidt conceberia o poema Ode aos Russos, que é provavelmente um dos primeiros poemas realizados por um brasileiro sob inspiração dos acontecimentos revolucionários da Rússia.

 

<i1>Um encontro com o Brasil

 

<t1>O poeta viveu dessa forma durante alguns meses, até conseguir ser enviado de volta ao Brasil através da Embaixada brasileira. Semanas mais tarde ele aportou novamente em Santos, após uma passagem por Salvador. No romance autobiográfico A primeira viagem, Schmidt recordaria que sua passagem pela Bahia foi um ponto decisivo em seu despertar para a nacionalidade brasileira:

“A cidade de Salvador ficou para sempre na minha lembrança… Eu ainda era menino. Chapéu de abas largas. Gravata borboleta. Uma curiosidade insana nos olhos vivos. Vinha da Europa, repatriado, depois de um ano de vagabundagem literária pelas ruas de Lisboa e Paris. Tinha ido procurar a realidade dos romances-folhetins e só encontrara o bocejo da vida cotidiana. Foi nesta viagem que eu matei para sempre, a ilusão da Europa, daquele mundo que eu tinha construído com cacos de arco-íris.”

“Da Europa, voltava vazio. Vazio e triste. Tinha necessidade de criar novo mundo para nele morar. O vapor Oriana deitou ferros. Quando subi do porão para o convés, dei de cara com a Bahia. O mar estava verde e calmo. O céu de um azul puríssimo. A névoa da manhã adelgaçava-se, subia para o alto como o velário de um teatro. E no fundo, pouco a pouco, foi-se acentuando o cenário da cidade. Era feito de muralhas, de ladeiras e de reflexos.”

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Menotti del Pichia

“Embaixo, dourada pelo sol, estendia-se uma fita de prata, arrepiada de verdura, com um coqueiro na ponta, inclinado sobre a água. Junto ao costado do navio, nas extremidades das escadas de corda, ajuntavam-se as canoas carregadinhas de laranjas. Do alto da amurada, perguntei a um tabaréu como se chamava aquele lugar que tinha um coqueiro. Ele respondeu: – Itapagipe!”

“E eu nunca mais me esqueci daquele nome, daquele quadro, daquela manhã azul do Salvador. Foi à vista da Bahia que encontrei o Brasil. Por isso, ao longo da vida, sempre que desejo encontrar o mundo espiritual e intelectual que a Europa já não tem para nós evoco aquela manhã, aquela cidade amontoada, aquele mar, aquela claridade, aquelas velhas casas queimando num reflexo de claridade: a Bahia.”

“No mundo, tudo é velho debaixo do sol; na Bahia, ao contrário, tudo é novo debaixo do sol, para a alma dos poetas…”

 

<i1>Janelas Abertas

 

<t1>Cada vez mais interessado pela atividade jornalística, Schmidt ingressou como redator no diário O Comércio de São Paulo, dirigido então por Alberto Sousa, que se tornaria conhecido, mais tarde, pelo romance Os Andradas.

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Oswald de Andrade, por Tarsila do Amaral

Em 1911, Schmidt publicou um novo livro de versos, Janela abertas, sua primeira publicação de maior importância. O livro trazia em sua maioria, sonetos, e seus versos traziam influências do parnasianismo e do simbolismo, que era uma característica comum dos poetas da época. Schimdt revelava nessa obra também influências de uma tendência poética menor, também típica da “belle époque brasileira”, o penumbrismo, cujas características mais marcantes eram seu tom fortemente intimista e o uso de imagens poéticas suaves, delicadas, melancólicas.

O livro como um todo se adequava perfeitamente à ideologia artística oficial, uma combinação de poemas subjetivos com outros de descrição popular, as paisagens de Cubatão, a população pobre, etc. já indicando, portanto, características da obra madura do escritor, fortemente social.

Pelo poema Janelas abertas, que dá título à obra, Schmidt foi premiado no ano seguinte pela Academia Brasileira de Letras. Um dado que apenas reforça a vinculação do poeta, até aí, com as linhas tradicionais da poesia de seu tempo. A obra incluía dois outros poemas que são, ainda hoje, indicados pelos seus estudiosos como duas das melhores criações de Schmidt, os poemas Caras sujas e Ideal fugitivo:

 

Caras sujas

Ao longo dessas avenidas,

recordações de velhas lendas,

cantam as chácara floridas

com suas líricas vivendas.

Lá dentro, há risos, jogos, danças,

crástinas, módulas fanfarras,

um pandemônio de crianças,

um zangarreio de cigarras.

Fora, penduram-se na grade

os pobres, como gafanhotos;

têm dos outros a mesma idade,

mas estão pálidos e rotos.

Chora a injustiça da cidade

na cara suja dos garotos.

Ideal fugitivo

Ideal fugitivo que eu almejo,

floco perdido pelo azul do espaço

e que se some em qualquer bafejo,

indiferente ao fogo de meu beijo,

indiferente à força de meu braço.

Sombra que eu busco alucinadamente

e que me foge e que me engana e ilude;

embalde vou de terra em terra, crente

de poder apanhá-la, finalmente,

e nunca, nunca, só tocá-la pude!

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Tarsila do Amaral

O nome do poeta, a partir desse livro, torna-se amplamente conhecido entre os círculos literários paulistas. Na ocasião, o crítico Sílvio Romero escreveu sobre Janelas abertas: “O poeta de pouco mais de vinte anos, sustenta-se perfeitamente entre os líricos que abrilhantaram as letras pátrias. Pode contar com o futuro!”

Em 1911, Schmidt trabalhava no diário Tribuna, em Santos, e teve oportunidade de conhecer dezenas de jornalistas e escritores que se tornariam figuras destacadas da intelectualidade brasileira, figuras como o futuro modernista Menotti Del Picchia, e jornalistas de destaque, como Álvaro Augusto Lopes, Custódio de Carvalho, Jorge Nobre, Albertino Moreira, Gonçalves Leite, Leômenes Campos, Galeão Coutinho, Alberto Souza, Bruno Barbosa e Valdomiro Silveira.

 

<i1>Uma nova estadia na Europa

 

<t1>Ainda em 1911, Schmidt funda, em Cubatão, o jornal Vésper, que se torna um dos primeiros jornais regulares da cidade litorânea. Ele, porém, não ficou muito tempo ali. Assim que foi possível, em 1913, embarcou novamente para a Europa, no navio italiano Garibaldi. Ele tinha então 23 anos.

O escritor desembarca em Gênova e vive alguns meses em Milão. Na cidade, ele arruma um emprego como correspondente internacional de uma empresa exportadora de máquinas e peças para fábricas têxteis. Schmidt trabalhou três meses nesse posto. Depois de demitido, passou semanas nas piores condições, sem saber como retornar ao Brasil. Consegue finalmente que um de seus amigos em Santos lhe mande alguma ajuda financeira, com a qual parte para Modanne, cidade fronteiriça da França. Viveu ali também na miséria, sem saber como continuar viagem. Tentou conseguir emprego em Marselha, e, desesperado, apresentou-se como voluntário na Legião Estrangeira, mas acabou recusado. Já sem alternativas, descobriu o endereço da residência de D. Luiz de Bragança, neto de D. Pedro II. Enviou a ele uma carta, pedindo algum conselho de como conseguir retornar ao Brasil. Inesperadamente, Schmidt recebe de volta um cheque ao portador, no valor de 50 francos, que lhe garante o regresso à América. Semanas mais tarde, ele aportava novamente em Santos. Em suas memórias, Schmidt recordaria:

“Para falar a verdade, as malucas viagens que fiz não me haviam tirado, aos vinte e quatro anos, o gosto por essa vida. No fim de maio, ou começo de junho, regressara repatriado da França. Alimentava o desejo de partir de novo, fosse para onde fosse. Mas no dia 31 de julho, após o atentado de Saravejo, uma espantosa tempestade desencadeou-se sobre a Europa. Era a primeira Guerra Mundial!”

 

A Greve Geral e a radicalização do movimento operário

 

A eclosão da guerra europeia teve efeitos indiretos no Brasil. Aqui, a guerra da burguesia era contra o movimento operário ascendente, que lutava para fazer valer, na prática, leis trabalhistas que só existiam no papel. Em 1917, a Revolução Russa deu um grande impulso ao movimento operário, que realiza nesse ano a primeira greve geral brasileira. Setenta mil operários paulistas paralisam os trabalhos em todo o Estado, reivindicando a redução da jornada de trabalho, o fim do trabalho infantil e reajuste salarial, entre outras exigências. A greve geral iniciou-se com um protesto em uma fábrica na Mooca, na capital paulista, e rapidamente contou com a adesão massiva de diversas categorias, alastrando-se para o interior. O movimento, até então organizado principalmente por militantes anarquistas, acaba traído pela burguesia, mas teria profunda repercussão nos anos seguintes, sendo uma das etapas da evolução da classe operária que culminaria com a organização do Partido Comunista, em 1922.

Os anos que se seguem à Greve Geral, são anos de radicalização, mas cresce também a repressão política buscando sufocar as tendências revolucionárias que se levantam contra o regime.

Vivendo entre a efervescência do movimento sindical, durante a Guerra, Schmidt tomou parte na redação de diferentes jornais operários, como A Lanterna, A Plebe e A Vanguarda, ao lado de destacados militantes anarquistas, como Edgard Leuenroth, Oreste Ristori, João Jorge Costa Pimenta e Astrogildo Pereira e onde colaboraram intelectuais do porte de um Lima Barreto.

Em A Plebe, um dos jornais mais importantes já criados pelo movimento anarquista nacional, Schmidt trabalhou entre 1917 e 1919, quando o jornal foi empastelado por grupos de direita respaldados pela polícia da República Velha.

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Schmidt foi um dos primeiros a exaltar a figura do líder negro

Em 1918, Schmidt se estabelece no Rio de Janeiro, onde trabalhou também na redação do jornal Voz do Povo, órgão da Federação Operária. Ele tornou-se diretor do jornal e permaneceu na função até 1920, quando mudou-se do Rio para São Paulo.

A greve geral de 1917 teve diversos efeitos importantes entre a intelectualidade, um deles, no campo da literatura. Afonso Schmidt, escritor e militante anarquista, conseguiria, como poucos, expressar, no campo das letras, o despertar daquela nova consciência revolucionária. É um dado da maior importância entre o movimento literário modernista que amadurecia rapidamente naqueles.

 

O Grupo Zumbi

 

O produto intelectual mais importante, para Schmidt, de sua experiência militante entre 1917 e 1919 é a criação por ele e outros literatos, do chamado Grupo Zumbi, em 1920. Uma manifestação, no campo das artes, da ideologia combativa do movimento operário paulista.

A importância do grupo vai em diferentes sentidos. Em primeiro lugar, é um dos primeiros grupos organizados da nova geração literária – isso levando-se em conta que os modernistas que se organizaram em torno de Anita Malfatti em 1917, ainda não tinham uma plena consciência do movimento que estavam colocando em marcha, que só amadureceria a partir de 1922, com a iniciativa da Semana de Arte Moderna.

Em segundo lugar, a ideia de dar ao grupo o nome de ‘Zumbi’, se dava em uma época em que o grande líder negro dos Palmares ainda era uma figura totalmente desconhecida, para não dizer, banida da história brasileira. O resgate histórico de Zumbi só seria realizado por militantes do movimento negro por volta da década de 1930 e 1940. Assim, Schmidt e seus colaboradores são precursores isolados do processo de resgate de uma personalidade histórica da maior importância, não apenas para os negros, mas para os brasileiros em geral. Zumbi era um expoente revolucionário de uma das maiores lutas que já foram travadas no Brasil contra a opressão: a luta contra o regime escravagista. Os membros do Grupo Zumbi retiravam o nome do líder negro do limbo da história em que foi atirado, e, transformavam em bandeira, um dos maiores heróis nacionais que o país já teve.

Em terceiro lugar, há também a importância de um grupo literário renovador se considerar formalmente comunista e ter como seu nome e seu estandarte, um líder político revolucionário. Essa escolha revela bem o clima de radicalização em que entrou parte da intelectualidade brasileira arrebatada pelos acontecimentos revolucionários de sua época, a Revolução Russa, a greve geral paulista, etc.; ficava claro que um aspecto formador da nova geração literária era a revolução brasileira em marcha, e alguns de seus membros influentes eram já pessoas próximas ao movimento operário. Em um artigo intitulado Grupo Zumbi, escrito posteriormente por Schmidt, ele comenta a iniciativa:

“Eis aí, o nome de um movimento literário surgido em São Paulo e que muitos desconhecem, mesmo entre os estudiosos das diversas tendências intelectuais das diversas épocas. A guerra de 1914-1918 havia terminado. Nossas letras, com raras exceções, surgiam às normas dos ‘três mosqueteiros’ da poesia que, como os de Alexandre Dumas – eram quatro… (Que eram: Olavo Bilac, Alberto de Oliveira, Raimundo Correia e Vicente de Carvalho). Em São Paulo, o movimento renovador teve como consequência a criação do Grupo Zumbi. A escolha do nome do herói de Palmares, só por si, dá bem a idéia dos seus intuitos. O programa foi publicado em jornais da época, até mesmo num folheto de minha lavra. Era a época dos folhetos, rápidos e apressados, como quem transmite um recado urgente… O Grupo Zumbi deveria filiar-se ao Grupo Clartè de Paris.”

 

<i1>Uma seção brasileira do Grupo Clartè

 

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Afonso Schmidt

O grupo francês a que Schmidt se refere fora formado pelo escritor Henry Barbusse, autor dos romances Le Feu (1916) e Clartè (1919), em que ele apresentava claramente a defesa de uma literatura que se voltava contra a guerra e contra a burguesia. O romance Le Feu se tornou um livro internacionalmente aclamado como um clássico antibelicista.

Em Paris, o Grupo Clartè (Grupo Claridade, em tradução literal) lançou um movimento político-literário que militava em oposição à guerra imperialista, atacando o caráter genocida do imperialismo e denunciando a carnificina que fora promovida em prol de um punhado de monopólios capitalistas. Faziam parte do Grupo Clartè centenas de intelectuais de peso liderados por Anatole France, Romain Rolland e Vaillant-Couturier. O órgão oficial do grupo era a revista Clartè, que propagava os novos ideais artísticos e rapidamente contou com ampla adesão da intelectualidade em uma Europa física e moralmente devastada.

A iniciativa dos franceses atravessou o Atlântico e se cristalizou na formação da revista Claridade no Rio de Janeiro, por iniciativa de Nicanor Nascimento, e que apresentava um programa análogo. O Clartè contou até mesmo com uma filial argentina, com a criação da revista Claridad, mais tarde transformada em editora, ligada ao Partido Socialista.

Em São Paulo, foram as mesmas ideias que impulsionaram a criação do Grupo Zumbi, defensor de uma arte politizada e vinculada com as lutas sociais que eram travadas no Brasil. Participavam do Grupo, além de Afonso Schmidt, também intelectuais e militantes operários como Astrogildo Pereira, Sílvio Floreal, Raymundo Reys, Maximiliano Ricardo, Everaldo Dias, Gigio Damiani, Edgard Leuenroth e Andrade Cadete.

 

 

Um grupo literário internacionalista

 

<t1>O surgimento dessa iniciativa em São Paulo mostra o quanto as ideias de Schmidt e de seus colegas estavam avançadas em relação ao movimento literário nacional, pois surgiu quase simultaneamente à formação do movimento literário francês, com apenas um ano de defasagem. Isso em uma época em que os escritores mais avançados produziam seus escritos com praticamente uma década de defasagem em relação à atividade das vanguardas europeias. O futurismo, que foi uma das grandes influências do modernismo de 22, data de 1909; o cubismo, estourou em Paris em 1912; e o expressionismo é também anterior à Primeira Guerra. O Grupo Zumbi, ao contrário, não só era contemporâneo do Grupo Clartè, como manifestava uma tendência internacionalista, buscando se alinhar aos colegas franceses em torno de uma campanha internacional contra a opressão imperialista.

O manifesto do Grupo Zumbi, a que Schmidt se refere foi publicado na forma de um folheto frente e verso com o título: Palavras de um comunista à Liga Nacionalista e à mocidade das escolas. O manifesto dos paulistas fora impresso na frente, com um chamado à população para se filiar ao ‘Grupo Comunista Brasileiro Zumbi’, acompanhado de poemas políticos de Ricardo Gonçalves, e, no verso, o fora impresso o manifesto do Grupo Clartè francês.

Esse folheto chegou a ser remetido a Paris e foi lido por Henry Barbusse, que aprovou a iniciativa e enviou de volta aos paulistas, dois livros, La Lueur dans l’abisme, de Barbusse; e Les Croix de Bois, de Roland Dorgelés.

São magros, porém, os registros históricos que se tem hoje do Grupo Zumbi. Ao que tudo indica, a única produção do grupo foi o referido manifesto. Desse modo, seu valor está relacionado, antes de tudo, como um indicador do clima político que tomava conta da ala esquerda da intelectualidade, ligada ao movimento operário, ansiosa por constituir uma arte capaz de expressar a nova época e a crise política que se desenvolvia no Brasil. Foi também, muito provavelmente, a primeira iniciativa da nova geração, de criar um movimento literário consciente do estado político e social do país e do mundo. Eles expressavam, não qualquer tipo de consciência política, mas de cunho revolucionário e proletário. A formação do Grupo Zumbi pode ser considerada também parte da pré-história da fundação do PCB, manifestando já as tendências à formação de um agrupamento comunista, de uma verdadeira vanguarda proletária.

Schmidt, analisando mais tarde a questão do Grupo Zumbi, atribuiu o malogro da iniciativa à situação política caótica e repressiva da época, que não permitiu um maior desenvolvimento e levou, alguns meses mais tarde, os integrantes do grupo a se dispersarem em meio às centenas de prisões que ocorriam entre o movimento operário.

 

A revolução cultural brasileira

 

<t1>Essa época marcou um período de maior radicalização das ideias de Afonso Schmidt, quando ele ligou-se diretamente ao movimento operário e passou a refletir sua radicalização política em uma radicalização de suas propostas estéticas.

Os anos de 1920 e 1921 foram de grande importância para o escritor. Foi nessa época que ele começou a acompanhar mais de perto as polêmicas travadas entre a imprensa burguesa a respeito do movimento de renovação da literatura brasileira. Oswald de Andrade publicava regularmente então, no Jornal do Comércio, artigos em defesa dos ‘novos’, publicando também poemas modernistas de Menotti del Picchia e Guilherme de Almeida, entre outros. Foi através dessas leituras que Schmidt se familiarizou com a nova poesia e se aproximou, por uma sensibilidade comum, do grupo mais importante do modernismo. Em pouco tempo Schmidt manifesta sua adesão às novas ideias com a publicação de seus próprios poemas, já modernistas, na imprensa. Poemas que seriam comentados elogiosamente tanto por Oswald de Andrade quanto por Mário de Andrade.

Esses escritos modernistas iriam compor seu terceiro livro, Mocidade. Vários poemas dessa obra merecem destaque, já atestando o modernismo regionalista característico em toda a obra posterior de Schmidt. Um deles, apesar de sua forma tradicional, possui um conteúdo moderno, é o poema Cubatão:

 

“Minha terra não passa de uma estrada,

Um bambual que rumoreja ao vento;

Sol de fogo em areia prateada,

Deslumbramento e mais deslumbramento.

O chafariz em forma de carranca,

Confidente das moças do arrabalde,

Despeja sua gargalhada branca

No bojo de latão de um velho balde.

Nas porta, parasitas cor de sangue,

Um mastro esguio em cada casinhola,

Gente tostada que desfolha o mangue,

Crianças pálidas que vêm da escola.

Ao fundo, a Serra. Pinceladas frouxas,

De outro a tristeza, de fundo azul. Aquelas

Manchas que são jacatirões – As roxas,

E aleluias – As manchas amarelas.

A minha terra, quando a vejo, escampa,

Cheia de sol e de visões amigas,

Lembra-me o cromo que enfeita a tampa

De uma caixa de goma das antigas…”

 

Outro poema que se destaca na obra, e apresenta uma rima e uma métrica frouxas, é Conguitos, que fala de reiminscências da infância do poeta em Cubatão, quando ele via os pescadores vendendo conguitos, peixes pequenos como sardinhas, no mercado local:

 

“Ainda me lembro das águas negras do velho porto,

da capelinha sempre fechada, com quatro frestas

feitas em cruz, por onde entravam os passarinhos.

Casinhas pobres, de meias-portas, pelos barrancos;

roupa estendida sobre os gramados, onde nasciam

ao Deus-dará, flores vadias, flores sem nome.

Ao vir da noite, passa-que-passa pobre morcego

uma taquara vibrando lésta no céu sanguíneo

e o bicho tomba que nem pelota feita de trapo.

Depois, lá longe, na beira da água, por entre os ranchos,

a gente ouvia a voz dolente de uma busina…

Boca da noite, quando tu rezas, rezas tão doce!

Eram canoas que vinham vindo da pescaria;

vinham vender por um derréis de mel-coado

os seus conguitos – o peixe podre para a pobreza.

As mulherinhas daquelas casas corriam logo,

sungando a saia, atando os lenços, batendo as cestas,

para as canoas que se arrastavam sobe o tejuco…

E, noite velha, quem caminhava rente das portas,

ouvia dentro o falatório daquela gente

e o solilóquio do caldeirão que refervia

O cheiro forte das alfavacas e mangeronas

fugia pelas portas sem trancas e sem tramelas,

ao repinique do caldeirão de caldeirada.

Boca da noite! Se tu cantasses, tu cantarias

como cantavam, antigamente, essas businas,

dos pescadores do velho porto de São Vicente.”

 

Há também os poemas que tem a capital paulista como tema. Um exemplo é o poema Anhangabaú:

 

“Nos Piques, vagando àtoa,

é raro quem pressinta

uma toada indistinta,

que, sobre as pedras, ressoa.

Conta moedas, tilinta,

como refrão de uma loa,

a fonte exilada e boa,

há muitos anos extinta.

Sua alma que ali revoa,

de céus e de ares faminta,

repete a cada pessoa

uma novela sucinta:

noturnos, capas, garoa,

1930…

 

Há ainda a poesia Azul, em que Schmidt a cor que remetia a dezenas de lembranças de Cubatão:

 

“Eu vi a janela escura,

o velho poço tampado,

a lagoa de água choca

e o corvo sobre o telhado;

tudo pedia baixinho

um bocadinho de azul.

E vi a tarde de junho,

a rua toda grisalha,

o baile das folhas mortas

e você no meu caminho;

então supliquei baixinho

um bocadinho de azul!

Você passou tão de leve

numa efêmera viagem

para as campinas do sul:

mas me deixou na passagem

um quase nada de sonho,

um bocadinho de azul!”

Outro poema que merece destaque por seu tema moderno é Parnaíba, em que ele escrevia:

 

“Ruas estreitas, sobrados

com seu ar meditativo;

plantas verdes no telhado,

cortinas leves de crivo…

As rótulas misteriosas,

locutórios de azulejos,

adulfas cheias de rosas

e bocas cheias de beijos…

Paredes brancas, portadas

azuis, cômodos poiais

sob as linhas onduladas

dos larguíssimos beirais…”

 

Poema em que Schmidt usa uma forma perfeitamente modernista é Soltando os Trilhos, que apresenta um ritmo dinâmico e estrofes irregulares, tendo às vezes, apenas uma palavra:

 

“Dobra-se pelo alto

um céu imenso

onde fulgem estrelas incontáveis;

no asfalto,

a pauta musical dos trilhos

guarda a luz e o calor do sol ausente;

um ébrio desbarreta-se ao crescente

fazendo reflexões impenetráveis…

Agita-se na noite um luminoso lenço

imenso

Uma falena loura

agoniza

batendo asas;

e o luminoso pó esvoaçante doura,

irisa

o asfalto, as copas e o frontal das casas,

… Coisa *vagneriana,

magia velha, sutileza cênica…

Tristão

e Isolda?

Não;

solda

autogênica…

Uma caixa ligada ao fio condutor

da eletricidade;

sinto

no seu interior

o trabalho mortal de um ser faminto

lutando corpo a corpo com a morte.

Zumbe o dínamo,

o esmeril morde o metal,

uma chuva de centelhas,

como abelhas

de fogo,

espirra do motor.

O artífice está de escafandro:

é o mergulhador

da luz triunfal:

desce no âmago dos raios violetas

20.000 H.P. em cada braço.

E, quando torna o sol, já não se vê nenhuma

das máquinas brutais, mastigadoras de aço.

A cidade é uma mesa imensa

onde houve orgia.

A toalha é a bruma.

Os lampeões são copos de ouro;

em cada copo espia

uma gota de luz muito medrosa…

Nostalgia

da noturna cerveja luminosa

cuja espuma

transbordou do horizonte e se faz dia…”

Como se vê, 1921 é um ano de culminação da literatura moderna. Mário de Andrade escrevia Pauliceia desvairada, que só seria lançado no ano seguinte; e Schmidt, apresenta uma poesia também modernista, com bastante liberdade no uso das rimas e na adaptação de palavras e termos.

No livro História da Literatura Brasileira, o crítico Massaud Moisés analisava que Afonso Schmidt foi um escritor “marginal ao Modernismo de 22, por já estar definido literariamente e não aderir aos rumos que o movimento tomara”. Essa análise, porém é incorreta, ou, ao menos, imprecisa. Por um breve momento, Schmidt esteve próximo aos escritores modernistas, e, se sua poesia formalmente não chegou a ser rigorosamente modernista, seus temas eram modernos, sua inspiração era moderna. Uma ruptura aberta entre Schmidt e os mais inventivos experimentadores modernistas se daria apenas anos mais tarde, por volta de 1927.

A proximidade de Schmidt dos escritores de 22 é facilmente atestada com a leitura dos inúmeros artigos que eram publicados na imprensa da época sobre o tema. Schmidt aparece incontáveis vezes relacionado aos demais modernistas. Em um artigo, por exemplo, escrito por Oswald de Andrade em 1921, ele comenta: “Alfonsus de Guimarães (sic) valia sem dúvida todos os poetas juntos da Academia Brasileira (…) Era um sacerdote obscuro, como entre nós e no Rio têm sido Afonso Schmidt, Alberto Ramos e o bizarro e delicioso Manuel Bandeira”.

Em outra matéria, também de 1921, intitulada Futurismo Paulista, Sérgio Buarque de Holanda compara os modernistas paulistas à vanguarda francesa. Entre esses “futuristas” de São Paulo, após relacionar Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Mário de Andrade e Guilherme de Almeida, o crítico acrescenta à lista:

“Seria injusto esquecer os outros nomes de valor como Moacir Deabreu, Ribeiro Couto, Agenor Barbosa e Afonso Schmidt, que, embora não sejam todos paulistas, nem por isso deixam de colaborar ativamente para seu progresso literário.”

Citações similares, incluindo Schmidt no grupo modernista aparecem em artigos inclusive de Mário de Andrade e Menotti del Picchia, fatos que deixam claro a limitação do “marginalismo” de Schmidt em relação ao modernismo de 22.

A realidade é que Afonso Schmidt, em um primeiro momento, ficou bastante entusiasmado com a poesia dos “novos”, e adere a elas quase imediatamente. Também de 1921 é um artigo de Afonso Schmidt em que esse entusiasmo fica bem registrado: “… o Futurismo é uma poeira azulada de artistas de nomes bizarros, que empana com miríades de livros quisilhantes, o poente ensanguentado de uma era – e o Futurismo dos que verdadeiramente são inovadores, daqueles cujo espírito criador deixaria um sulco profundo em qualquer época e em qualquer escola.”

“Ao contrário da poesia atual, a poesia futurista deve surpreender pela forma, despertar emoções desconhecidas pelo ritmo e conjunto, mesmo porque, segundo as suas afirmações, o artista vai unicamente pelo que apresenta de absolutamente original na soma comum dos valores estéticos, ou porque – a originalidade não tem limites, como é sem limites a variedade dos seres e das sensibilidades.”

A realidade é que a história literária tem também as suas classes sociais e a sua hierarquia oficial. É costume, no Brasil, manter no completo esquecimento e na obscuridade os escritores que não fazem parte da elite social e política do país. São casos muito marcantes desta sgregação social o grande abolicionista e grande poeta satírico Luís Gama, um dos maiores romancistas da língua portuguesa, que por pouco não se perdeu completamente, Lima Barreto e o próprio Afonso Schmidt. Há muitos outros.

 

Uma nova fase em prosa

 

<t1>Em 1922, a fermentação que se via no mundo das letras, particularmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, culmina na realização da Semana de Arte Moderna no Theatro Municipal de São Paulo, evento que apresenta definitivamente o movimento modernista para o grande público.

A 29 de janeiro, o jornal O Estado de S. Paulo noticiava em um pequeno artigo que nela esteve presente, entre dezenas de escritores, também Afonso Schmidt. Anos mais tarde, o próprio autor comentaria que essa notícia estava errada, e que ele não tomou parte na Semana. Apesar disso, o comentário do jornal mostra o quão próximo Schmidt era dos demais modernos. O poeta não esteve presente, mas poemas seus foram de fato lidos, por Menotti del Picchia, em uma das noites de atividades no Municipal.

Em 1922, Schmidt tomava parte em outra atividade da maior importância: o poeta se tornou um dos primeiros filiados do Partido Comunista Brasileiro, fundado em março de 1922 por nove proeminentes intelectuais e militantes do movimento operário. Parte significativa deles havia acabado de romper com as ideias anarcosindicalistas, se aproximando dos métodos de organização marxistas do bolchevismo russo e do programa da revolução proletária internacional. Entre os fundadores do PCB, estavam duas figuras que já haviam trabalhado com Afonso Schmidt em jornais da imprensa operária, Astrojildo Pereira e João da Costa Pimenta.

O ano de 1922 tem grande importância na evolução artística de Schmidt. Ao mesmo tempo em que ele publicava as poesias de Mocidade, que mostrava sua proximidade com os “novos” que realizaram a Semana, Schmidt publica também seu primeiro livro em prosa, a importante coleção de contos Brutalidade, publicada no ano seguinte. O livro de conjunto apresentava as mesmas disparidades de influências que se via em seus poemas. Em alguns contos, a sensibilidade do escritor aproximava-se do simbolismo e do esteticismo de Oscar Wilde, com seus extravagantes dandies, entediados da vida e envolvidos em uma busca por prazeres sensuais. Contos assim apareciam lado a lado com narrativas de temas sociais, com seus operários esmagados pela violência de uma vida miserável.

 

O início da literatura social do modernismo

 

Um conto social bastante significativo presente nesse livro é Curiango. O conto acompanha a história de Curiango, um garoto de rua que trabalhava como tratador dos animais de um circo. Um dia, porém, ele é chamado para substituir o domador de feras da trupe. Quando o público assiste o espetáculo, rapidamente reconhece o miserável garoto que tratava os animais, vestido agora no pomposo traje de domador. A plateia começa imediatamente a vaiá-lo, rejeitando a transformação do humilde servente em estrela do espetáculo. Por puro despeito, Curiango deixa o tigre escapar “acidentalmente”, e, na confusão que se segue, dezenas de espectadores são mortos pela fera. O conto não apenas expressa bem o título geral da obra, Brutalidade, como é uma poderosa alegoria social sobre a estratificação das classes na sociedade burguesa.

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Voltando de viagem

Outros contos sociais presentes no livro, como Os felizes, Vida fácil e Harmonia, atestavam a ideologia socialista do escritor. Em Os felizes, o protagonista é um militante anarquista que, preso, vê os horrores do sistema carcerário da República Velha.

Nesse relato, vê-se o pioneirismo de Afonso Schmidt na produção de uma literatura social modernista. Brutalidade antecipava em quatro anos o primeiro romance social do modernismo brasileiro, O estrangeiro – de 1926 , do futuro líder integralista Plínio Salgado.

Pela sua originalidade, Brutalidade tem grande repercussão quando lançado. Chega mesmo a ter uma segunda edição no mesmo ano, e ajuda a consolidar a presença de Schmidt entre os mais proeminentes autores que despontavam após a Semana.

Ainda no movimentado ano de 1922, Afonso Schmidt toma conhecimento de um concurso literário promovido pela revista argentina La Novela Semanal, em que seriam premiadas as dez novelas mais originais enviadas à redação do órgão. Schmidt escreve para o concurso a novela social Os impunes, e com ela, ganha o primeiro lugar, quando sai o resulta do em 1923.

 

<i1>A primeira novela: Os impunes

 

<t1>Os impunes era uma obra sombria, trágica, que descrevia duas realidades distintas e igualmente medíocres. De um lado, surge o mundo das repartições públicas em que emerge um funcionariozinho do médio escalão, ardorosamente dedicado ao trabalho, um discípulo da ordem, do método, da rotina e da disciplina que o rodeiam. A posição que ocupa na repartição é sua própria vida, sua identidade. A atmosfera decadentista desses escritórios estatais revela bem uma influência da narrativa de Gógol sobre Schmidt.

Quando o pequeno funcionário abandona o trabalho, porém, a caminho de casa, o conto muda de tom, adquire colorações mais densas e mergulha em uma narrativa social em meio à degradação dos bairros operários. O protagonista despreza todos os que estão socialmente abaixo dele, ao mesmo tempo em que idolatra a burguesia, o poder e o status social dela. Apesar de seu orgulho, ele mantém secretamente uma relação com sua jovem empregada negra.

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Participantes da Semana, entre eles Afonso Schmidt

Em certa ocasião, porém, aparece no bairro uma mendiga enlouquecida que, de alguma forma, parece ameaçá-lo socialmente. O funcionário começa a mobilizar toda a população local contra ela, buscando expulsá-la da região, mas um aleijado vai em socorro da mendiga e impede que ela seja linchada. O raivoso protagonista desconta então sua raiva virulenta espancando a filha da mendiga e a empregada negra.

Quando o chefe da repartição oferece a ele uma promoção, desde que tivesse uma conduta moral irrepreensível, o homenzinho, sem pestanejar, chuta para a rua sua empregada e passa a viver na solidão, aguardando ansiosamente a promoção. Com o passar do tempo, porém, ele vai tornando-se paranóico, e suas ações começam a atormentá-lo. A filha da mendiga adoece e morre na rua, a mendiga, por seu lado, internada em um sanatório, também adoece e morre. A empregada negra, vivendo na rua, desesperada, dá cabo da própria vida. O homem acaba por enlouquecer, obcecado com a ideia que a negra e a mendiga lhe perseguiam.

Essa fábula social, ainda atrelada aos modelos narrativos típicos do século XIX, combina, as duas faces distintas das influências literárias do escritor. Por um lado, o estilo decadentista, bem marcado nas descrições da atmosfera tenebrosa da trama, por outro, a narrativa de forte conteúdo social, característica do realismo.

Diferentemente do que ocorreu na poesia de Schmidt, nessa novela fica claro, o estilo literário do autor mantêm-se à margem das inovações modernistas. Sua narrativa é organizada nos moldes convencionais e, se algo é moderno nesses textos em prosa, é sobretudo o conteúdo social expresso pelo autor.

 

A ruptura com o “experimentalismo” modernista

 

Nesses meses, Schmidt começa a trabalhar na pequena redação do diário Folha da Noite. É uma importante experiência jornalística para o escritor, que produzia bastante em um jornal que tinha poucos recursos e poucos redatores: “… Hoje lembro, com saudades, daqueles primeiros anos da Folha da Noite. Foi uma aventura, uma façanha esportiva em que, de alto a baixo, todos deram, alegremente, o melhor de seu esforço. Bons tempos aqueles; ganhava-se pouco, mas, em compensação, trabalhava-se pra-chuchu”. Ele permaneceria aí até 1924, quando ingressa no jornal O Estado de S. Paulo.

Ainda em 1923, Schmidt publica sua primeira peça teatral, As Levianas; e, quatro anos mais tarde, em 1927, ele concebe seu romance inaugural, O Dragão e as Virgens. Nesse ponto, Schmidt encerra a primeira etapa de sua obra e inicia uma nova.

É nesse ano de 1927 que o autor formula uma posição clara a respeito dos escritores da Geração de 22, rompendo definitivamente com a estética modernista e passando a atuar, a partir daí, marginalmente ao movimento.

Essa crítica aparece formulada no prefácio de O Dragão e as Virgens. No texto, Schmidt deixa claro o sentido social de sua literatura, seu desdém pela burguesia, pela arte como mero exercício estético, e seu interesse pela vida dos oprimidos nos quais reconhece estar presente o fluxo da vida. No prefácio ele escreve:

“Por temperamento, não compreendo a arte pela arte, jogo de paciência para mandarins, palavras cruzadas. Suponho sempre que quem fala ou escreve tem um pensamento a comunicar, uma emoção a transmitir. A maneira como se desobriga da tarefa é questão de engenho; tanto melhor, se dá mostras de habilidoso e o faz por meio inesperado e atraente. Compreendo que o vendedor ambulante de quinquilharias, exiba um lagarto para atrair transeuntes desatentos, que lhe não prestem ouvidos às arengas, mas tenho que o fim do escritor não é mostrar bicharocos, é desdobrar um arco-íris.”

“Eu, por exemplo, assentei que meu fado é espalhar um pensamento que me deslumbrou, falando às gentes a quem o trato duro da existência embotou a agudeza da percepção. Sei que se desse à minha prosa punhos engomados e os não-me-toques dos salta-pocinhas literários jamais chegaria com esta oferta de dedal à manjedoura rústica, onde há um Cristo pequenino, adormecido entre ervas.”

“Devo engrossar as linhas do desenho, tornar os pensamentos palpáveis e apetitosos como frutos, criar um esqueleto de sonho para sobre ele plantar a greda sanguinolenta da realidade, ou então, como faz o lavrador com terras em pousio, atirar mancheias de idéias ainda que não sejam as da futura safra, para enternecer corações esvaziados de todo pela vida.”

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Com a família

“Aceitaria jubiloso nova orientação artística desde que ela correspondesse ao instante, que é um alvorecer de almas anônimas. Basta olhar em redor, Neste momento, a fé, a ciência, a filosofia, as arte e a política vencem um período de turvação correspondente à hora encarvoada que precede a manhã.”

“Depois do paganismo, anoiteceu para os homens. A teoria das elites, que fez um trajeto de ciclone e acabou na fogueira universal de 1914, cortou a terra pelo meio, como se fosse uma laranja. Por isso, resplandeceu um punhado de homens que tinham o poder econômico e com ele todas as altas e belas manifestações do espírito humano. A história só fala de reis, príncipes, generais e senhores de escravos. No entanto, o homem que fez tudo o que vemos e o que pensamos, só aparece nos autos de fé iluminados pelo clarão das fogueiras. Quando sobre a escura humanidade desabrochava uma flor de beleza ou de inteligência, colhiam-na apressadamente para a estufa do seu mundo. Deu-se, portanto, uma seleção cuidadosa e prolongada.”

“Foi assim que a elite apoderou-se da terra, mas perdeu contato com a humanidade, que é a fonte da vida do espírito. E a sua mentalidade, como água empoçada que não tem comunicação com as nascentes, estagnou, apodreceu, cobriu-se de monstros microscópicos. Seu coração mirrou. Seu cérebro perdeu a elasticidade, encoscorou, transformou-se em matriz de terracota onde a matéria prima do pensamento, arrefecendo, recebia sempre as mesmas formas. Os filósofos, tinham o cérebro de certas máquinas de Nuremberga: recebiam metal candente e expeliam, aos montes, às toneladas, soldadinhos de chumbo.”

E assim ele prossegue. O que é significativo nesse texto é o fato de Schmidt resolver voltar as costas à experimentação vanguardista por considerá-la um mero “exercício estéril”, ou um “artifício para atrair curiosos”, ou, quando muito, uma forma estética correspondente apenas à sensibilidade bem cultivada da burguesia. Ele reivindica, em contrapartida, uma literatura de linguagem fácil, acessível, objetiva, o que é, nenhuma dúvida pode haver, parte de toda a revolução cultural do século XX, tanto no Brasil, como internacionalmente.

A reivindicação do autor apenas reforça o caminho para onde Schmidt já se dirigia desde que publicou seus primeiros textos em prosa. Sua defesa de uma literatura formalmente despojada era produto da intenção do autor em escrever, não para os elementos cultos de uma burguesia e uma pequena-burguesia letradas, mas que se adequasse à cultura média das amplas camadas da população. É um anseio por ser lido e compreendido pela classe operária, pelos camponeses, etc.

Esse objetivo, para ser corretamente compreendido, deve ser encarado como o resultado direto da grande presença da classe operária na situação política brasileira, uma presença que crescia cada vez mais na medida em que a década de 1920 chegava ao final e na medida em que a burguesia se preparava para realizar sua revolução.

Essa decisão de Schmidt em defesa de uma literatura social não deve ser confundida com a reivindicação da ala direita do movimento modernista, que defendia a prosa tradicional do século XIX em oposição às vanguardas europeias por puro conservadorismo, o resultado de uma ideologia nacionalista rasteira, ufanista, avessa ao internacionalismo da ala esquerda do movimento e, como ficaria claro depois, contrarrevolucionária no mais rigoroso sentido da expressão. Schmidt não rejeitava o vanguardismo por um problema de “nacionalismo”, mas por querer ser compreendido por um extrato social de magra cultura. Esta concepção era, em si mesma, profundamente revolucionária..

Com o prefácio-manifesto de 1927, Schmidt se definia como artista e definia os rumos seguintes de sua obra. Até o final da vida, ele tornaria um autor extremamente popular no Brasil, se dedicando a uma literatura de estilo simples, claro e objetivo, escrevendo, sobretudo, obras de temas políticos e sociais.

 

Schmidt e a crise política nacional da década de 1930

 

Como foi dito, a obra de Schmidt a partir de 1927, se desenvolve principalmente como uma obra social e política. Essa tomada de posição do escritor acompanhava também o movimento de polarização política do modernismo. Em 1926 acontecia a ruptura da ala direita do movimento, liderada por Plínio Salgado com o Movimento Verde-Amarelo, formado em oposição ao Grupo Pau-Brasil, de Oswald de Andrade. Com a crescente radicalização, os membros da ala esquerda também se fragmentam. Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Heitor Villa-Lobos e outros, formam uma ala de centro, que mais tarde ingressaria no governo Vargas; já Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Raul Bopp e outros, formam o Movimento Antropofagia, o mais radical e formalmente avançado dos grupos modernistas, adepto do internacionalismo literário e incorporando influências diversas da época, como a psicanálise de Freud, o primitivismo e o surrealismo.

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O jornalista

Schmidt, com sua tomada de posição em defesa de uma arte voltada aos trabalhadores, constitui uma ala distinta, mas que representa uma corrente dentro da ala esquerda do modernismo.

Na década de 1930, sua produção foi pequena. Schmidt publicou seu último trabalho com poesias, Garoa, de 1932 – que reunia seus escritos ao longo de um período de dez anos –, um novo livro de contos, Pirapora, de 1934; e a novela Zanzalá, de 1936, uma obra pioneira do gênero de ficção científica no Brasil.

Foi, porém, uma década conturbada pelos movimentos constantes da revolução e da contrarrevolução. A Revolução Constitucionalista em 1932; o Levante Comunista, em 1935; até o golpe do Estado Novo em 1937.

Durante a grande onda repressiva que toma conta do país, após a derrota do Levante Comunista, centenas de operários, militantes políticos e intelectuais foram presos pelas forças de repressão do governo varguista. Schmidt é um dos tantos escritores encarcerados por sua ligação com o PCB, da mesma forma que Monteiro Lobato, que era, nessa altura, amigo do poeta.

Schmidt permaneceu na redação de O Estado de S. Paulo, mas a partir de então, começou a se afastar dos debates políticos.

Quando é instaurado o Estado Novo, o clima político torna-se ainda mais tenso. O jornal é colocado sob permanente intervenção e todo conteúdo crítico contra o governo é rapidamente censurado. O período do Estado Novo marca também uma nova etapa na vida de Schmidt, em que ele recolhe-se em si mesmo e se volta quase que exclusivamente à atividade literária.

 

A literatura social de Schmidt das décadas de 1940-50-60

 

<t1>Por esse motivo, a literatura de Schmidt ganha corpo e densidade a partir da década de 1940, em que ele escreve importantes romances e novelas, entre os quais destacam-se o romance biográfico A vida de Paulo Eiró, sobre o precursor do movimento abolicionista e da República; e os romances A marcha: romance da Abolição, de 1941 (lançado ano do cinquentenário da abolição da escravatura), colocando em relevo os episódios mais revolucionários da luta abolicionista e mais ignorados pela historiografia brasileira, e Colônia Cecília: uma aventura anarquista na América, do ano seguinte; ambos os livros estão entre as mais importantes contribuições do autor à literatura política brasileira. Colônia Cecília é um retrato literário da experiência realizada por um grupo anarquista de formar uma comunidade socialista (a primeira da América) no interior do Paraná, projeto idealizado pelo italiano Giovanni Rossi e que despertou acaloradas polêmicas mesmo entre o movimento anarquista, em que parte da militância condenou veementemente a iniciativa como uma panaceia utópica.

Outro segmento que tem grande relevância na obra de Schmit são seus romances de memórias, narrando suas muitas viagens e aventuras da adolescência e juventude, são os livros A primeira viagem, de 1947; O menino Felipe, de 1950 e Bom tempo, de 1956, livro de crônicas e memórias.

Entre as décadas de 1950 e 60 há também novos romances sociais de destaque, como O assalto: romance do ouro e do sal; Os saltimbancos, de 1950 e A locomotiva: a outra face da revolução de 1932, de 1960. Esse último livro é particularmente interessante no que diz respeito ao retrato da repressão à esquerda que foi lançada pelo movimento nacionalista de São Paulo antes e durante a Revolução.

Muitos dos livros de Schmidt atingiram uma enorme popularidade quando lançados. Esse foi o caso dos três romances que ele publicou na forma de folhetins no período em que trabalhou em O Estado de S. Paulo, os livros Zanzalá, A marcha e o romance biográfico A sombra de Júlio Frank. A publicação de romances, novelas e contos de Schmidt em coleções e editoras voltadas a edições populares – como o Clube do Livro – criação do próprio Afonso Schmidt que visava a popularizar a leitura a baixo preço – e a Coleção Saraiva – também contribuiu para a grande difusão do nome de Schmidt no período.

O interesse de Schmid em produzir literatura para a população trabalhadora se refletiu em outras importantes iniciativas do autor para a cultura nacional, como a criação por ele, em 1928, do Romance-Jornal, do qual Schmidt foi editor. Nesse jornal semanal, o autor publicou dezenas de livros em formato de folhetim, o que certamente deu uma grande contribuição à popularização de determinados autores nacionais e estrangeiros.

Na década de 1940, também Schmidt participa da criação da editora popular O Clube do Livro, com seu amigo Mário Graciotti. O escritório da editora foi instalado na própria residência de Schmidt. Por meio dela, nos vinte anos seguintes, Schmidt publicaria vinte e um de seus livros e centenas de títulos de diversos autores nacionais e estrangeiros.

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Astrogildo Pereira

O final da vida do escritor, porém, marcou sua assimilação pela intelectualidade burguesa “oficial”. Em 1963, Afonso Schmidt recebeu o prêmio de Intelectual do Ano, e o troféu Juca Pato, concedido a ele pela União Brasileira de Escritores (UBE). Pouco mais tarde, no início de 1964, ele foi eleito presidente da UBE. Apenas algumas semanas depois, ocorreria o Golpe Militar. Foi o último acontecimento político que Schmidt teve oportunidade de presenciar. Ele morreria apenas três dias após o Golpe, aos 73 anos.

Hoje, apesar da burguesia ter procurado tornar Schmidt um autor oficial, ele – que nunca deixou de ser um autor socialista – é ainda em grande medida marginalizado, e suas obras, pouquíssimo estudadas. Entre os principais estudos sobre a literatura moderna, pouco ou nada se fala sobre a obra do autor, normalmente excluído das análises do movimento modernista. Um dos principais estudiosos do assunto, por exemplo, Wilson Martins, nada fala sobre ele em sua história da literatura, e o cita apenas no estudo História da Inteligência Brasileira.

Na cidade natal de Schmidt, porém, Cubatão, todos os anos é organizada, em junho – mês do aniversário do escritor –, a Semana Afonso Schmidt, um evento oficial da cidade que, em meio a atividades de literatura e música, são organizadas palestras que resgatam a história da formação da cidade e a trajetória do mais destacado dos intelectuais cubatenses.