A FUNDAÇÃO DA CUT

Antônio Carlos Silva –

 

A Central Única dos Trabalhadores (CUT) está comemorando 30 anos de sua existência, justamente em um momento que, diante do agravamento da crise capitalista e do seu avanço a passos largos em nosso País, coloca-se mais como questão fundamental o problema da unidade e da centralização da luta dos trabalhadores, para fazer frente aos “planos de austeridade” com os quais a burguesia e seus governos pretendem fazer com que o proletariado pague pela crise.

O seu 30º aniversário de fundação (23 de agosto de 1983), se deu justamente às vésperas de mais um pífio “dia nacional de paralisação” convocado pela CUT e por várias outras “cecut28anos1ntrais” que nem de longe lembraram as combativas e massivas mobilizações lideradas pela Central na década de 1980.

Ao contrário disso, mais uma vez, o episódio serviu para reafirmar – entre outras questões – que a multiplicação das centrais, impulsionada e financiada pelos patrões e pelos seus governos com recursos públicos subtraídos dos trabalhadores, é um fenômeno profundamente reacionário que em nada contribui para o avanço da luta do movimento operário.

O mais expressivo resultado do maior ascenso operário da história do País 

Na década de 1980, a classe operária brasileira retomou e ampliou, generalizando para todo o País, o ascenso iniciado em 1978 com as greves do ABC, colocando em crise terminal a burocracia sindical criada no regime militar, majoritariamente formada por elementos da mais alta confiança do regime militar (1964-1984) ou por ele tolerados.

Um verdadeiro turbilhão de oposições sindicais se espalhou por todo o País, expressando e organizando a revolta e o desejo de mudança dos trabalhadores, colocando em xeque direções sindicais conservadoras que agiam para tentar impedir que os trabalhadores recuperassem seus sindicatos para as suas lutas contra os patrões e a ditadura.

Muitos dos chefes do sindicalismo pelego e patronal, como os atuais “chefes” das “centrais”, hoje exaltados inclusive por  setores da esquerda pequeno burguesa, como o PSTU/Conlutas, como importantes aliados , foram então identificados claramente por milhões de trabalhadores como inimigos a serem derrubados. E foram de fato superados pela maior onda de mobilizações operárias e populares da história do País. É o caso de José Calixto Ramos, presidente da ultra pelega Confederação Nacional dos Trabalhadores da Indústria e da NCST  (Nova Central Sindical dos Trabalhadores) e muitos outros tradicionais pelegos, como o ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, Joaquim Andrade dos Santos, o “Joaquinzão”.

A crise terminal da ditadura militar, impulsionada pelo fim do chamado “milagre econômico” (1974), levou milhões de trabalhadores às greves; centenas de milhares às assembleias sindicais (realizadas até mesmos em estádios de futebol, como no ABC). Dessa forma, enterrou uma expressiva parcela das direções tradicionais traidoras e colocou em pauta uma completa reorganização dos sindicatos brasileiros, não apenas no sentido da renovação do aparelho dos sindicatos, mas também na quebra do próprio regime político que vigorava desde o Estado Novo e da sua centralização nacional.

A maior, mais moderna e mais concentrada classe operária de toda a América Latina e uma das maiores do mundo, avançou décadas em poucos anos, superando em vários momentos a política conservadora de suas direções, até mesmo daquelas que se colocaram formalmente à frente de suas organizações e de suas lutas.

A luta contra o peleguismo versus a “unidade” com o peleguismo

As primeiras greves do ABC de 1978 a 1980 quebraram o regime militar, obrigando a burguesia a colocar em marcha uma complicada e improvisada reorganização do seu regime de dominação, com a chamada “Nova República” (com o governo Tancredo-Sarney e seus sucedâneos), que jamais recuperou a autoridade que a ditadura militar havia estabelecido sobre as massas.

A formação da CUT, em 1983, como parte de uma crise sem precedentes do sindicalismo estatal criado pelo regime militar, aprofunda a decomposição da ditadura, abalando um dos seus pilares fundamentais, a dispersão e a falta de unidade da classe trabalhadora em sua luta, ou seja, um prolongado refluxo de 14 anos.

Ao contrário da versão fantasiosa contada por muitos, o surgimento da CUT marcou o fracasso da política de buscar uma unidade geral de toda a burocracia sindical, a situacionista e emedebista e o sindicalismo semi-independente do regime, como era o desejo de amplos setores do sindicalismo oposicionista. Entre eles, os próprios futuros dirigentes da CUT, como Lula, e da esquerda pequeno-burguesa (atuais PSTU, PSol etc.), que buscaram no I Conclat (Conferência Nacional das Classes Trabalhadoras) e, principalmente, nas articulações de bastidores criar uma organização unitária com amplas alas do sindicalismo ligado ao regime e a esquerda abertamente integrada à burguesia como o PCB e o PCdoB.

As amplas lutas levadas adiante pela classe operária, que conduziram a um choque frontal com os pelegos, inicialmente agrupados no movimento “pró-CUT”, fortaleceram as oposições sindicais, como o Movimento de Oposição Metalúrgica de São Paulo (MOMSP), e até levaram à formação de uma organização nacional das oposições (ANAMPOS). Essas se constituíram em um elemento decisivo no sentido de  bloquear esta unidade reacionária e pressionaram no sentido do desenvolvimento das tendências próprias da classe operária à sua centralização política, apesar de sua política contemplar a unificação. Foram, na realidade, as oposições sindicais que primeiro levantaram a bandeira de uma central única dos trabalhadores.

Estas tendências se expressaram de forma mais contida na formação do PT (1980), que nunca organizou de fato politicamente essas amplas parcelas da classe operária que estavam se mobilizando, antes colocou-se claramente no sentido de excluir a participação da massa operária no partido. O PT ocupou o lugar de partido operário apenas em um sentido muito restrito, principalmente como organização eleitoral; mas principalmente na formação da CUT, em cujo interior, em seus primeiros anos de vida, desenvolveu-se o maior processo de evolução política e organizativa já experimentada pelo movimento sindical brasileiro.

A política de unidade com o peleguismo – que era uma tentativa de unidade com o sindicalismo emedebista, com o stalinismo (PCB) e com a esquerda umbilicalmente ligada ao MDB (MR-8, PCdoB) manifestou-se na realização do I Conclat, o Congresso das classes trabalhadoras, uma instituição do regime militar. Neste Congresso, realizado em 1981, participaram as diversas facções do sindicalismo oposto ao regime e do peleguismo. Foi formada a Comissão pr’o-CUT com o objetivo de criar a nova central. No entanto, os pelegos recusaram-se a chamar o congresso, temendo ser ultrapassados pela crescente mobilização operária, o que levou a burocracia lulista e as oposições a convocarem o congresso em oposição ao peleguismo e ao stalinismo em 1983.

A formação da CUT não foi resultado de um acerto político entre dirigentes, de um conluio entre sindicalistas interessados em montar seu “próprio negócio” para satisfazer seus próprios interesses e servir à vontade dos patrões, tal como se vê hoje na formação de inúmeras “centrais sindicais”. A ideia inicial dos sindicalistas que a fundaram era justamente a unificação de todo o peleguismo, como foi falado acima. O projeto fracassou pela enorme pressão exercida pelas bases operárias a que se ligaram esses sindicalistas e que buscavam uma organização que correspondessem às tendências ao ascenso.

A fundação da CUT respondia às tendências vivas à unificação da classe trabalhadora, decorrentes do ascenso, e a Central impulsionou as maiores lutas de toda a história da classe operária do País, como as greves gerais de 1983 e as 15 mil greves de 1985. Além disso, a CUT serviu de base para a retomada de sindicatos para os trabalhadores, com a vitória de centenas de oposições sindicais, a formação de organismos de base (como as comissões de fábricas) e a superação dos estreitos limites legais impostos à organização operária, como a proibição de criação de centrais, de fundação de sindicatos nos serviços públicos, a formação de verdadeiros “sindicatos nacionais” ou esboços como no caso dos correios, petroleiros, docentes do ensino superior etc.

O explosivo crescimento das mobilizações e da organização operária representado pela CUT e, principalmente, pelas lutas que ela impulsionou, como as combativas campanhas salariais unificadas, agrupando mais de um milhão de operários em São Paulo, provocaram uma enorme evolução política, desenvolvendo as tendências da classe operária à luta pelo poder do Estado e claras tendências de origem soviéticas (formação de conselhos populares).

Os primeiros e decisivos momentos da luta contra a burocracia no interior da CUT

Todo este progresso desenvolveu-se como parte – e também alavancou – uma enorme luta política no interior da própria CUT, como expressou a formação de uma oposição classista no seu interior, a “CUT Pela Base”. O objetivo dessa oposição era derrubar a direção burocrática da Central, dominada pelo sindicalismo “lulista”, o mesmo que tinha buscado construir uma central “única” com os pelegos pró-ditadura. A derrota dessa oposição e o seu consequente esfacelamento, no final da década de 1980, vai marcar um longo período de retrocesso que domina a CUT e todo o movimento operário até os dias de hoje.

Esta oposição classista chegou a ter esmagadora maioria no Congresso da CUT da combativa Regional de São Paulo, que agrupava representações das mais decisivas categorias operárias do País em 1985. A “CUT pela Base” ficou muito próxima de ganhar o Congresso Estadual de São Paulo e obteve quase metade dos votos no Congresso Nacional da entidade, realizado em 1986 no Rio de Janeiro. Esse Congresso contou com a participação decisiva dos setores classistas e revolucionários, que lideravam importantes organizações operárias de, então, como o próprio MOMSP, o Sindicatos dos Químicos, Vidreiros, Borracheiros, dos Frios de São Paulo, entre outros. Ao contrário de certas organizações dominadas por alas “esquerdistas” do sindicalismo pequeno-burguês, a CUT pela Base se opôs à política de divisão do peleguismo e levou adiante uma luta contra a burocracia, nos sindicatos e na Central.

Em boa medida, foi graças à intervenção dessa oposição classista que a CUT tornou-se o centro organizador das oposições sindicais anti-burocráticas. Essas oposições se transformaram no fator mais decisivo do ascenso operário, embora tenha sido, num primeiro momento, uma iniciativa dominada pelos sindicatos burocráticos, pela pressão revolucionária das massas, expressando o movimento próprio da classe contra todas as variantes de burocracia sindical.

As oposições estenderam-se a mais de três mil sindicatos em todo o país formando a base do que hoje são os 3.600 sindicatos filiados à CUT, quase destruindo a própria burocracia lulista.

O velho peleguismo, naquele momento formado por uma aliança entre o partido da ditadura, o PMDB, o stalinismo (PCB) e uma parte da esquerda pequeno-burguesa intimamente ligada à burguesia (PCdoB, MR-8), entrou numa crise terminal.

A burguesia reage à CUT, construindo outras “centrais”

Para fazer frente ao ascenso operário e ao crescimento do movimento cutista, a burguesia e seus agentes no movimento operário buscaram já na segunda metade da década de 1980 retomar a iniciativa e reorganizar o peleguismo contra o ascenso da CUT. Primeiro construindo a efêmera CGT, que logo se desfez em pedaços devido à gigantesca pressão da mobilização operária, e depois dando lugar a outras “centrais” ainda menos expressivas. Finalmente, na sequência da diminuição das mobilizações, o peleguismo encontrou um eixo de reagrupamento na Força Sindical, impulsionada principalmente pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e por outras entidades patronais e que também vai receber enorme apoio do famigerado governo Collor para estabilizar a dominação patronal sobre os sindicatos.

Ao contrário da CUT, criada em oposição à própria legislação reacionária da ditadura militar, que proibia a existência de uma organização nacional dos trabalhadores e, nos primeiros anos, não reconhecia sua legalidade, todas as demais “centrais” criadas nos anos seguintes vão receber um apoio político e financeiro da burguesia e do Estado, com o claro intuito de dividir e quebrar as tendências à unificação e luta que se manifestaram nos primeiros anos da Central. Essa tendência seria posteriormente incentivada pelo próprio governo Lula, com estímulo financeiro para que a própria CUT se dividisse, minimizando assim a pressão que essa poderia exercer sobre seu governo.

Sobre esta luta contra as tendências revolucionárias da CUT e o controle provisório da burocracia sobre o movimento operário, trataremos em matérias futuras

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