Nota da Direção Nacional do PCO: Porque não fazemos parte da frente única que inclui Hollande, Le Pen, Dilma Rousseff, Obama, Bush, Netanyahu e a esquerda pequeno-burguesa

Comissão Excutiva do CCN do Partido da Causa Operária – 
O PCO (Partido da Causa Operária) repudia a campanha impulsionada pelo imperialismo sobre os atentados contra o jornal francês Charlie Hebdo, e orientada contra a luta dos povos árabes de maneira geral, e os direitos democráticos elementares.

O circo montado pela máquina de propaganda imperialista e da direita brasileira tenta apresentar que o que estaria em pauta seria, supostamente, a luta pela liberdade de imprensa, uma defesa da civilização contra a barbárie, dos valores democráticos contra os ataques fascistas, e assim sucessivamente.

Nada poderia estar mais distante da realidade.

Por detrás da fachada propagandística, de um lado estão os povos árabes que estão sendo atacados, e do outro lado o imperialismo. As organizações de esquerda e democráticas devem definir com clareza se estão do lado do imperialismo opressor, saqueador e genocida ou dos povos barbaramente oprimidos ou se vão se escorar em acidentes isolados para, de maneira covarde e hipócrita, apoiar a selvageria imperialista. O acontecimento não faz parte de uma pretensa luta entre valores universais ou direitos democráticos, mas de um enfrentamento geral que acontece no mundo real. É evidente que a partir dessa campanha venenosa irá se acentuar a agressão do imperialismo contra os povos árabes e contra as massas trabalhadoras do mundo inteiro, a começar pela classe operária dos países desenvolvidos. Não por acaso, aumentou significativamente a pressão para que seja aprovada, a toque de caixa, a versão francesa da Lei Patriótica de Bush, uma lei antiterrorista dirigida contra os próprios franceses.

Reveste-se de importância chave para a compreensão da situação política a necessidade de desmistificar a propaganda burguesa que tenta apresentar o problema como se fosse um ataque isolado a um determinado jornal francês. Tal alegação não passa de uma falsificação gritante. Os povos árabes são nações ocupadas. Há tropas imperialistas em solo no Iraque, no Afeganistão, na Síria, além do apoio aberto à Líbia, à ditadura militar no Egito, à monarquia saudita e aos sionistas israelenses. O próprio imperialismo francês utiliza suas tropas neste exato momento para massacrar a população e os guerrilheiros islâmicos no Mali. Estes Estados dominados pelo imperialismo representam um revolver apontado contra a cabeça dos povos árabes. As próprias tropas francesas além de ocuparem o Mali, massacrando a população muçulmana, participaram dos bombardeios contra a Líbia e a Síria, com dezenas de milhares de vítimas civis. Desvincular o atentado contra o Charlie Hebdo de todos esses fatos internacionais é transformar tudo numa farsa grotesca, ao melhor estilo fascista-imperialista.

 

Qual liberdade de imprensa?

 

A propaganda promovida pelo imperialismo, com profundo cinismo, tenta impor o ponto de vista de que o atentado teria sido um crime contra a liberdade de imprensa, sem falar uma única palavra sobre a usurpação dos direitos.

O PCO considera que a liberdade de expressão é um direito fundamental sob o regime capitalista opressor, mas que não pode ser colocado acima da luta entre povos muito atrasados e o imperialismo e menos ainda usado como arma para defender a selvagem opressão imperialista.

A maior ameaça à liberdade de expressão, que em grande medida, transformou-se em exceção no mundo são os Estados imperialistas, com os seus aparatos de segurança, as ditaduras que estabelecem em todo o mundo, sua espionagem universal, a corrupção da imprensa, o assassinato de jornalistas, o monopólio de imprensa e a censura direta que aumenta a cada a dia a pretexto justamente da “guerra ao terror” como vemos nos casos de Julian Assange, sitiado na embaixada do Equador em Londres, Edward Snowden e outros presos por crime de opinião.

Defendemos o direito de todos falarem o que quiserem, sem qualquer tipo de censura, inclusive de maneira ofensiva e provocadora. Defendemos esse direito fundamentalmente diante do inimigo real da liberdade de expressão que é o imperialismo. Perto da ameaça imperialista, as outras ameaças são irrelevantes. No entanto, não é disso que se trata. Trata-se, em oposição, da luta de um povo com centena de milhões de pessoas e o imperialismo. Nós estamos do lado dos povos árabes.

É uma manifestação acintosa da mentalidade arrogante e escravagista de exploradores denunciar como barbárie a morte dos jornalistas enquanto se realiza um verdadeiro genocídio nos países árabes e mulçumanos, que é completamente ocultado no silêncio. Referimo-nos não apenas às guerras imperialistas e provocadas pelo imperialismo na região, mas à sistemática pilhagem do petróleo e outros recursos desses países, bem como a condenação destes povos à mais completa miséria em função dos interesses das grandes corporações imperialistas.

 

Charlie Hebdo, um instrumento secundário da guerra contra os povos árabes

 

O jornal Charlie Hebdo estava muito longe de ser um mero jornal “satírico” e menos ainda de “esquerda” como quer a campanha de propaganda imperialista. Durante anos, ficou ao serviço dos socialdemocratas e depois se tornaram agentes a serviço da direita liderada por Sarkozy. Durante os últimos anos, o jornal tem se dedicado a insultar e caluniar os imigrantes árabes e sua religião e defender os genocidas israelenses. Se a extrema direita chamar um negro de macaco e posteriormente, um negro entrar no jornal e o atacar com violência, nós, como revolucionários, e não como pacifistas burgueses, seríamos favoráveis a que esse negro nem sequer seja preso. Os revolucionários devem se posicionar, de maneira clara, contra a intervenção do estado burguês, que tem um caráter de classe específico, contra a maioria da população e em defesa de uma minoria privilegiada, mas não contra as legítimas manifestações de revolta e de desejo de vingança dos verdadeiramente oprimidos, por mais desorganizadas e confusas que sejam.

 

Pacifistas pequeno-burgueses e socialdemocratas ou revolucionários proletários?

 

A esquerda pequeno-burguesa mais uma vez apoiou de maneira entusiástica a asquerosa campanha da imprensa imperialista. Além de organizações abertamente oportunistas como o PT, duas das maiores organizações de esquerda que pretendem falar em nome do programa do trotskismo no Continente Americano saíram a fazer coro com a campanha do imperialismo.

À cabeça dessa esquerda, o PSTU brasileiro apresentou a posição absurda e contrarrevolucionária de que um atentado como este “facilitou toda a ofensiva belicista de Bush com a invasão do Afeganistão e do Iraque. Um ataque violento contra o movimento de massas em todo o mundo foi realizado em nome de uma suposta guerra ao terror”. O PSTU insiste em ocultar ao máximo a política imperialista, a qual “necessitaria” da ajuda dos terroristas, bem como em condenar quaisquer manifestações violentas porque “facilitam” o trabalho do imperialismo. O imperialismo atua em função dos seus interesses e qualquer criança de colo sabe que o imperialismo não necessita de nenhuma facilidade e nenhum pretexto fornecido por terceiros para colocar em prática os seus planos. O apoio ao golpe militar no Egito dado pelo PSTU, que inclusive apoiou abertamente a repressão contra a Irmandade Mulçumana, esse sim, contribui para consolidar a ditadura pró-imperialista e genocida de El-Sisi.

Na realidade, afirmar que é em função dos grupos guerrilheiros árabes que a repressão acontece ou aumentará ou será facilitada é a mais cínica apologia da direita imperialista. Implica em justificar a Guerra do Iraque e do Afeganistão, os golpes de estado orquestrados pelo imperialismo, como o do Egito, os ataques contra os palestinos e os povos árabes em geral.

Os ataques contra o jornal Charlie Hebdo não “levaram ao endurecimento” ou o facilitaram a ofensiva imperialista, mas esta já estava preparada e em andamento havia muito tempo. A campanha imperialista tenta impor o fortalecimento da extrema direita com o objetivo de aplicar um plano ainda mais duro de ajuste, de descarregar sobre a classe operária o peso da crise e salvar os lucros da burguesia monopolista e intensificar a luta contra os povos árabes e os árabes e mulçumanos dentro da França.

Sobre a base dessa posição política oportunista, abertamente pró-imperialista e reacionária, nós deveríamos disputar com a direita o repúdio ao terrorismo árabe. Diz o PSTU: “Chamamos todas as organizações dos trabalhadores e de esquerda a repudiar esse atentado. Não podemos deixar que sejam a direita e o imperialismo que assumam essa postura.

O PSTU aplica em escala reduzida a política da esquerda burguesa e oportunista de disputar com a direita… a política da direita para não perder o eleitorado mais atrasado e conservador de classe média. Acossado pela Frente Nacional fascista, Hollande e Sarkozy se colocaram na primeira fila da política “antiterror”. No entanto, apesar das inteligentes manobras da esquerda pequeno-burguesa e da direita conservadora, o grande beneficiário desta política é e será cada vez mais a extrema direita e isso a experiência história e recente tem provado com intensidade cada vez maior. Esta política sim facilita o crescimento da extrema direita.

Idêntica posição foi apresentada pelo Partido Obrero da Argentina, de maneira ainda mais enfática. Segundo aquela organização, que se reivindica do trotskismo, “O massacre perpetrado contra o semanário satírico francês, Charlie Hebdo, enche de consternação os trabalhadores e verdadeiros democratas de todo o mundo. É o momento de ratificar a defesa da liberdade de expressão e de opinião, em especial quando o jornalismo ataca com suas armas da crítica e da sátira o fanatismo religioso ou nacionalista, que envenena as relações entre os povos, semeia a cizânia e a divisão entre as classes exploradas e despossuídas dos diversos países, e socava a unidade internacional de suas lutas.”

Na realidade, o que socava a unidade internacional dos povos, é a aliança da esquerda pequeno-burguesa com o imperialismo contra os povos oprimidos em nome da “democracia”.

As organizações da esquerda-pequeno burguesa seguem a corrente dominante, uma vez que o PT, maior partido da esquerda latino-americana assumiu a liderança do apoio ao imperialismo. Apesar de todas as declarações em contrário, assumem a posição de esquerda na ampla frente popular internacional liderada pelo imperialismo e pela extrema-direita e o sionismo.

 

Um atentado jidahista?

 

Independentemente das posições de princípio sobre os fatos ocorridos, existem várias evidências que questionam que o atentado, assim como aconteceu em 11 de setembro de 2001 nos EUA, tenha sido cometido por uma organização árabe. As pessoas que cometeram o atentado se comportaram mais como participantes de um comando militar do que como jihadistas. No jornal, não se preocuparam por destruir as charges ou os arquivos, mas somente em matar as pessoas, esquecendo tudo que ofenderia deus e Maomé, o que é completamente estranho ao procedimento habitual dos jihadistas. Está em questão que os tais terroristas sejam terroristas e árabes, principalmente quando a ação é comparada com a totalidade das ações jidahistas que têm acontecido na Síria, no Iraque, no norte da África e nos países localizados ao sul do Deserto do Sahara. Para os jidahistas, a primeira ação sempre tem como objetivo destruir todos os objetos que ofendem a deus para somente depois punirem os “inimigos de Deus”. O “normal” nessas ações seria que os guerrilheiros tivessem ficado no local até cumprir a missão, mesmo às custas da própria vida. Os invasores do Charlie Hebdo colocaram como prioridade fugir da polícia. Além disso, a vestimenta era de comandos militares, e não de jihadistas, além de terem se comportado como profissionais militares, chegando inclusive a assassinar um policial que estava ferido e fora de combate.

Essa operação apareceu no momento de um crescimento da direita francesa, e marca o início de uma “guerra civil” contra os muçulmanos franceses, cerca de cinco milhões de pessoas, que são consideradas pelos serviços de segurança e pela extrema direita francesa como uma base de operação dos mulçumanos dentro da Europa e uma “ameaça à segurança interior da França (Frente Nacional de Marine Le Pen). Personagens conhecidas da direita internacional, como Rupert Murdoch, declararam que todos os muçulmanos, violentos ou pacíficos, teriam responsabilidade porque todos pensam igual. É óbvio que a campanha do imperialismo visa a criar uma fratura entre os franceses muçulmanos e os não muçulmanos. A direita aproveitou para impulsionar o clima de hostilidade contra os imigrantes, visando instigar um clima de guerra civil.

A política do “choque das civilizações” foi cunhada pela extrema direita norte-americana e os sionistas israelenses. Na base, está a política do enfrentamento previsível e inevitável da “guerra ao terror”, ou seja, de pilhagem ainda mais extrema dos países árabes, africanos e orientais.

Essa política já foi testada na França. Os serviços especiais dos Estados Unidos e da OTAN (Organização do Atlântico Norte) já testaram drogas sobre a população civil, a OES, a Organização Excército Secreto, de extrema direita e que se opunha à independência da Argélia, tentou assassinar o ex-presidente Charles De Gaulle; os atentados em vários estados membros da OTAN têm sido recorrentes. Em grande medida, essa política tem sido impulsionada após o desmembramento da Iugoslávia, com a chamada política de “combate de cães”. O objetivo era assassinar membros da comunidade maioritária e depois membros das minorias na tentativa de jogar os uns contra os outros. Exatamente a mesma política que acabou de ser aplicada na Ucrânia.

É interessante notar que nenhum dos “defensores da liberdade” do campo da esquerda sequer menciona essa possibilidade, mas se apressam em denunciar os “fanáticos terroristas”.

 

Repudiamos a noção aberrante de um fascismo islâmico

 

Neste debate, vários setores da esquerda pequeno-burguesa, além dos citados acima, assumiram a noção reacionária de que os movimentos nacionalistas islâmicos são não apenas “fanáticos” e “intolerantes” como abertamente fascistas, procurando ocultar desta forma que se trata de um luta entre nações oprimidas, pobres e atrasadas e o imperialismo ladrão e fomentador de guerras. É importante lembrar que esta era a oposição da classe média pró-imperialista e pró-EUA na América Latina quando se referiam a Vargas, Perón e outros líderes nacionalistas que o imperialismo buscava destruir. Fica clara aqui a oposição entre os “civilizados democratas” imperialistas e seus caninos seguidores pequeno-burgueses e os “fanáticos intolerantes” brutalmente oprimidos por eles. É a versão de esquerda – e por isso mesmo, mais cínica, mais canalha e mais degradante – da mistificadora ideologia da luta da “civilização contra a barbárie” que serve para apoiar os bárbaros perfumados e vestidos com roupas caras e armados da mais moderna tecnologia para esmagar a maioria da humanidade com um discurso democrático que oculta a sua atividade totalitária.

 

 

Comissão Excutiva do CCN do Partido da Causa Operária

São Paulo, a 13 de janeiro de 2015