FRIEDRICH ENGELS, UMA NOTA BIOGRÁFICA

 

Um dos fundadores do socialismo científico

 

Aos 100 anos da morte de um dos dois gigantes fundadores do marxismo, sua doutrina continua sustentando o teste da história

 

Rui Costa Pimenta

 

Friedrich Engels nasceu em Barmen, na província do Reno na Prússia, na atual Alemanha, a 28 de novembro de 1820. Foi, juntamente com Karl Marx, um dos fundadores do socialismo moderno, cuja teoria passou à história com o nome de marxismo, mas que deve a sua elaboração a ambos. Escreveram juntos o Manifesto Comunista (1848), o mais importante documento programático da classe operária internacional até os dias de hoje e inúmeros textos de fundamental importância teórica sobre economia, filosofia e política. Engels foi também o executor testamenteiro intelectual de Marx , tendo completado e publicado o segundo e o terceiro volume de O Capital, principal obra científica do socialismo em todos os tempos, após a sua morte.

Engels nasceu de uma família burguesa liberal de sólidas convicções religiosas protestantes, dotada também de um razoável patriotismo prussiano, principal potência entre os diversos estados alemães da época. Seu pai era dono de uma indústria têxtil em Barmen e também sócio da firma algodoeira Ermen & Engels em Manchester, um dos principais centros da revolução industrial na Inglaterra. No entanto, mesmo após Engels assumir abertamente os ideais revolucionários, sempre pôde contar com a ajuda financeira dos pais, tendo trabalhado na administração dos negócios paternos boa parte da sua vida.

Engels cursou a escola secundária, mas a abandonou um ano antes de formar-se. Apesar das propenções intelectuais e, inclusive, artísticas (o futuro co-fundador do socialismo dedicava-se à poesia na juventude) o pai insistiu que fosse trabalhar na expansão de seus negócios. Engels, concordando, passou os três anos seguintes (1838-41) em Bremen adquirindo experiência nos escritórios da empresa de exportação Leupold.

 

Educação revolucionária

 

Em Bremen, Engels trabalhava horas a fio trabalhava como aprendiz de comerciante. Ao mesmo tempo, freqüentava a sociedade burguesa: tornou-se um exímio nadador e praticava esgrima e equitação, participando regularmente da caça à raposa, esporte predileto da aristocracia britânica. Engels também cultivou a capacidade de aprender línguas, orgulhando-se de assinalar que conhecia 24 delas. Ao mesmo tempo cultivava um interesse em obras revolucionárias e socialistas, particularmente as dos membros da Jovem Alemanha, autores como Ludwig Börne, Karl Gutzkow e o poeta Heinrich Heine. Porém, logo os renegou, considerando-os inconseqüentes e adotando a filosofia dos Jovens Hegelianos, um grupo de intelectuais esquerdistas do qual fazia parte o teólogo e historiador Bruno Bauer e Max Stirner, considerado posteriormente um precursor do anarquismo. Eles  defendiam a dialética hegeliana – basicamente, o conceito de que o progresso racional e as mudanças históricas resultam do conflito de opostos, concluindo numa nova síntese. Os Jovens Hegelianos, a partir de uma interpretação revolucionária da dialética de Hegel, rejeitavam a interpretação oficial conservadora da doutrina hegeliana que, nas mãos da burocracia universitária e estatal, havia se transformado em uma ideologia de justificação e apologia da reacionária monarquia prussiana, sofrendo em função disso represálias no interior do mundo acadêmico prussiano. Seus ataques aos fundamentos do cristianismo, atraíram Engels,  um militante ateu, que seria a vida toda.

Neste período, também dedicou-se ao jornalismo publicando artigos sob o pseudônimo de Friedrich Oswald. Engels possuía grande capacidade crítica e estilo claro, qualidades que seriam mais tarde muito valorizadas por Marx em seu trabalho comum e que transformariam seus textos nos mais populares materiais de educação socialista para a classe operária em todos os tempos.

Após retornar a Barmen em 1841, alistou-se por um ano como voluntário num regimento de artilharia em Berlim. Nem mesmo uma predisposição antimilitarista o impediu de prestar com louvor o serviço militar como recruta. Mais tarde, teria uma expressiva participação nos combates da revolução de 1948 na Alemanha e os assuntos militares tornar-se-iam uma de suas especialidades, às quais Marx recorreria com freqüência como o demonstra a sua correspondência comum.

Sua estadia na futura capital da Alemanha e maior centro comercial e intelectual daquela época entre os estados alemães, abriu caminho para a sua educação universitária assistindo ele como ouvinte a cursos na universidade. Seus artigos sob o pseudônimo de Friedrich Oswald lhe facilitou o ingresso no círculo dos Jovens Hegelianos, o antigo Clube de Doutores freqüentado por Karl Marx. Lá adquiriu fama de polemista agudo nos debates de filosofia, particularmente nos dirigidos contra a religião.

 

Passagem para o comunismo

 

Após concluído o serviço militar em 1842, Engels encontrou Moses Hess, o homem que o converteria ao comunismo. Hess, filho de judeus ricos e um promotor de causas e publicações radicais, descortinou a Engels que a conseqüência lógica da filosofia de Hegel e da dialética era o comunismo. Hess também enfatizou o papel que a Inglaterra, com suas indústrias modernas, seu proletariado industrial, e poderosos conflitos de classes, estava destinada a desempenhar num futuro próximo. Engels, ansioso em achar uma oportunidade para ir a Inglaterra, usou o artifício de continuar seu treinamento nos negócios da família em Manchester.

Na Inglaterra (1842-44), Engels, mais uma vez, saiu-se bem no cargo que ocupava. Após o trabalho, porém, ele dedicava-se a seus verdadeiros interesses: escrever artigos sobre o comunismo, tanto para jornais da Inglaterra quanto do continente; ler livros e relatórios parlamentares sobre as condições econômicas e políticas vigentes na Inglaterra; relacionar-se com trabalhadores; reunir-se com líderes revolucionários e colher material para uma história da Inglaterra que confrontaria a pujança da indústria com a miserável condição dos trabalhadores.

Em Manchester, Engels estabeleceu uma forte relação com Mary Burns, uma operária irlandesa e, embora rejeitasse a instituição do casamento, viveram como marido e esposa. Tanto é assim que uma séria tensão na amizade entre ele e Marx ocorreu justamente quando Mary veio a falecer em 1863 e Engels julgou que Marx recebera a notícia de sua morte com indiferença, o que resultou em um pedido de desculpas do amigo.

Em 1844 Engels contribuiu com dois artigos para os Anais Franco-alemães, editado por Marx em Paris. Nesses artigos, Engels antecipa uma primeira versão dos princípios do socialismo científico no seu trabalho Esboço de uma crítica da economia política. Neste livro, que é um verdadeiro precursor das idéias que posteriormente seriam desenvolvidas por Marx e Engels e que, apesar de conter várias noções que posteriormente seriam ultrapassadas, mas que Marx, ainda em 1859 considerava como “genial”. Esta obra revela as contradições da doutrina da economia liberal, do mercantilismo até Malthus e volta-se para provar que o sistema existente baseado na propriedade privada conduzia a um agravamento da contradição entre capital e trabalho e da divisão da sociedade em classes. Assinala que as contradições do capitalismo conduziam inexoravelmente à revolução social e à eliminação da propriedade privada e a “uma reconciliação da humanidade com a natureza e consigo mesma”, ou seja, ao comunismo.

 

Relação com Marx

 

A caminho de Barmen, Engels foi a Paris para uma visita de dez dias a Marx, que já havia conhecido em Colônia. Essa visita resultou numa colaboração permanente que duraria até a morte de Marx. De volta a Barmen, Engels publicou A situação da classe trabalhadora na Inglaterra (1845), livro de fundamental importância porque apontava pela primeira vez as relações entre a indústria e a luta de classe moderna, como o reconheceu o próprio Marx. Seu primeiro grande trabalho conjunto com Marx foi A Ideologia Alemã (1845), uma exposição do materialismo histórico que nunca publicaram em vida, mas que serviu para os autores esclarecerem para si mesmos os seus pontos de vista e que uma vez concluído o abandonaram “à crítica corrosiva dos ratos”, nas palavras de Marx e que acabou vindo à luz apenas em 1932, 15 anos após a revolução russa de 1917. Tratava-se de polêmica que denunciava e ridicularizava os Jovens Hegelianos e atacava vários socialistas alemães que se colocavam sobre uma base idealista, ou seja, um dos primeiros alicerces do materialismo histórico como base para o socialismo. Esta obra – um dos principais trabalhos do marxismo no terreno da crítica filosófica – seria o desenvolvimento do livro que ocasionaria a ruptura de ambos com o Jovens Hegelianos e todo o socialismo utópico e filantrópico, intitulado A Sagrada Família, Crítica da crítica crítica (1844) um outro demolidor ataque ao idealismo. Nestes trabalhos, nas palavras dos seus autores, trataram de colocar a dialética hegeliana de “pés para o alto” eliminando completamente a sua base idealista e substituindo-a pelo materialismo.Os pontos de vista apresentados nestas obras seriam plenamente desenvolvidos em outros mais sistemáticos e mais conhecidos tais como as famosas Teses sobre Feuerbach de Marx, Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã, O Anti-Dühring, A dialética da natureza, de Engels e no popularíssimo Do socialismo Utópico ao Científico, de Engels.

Após reencontrar Marx em Bruxelas (1845), Engels endossa sua nova interpretação econômica, ou materialista, da história, que constituirá o fundamento de uma nova teoria socialista, que viria a ser conhecida como socialismo científico, em função das suas bases materialistas em oposição ao socialismo religioso, idealista e utópico que marcou toda a histórica pregressa do socialismo. Para os dois jovens revolucionários alemães e, a partir daí para todo movimento verdadeiramente socialista e proletário, “o comunismo não é um estado de coisas que ‘deve’ ser estabelecido, não é um ‘ideal’ em direção ao qual a realidade tem que se dirigir. Quando falamos de comunismo, nós queremos dizer o movimento real que extrai do presente estado de coisas um objetivo”.

 

A Liga dos Justos e o Manifesto

 

A colaboração entre Marx e Engels que se inicia está longe de ser apenas um projeto de formulação teórica. Os dois fundadores do comunismo moderno procuram, de imediato, um terreno prático onde materializar as concepções que estão elaborando, ou seja, a organização de um partido político da classe operária. Com esse intuito, vinculam-se a uma organização revolucionária secreta alemã socialista conhecida como a Liga dos Justos, nome que indica a influência da revolução francesa de 1789 e os movimentos revolucionários burgueses de então, mas vinculada à nascente classe operária alemã. No primeiro congresso da Liga realizado em Londres (junho de 1847), Engels advogou sua transformação em Liga Comunista.

Marx e ele, juntos, convenceram o 2º Congresso Comunista em Londres a adotar suas posições. A Liga adota a divisa “Trabalhadores de todo o mundo uni-vos”, em substituição ao dístico idealista e burguês de “todos os homens são iguais” e um programa fundado na teoria da luta de classes Os dois foram indicados para elaborar um declaração política e de princípios do comunismo, que surgiria em 1848 como o Manifesto do Partido Comunista, cujas definições foram articuladas por Engels no seu Princípios do Comunismo (1847), mas cuja redação final coube fundamentalmente a Marx, que o transformou em uma verdadeira obra-prima literária, de forma alguma reduz o caráter de obra conjunta dos dois grandes revolucionários. O Manifesto é um dos mais impressionantes, senão o mais, documentos políticos de toda a história da humanidade. Em poucas páginas seus autores reduzem a pó os fundamentos idealistas da compreensão da história da humanidade, explicando com uma clareza que o transforma em grandiosa obra literária que “a história da humanidade até os nossos dias é a história da luta de classes”, descrevendo em parágrafos magistrais a evolução das classes e suas lutas, passando em seguida a uma análise até hoje não superada das características profundamente revolucionárias da sociedade industrial criada pelo capitalismo onde “tudo o que é sólido desmancha no ar”, evidenciando como o capitalismo transforma em cruas relações mercantis os fetiches morais, religiosos e políticos do passado. Após explicar a relação do comunismo e do movimento operário com extraordinária precisão e demolir em parágrafos extremamente contundentes as variantes de socialismo idealista o Manifesto prognostica a futura revolução proletária como resultado das revoluções de 1948 que estão para começar, terminando com a famosa e eletrizante conclusão: “os comunistas não se rebaixam a ocultar suas opiniões e os seus propósitos. Declaram abertamente que os seus objetivos só podem ser alcançados pela derrubada violenta de toda a ordem social existente. Que as classes dominantes tremam à idéia de uma revolução comunista! Nela, os proletários nada têm a perder a não ser os seus grilhões. Têm um mundo a ganhar. Proletários de todos os países uni-vos!”

 

1948: a revolução permanente

 

A revolução de 1848, surgida da contradição entre os fragmentários estados alemães mergulhados no atraso feudal e as necessidades do capitalismo emergente, ou seja, da predominância dos junkers, os grandes latifundiários, e da pequena aristocracia dos principados em que se fragmentava a nação alemã seria, como explicou León Trótski em seu 1905, o último estertor da revolução burguesa e o primeiro grito de nascimento da revolução proletária. A presença determinante da classe operária alemã na revolução burguesa comprovava a acuidade das análises do Manifesto escrito pelos dois jovens revolucionários. Marx e Engels acreditavam, porém, que a revolução era burguesa pelos seus objetivos e pelas suas possibilidades – conclusão esta que iriam retificar na notória Circular à Liga dos Comunistas -, daí que seu principal instrumento de luta política, o jornal A Nova Gazeta Renana fosse apresentado como um “órgão da democracia”, editado por Marx em Colônia com a colaboração de Engels.

A Nova Gazeta Renana, jornal criado por Marx e Engels e dirigido por Marx, foi o principal meio de ação política concebido por ambos para a revolução, ao qual dedicaram todo os seus melhores esforços. Tal órgão partidário, foi de suma importância para seus propósitos; com ele puderam oferecer diariamente palavras-de-ordem e fazer agitação diante dos novos acontecimentos, aliado a uma crítica sólida dos governos, partidos, políticas e políticos. Seus textos, hoje antológicos, constituem verdadeiras obras primas do jornalismo revolucionário, oferecendo a base para as posteriores teorias de Lênin sobre a importância da luta política e da imprensa como instrumento fundamental da luta de classes.

Após a derrota da revolução, vítima da covardia e da indecisão política da burguesia, por um lado, e da imaturidade política da classe operária por outro, Engels e Marx reuniram-se em Londres, onde reorganizaram a Liga Comunista e esboçaram diretrizes táticas para os comunistas acreditando que outra revolução se seguiria esquematizadas na famosa Circular do Comitê Central à Liga dos Comunistas de 1950, onde pela primeira vez é utilizada a expressão “revolução permanente”. As conclusões da revolução de 1948 estão nos artigos, organizados posteriormente em forma de livro Revolução e contra-revolução na Alemanha (1851-52). Este livro fundamental, assinado por Marx, por motivos econômicos (foram vendidos como reportagem ao jornal norte-americano New York Daily Tribune), foi durante muitos anos atribuído a ele, mas são de autoria exclusiva de Engels. Nele se encontra todo o fundamento daquilo que, posteriormente, viria a ser conhecido na história da revolução russa como a teoria da Revolução Permanente defendida por Trótski contra a prostituição stalinista do marxismo.

 

Exílio

 

A derrota da revolução de 1848 levou Marx e Engels a um exílio que duraria até o final das suas vidas. Este período será para Marx e sua família o de maiores privações em toda a sua vida acarretando, inclusive, a perda de quatro de seus filhos. Engels será um dos principais suportes do amigo em todos os terrenos. Em uma carta de 1855, após a morte de um dos filhos Marx escreve a Engels: “Já passei por muitas dificuldades, mas somente agora sei o que é uma infelicidade real. Sinto-me todo partido (…) O que sempre me agüentou é pensar em ti e na tua amizade e pensar que nós dois temos ainda para fazer nesta terra uma obra inteligente”.

Para sustentar-se a si próprio e ajudar economicamente a Marx, facilitando assim o seus trabalho teórico revolucionário, Engels aceitou trabalhar como subordinado nos escritórios da Ermen & Engels em Manchester. Novamente foi bem-sucedido como homem de negócios. Conseqüentemente, ele poderia enviar dinheiro a Marx constantemente, muitas vezes em notas de cinco libras, porém mais tarde em cédulas de maior valor.

No entanto, Engels considerava este trabalho como uma verdadeira escravidão. Em 1869 Engels vendeu sua parte na sociedade recebendo o suficiente para viver confortavelmente até a sua morte em 1895 e prover Marx com um montante anual de 350 libras, com a promessa de um extra como forma de cobrir alguma eventualidade. Em 1° de julho deste ano escreve ao amigo  em uma carta: “Hurra! Hoje acabei com o doux commerce e sou um homem livre.”

Após a revolução de 1948 e o fracasso das tentativas revolucionárias posteriores a Europa é tomada pela reação em todos os lugares, com os revolucionários sendo colocados na cadeia aos milhares e Marx e Engels dedicar-se-ão a desenvolver a formulação teórica do socialismo científico, cujo maior resultado será justamente O Capital. A este período corresponde também uma intensa atividade jornalística, ditada em certa medida por necessidades econômicas, mas cujo resultado será os principais escritos políticos de ambos: As lutas de classes em França (1872) e o 18 Brumário de Luís Bonaparte (1852); Guerras Camponesas na Alemanha (1850), Revolução e contra-revolução na Alemanha (1851), A questão militar na Prússia e o Partido Operário Alemão (1865), e A questão da habitação (1873) de Engels, além de uma infinidade de artigos menores. Durante o período em que Engels viveu em Manchester (1851 a 1869) os dois colaboradores trocaram mais de mil cartas em uma correspondência com importantes formulações esclarecedoras dos problemas que procuravam resolver em comum. Estas cartas são, conforme enfatizou Lênin, uma parte fundamental da obra política e teórica de ambos.

Engels, forçado a viver em Manchester, mantinha sua colaboração com Marx através da correspondência. Na divisão do trabalho que os dois fundadores do socialismo científico estabeleceram, Engels era o especialista nas questões de nacionalidades, militares, abrangendo ainda assuntos internacionais e até questões de ciências. Marx sempre recorria a ele para esclarecer questões econômicas, principalmente no que dizia respeito à práticas comerciais e industriais. Este aspecto será decisivo na elaboração do seu opus magnus, O Capital, com o qual sua colaboração foi muito superior à que normalmente se apresenta, envolvendo sugestões sobre a organização do trabalho, leituras e críticas francas sobre as falhas do trabalho que se ia elaborando. Em 1870, Engels transferirá seu domicílio para Londres, estreitando, desta forma, a colaboração entre ambos.

Em 1863, Mary Burns, companheira de Engels de vários anos, vem a falecer. Um ano depois passará a viver com sua irmã Lizzy até a sua morte, em 1878.

 

A I Internacional e a Comuna de Paris

 

<T1>Em 1864 será fundada a Associação Internacional dos Trabalhadores, conhecida posteriormente como a I Internacional. Marx e Engels participarão da criação da nova organização, onde procurarão levar adiante um trabalho de estruturação do movimento operário internacional o qual, após a derrota da vaga revolucionária na Europa após 1848 adquire um novo impulso através da guerra da secessão norte-americana e das lutas econômicas em alguns países como a Inglaterra. A AIT representa, na concepção de Marx e Engels, um esforço para unir todas as tendências do movimento operário em um período de reação política Esta retomada do movimento operário culminará em 1879 com a extraordinária experiência revolucionária da Comuna de Paris a qual será, ao mesmo tempo, uma culminação e o princípio do fim da Internacional. Ao mesmo tempo, Marx e Engels dedicam boa parte das suas energias ao combate às variantes socialistas pequeno-burgueses que buscam adquirir influência determinante sobre a AIT como as tendências anarquistas de Proudhon e Bakunin. Este trabalho, que consumirá boa parte das energias de ambos e contará com o empenho pessoal direto de Marx na condução dos assuntos da internacional, será de decisiva importância para afirmar a predominância posterior do marxismo na Europa através da II Internacional superando os preconceitos lassalianos, bakuninistas e anarquistas como teoria da luta de classes do proletariado mais avançado do mundo.

Em 19 de julho de 1870 estoura a guerra franco-prussiana que levará ao colapso do Segundo Império, de Luís Bonaparte, na França e à primeira revolução proletária conhecida como a Comuna de Paris. Marx e Engels acompanharam de perto o desenvolvimento da guerra, particularmente o segundo com a redação de inúmeros escritos militares. Os dois opunham-se à uma insurreição – que analisavam que estava para ocorrer na França – porque a acreditavam prematura e fadada ao fracasso, isso, no entanto, não impede que Marx se transforme no maior defensor da luta dos operários de París contra a imensa campanha de calúnias internacional contra os derrotados.

A derrota da Comuna conduz ao esgotamento da Internacional a qual será dissolvida em 1876. Após 1870, Engels vem realizar um amplo trabalho de organização no seu interior e conduzi-la ao seu final. Em 1972, Marx e Engels escrevem em nome do Conselho Geral da AIT, o texto As pretensas cisões da Internacional onde combatem os inimigos da Internacional e seus adversários no interior dela.

 

<I1>Últimos anos com Marx

 

<T1>Após a derrota da Comuna – analisada por Marx em As lutas de classes na França – os dois caracterizam que as tendências contra-revolucionárias tomam conta da Europa e que o que corresponde à situação é o trabalho teórico que servirá como alicerce às lutas futuras do movimento operário e a organização de sólidos partidos operários em cada país como base para a futura reconstrução da Internacional. Neste sentido, Marx irá se dedicar de corpo e alma para terminar O Capital, tarefa que, infelizmente, não conseguirá realizar, cabendo a Engels concluí-la.

Ao mesmo tempo coube a Engels desenvolver os demais aspectos da teoria que ambos haviam construído, preenchendo na medida do possível as lacunas deixadas e defendendo as idéias comuns dos sistemáticos ataques dos seus inimigos. Neste sentido, Engels, praticamente sozinho, escreveu o Anti-Dühring (O Sr. Duhring revoluciona a ciência,1878), livro que, provavelmente, mais promoveu o pensamento marxista, destruindo a influência de Karl Eugen Dühring, um professor de Berlim, representante do chamado “socialismo de cátedra”, que pretendia suplantar a influência de Marx entre os social-democratas alemães, escreveu Do socialismo Utópico ao Socialismo Científico (1880), um resumo que popularizava aspectos do livro anterior, e Dialética da Natureza (1883), que deixou sem terminar e não foi publicado em vida.

No terreno prático, dedicam-se ambos às discussões, à correspondência e às críticas com os elementos e partidos revolucionários de diferentes países para a recomposição do movimento socialista na Europa. Na Alemanha acompanham a unificação dos seus partidários com os lassalianos com vistas a construir um partido operário, discussão retratada no texto de Marx, Críticas ao programa de Gotha. Estabelecem discussões com os revolucionários populistas russos nas quais procuram estabelecer as peculiaridades da evolução social daquele país ao qual consideram que não se aplicam as fórmulas de O Capital. Deste trabalho fundamental de organização vão surgir os partidos social-democratas na Alemanha, na França, na Itália, Bélgica e outros países.

 

<I1>A II Internacional

 

<i1>Após a morte de Marx (1883), Engels tornou-se a mais importante autoridade do movimento operário socialista internacional e testamenteiro da herança teórica de Marx da qual havia sido, na realidade, em grande medida, co-realizador. Escreveu sobre diversos assuntos e redigiu introduções, as quais em si mesmas são uma importante contribuição criadora ao marxismo, a novas edições dos trabalhos de Marx. Engels realizou ainda a tarefa, para a qual era insubstituível de completar o segundo e terceiro volumes de O Capital (1885 e 1894), baseando-se nos manuscritos incompletos e rascunhos escritos na “famosa letra de Marx”, na definição do próprio Engels, apesar da sua saúde. Não pôde porém completar a publicação do quarto volume, que estava apenas em esboço. Este último volume será publicado por Karl Kaustky em 1905 sob o título de Teorias sobre a mais-valia.

Além da elaboração teórica, dará continuidade ao trabalho político que, juntamente com Marx havia desenvolvido. Neste período, acompanhava sete jornais diários e 22 semanários em mais de 10 línguas. O resultado será a fundação da II Internacional em 1889, onde os marxistas predominarão sobre os anarquistas. Neste momento, Engels será a maior autoridade político do movimento operário. No entanto, fará questão, como no próprio discurso no I Congresso da nova internacional de se colocar apenas como um colaborador de Marx, a quem atribuiu, com enorme modéstia, a quase totalidade do papel criador nesta admirável associação intelectual e política.

Pouco antes de morrer foi acometido de câncer, o que o impossibilitou de prosseguir com o seu trabalho. Morreu em 5 de agosto de 1895, em Londres, aos 75 anos de idade.

Em um artigo escrito a respeito da morte do companheiro de Marx e co-fundador do socialismo moderno, Lênin, maior revolucionário do século XX, escreveu:

A seguir do seu amigo Karl Marx (que morreu em 1883), Engels foi o mais notável sábio e mestre o proletariado contemporâneo em todo o mundo civilizado. Desde o dia em que o destino juntou Karl Marx a Friedrich engels, a obra a que os dois amigos consagraram toda a sua vida converteu-se numa obra comum. (…) Marx e engels foram os primeiros a demonstrar que a classe operária e suas reivindicações são um produto necessário do regime econômico atual, que, juntamente com a burguesia, cria e organiza inevitavelmente o proletariado; demonstraram que não são as tentativas bem intencionadas dos homens de coração generoso que libertarão a humanidade dos males que hoje a esmagam, mas a luta de classe do proletariado organizado. Marx e Engels foram os primeiros a explicar, nas suas obras científicas, que o socialismo não é uma invenção de sonhadores mas o objetivo final e o resultado necessário do desenvolvimento das forças produtivas da sociedade atual. Toda a história escrita até os nossos dias é a histórias da luta de classes, a sucessão no domínio e nas vitórias de uma das classes sociais sobre as outras. E estado de coisas continuará enquanto não tiverem desaparecido as bases da luta de classes e do domínio de classe: a propriedade privada e a produção social anárquica. Os interesses do proletariado exigem a destruição destas bases, contra as quais deve, pois, ser orientada a luta de classe consciente dos operários organizados. E toda a luta de classe é uma luta política”.

 

ERNESTO “CHE” GUEVARA E A REVOLUÇÃO CUBANA

 

Um grupo de pesquisadores cubanos e argentinos confirmou a descoberta da ossada do líder guerrilheiro Ernesto “Che” Guevara, enterrada em uma vala comum na cidade boliviana de Vallegrande junto aos restos mortais de outros seis combatentes da guerrilha, próximo ao local onde foram capturados e mortos pela CIA e pelas forças de repressão da ditadura Barrientos na Bolívia. O fato coincidiu com o aniversário de 30 anos de seu assassinato e tem dado lugar a um verdadeiro processo de canonização do dirigente da Revolução Cubana de 1959.

Chama a atenção, embora não surpreenda, a insistência dos meios de comunicação em destacar a grande popularidade de “Che” entre a juventude de todo o mundo, não em geral, mas particularmente o caráter mais despolitizado desta popularidade. Guevara teria se transformado em mais um logotipo, sem qualquer significado, para o consumo transitório de uma juventude ávida de novidades.

A campanha “a favor” do “Che” contrasta tanto com a situação política atual, onde qualquer manifestação de insubmissão – particularmente as armadas – são reprimidas com uma selvageria sem precedentes, como vimos recentemente no caso dos integrantes do agrupamento peruano Tupac-Amaru, que foram literalmente executados pelo governo de Fujimori, como com o silêncio sobre a participação do imperialismo norte-americano no seu assassinato a sangue-frio no interior boliviano depois de ferido, desarmado e capturado pelas forças de repressão há 30 anos.

O papel de Guevara na história merece ser analisado pela denúncia que representa o seu sacrifício na luta contra o imperialismo, o seu combate até certo ponto pela expansão internacional da revolução e o seu idealismo e desprendimento dos privilégios e das benesses materiais tão característicos das burocracias cubana, soviética e dos demais estados do leste europeu, posições estas tão contrastantes com as de uma expressiva parcela da esquerda latino-americana e dos países atrasados, que cada vez mais transforma-se em pilar de sustentação do imperialismo em seus países (PT no Brasil, FSLN na Nicarágua etc.). A canonização de “Che” pela imprensa burguesa procura colocar um enfeite na guinada pró-imperialista de boa parte da pequena-burguesia dos países atrasados.

Mais importante que tudo, o papel político do líder guerrilheiro deve ser avaliado sobretudo com olhar crítico frente aos seus brutais erros políticos, que contribuíram para desencaminhar toda uma geração de militantes latino-americanos que ingressaram no caminho desastroso da guerrilha nas décadas de 60 e 70.

 

Cuba e o domínio espanhol

 

Do ponto de vista prático, a atividade política de Ernesto “Che” Guevara começa com sua participação no processo que resultou na Revolução Cubana de 1959, iniciado efetivamente com a partida do iate Granma do porto de Tuxpan no México, de onde 82 homens liderados por Fidel Castro, que formavam o Movimento 26 de Julho, saíram em direção à Província do Oriente, no extremo sudeste de Cuba, por onde planejaram invadir a ilha caribenha e derrubar o ditador Fulgêncio Batista.

Cuba ainda estava submetida ao colonialismo quando a maioria dos países latino-americanos, no início do século XIX, já haviam se tornado independentes.

A luta pela independência começou em 1868, quando o fazendeiro Carlos Céspedes organizou um exército de libertação que chegou a agrupar dezenas de milhares de homens sob o comando militar do ex-escravo negro Antonio Maceo e lutou por um período de 10 anos sem no entanto conseguir alijar os espanhóis do poder.

Em 1895, José Martí, poeta e nacionalista cubano, desembarcou na Província do Oriente – a mesma em que Fidel e seu Movimento 26 de Julho desembarcariam 61 anos mais tarde – com um punhado de homens para tentar a independência de Cuba. Morto um mês depois numa batalha com os espanhóis, Martí tornou-se o herói nacional do país.

 

O domínio norte-americano

 

Já nesta época os Estados Unidos estavam interessados em estabelecer sua própria zona de influência em Cuba, mais em função da sua localização geográfica, próxima à costa norte-americana e portanto uma importante zona estratégica para a defesa do Canal do Panamá, do que econômica, se bem as belezas da ilha caribenha oferecessem grandes possibilidades para a exploração imobiliária e do turismo.

Utilizando como pretexto a explosão de um navio norte-americano no porto de Havana, os Estados Unidos acusaram os espanhóis e após uma curta batalha da qual saíram vitoriosos e declararam a independência de Cuba em 1902, com a retirada de suas tropas e a nomeação de Tomás Estrada Palma como o primeiro presidente do país.

Contudo esta independência era apenas formal. Através de uma legislação chamada Emenda Platt, os Estados Unidos tinham o direito perpétuo de manter bases militares em Cuba, assim como intervir nos assuntos do país sempre que considerassem necessário.

Nos 23 anos que se seguiram à independência de Cuba, por três vezes os norte-americanos enviaram tropas para reprimir revoltas e assegurar a lealdade cubana aos seus interesses. Nesse período, durante sete anos o governo de Cuba foi controlado  diretamente por representantes dos Estados Unidos.

 

Fulgêncio Batista

 

De 25 a 33 a presidência esteve nas mãos do general Gerardo Machado, governo marcado pela corrupção, fraude eleitoral e por uma profunda repressão e miséria econômica. Em 1933 uma onda de manifestações e greves varre o país e derruba Machado, cujo sucessor fica pouco tempo no cargo, derrubado por um sargento líder de um grupo de oficiais que se apodera do comando do exército. Seu nome era Fulgêncio Batista.

Nos sete anos seguintes sucedem-se presidentes civis e militares, todos controlados por Batista e em 1940 o próprio Fulgêncio Batista elege-se presidente, sobre a base da elaboração, no mesmo ano e por ele mesmo, de uma constituição que nunca viria a ser cumprida. A corrupção, o servilismo diante dos norte-americanos, o aprofundamento da miséria das massas cubanas e a repressão aos trabalhadores continuaram sendo a marca registrada desses governos.

Os sucessores de Batista, Ramón Grau San Martín e Carlos Prío Socarrás, ambos do Partido Autêntico, um partido burguês que agrupava setores conservadores pró-imperialistas e grupos liberais-burgueses. É deste partido que vão sair, em 1947, vários integrantes desta última ala para formar um novo partido, o Partido Ortodoxo, fundado por Eduardo Chibás e depois integrado por Fidel Castro.

Os governos do Partido Autêntico não resolvem os problemas mais fundamentais das massas cubanas e com isso Chibás torna-se um político bastante popular. Em 1951 sua eleição para a presidência da república era dada como certa quando ele suicida-se.

Mas o fato não impede o crescimento dos ortodoxos que, no entanto, vêem-se frustrados no início de 1952, quando, a três semanas da eleição, Fulgêncio Batista, que havia retornado de Miami, dá um golpe, depõe Carlos Prío Socarras e implanta uma violenta ditadura militar. O Partido Ortodoxo capitula e dezessete dias depois os Estados Unidos reconhecem oficialmente o governo de Batista, cuja camarilha estava associada a fortes grupos capitalistas norte-americanos, que haviam convertido Havana em um centro de investimento imobiliário e turístico. Batista também contava com o apoio dos latifundiários açucareiros.

A única voz de oposição veio do setor juvenil do Partido Ortodoxo. Os estudantes liderados por Fidel que vão organizar “grupos de ação” evoluindo para a luta armada contra a ditadura, cuja primeira atividade é o fracassado ataque ao Quartel de Moncada em 26 de julho de 1953. Preso e condenado a 15 anos de prisão, Fidel é anistiado dois anos depois. Tenta fazer oposição governo, mas não encontra respaldo nos partidos de oposição que passam a colaborar abertamente com o ditador e decide deixar a ilha indo para o México junto com alguns combatentes de Moncada. Lá conhece Ernesto “Che” Guevara e organiza o Movimento 26 de Julho, que quatro anos depois tomaria o poder em Cuba.

 

O programa de Fidel

 

O ambiente universitário na Cuba dos anos 40 era marcado por uma efervescência e uma radicalização política extremas, onde dominavam grupos como o Movimento Revolucionário Socialista e a União Insurrecional Revolucionária. Fidel ingressou na Universidade de Havana em 1945 e à partir daí ingressou na política alinhando-se posteriormente com os setores da burguesia democrática cubana.

Forma-se advogado em 1950 e filia-se ao Partido Ortodoxo, uma cisão do partido Autêntico de Grau e Socarrás.

Pouco tempo depois Fidel vai desiludir-se com os ortodoxos e fundar o Movimento 26 de Julho. Desde o golpe de Batista em 53 Fidel tenta derrubar o ditador cubano, primeiro recorrendo aos tribunais de justiça e depois adotando o caminho da luta armada.

No ataque ao Quartel de Moncada, o único programa da operação era a queda de Batista e a entrega do governo ao Partido Ortodoxo. No famoso discurso pronunciado por ocasião de seu julgamento pela ação de Moncada, Fidel deixa claro o caráter liberal-burguês de seus objetivos. “No sumário desta causa constam as cinco leis revolucionárias que seriam proclamadas imediatamente após tomar o Quartel de Moncada” (…) “A primeira lei revolucionária devolveria ao povo a soberania e proclamava a Constituição de 1940 como a verdadeira lei do Estado”. Ou seja, Fidel não postulava sequer a reivindicação de uma nova Constituição, aceitando a de 1940 elaborada pelo próprio Batista. Mas neste mesmo discurso o líder cubano torna ainda mais explícitas suas idéias. “É sabido que na Inglaterra, no século XVIII, foram destronados dois reis, Carlos I e Jaime II, por atos de despotismo. Estes fatos coincidiram com o nascimento da filosofia política liberal, essência ideológica de uma nova classe social que lutava então para romper as cadeias do feudalismo. Frente às tiranias de direito divino esta filosofia opôs o princípio do contrato social e o consentimento dos governados, e serviu de fundamento à revolução inglesa de 1688 e às revoluções americana e francesa de 1775 e 1789. Estes grandes acontecimentos revolucionários abriram o processo de libertação das colônias espanholas na América, cujo último eslabón foi Cuba. Nesta filosofia se alimentou nosso pensamento político e constitucional (…)”.

 

II. Revolução e contra-revolução

 

Em 1925 assume a presidência de Cuba o general Gerardo Machado, formando um governo ligado à oligarquia latifundiária e totalmente submisso aos americanos. Os EUA pretendiam desta forma estabelecer uma etapa de maior estabilidade política após as crises das duas primeiras décadas do século que se seguiram à “independência” do país.

No entanto, o crash na Bolsa de Valores de Nova Iorque em 1929 provoca uma profunda depressão econômica no coração do regime capitalista. Cuba, totalmente atrelada aos Estados Unidos, sente os efeitos da crise e ingressa novamente em um período de grande instabilidade. O governo subserviente de Machado desmorona e abre-se um vazio político no país.

Em 1930 inicia-se uma onda de manifestações estudantis e greves de trabalhadores e no dia 8 de agosto de 1931 começa a revolução proletária com a eclosão de uma verdadeira guerra civil. O movimento é reprimido violentamente mas a instabilidade é tamanha que em 1933 uma nova insurreição, dirigida por setores da burguesia nacionalista sob a liderança de Antonio Guiteras, importante liderança da juventude estudantil, ocorre em meio a um aprofundamento da crise econômica.

O governo de Machado decompõe-se rapidamente, a tal ponto que é enviado a Cuba um novo embaixador americano para tentar uma mediação com o apoio do setor mais conservador da oposição. A sublevação popular faz fracassar a mediação e uma greve dos transportes transforma-se em uma greve geral revolucionária. Diante da situação, os EUA passam a conspirar contra Machado e derrubam-no. Carlos Manuel de Céspedes y de Quesada é nomeado presidente como produto de um acordo entre os EUA e a oposição conservadora cubana. Guiteras repudia o acordo. Um mês depois Céspedes é derrubado por uma rebelião nas forças armadas. Um sargento de nome Fulgêncio Batista lidera um grupo de oficiais, apodera-se do comando do exército e dá um golpe militar. O movimento teve o apoio de Guiteras. Batista é designado chefe militar mas não toma o poder, entregando-o nas mãos de uma coalizão entre a pequena burguesia nacionalista revolucionária (Guiteras) e a oposição burguesa direitista, na pessoa de Ramón Grau San Martín.

Esse governo inclina-se para uma política nacionalista e os Estados Unidos negam-se a reconhecê-lo, começando a conspirar contra ele. Para tanto, cooptam Batista e passam a utilizá-lo com este propósito. Pressionado pelo ex-sargento, Grau abandona o governo em 1934, o que precipita a queda de Guiteras, que tenta reagir através de um novo levante popular mas é assassinado pelo Exército no dia 8 de maio de 1935.

A crise é abafada e abre-se um período de contra-revolução e sobre a base de uma violenta repressão, de maior estabilidade, de distensão política. A questão, no entanto, não estava resolvida e a situação política voltará a esquentar poucos anos mais tarde. A contra-revolução, como tantas vezes ocorreu na América Latina dará lugar a um parlamentarismo dominado pelas oligarquias e pelo imperialismo. O árbitro fundamental do novo regime saído da contra-revolução são as Forças Armadas e, dentro delas, Fulgêncio Batista.

Em 1940 o próprio Fulgêncio Batista elege-se presidente, sobre a base da elaboração, no mesmo ano e por ele mesmo, de uma constituição demagógica que nunca viria a ser cumprida.

 

Autênticos e Ortodoxos

 

Os sucessores de Batista, Ramón Grau San Martín e Carlos Prío Socarrás, ambos do Partido Autêntico, um partido burguês que agrupava setores conservadores pró-imperialistas e grupos liberal-burgueses, representavam a incorporação da oposição ao regime político articulada pelo governo fantoche de Batista.

Em 1947 uma ala da oposição racha para formar um novo partido, o Partido Ortodoxo, fundado por Eduardo Chibás, que já não procurava apresentar uma plataforma claramente nacionalista, substituindo-a por colocações democráticas e de fundo moral para fazer frente à gigantesca corrupção dos governos a qual era apenas o aspecto mais secundário de uma política totalmente submissa ao imperialismo americano. O Partido fora depois integrado por Fidel Castro, quando jovem estudante universitário. A nova oposição, pelas suas colocações políticas, é obviamente uma expressão do profundo retrocesso ideológico e político das tendências revolucionárias que dominaram a cena política nos anos 30, resultado da vitória da contra-revolução.

Os governos do Partido Autêntico, porém, não resolvem os problemas mais elementares das massas cubanas, mergulhando em uma profunda corrupção, e com isso Chibás torna-se um político bastante popular. Em 1951 sua eleição para a presidência da república era dada como certa quando ele suicida-se em meio a um discurso transmitido pelo rádio.

 

Novamente Batista

 

O suicídio de Chibás precipita uma nova onda de manifestações e de intensa agitação política. Os ortodoxos continuam crescendo mas vêem-se frustrados no início de 1952, quando, a três semanas da eleição, Fulgêncio Batista, que havia retornado de Miami, dá um golpe, depõe Carlos Prío Socarrás e implanta uma violenta ditadura militar. Era o fim do papel político exercido pela burguesia democrática na contenção das massas, que aceita a situação e segue para um confortável exílio em Miami.

O Partido Ortodoxo fica paralisado diante do golpe, posteriormente dividindo-se em várias frações. A única voz de oposição veio do setor juvenil do partido. Os estudantes da Universidade de Havana, liderados pelo jovem estudante de direito Fidel Castro Ruiz vão organizar “grupos de ação” e realizar inúmeras manifestações, evoluindo depois para a luta armada contra a ditadura, cuja primeira culminação é o fracassado ataque ao Quartel de Moncada em 26 de julho de 1953. Preso e condenado a 15 anos de prisão, Fidel é anistiado dois anos depois. Tenta fazer oposição ao governo, mas não encontrando respaldo nos partidos de oposição que passam a colaborar abertamente com o ditador, decide deixar a ilha indo para o México para organizar do estrangeiro um movimento armado para derrubar a ditadura. Lá conhece Ernesto “Che” Guevara e organiza o Movimento 26 de Julho, que quatro anos depois derrubaria Fulgêncio Batista.

 

“Che”: Bolívia, Guatemala, México e Cuba

 

Ernesto Guevara de La Serna, o “Che”, nasceu no dia 14 de junho de 1928 em Rosário, Argentina, em uma família de classe média. Seus pais, Ernesto Guevara Lynch e Célia de La Serna, tiveram alguma participação política em acontecimentos importantes, como a guerra civil espanhola nos anos 30, a segunda guerra mundial e a oposição ao governo de Juan Perón na Argentina, sempre em torno de posições políticas tradicionais da pequena burguesia argentina.

Em 1944, a família muda-se para de Córdoba para Buenos Aires, quando Ernesto, então com 16 anos, já havia se decidido a estudar medicina. Já com 21 anos, Guevara não tinha ainda nenhum tipo de compromisso político, preferindo a vida de viagens e aventuras de um jovem despreocupado com a vida. É com esse espírito que, em 1949, resolve fazer uma longa viagem de moto em companhia de um amigo para conhecer vários países da América Latina. Passa pelo Chile, Peru, Colômbia e Venezuela, onde conhece a miséria dos camponeses e da população pobre desses países, todos com a mesma característica de Cuba, o país que mais tarde viria a revolucionar: o controle despótico de países imperialistas que lhes impunham um selvagem atraso econômico e cultural.

Voltando a Buenos Aires, depois de uma rápida passada por Miami, Guevara retoma o curso universitário e em 1953 forma-se em medicina. Então com 25 anos, “Che” prefere não exercer imediatamente a profissão, decidindo viajar novamente com outro amigo, desta vez para a Bolívia. Em julho do mesmo ano, momento em que seu futuro companheiro, Fidel Castro, atacava sem sucesso o Quartel de Moncada em Cuba, seu batismo de fogo na luta armada contra Batista.

Na capital boliviana de La Paz, “Che” Guevara encontra a revolução proletária de 1952, onde as massas operária haviam destruído as Forças Armadas e criado as milícias operárias e camponesas, estatizado as minas e proposto o controle operário da principal indústria do país. Estes acontecimentos decisivos da revolução latino-ameicana, porém, não causam uma profunda impressão no futuro líder guerrilheiro. Durante a estada na Bolívia, fez amizade com o advogado exilado argentino Roberto Rojo, que o convence a desistir dos seus planos de ir à Venezuela para acompanhá-lo até a Guatemala. Neste pequeno país da América Central, o governo estava nas mãos do coronel Jacobo Arbenz Guzmán desde 1950, um governo nacionalista com o qual a classe dominante local e os norte-americanos não estavam dispostos a conviver em função do receio de ter seus interesses econômicos prejudicados.

No caminho, “Che” passa pela Costa Rica, onde encontra-se com exilados cubanos, vários do quais remanescentes de Moncada, que lhe garantem voltar a Cuba para derrubar Fulgêncio Batista. Segundo Rojos, que escreveria uma pequena biografia do “Che”, nenhum dos dois os levaram à sério.

Já na Guatemala, Guevara conhece a peruana Hilda Gadea Costa, com quem se casaria mais tarde, e Nico Lopez, um dos líderes da revolta de 1953 em Cuba, que no futuro o apresentaria a Raúl Castro, irmão de Fidel.

O país vivia um período de grande efervescência política. A poderosa United Fruit, por exemplo, empresa norte-americana que explorava o plantio e a exportação de frutas tropicais em diversos países da América Central, já havia perdido 91 mil hectares de terra. O governo norte-americano conspirava abertamente contra o governo guatemalteco.

Sob as ordens do presidente Dwight Eisenhower, a CIA – o serviço secreto dos Estados Unidos – armou um pequeno exército de mercenários e “exilados” que no dia 18 de junho de 1954 invadiu a Guatemala. Guevara, que vinha simpatizando com as reformas sociais do governo, decidiu aderir à resistência ao golpe. No entanto, uma semana depois Arbenz capitulara à investida e estava deposto e substituído por uma ditadura militar.

A facilidade com que os norte-americanos derrubaram o governo impressionou muito “Che”. “A última democracia revolucionária da América caiu como resultado da fria e premeditada agressão conduzida pelos EUA (…) Isto foi visivelmente encabeçado pelo secretário de Estado Dulles, um homem que, não por coincidência, é também acionista e advogado da United Fruit Company”, escreveu. Segundo sua esposa, “foi a Guatemala que o convenceu da necessidade da luta armada, de tomar iniciativa contra o imperialismo”.

Por sua participação na resistência ao golpe, “Che” estava correndo sérios riscos ficando na Guatemala. Decidiu então ir para o México, onde se aglomeraram os simpatizantes do governo deposto, e, após um período trabalhando como fotógrafo de rua, conseguiu emprego no Hospital geral da Cidade do México e como professor na Universidade Autônoma do México.

Certo dia, no hospital, encontra com Ñico Lopez, que havia conhecido na Guatemala e que o apresenta Raúl Castro, irmão de Fidel. Guevara e Raúl tornam-se amigos e este último, em julho de 1955, o leva a conhecer o irmão, Fidel Castro.

Assim “Che” descreve o primeiro encontro com o futuro principal líder da revolução cubana: “eu o encontrei em uma dessas noites frias da Cidade do México e lembro que nossa primeira discussão foi sobre política internacional. Algumas horas mais tarde – na madrugada – eu era um dos futuros expedicionários. Depois das minhas experiências de viagem por toda a América Latina e depois da Guatemala, seria preciso muito pouco para me convencer a me juntar a qualquer revolução contra a tirania. Mas Fidel provocou uma grande impressão em mim. Ele estava absolutamente certo de que nós iríamos a Cuba, que chegaríamos lá; que, uma vez lá, nós lutaríamos; e que, lutando, venceríamos. Seu otimismo era contagiante. Nós tínhamos que agir, lutar para consolidar nossa posição. Parar de cogitar e começar a luta real. E para provar ao povo cubano que podia confiar em sua palavra, fez seu famoso discurso: ‘Em 1956, nós seremos livres ou mártires’, anunciando que, antes do fim do ano, ele desembarcaria em algum lugar de Cuba no comando de uma força expedicionária”.

 

Do México à Sierra Maestra

 

Com seu amigo Ricardo Rojo, “Che” acompanhava atento o panorama político da Guatemala. O país vivia um período de grande efervescência política. O presidente nacionalista Arbenz Guzmán levava adiante uma reforma agrária que se defrontava com a oposição dos EUA. A poderosa United Fruit, por exemplo, empresa norte-americana que explorava o plantio e a exportação de frutas tropicais em diversos países da América Central, já havia perdido 91 mil hectares de terra.

Sob as ordens do presidente Dwight Eisenhower, a CIA – o serviço secreto dos Estados Unidos – armou um pequeno exército de mercenários e exilados guatemaltecos que no dia 18 de junho de 1954 invadiu a Guatemala. “Che” Guevara, que vinha simpatizando com as reformas sociais do governo, decidiu aderir à resistência ao golpe. No entanto, uma semana depois Arbenz estava deposto e substituído por uma ditadura militar.

A facilidade com que os norte-americanos derrubaram o governo impressionou muito “Che”. “A última democracia revolucionária da América caiu como resultado da fria e premeditada agressão conduzida pelos EUA (…) Isto foi visivelmente encabeçado pelo secretário de Estado Dulles, um homem que, não por coincidência, é também acionista e advogado da United Fruit Company”, escreveu. Segundo sua esposa, “foi a Guatemala que o convenceu da necessidade da luta armada, de tomar iniciativa contra o imperialismo”.

Por sua participação na resistência ao golpe, “Che” estava correndo sérios riscos ficando na Guatemala. Decidiu então ir para o México, onde, após um período trabalhando como fotógrafo de rua, conseguiu emprego no Hospital Geral da Cidade do México e como professor na Universidade Autônoma do México.

Certo dia, no hospital, encontra com Nico Lopez, que havia conhecido na Guatemala e que o apresenta Raúl Castro. Guevara e Raúl tornam-se amigos e este último, em julho de 1955, o leva a conhecer o irmão, Fidel Castro.

Assim “Che” descreve o primeiro encontro com o futuro principal líder da revolução cubana: “eu o encontrei em uma dessas noites frias da Cidade do México e lembro que nossa primeira discussão foi sobre política internacional. Algumas horas mais tarde – na madrugada – eu era um dos futuros expedicionários. Depois das minhas experiências de viagem por toda a América Latina e depois da Guatemala, seria preciso muito pouco para me convencer a me juntar a qualquer revolução contra a tirania. Mas Fidel provocou uma grande impressão em mim. Ele estava absolutamente certo de que nós iríamos a Cuba, que chegaríamos lá; que, uma vez lá, nós lutaríamos; e que, lutando, venceríamos. Seu otimismo era contagiante. Nós tínhamos que agir, lutar para consolidar nossa posição. Parar de cogitar e começar a luta real. E para provar ao povo cubano que podia confiar em sua palavra, fez seu famoso discurso: ‘Em 1956, nós seremos livres ou mártires’, anunciando que, antes do fim do ano, ele desembarcaria em algum lugar de Cuba no comando de uma força expedicionária”.

 

O primeiro programa de Fidel

 

A contra-revolução organizada pelos Estados Unidos e conduzida por Fulgêncio Batista após 1935 vai propiciar um período de maior estabilidade política, mas não por muito tempo. Os governos dos sucessores de Batista (1940), Grau San Martín (1944) e Prío Socarrás (1948), ambos do Partido Autêntico, representavam a incorporação da oposição burguesa ao regime e a continuidade da corrupção e da submissão cubana aos interesses norte-americanos.

O ambiente universitário na Cuba da segunda metade dos anos 40 era marcado por uma grande radicalização política, onde dominavam grupos como o Movimento Revolucionário Socialista e a União Insurrecional Revolucionária. Fidel ingressou na Universidade de Havana em 1945 e à partir daí ingressou na política alinhando-se posteriormente com os setores da burguesia democrática cubana.

Forma-se advogado em 1950 e filia-se ao Partido Ortodoxo, fundado em 1947 à partir de uma cisão do partido Autêntico de Grau e Socarrás.

Pouco tempo depois Fidel vai desiludir-se com os ortodoxos e fundar o Movimento 26 de Julho. Desde o golpe de Batista em 52 Fidel promovia ações para tentar derrubar o ditador cubano, recorrendo aos tribunais de justiça e realizando manifestações estudantis. Sem obter grandes resultados, decide adotar o caminho da luta armada. Como ocorrerá durante toda a duração da Revolução Cubana, a evolução política e programática de Fidel vai ocorrendo empiricamente, à luz da sua própria experiência.

No ataque ao Quartel de Moncada, o único programa da operação era a queda de Batista e a entrega do governo ao Partido Ortodoxo. No famoso discurso pronunciado por ocasião de seu julgamento pela ação de Moncada, que depois foi publicado em forma de livro com o título A história me absolverá, Fidel deixa claro o caráter liberal-burguês de seus objetivos iniciais, apresentando aquilo que viria a ser conhecido como o primeiro programa da revolução cubana. “No sumário desta causa constam as cinco leis revolucionárias que seriam proclamadas imediatamente após tomar o Quartel de Moncada” (…) “A primeira lei revolucionária devolveria ao povo a soberania e proclamava a Constituição de 1940 como a verdadeira lei do Estado”. O caráter não apenas burguês, mas inclusive moderado do programa é evidente: Fidel não postulava sequer a reivindicação da democracia revolucionária através da convocação de uma assembléia constituinte apoiada nas massas populares, aceitando a Constituição de 1940 elaborada pelo próprio Fulgêncio Batista. Mas neste mesmo discurso o líder cubano torna ainda mais explícitas suas idéias. “É sabido que na Inglaterra, no século XVIII, foram destronados dois reis, Carlos I e Jaime II, por atos de despotismo. Estes fatos coincidiram com o nascimento da filosofia política liberal, essência ideológica de uma nova classe social que lutava então para romper as cadeias do feudalismo. Frente às tiranias de direito divino esta filosofia opôs o princípio do contrato social e o consentimento dos governados, e serviu de fundamento à revolução inglesa de 1688 e às revoluções americana e francesa de 1775 e 1789. Estes grandes acontecimentos revolucionários abriram o processo de libertação das colônias espanholas na América, cujo último elo foi Cuba. Nesta filosofia se alimentou nosso pensamento político e constitucional (…)”.

 

O desembarque do Granma

 

No ano de 1956, enquanto Fidel organiza, sob o treinamento militar do coronel Alberto Bayo, veterano da guerra civil espanhola, a força expedicionária que no final do ano partiria para invadir a ilha, Cuba vive momentos de intensa agitação política, que estão assinalando o esgotamento do regime de Batista.

Em dezembro de 1955 já havia ocorrido uma greve dos trabalhadores açucareiros e várias manifestações estudantis. Em abril de 56 há uma tentativa de tomar de assalto o quartel de Goicuría na província de Matanzas e as forças de repressão do governo ocupam a Universidade de Havana.

Não obstante ter sofrido uma batida policial que resulta na prisão de vários combatentes e no confisco de várias armas, o Movimento 26 de Julho continua o treinamento no México e Fidel segue com os planos iniciais.

A idéia era fazer coincidir, no dia 30 de novembro, a invasão de Cuba pela Província do Oriente dirigida por Fidel com um levante popular conduzido pelo líder estudantil Frank País na cidade de Santiago de Cuba.

No dia 27, um telegrama em código ordena o início dos preparativos na cidade e a partida do grupo de Fidel, que havia levantado fundos e comprado um iate velho, o Granma, para conduzir seus 81 homens, entre eles “Che”, até o local combinado para o desembarque, onde o esperariam na praia armas, munições e suprimentos.

Conforme combinado, no dia 30 começa o levante popular dirigido por Frank País em Santiago de Cuba. Membros do Movimento 26 de Julho da cidade lutam contra o exército e a polícia.

No entanto, a travessia do Granma atrasa quase quatro dias. Péssimas condições de navegação e erros de rota fizeram com que a força expedicionária de Fidel não apenas atrasasse, mas desembarcasse no local errado, não na praia, mas num mangue a 16 quilômetros ao sul. Na cidade, os combatentes liderados por País eram esmagados pelas tropas de Batista. Vários morrem e muitos são presos.

Após sete dias no mar passando enjôo, fome, frio e sede – , Fidel e seus combatentes enfrentavam agora a passagem pelo extenso mangue, no qual foram obrigados a deixar, pouco a pouco, o que restava de armas e suprimentos, para somente três dias depois pisar em terra firme, onde uma nova surpresa, bem mais desagradável, os aguardava.

 

O “Che” e a Revolução Cubana

 

Após o fiasco da viagem e do desembarque do Granma, Castro e seus homens dividiram-se em dois grupos e foram “caminhando” pelo mangue em busca de terra firme. Segundo “Che”, eles estavam “desorientados e andando em círculos, um exército de sombras, de fantasmas caminhando como se estivessem sendo impelidos por algum mecanismo psíquico”. Os dois grupos encontram-se dois dias depois e marcharam para um lugarejo chamado Alegría del Pío, onde fizeram uma pausa para descansar em meio a um canavial.

Mal sabiam eles que o Exército de Batista já sabia de sua presença, através de duas fontes: uma patrulha da guarda-costeira que os havia visto desembarcar e o próprio guia que contrataram para levá-los à Sierra.

À tarde o exército atacou. Apanhados de surpresa, os rebeldes quase foram aniquilados. Dos 82 homens desembarcados muitos foram mortos e outros presos e executados, restando cerca de 15, que se reencontraram somente no dia 21 de dezembro de 1956, após vagarem dispersos pela Sierra e serem posteriormente ajudados pela rede de camponeses do 26 de Julho, organizada pela dirigente do Movimento na cidade, Célia Sanchez.

 

Situação revolucionária

 

O ano de 1957 é marcado pela crescente ação das massas cubanas e pela veloz decomposição do regime político de Batista, ao mesmo tempo em que evidencia as divergências existentes no Movimento 26 de Julho entre sua ala direita, burguesa e pró-EUA (Huber Mattos, Armando Hart), o centro (Fidel), que buscava uma orientação também democrático-burguesa porém independente do imperialismo norte-americano, e a ala esquerda (Raúl Castro, “Che” Guevara), de tendência socialista, ainda que confusa e menos experiente.

A guerrilha de Fidel permaneceu durante meses vagando, isolada da massa camponesa – os guajiros, camponeses pobres, em sua maioria analfabetos, que somavam 60 mil e viviam em casebres espalhados ao longo dos 160 quilômetros da cadeia de montanhas chamada Sierra Maestra.

Por outro lado, na cidade de Santiago, próxima à Sierra, vivia-se um clima de grande agitação política. Quase todos os dias havia manifestações e greves massivas, bem como explosões de bombas em prédios governamentais e atentados contra personalidades do regime. Sob a liderança de Frank País – o jovem estudante que Fidel incorporara ao Movimento em 1955 logo após sair da prisão e pouco antes de ir para o México -, o 26 de Julho havia se convertido em uma organização popular e vinha desenvolvendo-se rapidamente. Também em Havana crescia a agitação revolucionária à medida em que a ditadura corrupta, violenta e subserviente aos interesses dos grandes proprietários cubanos e do imperialismo norte-americano tornava-se cada vez mais insuportável para o conjunto da população.

Fidel exercia sua autoridade política e do campo comandava as ações do Movimento na cidade, de onde provinha a subsistência da guerrilha na Sierra através do envio de dinheiro, armas, mantimentos, medicamentos e inclusive a quase totalidade dos militantes.

 

Contatos com os EUA

 

O governo Batista tentava propagandear a insignificância da guerrilha e dizia que os rebeldes haviam sido dizimados no desembarque. Mas ao mesmo tempo em que nas cidades a situação tornava-se cada vez mais insustentável, a imprensa, inclusive internacional, vinha dando um certo apoio a Fidel Castro. Num certo momento, um veterano jornalista do The New York Times, Herbert Mathews, vai até a Sierra e fala com Fidel.

Sua reportagem cai como uma bomba em Cuba: “Fidel Castro, o líder rebelde da juventude cubana está vivo e lutando duramente e com êxito nas profundezas quase impenetráveis da Sierra Maestra (…) Centenas de cidadãos altamente respeitáveis estão com o senhor Castro (…) [e] um feroz antiterrorismo do Governo levou o povo a ficar ainda mais contra o General Batista. Pelo jeito que tomam as coisas, o General Batista não tem possibilidade de esperança de eliminar a revolta de Castro.”

O Ministro da Defesa de Batista ataca dizendo que a entrevista era uma farsa e desafia Mathews a publicar uma foto sua com Fidel, o que ocorre poucos dias depois, desmoralizando ainda mais Batista. Tais acontecimentos demonstravam que os EUA já haviam percebido a decomposição do governo e faziam jogo duplo, mantendo o apoio à Batista mas também dialogando com o setor mais direitista, de tendências pró-imperialistas, do 26 de Julho. O governo norte-americano era favorável à incorporação da oposição burguesa ao regime, o que exigia a sua “democratização” e traria como resultado ou a cooptação da burguesia dos partidos Autêntico e Ortodoxo e também do grupo de Fidel, ou então provocaria o isolamento político deste último.

Em seu diário, “Che” faz referência a uma carta de Armando Hart, dirigente do Movimento na cidade, que estaria “sugerindo um acordo com a Embaixada ianque”. Numa carta à Fidel de 5 de julho, Frank País faz outra referência ao fato: “A muito meritória e valiosa Embaixada norte-americana veio a nós e ofereceu qualquer tipo de ajuda em troca de pararmos de furtar armas de sua base”. Em outra carta, País afirma-lhe que “María A. me contou que o vice-cônsul norte-americano queria falar com você (…). Já estou farto de tantas idas e vindas e de conversas com a Embaixada, e acho que seria vantajoso para nós cerrar fileiras um pouco mais, sem perder contato com eles, mas não lhes atribuindo tanta importância como estamos fazendo atualmente”.

Em sua resposta, Fidel escreveu: “Não vejo porque deveríamos levantar a mais leve objeção à visita do diplomata norte-americano. (…) Se eles desejam ter laços mais estreitos de amizade com a triunfante democracia de Cuba? Magnífico! Isso é um sinal de que reconhecem o desenlace final desta batalha”.

 

Greve Geral

 

O 26 de Julho começa a fazer propaganda de uma greve geral, mas esta vai ocorrer como resultado de um fato imprevisto: o assassinato de Frank País aos 23 anos de idade em 30 de julho. País tinha sido preso e quando foi libertado passou vários dias escondendo-se da polícia. Mas seu esconderijo foi encontrado e, em plena luz do dia, ele e um companheiro foram sumariamente executados na rua.

O assassinato desencadeou enormes manifestações antigovernistas, com greves que se espalharam por toda a ilha. A situação revolucionária amadurecia em todo o país.

A erupção produzida pela greve geral traduz-se em um rápido fortalecimento da guerrilha urbana e rural, demonstrando que era a ação insurgente das massas o verdadeiro motor da revolução e não as “ações armadas”, ensaiadas primeiro em Moncada, nem as ações fulgurantes como o desembarque do Granma.

Em meados de 57 o grupo de Fidel enfrenta com êxito a primeira grande batalha com o exército na guarnição militar de El Uvero, conquistando uma grande quantidade de armas.

Os rebeldes vão pouco a pouco conquistando a confiança dos camponeses, ao mesmo tempo em que, na cidade, o 26 de Julho ampliava sua base de recrutamento entre a juventude e conquistava a simpatia de setores da pequena burguesia democrática, de onde o Movimento arrecadava importantes somas de dinheiro através da criação de um ramo, a Resistência Cívica. Também vinculou-se a grupos da oficialidade militar e participou do fracassado motim naval na cidade de Cienfuegos.

 

“Che”: de médico a Comandante

 

A esta altura “Che” Guevara já havia se tornado um respeitado dirigente da guerrilha na Sierra. Sua nomeação como Comandante ocorreu de forma totalmente inesperada para ele. Num determinado momento, todos os oficiais do Exército Rebelde foram chamados a assinar uma carta que Fidel enviaria para Frank País expressando suas condolências pela morte do irmão. Quando chegou a vez de “Che”, Fidel lhe disse que colocasse “comandante” como seu posto, o mais alto do exército, que até então somente Fidel detinha.

Desde o México “Che” vinha demonstrando uma extraordinária dedicação à causa revolucionária. Superando sua debilidade física, a asma que tanto o atormentava, tornou-se um dos melhores combatentes e o que mais prezava e assegurava a disciplina, superando inclusive Fidel no rigor com que a defendia.

A conduta de “Che” cumpriu um papel fundamental na formação do exército rebelde. O compromisso ideológico dos novos recrutas, incorporados entre os guajiros da Sierra ou jovens estudantes enviados da cidade, para com a revolução e seus objetivos era frágil ou mesmo inexistente. As deserções e traições eram constantes e “Che” as punia com todo o rigor, executando e ordenando execuções sumárias. Estes recrutas incorporavam-se à guerrilha motivados por sua miséria ou pelo apego superficial à causa democrática ou socialista. Esta situação era o resultado inevitável da ausência de militantes com maior firmeza política e ideológica, ou seja, pela ausência de um verdadeiro partido revolucionário. Na revolução, a ação radicalizada das massas vai superar muito parcialmente esta debilidade fundamental, mas após a tomada do poder este será o principal limitador do desenvolvimento da economia cubana e da própria revolução latino-americana.

Com relação às divergências das facções do 26 de Julho, “Che” assumia claramente uma posição de esquerda, fustigando constantemente a ala direita do Movimento e exercendo uma pressão sobre Fidel, embora não tivesse um programa político alternativo. Em certa ocasião, Fidel aliara-se a dois líderes do Partido Ortodoxo, representante da oposição burguesa, Raúl Chibás e Felipe Pazos, para publicar o “Manifiesto de la Sierra Maestra”, cujo objetivo era repudiar a manobra governista de convocação de eleições presidenciais para 1º de junho de 1958. Comentando o pacto, “Che” disse que “não estávamos satisfeitos com o acordo, mas ele era necessário. Na ocasião, foi progressista. Ele não poderia durar além do momento em que representasse um freio para o desenvolvimento da revolução”.

Sobre os próprios líderes do Movimento 26 de Julho na cidade, “Che” dizia em fevereiro de 57, por ocasião de uma reunião da Direção Nacional na Sierra que “Através de conversas isoladas, descobri as evidentes inclinações anticomunistas da maioria deles, sobretudo de Hart.”

 

As massas dominam a cena política

 

o regime do ditador Fulgêncio Batista decompunha-se a toda velocidade e gerava, como conseqüência, o crescimento da guerrilha na Sierra e na cidade. Um sinal agudo desta decomposição eram as diversas conspirações militares: os norte-americanos, percebendo a incapacidade de Batista em debelar a crise e restabelecer a estabilidade do Estado, o pressionavam para que aceitasse a incorporação da oposição burguesa, os partidos Autêntico de Prío Socarrás, Ortodoxo de Felipe Pazos e Raúl Chibás e “um Movimento 26 de Julho controlado”, ao regime. Era a repetição da manobra que havia sido realizada após o período revolucionário inaugurado no início da década de 30, com a diferença de que, agora, ao invés de estar apoiada em uma etapa de refluxo e esmagamento da revolução, dava-se no seu momento de ascenso.

Nas cidades, continuavam as campanhas de sabotagem e de lançamento de bombas em prédios públicos. Batista havia imposto a censura da imprensa, ao mesmo tempo em que procurava difundir a idéia de que as tropas de Castro eram reduzidas a “bandidos insignificantes”, mas cada vez mais esta versão dos fatos parecia fantasiosa para o conjunto da população.

A desmoralização do governo crescia a tal ponto que alguns cartunistas de Havana furavam o cerco e encontravam formas de satirizar o regime. Uma ilustração famosa mostrava uma longa fila de pessoas, esperando para embarcar em um ônibus com o número 30. Os leitores perceberam que o ônibus dirigia-se a uma localidade próxima chamada La Sierra, para se juntar ao 26 de Julho.

Para ter informações sem censura sobre as últimas batalhas, os habitantes da cidade simplesmente viravam o botão de seus rádios para sintonizar a Rádio Rebelde e os guajiros da Sierra ainda tinham a opção do jornal El Cubano Livre, ambas criações de “Che”.

Nas batalhas, conforme o Exército Rebelde ia derrotando as tropas desmoralizadas de Batista, diversos oficiais passavam-se para o lado da revolução, que cada vez mais acumulava um grande número de homens e armas.

 

A Junta de Miami

 

Porém, esta situação também forçava a oposição burguesa a articular uma alternativa não apenas a Fidel Castro, mas principalmente à revolução em marcha.

Em 1º de novembro, em Miami, foi constituída a “Junta Cubana de Liberação”, com as assinaturas de representantes da maioria dos grupos de oposição. No encontro, através de uma manobra concertada com os membros direitistas do 26 de Julho. O líder dos ortodoxos, Felipe Pazos, negociou representando o Movimento.

O acordo fora realizado com a visível intenção de estabelecer uma frente comum com Washington. Não havia uma única declaração se opondo à intervenção estrangeira no país e nem mesmo à idéia de que uma junta militar sucedesse Batista. Propunha ainda a incorporação “pós-vitória” das tropas de Fidel às forças armadas, assegurando assim a futura dissolução do exército rebelde. Não continha, por outro lado, nenhuma proposta concreta em relação à situação econômica da população cubana, apenas promessas de criação de mais empregos e elevação do padrão de vida. O acordo ea, sobretudo, uma tentativa de suplantar a iniciativa de Fidel, para então negociar uma saída política de conciliação com o ditador e o governo dos EUA.

“Che” Guevara passa a exercer uma forte pressão sobre Fidel para que ele emitisse uma declaração condenando o pacto. Em 9 de dezembro, lhe envia uma carta acusando o Diretório nacional do 26 de Julho de sabotá-lo intencionalmente, opinando que este deveria exigir permissão para adotar severas providências a fim de corrigir a situação, caso contrário deveria renunciar.

Quatro dias depois, Fidel responde. O conteúdo da carta de resposta nunca foi divulgado, mas a reação de “Che” dá a medida do seu conteúdo: “Neste exato momento, chegou um mensageiro com sua nota de treze. Confesso que (…) ela me encheu de paz e felicidade. Não por qualquer razão pessoal, mas sim pelo que esse passo representa para a revolução. Você bem sabe que eu não confiava de forma alguma no pessoal do Diretório Nacional – nem como líderes nem como revolucionários. Mas não pensava que chegariam ao extremo de traí-lo de forma tão aberta (…).”

“Che” continuava insistindo para que Fidel rompesse o silêncio e condenasse o pacto. Disse que ele próprio faria 10 mil cópias da declaração e as distribuiria por toda a província Oriente e em Havana – a ilha toda se pudesse. Dizia ainda que, “depois, se ficar mais complicado, com a ajuda de Célia, podemos demitir todo o Diretório Nacional.”

Confrontado com o desafio da oposição burguesa e da sua própria ala direita, Fidel conservou-se em um terreno de independência do regime político. No mesmo dia, emitiu uma declaração contra o Pacto de Miami: “A liderança da luta contra a tirania está e continuará a estar em Cuba e nas mãos dos combatentes revolucionários (…) O Movimento 26 de Julho reivindica para si o papel de manter a ordem pública e reorganizar as forças armadas da república”. Contra a tentativa de Felipe Pazos de tentar assegurar para si próprio a presidência de um futuro governo de transição, Fidel designava o seu próprio candidato, o idoso jurista de Santiago, Manuel Urrutia, declarando ainda: “Estas são as nossas condições (…) Se forem rejeitadas, então continuaremos a luta por nossa própria conta (…) Para morrer com dignidade, não se precisa de companhia.”

Nesse tempo, o 26 de Julho preparava uma nova greve geral, desta vez incluindo Havana e de comum acordo com os stalinistas do Partido Socialista Popular, que não apoiavam a revolução. A greve começa em abril de 1958, mas não tem êxito, em função das ilusões de “Che” e Fidel nos stalinistas, da sabotagem do PSP e da ala direitista do Movimento, que eram favoráveis à saída eleitoral negociada em Miami.

No entanto, o fracasso da greve foi uma derrota secundária e transitória, incapaz de fazer retroceder as tendências revolucionárias das, que continua a ser impulsionada, em particular com as vitórias do exército rebelde na Sierra e acaba fortalecendo a guerrilha no campo, convertendo-a no centro indiscutido de todo o movimento revolucionário.

Fidel e “Che” aproveitam para desfechar um novo golpe na ala direita do Movimento. Convoca-se uma reunião do Diretório Nacional, na qual “Che” faz uma análise da situação e propõe a destituição de alguns dos principais líderes da cidade, David Salvador, “Daniel” e Faustino. Em 1964, “Che” escreve um artigo intitulado “Uma Reunião Decisiva”, onde afirma que “nessa reunião se discutiu e se decidiu sobre duas concepções que se tinham entrechocado durante toda a etapa anterior quanto à direção a ser dada à campanha. A concepção da guerrilha sairia vitoriosa dessa reunião”.

Batista tenta então uma desesperada contra-ofensiva, mobilizando 10 mil soldados divididos em 17 batalhões e apoiados por tanques e carros blindados em direção à Sierra. Mas a decomposição moral das tropas, as emboscadas guerrilheiras e particularmente a hostilidade dos camponeses transformam o ataque em uma debandada. A afluência de trabalhadores, camponeses e soldados das tropas de Batista para a guerrilha ia se convertendo em um fenômeno massivo. O amadurecimento da situação revolucionária transformava o exército de Fidel em um irresistível movimento de massas.

 

O Pacto de Caracas

 

A comoção revolucionária que sacudia a ilha havia transformado a Junta de Miami em um fantasma. Era o sintoma agudo não apenas do completo esvaziamento do regime de Batista, como do completo esvaziamento do próprio regime político burguês pelo profundo deslocamento das massas para posições revolucionárias. As massas ocupavam as cidades e os campos e só reconheciam a autoridade política do 26 de Julho, o qual se transformava, assim, em um instrumento da dualidade de poderes.

Privados de qualquer sustentação social, os partidos da oposição burguesa e ala direita do Movimento abrem negociação com Fidel e articulam um novo acordo, o Pacto de Caracas, no qual os signatários obrigavam-se a adotar uma estratégia comum para derrotar Batista por meio da insurreição armada e a formar um governo provisório de curta duração. Embora o “Manifesto de União da Sierra Maestra” reconhecesse a autoridade de Fidel castro como “comandante-em-chefe das forças revolucionárias”, era mais uma etapa na manobra – consentida pela ala revolucionária do castrismo – para tentar frear o desenvolvimento da revolução. A oposição burguesa adaptava-se formalmente à política de Castro apenas para tentar recuperar alguma sustentação popular, mantendo alguma iniciativa política enquanto esforçavam-se para criar as condições de um golpe militar.

 

Cai Fulgêncio Batista

 

Em agosto, as colunas de “Che” e Fidel avançavam cada vez mais, cercando importantes cidades como Santiago e o oeste do país. Após a derrota da contra-ofensiva de Batista, Fidel planeja o ataque final. À partir daí, as colunas de “Che”, Camilo Cienfuegos, Raúl e Fidel Castro vão tomando cidade por cidade até a vitória final.

O enviado da embaixada norte-americana, General Cantillo, tenta então dar um golpe militar, mas a tentativa fracassa em função da intervenção final e decisiva de milhões de cubanos no aniquilamento da ditadura. Castro convoca uma greve geral que paralisa o país, em meio à qual ocorre uma nova tentativa golpista, desta feita pelo general Barquin, que é derrotada em poucas horas. O Estado burguês desaparecia e dava lugar ao predomínio da dinâmica revolucionária e as massas retém toda a iniciativa política no país.

Após a tomada da cidade de Santa Clara pelas tropas de “Che”, Batista finalmente desistiria. Às 3 horas da madrugada do dia 1º de janeiro de 1959, ele e um punhado de íntimos colaboradores embarcaram num avião para a República Dominicana, abandonando Cuba para sempre.

Em 1º de janeiro, a coluna de “Che” conquista a cidade de Havana e a de Fidel ingressa em Santiago. As multidões cercavam os guerrilheiros e se iniciava outra etapa da luta política dentro do 26 de Julho que definiria o rumo da revolução.

Fidel demorou uma semana para chegar em Havana. A longa marcha, durante à qual parava inúmeras vezes para fazer inflamados discursos, permitia um intervenção generalizada das massas, que iam desmantelando todo o Estado ditatorial. Ocupavam-se os edifícios públicos, delegacias de polícia, tribunais. Os funcionários de Batista eram destituídos, os torturadores presos, enquanto juízes, governadores e militares fugiam para Miami.

escrito em 1997