O QUE FOI A DITADURA ARGENTINA

William Dunne

 

Morreu na cadeia, em cela comum, na última sexta-feira (17), o ex-ditador da Argetina Jorge Rafael Videla. Videla foi o presidente de fato no período da primeira junta militar (1976-1981), que governou o País depois do golpe de 24 de março de 1976. Contra os julgamentos que o jogaram na cadeia, reproduzia um argumento conhecido dos brasileiros: “São todos julgamentos políticos, como parte dessa vingança, dessa revanche, como parte do castigo coletivo com que se quer punir as Forças Armadas”. No entanto, esperneava em vão, a sobrevivência do regime necessitava da punição de alguns para preservar a maioria dos genocidas e principalmente as instituições.

O “desaparecimento forçado” de pessoas durante a ditadura

A ditadura argentina fazia uso sistemático do “desaparecimento forçado” de pessoas. O governo sequestrava as pessoas e as levava para Centros Clandestinos de Detenção (os CCDs), campos de concentração em que se torturava e matava cotidianamente. Estima-se que cerca de 30 mil pessoas tenham desaparecido (um número que pode chegar a 50 mil pessoas) e um número ainda maior tenha sido torturado. O documento “Nunca mais”, produzido pela Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (Conadep) em 1986 (três anos depois do fim da ditadura), contém inúmeros relatos de sobreviventes desses campos. Nora Stejilevich, por exemplo, conta sobre a última vez que ouviu a voz de seu irmão: “Durante o interrogatório pude escutar os gritos do meu irmão e de sua namorada, Graciela Barroca, cujas vozes pude distinguir perfeitamente. (…) Nunca mais tive notícias dele”. Sobre os desaparecidos, Videla diria numa entrevista em 1979, “Se o homem aparecesse, teria um tratamento ‘X’; se a aparição se transformasse em certeza de seu falecimento, teria um tratamento ‘Z’; mas, enquanto for desaparecido, não pode ter um tratamento especial: é um desaparecido, não tem entidade, não está morto nem vivo, está desaparecido. Diante disso não podemos fazer nada”. Este era o plano da ditadura: trasnformar os inimigos políticos em não entidades.

Como mostra essa fala, o governo negava qualquer responsabilidade pelos milhares de desaparecimentos que ocorreram naquele curto espaço de tempo. As operações de sequestro, tortura e assassinato (“traslados”) eram clandestinas, usavam a estrutura do estado e seguiam uma decisão política do governo militar. Na altura dessa declaração de Videla quase todo argentino conhecia algum desaparecido.

Um governo de ladrões

Crianças não eram poupadas do terror, “(…) começaram a bater na minha companheira com um cinto, puxavam seus cabelos e davam chutes nos pequenos Celia Lucía, de 13 anos, Juan Fabián, de oito anos, Verónica Daniela de três anos e Silvina de somente vinte dias. As crianças eram empurradas de um lado ao outro e perguntadas se iam amigos à casa. Depois de maltratar minha companheira, pegaram a nenén de somente vinte dias; pegaram-na pelos pés, de cabeça para baixo, e começaram a bater nela, gritando à mãe: ‘se você não falar, vamos matá-la’. As crianças choravam e o terror era imenso.” Uma menina de cinco anos, obrigada a presenciar a tortura contra seu pai, se mataria com a arma do avô. Um garoto de 14 anos foi torturado na frente da mãe porque a “patota” acreditava que ela havia escondido a escritura da casa.

O roubo também era sistemático. “Enquanto me detiam e mantinham minha mãe como refém, vi como carregavam em caminhões toda nossa mobília e pertences, sem deixar rastro de que alguém tivesse vivido ali”. Móveis, documentos, livros, todo tipo de coisas eram roubadas.

O monopólio do papel-jornal exercido hoje pelo grupo Clarín é um dos casos que fazem parte do botim. Segundo a viúva de David Graiver, na época dono da Papel Prensa, única fornecedora de papel-jornal do País e morto logo depois do golpe em um acidente de avião mal explicado, ela teria vendido a empresa ao grupo sob pressão. “Até hoje lembro os rostos de meus torturadores. Porém, nenhum desses rostos, nenhum desses olhares, me persegue e amedronta mais em meus pesadelos que o olhar de Héctor Magnetto me dizendo que ou assinava a venda de Papel Prensa, ou eu e minha filha seríamos mortas”. Héctor Magnetto é um dos executivos do grupo Clarín.

Tortura e sequestro de crianças

Crianças não eram poupadas do terror, “(…) começaram a bater na minha companheira com um cinto, puxavam seus cabelos e davam chutes nos pequenos Celia Lucía, de 13 anos, Juan Fabián, de oito anos, Verónica Daniela de três anos e Silvina de somente vinte dias. As crianças eram empurradas de um lado ao outro e perguntadas se iam amigos à casa. Depois de maltratar minha companheira, pegaram a neném de somente vinte dias; pegaram-na pelos pés, de cabeça para baixo, e começaram a bater nela, gritando à mãe: ‘se você não falar, vamos matá-la’. As crianças choravam e o terror era imenso.” Uma menina de cinco anos, obrigada a presenciar a tortura contra seu pai, se mataria com a arma do avô. Um garoto de 14 anos foi torturado na frente da mãe porque a “patota” acreditava que ela havia escondido a escritura da casa. Outro, também de 14 anos, foi encontrado morto pela mãe: “O cadáver do meu filho apareceu, junto com outros sete corpos, nas costas do Uruguai. Tinha as mãos e os pés atados, estava nu e mostrava sinais de ter sofrido torturas terríveis”. Em setembro de 1976, 16 adolescentes (com idades entre 14 e 18 anos) foram sequestrados por terem começado uma campanha contra o aumento de passagens de ônibus. Apenas três sobreviveram, as adolescentes foram repetidamente estupradas. Uma menina, sequestrada em casa quando tinha 14 anos, conta: “Entrada a noite, aparece um dos guardas e, ameaçando-me com uma arma, começou a me manusear. Nesse instante, eu tinha os pés e as mãos amarrados. O guarda colocou seu pênis na minha boca”.

Roubo de ciranças

Outro aspecto particularmente sombrio da ditadura argentina foram os casos de roubo de crianças e bebês. Crianças eram sequestradas e tinham suas identidades ocultadas. Roubadas de seus pais, eram adotadas e criadas por famílias simpatizantes do regime. “Em 13 de julho de 1976, entre 23h e 23h30, bateram fortemente na porta da minha casa, no Barrio de Belgrano, Capital. Nesse momento estava terminando de amamentar meu filho Simón. Forçaram a porta e entraram umas 10 ou 15 pessoas com trajes civis, mas se identificaram como membros do exército argentino e do exército uruguaio. (…) Quando me arrancaram de casa perguntei o que aconteceria ao menino. Responderam-me que não deveria me preocupar, que o menino iria ficar com ele, e que essa guerra não era contra os meninos. Essa foi a última vez que vi Simón e que tive notícias dele”. Recém-nascidos eram roubados depois de suas mães darem à luz em cativeiro. As Avós da Praça de Maio estimam que cerca de 500 crianças tenham sido roubadas, número que pode ser muito maior. Até hoje, 108 identidades foram resgatadas.

Massacre político

“O terrorista não é considerado somente por matar com uma arma ou por colocar uma bomba, mas também por estimular outras pessoas, por meio de ideias contrárias a nossa civilização ocidental e cristã”. Essa frase de Videla, publicada no Clarín (18 de dezembro de 1977), dá uma ideia da caracterização bastante ampla que os militares faziam da “subversão”. Diversas atividades poderiam levar alguém a ser sequestrado e detido em um centro clandestino. Temos um bom exemplo no depoimento do médico Norberto Liwsky: “Depois apresentou-se outra voz. Identificou-se como ‘el coronel’. Manifestou que eles sabiam que minha atividade não estava vinculada ao terrorismo ou à guerrilha, mas iriam me torturar por ser opositor. Porque ‘eu não tinha compreendido que no país não existia espaço político de oposição ao Processo de Reorganização Nacional!’ Depois ameaçou: ‘Você vai pagar caro por isso… acabaram-se os pãezinhos dos pobres!’”

Como disse o governador de Buenos Aires durante o governo de Videla, Ibérico Manuel Saint-Jean: “Primeiro mataremos todos os subversivos, logo depois mataremos seus colaboradores, depois seus simpatizantes, em seguida, aqueles que permanecem indiferentes e, finalmente, mataremos os tímidos”.