Não se deixar enganar pela calmaria aparente

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Há semanas não vemos declarações contundentes dos militares defendendo o golpe militar.

O debate esfriou na imprensa burguesa, que já divulgou os apelos dos generais Mourão, Villas Bôas e Etchegoyen em favor de uma intervenção militar.

Isso não pode ser interpretado como um sinal de que os militares abandonaram seus objetivos. Seria um erro acreditar que o silêncio é prova de que os planos que vinham sendo discutidos foram abandonados.

Não foi assim com o golpe do impeachment, embora muitos tivessem pensado o oposto. Desde que Dilma foi eleita em 2014, a direita anunciou seus objetivos. Iria derrubá-la, era preciso apenas encontrar o meio e encontraram a solução no impeachment.

Muitos setores da esquerda erraram porque acreditaram que o golpe contra Dilma não ia acontecer. Tal como ocorre hoje, as possibilidades de derrubá-la com a cassação da chapa no TSE, o impeachment, entre outras, eram discutidas alternadamente na imprensa, ora com o silêncio ou mesmo com declarações contrárias ao impeachment vindas de figuras do alto escalão golpista, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Esse percurso culminou com o impeachment em 31 de agosto de 2016, apesar das aparências.

É algo razoável, e até certo ponto indispensável para o sucesso de um golpe de Estado, que os golpistas procurem dissimular seus propósitos. Os setores que lutam contra o golpe dado contra Dilma não devem se confundir com a calmaria aparente.

O golpe é iminente, isto é, pode acontecer a qualquer momento.

As condições estão dadas. O país está em um impasse. A crise institucional entre os poderes está instalada. O governo Temer está paralisado. A campanha de denúncias de corrupção, usada contra Dilma e contra ele, contrariamente ao que desejavam os golpistas, evidenciou que não há um único partido que esteja livre da corrupção, não há um único cruzado anti-corrupção capaz de salvar a pátria.

Os setores golpistas que querem aprofundar o golpe não conseguem derrubar Temer no Congresso. O STF está dividido. E a crise continua a se aprofundar. É um governo insustentável. É um governo que não pode ser salvo.

A alternativa que evitaria a completa desagregação do regime seriam as eleições de 2018. Mas o quadro em que elas ocorreriam é insustentável: Lula não pode concorrer, mas impedir sua participação causaria ainda mais turbulência nos planos dos golpistas. A direita que capitaneou o golpe contra Dilma, o PSDB, está dividida e sem uma alternativa, na medida que a candidatura de João Doria parece cada vez mais difícil de se realizar. Na extrema-direita, o lançamento de Bolsonaro colocaria um problema para as próprias Forças Armadas, cujo comando recusa sua direção.

É preciso entender que os militares, diferentemente dos políticos burgueses, não precisam de unanimidade, ou mesmo de maioria, em qualquer nível do poder do Estado, para agir. Não precisam de manifestações de massa favoráveis ao golpe.

Não precisam ter a imprensa burguesa a favor, não precisam de votação no Congresso, não precisam de decreto presidencial. Para o comando das Forças Armadas, basta a decisão de agir. O golpe de 1964 mostrou ainda que nem sequer precisam da decisão do conjunto dos dirigentes militares, bastando a iniciativa dos setores mais decididos para arrastar os vacilantes.

Um golpe de Estado é sempre uma operação arriscada. Um golpe militar, ainda mais. O risco está na oposição, na reação ao golpe.

Àqueles que querem impedir o golpe, combater os golpistas, cabe a tarefa de preparar a reação. É preciso fazer uma ampla campanha contra o golpe militar, nas fábricas, nos bairros operários e populares, chamar a atenção dos trabalhadores para a operação golpista que está em marcha.

É preciso levar a campanha contra o golpe o mais amplamente possível.  É preciso organizar comitês de luta contra o golpe em todo o País. Somente a força da classe operária, à frente de todo o povo trabalhador e oprimido, é capaz de fazer frente ao golpe.

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