14 anos do fechamento do MAG (ou o combate da elite à cultura)

Compartilhar:
“Se ele fez isto com com o Metrô de São Paulo, imagine com o MAG!”

Esta charge tem 10 anos, o MAG conhecido como “Museu do Cartum”, tinha sido fechado há quatro. Há muito mais que isso o PSDB domina o governo paulista. Independente de análises político-eleitorais e questionamentos dos motivos do eleitorado do estado de São Paulo (o estado mais populoso e rico -33,9% do PIB- da União).

Campanha Financeira 3

Tenho visto um crescimento nos eventos culturais por todo o Brasil: festivais, exposições, oficinas, workshops, debates… a população lota centros culturais, fundações e bibliotecas públicas. O principal é ver o povo produzindo arte e cultura, filmando suas próprias histórias, tocando suas próprias músicas, grafitando seu bairro, fazendo o debate cultural. Mas este crescimento cultural de um povo incomoda aqueles que querem dominar o povo pela ignorância e pela aculturação.

É normal vermos governos conservadores em prefeituras, governos estaduais e federal (como os golpistas ignorantes que usurparam o poder) desfazendo tudo o que fizeram antes e boicotando eventos culturais como festivais de cultura negra, samba, graffiti, cinema da periferia, quadrinhos (como o FIQ em BH) e salões de humor.

Destruir ou boicotar estas atividades já é um ato truculento que merece todo nosso desprezo, é um desrespeito a profissionais que se dedicam a produzir o melhor na área da cultura. É um desrespeito à população que participa dos eventos e tem sede de conhecimento.

Mas vou me ater à produção das charges, cartuns, caricaturas e quadrinhos.

Muita gente diz que “político é tudo igual”, “tudo farinha do mesmo saco”. Será?

Vejamos:

Em 2003, o MAG (Museu de Artes Gráficas) dedicado ao cartum, charge, caricatura, quadrinhos e ilustração, foi fechado pela “secretária de cultura” do tucano geraldo alckmin: claudia costim (em letras minúsculas mesmo). Foi inaugurado em 16 de dezembro de 2002 no prédio do Arquivo Público do Estado de São Paulo com um acervo com cerca de 7 mil trabalhos. A direção ficou a cargo de Gualberto Costa e Douglas Quintas Reis (um dos sócios da editora de HQ Devir, falecido recentemente). Foi criado também o Instituto Memorial das Artes Gráficas do Brasil (IMAG), que atualmente coordena, entre outras atividades, o Troféu HQ Mix.

Partido: PSDB

A alegação da então “secretária de cultura” (sic) foi: “O museu não tem importância artística e cultural.” A decisão foi alvo de manifestações e protestos de pessoas ligadas às artes gráficas e aos quadrinhos, que rebateram todas as críticas da secretária. Também foi entregue um dossiê de cerca de mil páginas com todos os projetos e exposições programadas para o ano, exposições de Ziraldo, J. Carlos e Fernando Gonsales. O Jornal Pasquim 21 editado por Zélio Alves Pinto moveu sua artilharia contra o fechamento. Não adiantou nada. Apenas o filho da tucana foi ridicularizado por colegas de classe com o jornal do irmão do Ziraldo. Depois de muito tempo o acervo do MAG foi transferido para Piracicaba.

Mas não é só isso. O total abandono do histórico Salão de Humor de Ribeirão Preto (criado na gestão do PT), com falta de pagamento de prêmios, exposições efêmeras com duração de apenas um dia e montadas às pressas.

Partido: PSDB

Salão de Humor de Piracicaba: desqualifica trabalho de profissionais com décadas de experiência alegando que os trabalhos expostos não tiveram gabarito para receberem prêmios; convida como jurados membros do Lyons da cidade, a ex-secretária cláudia costin (a mesma que fechou o MAG) sem a mínima noção -pasmem- do que seja charge, cartum ou caricatura.

Partido: PSDB

Em 2009, o Blog Radioativo noticiou: “O Álbum Dez na área, Um na banheira e ninguém no Gol (Via Lettera) teve 1220 exemplares comprados pelo governo de São Paulo, para distribuição em escolas públicas, como parte do programa de incentivo a leitura do governo estadual. O comitê da secretaria de avaliação cometeu o equivoco de enviar os álbuns para crianças da 3º série do ensino fundamental, sem reparar que a HQ continha palavrões e insinuações sexuais em algumas de suas histórias.”

A Folha de S. Paulo publicou matéria criticando a distribuição do gibi nas escolas, causando comoção geral na mídia. O governo tomou a decisão de recolher o livro das escolas e o então governador José Serra tentou se explicar na TV, com a polêmica declaração: “O álbum é de muito mal gosto, os desenhos e tudo” tentando colocar a culpa nas HQs. Os autores declararam que a revista foi produzida para adolescentes e adultos, com histórias mostrando a influência do futebol na nossa sociedade. O caso causou reboliço na mídia.”

Partido: PSDB

O Salão de Humor do Piauí, que sempre aconteceu nas ruas de Teresina, mobilizando milhares de pessoas da cidade e centenas de artistas do mundo todo. Em 2007, um dos seus organizadores, o cartunista Albert denunciou a proibição do Salão acontecer nas vias onde o povão transita, pois a prefeitura não liberou.

Partido: PSD

Em 2014, a prefeitura despejou o salão de seu local. Os milhares de originais foram roubados ou jogados no lixo. Descreveu o jornalista Sergio Fontenele: “Charges, caricaturas e cartuns – originais de alguns dos mais importantes artistas gráficos brasileiros – estão sendo vendidos ali, por preços que podem chegar a R$ 10, dependendo da barganha feita pelo desavisado pedestre, que atravessa diariamente a Pedro II. Um ponto em frente ao Theatro 4 de Setembro foi escolhido por hippies e moradores de rua – provavelmente todos usuários de drogas – para vender as peças que fazem parte da história da cultura piauiense.

São trabalhos que foram cedidos ao acervo do Salão de Humor do Piauí por cartunistas, chargistas e caricaturistas do mundo inteiro, que participaram de históricas edições do evento, realizadas ali, exatamente no 4 de Setembro e na Praça Pedro II. O Salão ganhava todo o Complexo Cultural, incluindo o Clube dos Diários e a Central de Artesanato Mestre Dezinho. É o mesmo cenário onde acontece o fato que pode ser considerado o emblema do trágico fim dessa história.”

Partido: PTB

Salão de Humor de Paraguaçu Paulista. Em 2006, Denis Mendes, secretário de turismo, cartunista e criador do Salão de Humor da cidade, venceu preconceitos e desvios de verbas para o salão, mas sofreu pressões e boicotes. Prometeu tirar a estrutura das mãos da prefeitura.

Partido: PSDB.

Listando as experiências positivas:

1. FIQ

A Casa 21 e a Prefeitura de Belo Horizonte foram responsáveis pela idealização, planejamento, curadoria e produção do Festival Internacional de Quadrinhos. Este trabalho conjunto os levou a ganhar o HQ Mix com a quarta edição do FIQ. Eles e suas equipes estão de parabéns. Tudo funcionou perfeitamente bem. Prova de um carinho sem par pelos quadrinistas, ilustradores, cartunistas e o público (que lá compareceu em peso). Prova que respeitam e preservam a cultura nacional.

Partido: PT

2. Criação do Salão de Ribeirão Preto

Era considerado um dos promissores festivais. Pagava os prêmios em dia. A secretaria de Cultura reconhecia a importância do Salão, investia em infra-estrutura e pessoal.

Partido: PT

3. 30 anos do Salão de Piracicaba

A festa de 30 anos do Salão retumbou. Cartunistas de todo o país estavam presentes. Foi editado um belo catálogo com os premiados de todos anos anteriores.

Partido: PT

4.Investimento na cultura por parte dos governos Lula e Dilma

“Cultura é gênero de primeira necessidade, porque é exatamente por meio dela que vamos construir uma sociedade mais justa e humanista” (Lula, 2010).

Gilberto Gil foi o primeiro ministro da Cultura a romper com os grandes cineastas que mamavam nas tetas do governo há décadas. Pela primeira vez os pequenos e médios cineastas tiveram vez, o site do MinC abriu espaço para ilustradores mostrarem sua arte. Gil ouviu os artistas “de baixo”. Gil se sentiu e agiu como nós, os “de baixo”. Foi na ONU, tocou percussão e fez Kofi Annan dançar. Abriu discussão com artistas, animadores e quadrinhistas (Lei da animação e do Quadrinho nacional).

Lula aumentou as verbas do MinC de 0,2% (do total de recursos da União) para mais de 1%, subindo de R$ 540 milhões, em 2003, para R$ 2,2 bilhões em 2010. Nesse mesmo período a renúncia fiscal mobilizada para a produção cultural aumentou de R$ 400 milhões para mais de R$ 1 bilhão. Antes, havia uma extrema concentração de financiamentos oficiais no eixo Rio – São Paulo. O governo lançou concursos e editais pro Brasil todo, “desescondendo locais e expressões culturais que, até então, não tinham acesso ao patrocínio estatal e, portanto, não tinham como aparecer”, como disse Celio Turino. Na região Norte o incremento nos recursos federais para a cultura foi de 404%. “O programa Pontos de Cultura partIU da potência das manifestações culturais das comunidades, na perspectiva da emancipação, para além da ideia da inclusão social”.

Dilma criou o vale-cultura em 2012, investiu em Bibliotecas no Brasil inteiro e na adoção de Quadrinhos no PNBE.

Em 2014, o jornalista Paulo Ramos escreveu: “Apesar da necessidade de ajustes, há de se louvar a iniciativa do governo federal de compor bibliotecas escolares. Há de se elogiar também a inclusão tardia de títulos em quadrinhos nos acervos e de sinalizar que estes possam compor uma forma válida de leitura – por mais óbvia que possa ser essa constatação, ela ocorre com atraso de décadas no País. Trata-se de um inegável avanço a inclusão de obras em quadrinhos em bibliotecas escolares e o estímulo à leitura delas, que historicamente foram vistas como produções infantis e de baixa qualidade. O que se sugere é uma revisão nas obras incluídas nos acervos e o descolamento delas das adaptações de clássicos literários. Para isso, os editais deveriam aliar as compras de obras literárias originais, cuja leitura é necessária e insubstituível, à de outras, de cunho quadrinizado e também original e exemplar, sem a associação com versões dos clássicos, como ocorre no edital que selecionará as obras de 2014. Hoje, tais publicações são minoria no PNBE.”

Partido: PT

Estou mostrando, que na prática, a esquerda brasileira promove a cultura, a distribuição de renda e a subida dos mais pobres na escadaria das classes sociais. Já os ditos neo-liberais fazem o contrário. Privatizam empresas públicas a preço de banana. Abrem estradas superfaturadas, as enchem de pedágios caros e fecham as portas às iniciativas culturais. E após fechar, o que sobra é o medievalismo de fascistas com tochas acesas prontos pra queimar bruxas e livros. Que saudade do MAG!

 

artigo Anterior

Professor da USP sofre perseguição política por organizar atividade em defesa da reforma agrária

Próximo artigo

Até empresa do PSDB acha que foi golpe

Leia mais

Deixe uma resposta