Vitória de Macri antecede uma profunda crise política

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Dia 22 de outubro a Argentina teve eleições legislativas. Metade da Câmara dos Deputados foi renovada e a chapa do presidente Mauricio Macri, Cambiemos, teve um crescimento de sua bancada, que passou de 90 para 109 deputados, de um total de 257. No Senado, o governo chegou a 26 assentos, dos 72 que compõem a casa. O governo venceu nos cinco maiores distritos, e a própria Cristina Kirchner, maior líder da oposição, perdeu as eleições em Buenos Aires, elegendo-se senadora em segundo lugar.

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À primeira vista, uma vitória que colocaria Macri em uma posição extremamente favorável para disputar a reeleição em 2019. E foi isso que a imprensa burguesa tratou de alardear por todo o continente. O alarde serve a um programa, que é o programa político do imperialismo para o conjunto dos países atrasados, de ataques aos salários, direitos trabalhistas, serviços públicos e patrimônio nacional (por meio das privatizações). O resultado eleitoral na Argentina demonstraria apoio a esse programa, que Macri não conseguiu colocar em marcha.

O problema é que Macri conseguirá colocar essa política em movimento a partir de agora. O mercado espera alegremente por uma reforma trabalhista e tributária e pela “desregulamentação” da economia. Macri não poderá fazer isso sozinho, precisará do apoio do Partido Justicialista (PJ). Kirchner rompeu com o PJ depois da eleição de Macri, quando parlamentares do partido passaram a apoiar uma série de políticas do presidente neoliberal.

Com a oposição desorganizada e com o governo nas mãos, Macri apareceu nestas eleições legislativas como única força política do regime. Essa situação não vai durar até as eleições de 2019. A tendência é de que haja uma polarização, especialmente depois que as políticas de Macri começarem a ser implementadas. Eleitoralmente, a tendência é que essa polarização se expresse no embate entre Kirchner e Macri.

A Unidade Cidadã criada por Kirchner começa a se consolidar, enquanto o PJ desmorona. Na Câmara dos Deputados, os kirchneristas passaram de cinco para 25 deputados. No Senado, com seis senadores, mantiveram seus três assentos que estavam em disputa e continuaram com a mesma bancada. Com a própria Kirchner no Senado, colocam-se também obstáculos à perseguição promovida pelo Judiciário aparelhado pela direita lacaia do imperialismo na Argentina. Neste quadro, o que as eleições preparam é uma crise política, uma polarização da sociedade e a chance de que Kirchner derrote Macri.

Se Kirchner vencer, não voltam os anos do governo kirchnerista, de estabilidade política sob uma conciliação entre o imperialismo e a burguesia nacional e com apoio dos trabalhadores. Esse arranjo não é mais possível. Desde o primeiro dia um governo Kirchner seria assediado pela direita golpista teleguiada pelo imperialismo. Mesma situação em que uma eleição de Lula, ou de um indicado por Lula, colocaria o Brasil.

O nacionalismo burguês não perdeu o poder na Venezuela, onde o golpe do imperialismo foi derrotado. A situação de permanente crise política mostra a disposição golpista do imperialismo, momentaneamente derrotado com as duas vitórias eleitorais de Maduro este ano (Constituinte e governadores). O caso da Venezuela mostrou que não foi possível derrotar o golpe por dentro das instituições do regime burguês. O chavismo precisou fechar a Assembleia Nacional e substituí-la por uma instituição mais democrática, com maior poder do povo e dos trabalhadores, representados diretamente com grandes bancadas próprias.

É esse tipo de contradição que se coloca agora em todo o continente: entre revolução e contrarrevolução, enquanto os regimes políticos ruem. Não há uma saída para a crise política dos regimes políticos por dentro desses próprios regimes. Na Argentina este processo está menos adiantado, mas é para isso que a situação se encaminha. Essa é a grande notícia dessas eleições, muito mais do que a vitória de Macri.

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