Por uma arte que lute contra o golpe

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Desde o golpe de Estado de 2016, que derrubou o governo de Dilma Rousseff, os artistas, intelectuais e trabalhadores que atuam no ramo cultural em geral ganharam destaque na situação política. A esmagadora maioria dos artistas se manifestou contra o golpe, várias obras que tratavam do tema apareceram, as ocupações das sedes regionais do Ministério da Cultura foram por um tempo o principal foco de resistência contra os golpistas a ponto de fazer o governo voltar atrás na decisão de fechar o órgão.

Essa presença dos artistas, principalmente do ponto de vista da propaganda e da agitação contra o golpe, foi tão marcante que a própria direita golpista, com sua capacidade de manipulação hábil da situação política, passou a usar parte deles para seus propósitos. Assim, a rede Globo impulsionou e impulsiona manifestações controladas das “diretas já” e do “fora Temer” como uma tentativa de canalizar a luta contra o golpe para interesses golpistas.

Em suma, a confusão política atual, criada pelos donos do golpe e impulsionada pela esquerda pequeno-burguesa, naturalmente gerou confusão entre muitos artistas. Muitos que se colocaram abertamente contra o golpe agora acabam expressando essa confusão.

Uma das figuras que tem se colocado como uma espécie de orientador dessa confusão é o cantor e compositor Caetano Veloso. Ele tem prestado um papel de agenciador da campanha golpista da rede Globo, recebendo direitistas como o Procurador fascista Deltan Dallagnol e figuras da esquerda pequeno-burguesa em seu apartamento. Chegou ao ponto de organizar junto com organizações fascistas como o Vem pra Rua e esquerdistas como o Mídia Ninja um ato em apoio da Marcelos Bretas, o Sérgio Moro do Rio de Janeiro, responsável por uma série de arbitrariedades jurídicas.

A desculpa usada para fazer a campanha coxinha disfarçada é a boa e velha defesa de que “não devemos nos dividir”. O que o grupo Tribalistas, também levado pela mesma onda de confusão política, chamou de “somos um só”, título da música principal de novo álbum.

Essa concepção, usada agora pelos donos do golpe para acalmar e controlar os artistas que haviam se levantado contra a direita golpista, é antiga. Ela pode ser encontrada na ideia de que a arte deve ser apolítica. Uma ideia que além de falsa serve a apenas um interesse: ao da burguesia, do imperialismo, dos setores mais reacionários da sociedade.

Ao negar que estamos divididos em classe, ao negar-se tomar partido em favor do progresso da humanidade, ao negar-se tomar partido em favor dos explorados, a arte deixa de existir como a expressão mais autêntica do ser-humano. Uma arte – se é que podemos chamar assim – rasa, vazia, sem conteúdo, pronta para ser utilizada pelos inimigos do povo.

Caetano talvez não perceba, mas ao se colocar como o líder do movimento que procura apresentar um País sem “divisões”, em pleno golpe de Estado e avanço da direita fascista, ele e os outros estão defendendo uma espécie de arte “assexuada”, sem cor, sem tempero, sem vida. A ausência de política, ou melhor dizendo, a busca por uma arte sem política, é na verdade a negação da própria arte como expressão genuína do ser humano, e em última instância significa a própria extinção da arte. Tudo o que os reacionários querem.

A luta contra o golpe é hoje o caminho para o artista assim como para todos aqueles que não querem se ver subjugados por uma direita reacionária disposta a esmagar todo o povo.

Os exemplos recentes de censura e de histeria da extrema-direita deveriam servir como um alerta de que só a luta contra o golpe, o engajamento político, a busca por algo realmente revolucionário, pode ser o caminho para os artistas que realmente procuram fazer de sua expressão o que de mais sincero e genuíno há em sua subjetividade, em total consonância com os anseios de todo o povo.

Caetano Veloso nesse momento nada mais faz, não importam suas desculpas e seus argumentos para isso, que jogar fumaça nos olhos do povo para essa realidade cruel e que passará como um trator sobre todos os artistas. A ditadura é o resultado mais provável da política dos donos do golpe para quem Caetano agora trabalha.

É preciso desfazer a confusão, isso só pode ser feito a partir de uma organização de todos os artistas independentes, que estejam engajados em lutar contra o golpe e todas as consequências dele, como a censura e a histeria dos fascistas ao estilo MBL. O PCO e o GARI (Grupo de Arte Revolucionária e Independente) chamam todos os que realmente lutam, que não acham que o mundo é “um só”, que não acham que a arte esteja acima da luta de classes mas é uma expressam dela, a se juntarem num manifesto que convoque para uma ação contra o golpe e contra todos os golpistas, esses obscurantistas que desejam jogar o País e o mundo para as trevas da Idade Média.

* Quando essa coluna ia ao ar, os jornais davam destaque para o processo que Caetano Veloso estava movendo contra o MBL e Alexandre Frota por o terem chamado de pedófilo. Os fascistas provam na prática para Caetano que não “somos um só” e que se essa direita não for combatida energicamente – não com processos usando o Judiciário golpista – nas ruas e com todas as armas que temos, ninguém estará a salvo de seus ataques.

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