Voto popular se tornou um estorvo para a burguesia

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O regime burguês se vende como “democrático”. A democracia consistiria na participação da população no poder político por meio do voto nas eleições. O voto garantiria a participação dos eleitores no regime político e sua representação no Estado. Os políticos em cargos eletivos (no caso do Brasil, nos poderes Legislativo e Executivo) seriam de fato representantes da vontade popular. Isso é o que seria a democracia, é isso que ela é no papel. Nas palavras da Constituição, o poder “emana do povo”.

Na prática, porém, o poder do voto é muito limitado. Uma vez a cada quatro anos o eleitor escolhe entre alguns poucos nomes quem vai vai ocupar um determinado cargo. A maioria dos candidatos é desconhecida, com pouco tempo de campanha, ignorada pela imprensa burguesa, concorrendo com campanhas endinheiradas financiadas pelos capitalistas, quando conseguem concorrer. As regras do jogo são favoráveis à direita, e quando a direita começa a perder, mudam-se as regras. A suposta representação que resultaria desse processo é uma fraude. A participação no regime é mínima, se por “democracia” devemos entender o “governo do povo” esse regime é quase nada democrático.

Mesmo assim, essa ínfima participação popular, essa esmola de poder de decisão, está se tornando totalmente incompatível com o regime dos capitalistas. Apesar das regras favorecerem os mais poderosos, apesar de os mais poderosos bancarem as campanhas mais caras, as eleições e referendos realizados em várias partes do mundo têm acabado com os resultados “errados”, que contrariam os interesses dos donos dos regimes políticos.

É o que aconteceu no Brasil no golpe de 2016. Em 2014 as eleições “deram errado”. Ao povo estava reservado o direito de eleger Aécio Neves, o candidato neoliberal que aplicaria um programa como o que Michel Temer tenta aplicar mas não consegue devido às contradições surgidas no interior da própria direita golpista. O programa político que venceu nas urnas contrariava os interesses do imperialismo no Brasil. Por isso a direita tratou de usurpar a presidência e tomar o poder por fora das eleições.

A democracia só vale para eleger um neoliberal capacho dos gringos. Caso contrário, o governo invariavelmente sofre um golpe ou uma tentativa de golpe. No caso do impeachment de Dilma Rousseff, um processo fraudulento e sem provas, um golpe aprovado por parlamentares comprados por meio de propina, como revelou recentemente Lúcio Funaro. A imprensa burguesa brasileira, toda ela golpista, apoiou o golpe e a campanha pelo golpe. Como em 64, apoiaram o golpe de 16.

Outro exemplo de votação desrespeitada vem da Catalunha, que acaba de decidir por sua independência em um referendo popular. Apesar do cerco policial aos locais de votação, milhões de catalães conseguiram expressar sua vontade nas urnas. A resposta da Espanha escancarou a ditadura a que as nacionalidades oprimidas são submetidas nesse País artificial sem uma unidade nacional genuína. Catalães apanharam de policiais e de bandos fascistas. O governo do Partido Popular (PP), de Mariano Rajoy, partido que abriga as viúvas políticas do ditador Francisco Franco, vai suspender a autonomia da região. O povo só pode votar se votar de acordo com determinados interesses.

Outro lugar em que os eleitores decepcionaram a direita (duas vezes esse ano) foi a Venezuela. Primeiro nas eleições para a Assembleia Constituinte, depois nas eleições para governadores de domingo (15). As eleições constituintes foram boicotadas pela direita golpista, a totalidade dos votos foram para o chavismo, e mostraram um aumento do apoio em relação às eleições de 2013, quando Nicolás Maduro derrotou os vende-pátrias e conquistou a presidência pelo voto. Nas eleições para governadores, o chavismo ganhou 17 dos 23 governos, com 54% dos votos nacionalmente.

Se o povo venezuelano fez festa com o resultado das eleições, o imperialismo não compartilhou desse entusiasmo diante de mais uma derrota da direita golpista. A embaixadora dos EUA na ONU, Nikki Haley, afirmou que as eleições venezuelanas “não foram livres nem justas”. Para o imperialismo só é justo quando ganha um neoliberal. Aqui no Brasil, os jornais que reproduzem servilmente a política do imperialismo também esbravejaram contra a vontade do povo venezuelano.

Brasil, Catalunha e Venezuela, os três casos mostram a crise do regime político da burguesia imperialista. O capitalismo entrou em uma nova etapa de crise em 2008, a crise política do imperialismo corresponde a essa nova etapa da decadência de um modo de produção parasitário e moribundo. Sob a pressão dessa crise política, o imperialismo está se vendo obrigado a abandonar a aparência de democracia que a votação popular dava a diversos regimes políticos. A ditadura da burguesia tornou-se mais aberta. O voto tornou-se inconveniente demais.

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