Uma focinheira para Doria

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João Doria é prefeito de São Paulo, embora não costume ser encontrado na cidade. Esta semana, Doria viajou para a Itália. Respondendo certa vez à pergunta de um jornalista sobre sua frequente ausência da cidade, Doria explicou que hoje em dia não é preciso estar em um lugar para governá-lo. As comunicações modernas resolvem o problema da distância. Pode-se governar pelo celular. Talvez por um aplicativo. O governo Doria é uma gestão moderna, que renovou a administração pública importando o espírito empreendedor dos capitalistas para a prefeitura.

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Antes de ser prefeito, nosso desbravador da administração municipal trabalhou em diversas áreas. Organizou, por exemplo, concursos de cães em Campos de Jordão, servindo como bobo da côrte para madames endinheiradas, e publicou a revista “Caviar Lifestyle” (“estilo de vida caviar”), revista que ninguém leu e recebeu generosas quantias do governo estadual de Geraldo Alckmin (PSDB) em publicidade. Animais, comida e estilo de vida estão relacionados a uma medida que Doria anunciou previamente à sua partida para a Itália. Trata-se do Programa Alimento para Todos.

Os céticos em relação à modernidade da gestão Doria veem-se agora obrigados a engolir suas palavras mais uma vez. O governo Doria inaugura uma nova era em um Brasil sob o golpe de Estado da direita. Sem petistas e demais forças de esquerda para impedir o progresso da política da direita, a prefeitura de São Paulo já demonstrou sua capacidade de criar métodos inovadores para implementar suas medidas. É o caso da demolição de prédio com gente dentro, por exemplo. Técnica pioneira de reforma urbanística.

Mesmo para Doria, no entanto, a última novidade rompe paradigmas. Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez. O programa para alimentar os pobres da cidade incluirá a distribuição de uma ração. O anúncio foi feito no domingo (8), no Parque do Ibirapuera, e publicado em um canal do prefeito no YouTube. Tipicamente as rações alimentam animais, como os cachorros domésticos, por exemplo. Mas Doria não se deixa limitar por preconceitos e concepções engessadas. A Prefeitura de São Paulo usará ração para alimentar seres humanos. Gente bastante parecida com a maior parte dos leitores dessa coluna, e com seu autor: com polegares opositores e telencéfalo altamente desenvolvido.

O alimento oferecido pela prefeitura, que tem formato de ração e é destinado a seres humanos, será fabricado a partir de produtos com prazo de validade próximo do fim ou que por alguma outra razão não possam mais ser vendidos nos mercados. A empresa que vai produzir a ração se chama Plataforma Sinergia.

O alimento que seria jogado no lixo será arremessado às bocas dos esfomeados deixados para trás pelo capitalismo. Apesar de ser um campeão da modernidade, Doria não despreza as tradições. Para adjetivar o composto alimentar, que ele afirma parecer “biscoito de polvilho”, o prefeito escolheu uma palavra do âmbito religioso. A ração seria um alimento “abençoado”.

A Plataforma Sinergia, que alimentará os pobres com lixo, é uma organização cristã. Doria quis agradá-los ao se referir às propriedades sobrenaturais de sua ração para humanos. A ração é “abençoada”, como a hóstia consagrada consumida nas missas. Ou como a palavra de Deus, que também é alimento: “nem só de pão viverá o homem” (Mateus 4:4). Por enquanto Doria ainda não é considerado divino, e suas palavras não alimentam ninguém. Contudo, o prefeito não aceitou calado as críticas que recebeu por sua ideia de dar ração aos pobres, e respondeu, por meio da imprensa, com as seguintes palavras, direto de Milão: “o alimento liofilizado dura anos. É o mesmo que os astronautas consomem em missões espaciais. É bom. Eu experimentei. Tem vários sabores”.

Longe do espaço e dos astronautas, aqui embaixo, dentro da atmosfera terrestre, os advogados de Doria são pagos para fiscalizar comentários em redes sociais, como o Facebook. Críticos do prefeito são ameaçados com processos, e em alguns casos chegam a ser processados. A preocupação é impedir que a população manifeste sua opinião sobre o prefeito. O ódio popular contra o alcaide paulistano prejudicaria a manipulação de futuras campanhas eleitorais. Essa operação, porém, não enfrenta o inconveniente maior para a candidatura perpétua de Doria: as declarações e as ações do próprio prefeito.

Tratar os pobres como cachorros por meio de uma política pública é pior do que qualquer coisa que qualquer um possa escrever em uma rede social. Dizer que uma ração é “abençoada” também. Pior ainda depois de cortar parte do leite que era distribuído para crianças da rede municipal de ensino. Pelo bem de Doria, seus advogados deveriam sugerir ao prefeito que ele renuncie. Em seguida, deveriam impedi-lo de falar, a fim de preservar sua imagem. Sugiro, nesse caso, que utilizem uma focinheira.

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