“Desaparecido”, cinema ensina sobre o golpe militar

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“Desaparecido” é  um dos meus filmes políticos favoritos, no original, “Missing”. A obra é do diretor greco-francês Costa Gavras.

No atual momento em que vivemos no Brasil um golpe de Estado, com uma ameaça de golpe militar que está sendo articulado pela alta cúpula do Exército brasileiro, o filme é um bom exemplo para que possamos entender o que é e quais são as consequências de uma intervenção.

O filme é uma produção de 1982, e é baseado num caso real do desaparecimento do jornalista norte-americano, Charles Horman. O roteiro é filme baseado no livro do escritor Thomas Hauser, “A execução de Charles Horman”, de 1978. O filme se inicia às vésperas do golpe de Augusto Pinochet no Chile, em 11 de setembro de 1973, quando o jornalista Horman, interpretado pelo ator John Shea, descobre que os EUA estão por trás do golpe.

A esposa do jornalista, feita pela atriz Sissy Spacek,  inicia uma busca, infrutífera, por ele e logo depois o pai do jornalista chega ao Chile para procurá-lo. 

Um dos aspectos muito interessantes é o retrato da selvageria com que os militares atacam o povo chileno, após o bombardeio ao Palácio de La Moneda, residência presidencial, que resultou na morte de Salvador Allende.

Em diversos momentos do filme são mostrados assassinatos em massa, tanques cruzando as ruas, a presença opressiva e ostensiva de soldados armados em cada esquina, parando carros, ônibus, revistando pessoas, o toque de recolher imposto pelo golpe e em todo o momento é possível ver cadáveres ensanguentados espalhados pelas ruas e calçadas.

Um dos momentos mais emocionantes do filme é quando são mostradas imagens do interior do Estádio Nacional, local onde os militares usaram para prender dezenas de milhares de pessoas o que acabou se tornando um depósito de mortos. Foi nesse Estádio que o cantor chileno, Victor Jara, foi morto e torturado após ter as mãos decepadas pelos militares.

O filme une todas as características essenciais para uma obra cinematográfica. Carrega no drama político, mas é cheio de suspense e rico em detalhes.

Entre os detalhes eu destaco duas cenas. Em uma delas o jornalista repara em uma festa que ocorre numa mansão onde os convidados, todos da burguesia chilena, interrompem, a conversa, a dança e a bebedeira para aplaudir um comboio militar que passa na rua. Aqui fica claro o apoio da burguesia chilena ao golpe.

Em outro momento é possível constatar a presença de torturadores brasileiros no Estádio Nacional quando é possível ouvir um oficial fazendo triagem de prisioneiros e falando em português. É conhecidíssima a colaboração dos militares brasileiros nas ditaduras dos outros países. Em outro filme de Costa Gavras, “Estado de Sítio” essa colaboração é bem mais explícita.

Outro aspecto que eu gostaria de ressaltar é como o golpe militar afeta todos, independente das convicções políticas. O pai do jornalista, interpretado pelo ator Jack Lemonn, chega ao Chile para procurar o filho. Ele visivelmente é um conservador que respeita as instituições e chega ao país sem ter a menor ideia do que está acontecendo. À medida que ele se depara com a truculência dos militares e a conivência da embaixada norte-americana com o regime ele se transforma e percebe o que está acontecendo.

Esta evolução do personagem é muito interessante para mostrar que um golpe militar não escolhe quem será afetado ou não.

Entre as curiosidades que envolvem o filme está o fato de que é uma produção hollywoodiana, a primeira de Costa Gavras, nos EUA. Uma obra feita por um grande estúdio, a Universal, mas que deu total liberdade para o cineasta. 

No filme, ao contrário das produções de praxe tem atores e figurantes falando os idiomas correspondentes e não como acontece todos os atores falando inglês. Os chilenos retratados no filme falam espanhol e a cena com o torturador brasileiro também é falada em português.

Como o filme foi feito em 1982, o golpe militar no Chile ainda estava em curso. As filmagens foram feitas no México. E um detalhe interessante. O filme foi proibido no Chile até a queda de Pinochet e também foi processado, juntamente com o autor do livro pelo governo norte-americano que disse que as acusações feitas ao embaixador retratado no filme eram mentirosas.  

O filme saiu de circulação no período de 1987 a 2006 e somente depois que o estúdio ganhou a processo voltou a ser divulgado. O interessante é que anos depois as acusações feitas no filme foram todas desmentidas por documentos oficiais e secretos do governo norte-americano que ficaram públicos. Os documentos revelaram o apoio incondicional da CIA à ditadura de Pinochet, mas também revelou que os EUA estavam tentando  impedir que Salvador Allende fosse eleito e, depois das eleições iniciou uma política para desestabilizar o governo, por meio da transferência de verbas milionárias para os militares nos dois anos anteriores ao golpe. Ou seja, uma conspiração de longa data que se assemelha muito com a situação do golpe atual no Brasil.

“Desaparecido” é um filme essencial para qualquer militante ou cinéfilo que queira ver bom cinema e refletir sobre o momento atual.

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