“Boliburguesia”: cobertura para o ataque direitista contra a Venezuela

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Há anos, direita e esquerda valem-se do termo “boliburguesia” para atacar o regime chavista, atribuindo-lhe múltiplos sentidos.

Para a direita venezuelana e brasileira, é sinônimo de corrupção.

Assim a define, por exemplo, o bestial Rodrigo Constantino: “aquela casta de novos ricos formada pela corrupção bolivariana durante a era Chávez (e ainda existente no período Maduro)”.

Para o imperialismo e, curiosamente, para os morenistas brasileiros do PSTU, a “boliburguesia” é uma “nova classe social”.

“Entende-se por ‘boliburguesia’ uma nova classe social pujante, composta por pessoas que enriqueceram durante o governo ‘bolivariano’ de Hugo Chávez”, diz uma reportagem da BBC em espanhol.

“Também se criou uma burguesia ligada ao chavismo, a ‘boliburguesia’. A boliburguesia acumulou inúmeras empresas e fez sua fortuna parasitando o Estado”, diz também Alejandro Iturbe, que assina um artigo no portal da Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT), codinome do PSTU.

Apelidos são uma criação coletiva, social. “Chavistas”, “lulistas”, “coxinhas”, “petralhas” atendem às necessidades da comunicação, da polêmica, do momento.

Classe sociais, não. Não podem ser inventadas de acordo com as necessidades e o andar dos acontecimentos políticos.

Quem inventou a “boliburguesia”?

Circulam por aí duas versões sobre a paternidade da “boliburguesia”.

Uma delas diz que o jornalista e intelectual Juan Carlos Zapata cunhou o termo para descrever empresários e funcionários públicos vinculados ao governo de Hugo Chávez, particularmente os que colaboraram com o governo durante a paralisação dos petroleiros. Zapata trabalha para Teodoro Petkoff, dono do semanário Tal Cual, de oposição ao governo.

Outra diz que a jornalista opositora Luz Mely Reyes criou o termo em 2004, depois da sabotagem de 2002-2003 na estatal PDVSA, mirando “certos grupos sociais localizados em postos-chave do governo, que começaram a enriquecer-se de diversas formas, todas, lícitas ou não, relacionadas com o poder do Estado”. Argimiro Duran, que contou esta história em um artigo de 2016, destacou que “a jornalista buscava caracterizar estes grupos sociais como afeitos ao governo e à revolução, mas com comportamentos burgueses. Neste sentido, o termo faz referência a um fato indiscutível, a presença de oportunistas que, disfarçando-se com uma camisa vermelha e uma retórica revolucionária, começavam a negociar na tradição ‘puntofijista’ [i.e., do pacto existente entres os dois principais partidos do regime burguês da IV República, da década de 50 aos anos 90], ou, melhor dizendo, na mais pura concepção das democracias liberais burguesas”.

Os “boliburgueses” seriam, portanto, nada mais do que os carreiristas que existem em todos os países, buscando vantagens pessoais nas suas relações com o Estado. Saindo de onde for, o termo foi cunhado pela oposição e é um “guarda-chuvas”, sob o qual todos os interessados em atacar o regime chavista se escondem.

Para quê?

Com o passar dos anos, a direita associou ao termo todo tipo de excessos. Os “boliburgueses” são ricos, excêntricos, exagerados, moram em mansões, dirigem carros caríssimos, comem do bom e do melhor. São acusações que se estendem de funcionários e ex-ministros às próprias filhas de Hugo Chávez.

Tomemos a descrição que abre um artigo recente da publicação espanhola El Independiente: “os burgueses bolivarianos, convertidos em 2017 em multimilionários graças a uma corrupção que fontes parlamentares venezuelanas calculam que esteja perto dos 700 bilhões de dólares em 15 anos”.

O que encontramos aqui? As “fontes parlamentares” venezuelanas são, na realidade, os deputados da direita, maioria na Assembleia Nacional. O número que apresentam, curiosamente, é o mesmo do orçamento militar norte-americano aprovado recentemente, ou das estimativas de gastos necessários pelo governo dos EUA para “frear as mudanças climáticas”. O conteúdo, portanto, só pode ser interpretado como uma acusação da oposição de direita contra o governo Maduro. Assim acontece, geralmente, quando se levanta a “boliburguesia” contra o chavismo.

Assim, o termo serve a acusações genéricas na imprensa burguesa, que prescindem da identidade dos sujeitos (os “boliburgueses”, que estão por toda parte, da corrupção estatal a escândalos financeiros internacionais) e se dirigem claramente contra o governo, que os teria criado.

Igualmente genérica é a acusação lançada pelo PSTU e parte da esquerda pequeno-burguesa que se tornou abertamente golpista, segundo o qual o regime nacionalista burguês de Chávez e Maduro “não tem nada de populista nem de progressivo”. Essa massa sem nome, a “boliburguesia”, tornou-se sustentáculo do regime. “Sua instituição fundamental é a cúpula das Forças Armadas, profundamente ligada à boliburguesia e à defesa dos seus lucros”.

É o espantalho ideal.

Assim o PSTU justifica o golpe que a direita vem há anos tentando dar contra o regime instalado por Chávez. Não se trata mais da luta da burguesia dos países atrasados contra o imperialismo. Trata-se de uma “boliburguesia” que apoia um regime autoritário.

Luta de classes: o que realmente está em jogo na Venezuela

Não é a luta contra “boliburguesia”, nem contra o “autoritarismo”, que mobiliza a atenção dos milhões de venezuelanos neste momento. Sua maior preocupação é impedir que o imperialismo derrube o governo chavista (seja por uma intervenção militar, como a que Trump sugeriu, seja pela ação da direita venezuelana, com suas “guarimbas”).

A “boliburguesia” não responde a uma realidade. É uma quimera.

Regime político nenhum é capaz de criar, em tão pouco tempo, uma nova classe social. No caso do chavismo, se levássemos em consideração as versões que alimentam as páginas da imprensa burguesa, teria levado apenas cinco anos para criar esta “nova classe”, a “boliburguesia”.

É evidente que existem elementos carreiristas no aparelho do Estado burguês, em empresas públicas, nas Forças Armadas e nos setores privados que buscam tirar vantagens comerciais das suas relações com o Estado. Não são privilégio da Venezuela. E não são também uma classe social.

Na Venezuela, a burguesia não é bolivariana. É a mesma de sempre, das famílias que, como a de Leopoldo López e de Henrique Caprilles, controlam grandes grupos empresariais.

A luta de classes na Venezuela passa por burgueses de carne e osso, que enfrentam com seu poder econômico e o apoio político e financeiro do imperialismo norte-americano milhões de trabalhadores e suas famílias, na tentativa de arrancar das suas mãos as riquezas do país.

Nesse momento, essa luta passa pela derrubada do governo de Nicolás Maduro, que colocou alguns obstáculos à dominação imperialista do País. E cabe à classe operária, na Venezuela e em toda a América Latina, combater o seu principal inimigo.

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