Coreia do Norte mostra como se lida com o imperialismo

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A Coreia do Norte é um país totalmente militarizado. Isso não é mentira da imprensa capitalista. A questão é: por que o país investe tanto em seu desenvolvimento bélico? É aí que chegamos no mar de desinformação e manipulação diária dos meios de comunicação a serviço dos interesses dos Estados Unidos.

A República Popular Democrática da Coreia é uma pequena nação, menor do que o estado do Amapá, localizada no extremo leste asiático cuja população é de pouco mais de 25 milhões de pessoas. Se encontra na metade norte da Península Coreana. Seria esse país uma ameaça à paz mundial? Claro que não.

Primeiro, porque o mundo não está em paz, não existe paz em nenhuma parte do mundo. Quem vê o discurso dos EUA sobre a Coreia do Norte reproduzido por seus porta-vozes da imprensa golpista nacional e da imprensa imperialista acredita que o mundo é um paraíso e está em perigo devido às ameaças de um gorducho maníaco. Pelo contrário: o imperialismo estadunidense é quem agride e destrói o mundo. Se a maior ameaça fosse a Coreia do Norte, o mundo estaria em paz.

Os EUA detêm 6.800 ogivas nucleares! Mais de 200 armas nucleares estadunidenses estão estrategicamente localizadas em outros países [1]. São os EUA que mantêm cerca de 800 bases militares pelo mundo, com pelo menos 150 mil efetivos que podem atacar qualquer ponto do planeta em questão de minutos; que jogam 70 mil bombas por ano sobre o Oriente Médio; que têm a maior presença militar inclusive no Mar do Japão [2]. E é justamente no Japão onde os EUA têm o maior número de tropas (39.345), espalhadas por 112 bases, desde o final da II Guerra Mundial. A terceira maior colônia militar dos EUA é exatamente a Coreia do Sul, com 23.468 tropas estadunidenses em 83 bases [3].

Como clara provocação à Coreia do Norte, os Estados Unidos realizam desde 1955 manobras militares “conjuntas” com Seul na fronteira com o Norte [4]. Este ano, já foram realizados dois grandes exercícios militares. No encerramento do último deles, dois bombardeios norte-americanos com capacidade nuclear sobrevoaram a Península [5]. Os EUA enviam porta-aviões, com igual capacidade nuclear, para as portas do isolado país [6] e instalaram recentemente o sistema antimísseis THAAD no norte da Coreia do Sul, outra clara ameaça à Coreia do Norte (e também à China), mas também à própria população sul-coreana [7].

Essa corrida armamentista dos EUA no leste asiático supostamente contra a ameaça norte-coreana tem um objetivo muito mais oculto. Ainda que não haja uma guerra contra a Coreia do Norte, nada disso está sendo feito em vão. Primeiro, porque marca a posição estadunidense em uma disputa geoestratégica com a China. Mas principalmente porque movimenta todo o motor da economia imperialista dos EUA, que é o seu complexo militar-industrial. O envio de modernos equipamentos para a região, aparelhos de última geração, gera uma soma inimaginável de lucro para os grandes capitalistas, que fabricam e vendem as armas para o governo dos EUA (que é controlado por eles) e obrigam seus regimes-fantoches de toda a região a comprar esses armamentos para alegadamente “se protegerem das hostilidades” da “ditadura” de Kim Jong Un.

A Coreia do Norte está completamente cercada por regimes capachos do imperialismo estadunidense, sufocada economicamente, com todas as mais sofisticadas armas de aniquilamento apontadas para seu povo, com ameaças diárias de que irá ser destruída, com a presença da maior potência assassina da história da humanidade – os EUA – bem ao lado. O próprio Kim Jong Un sofreu recentemente ameaças de morte da CIA [8] e do governo sul-coreano, que declarou publicamente que pretende decapitá-lo [9]. É Pyongyang o agressor?

Portanto, a Coreia do Norte não se arma até os dentes para atacar ninguém, como fazem os EUA. Ela se arma para se defender da barbárie imperialista. A RPDC se arma para evitar que suas escassas, mas importantes, riquezas naturais, sejam entregues aos grandes capitalistas. Se arma para evitar que as multinacionais entrem no país para saquearem tudo e explorarem os trabalhadores norte-coreanos. Se arma para que não haja um golpe de Estado, para não se transformar em um bordel do imperialismo como era antes da Revolução Coreana de 1945.

Os norte-coreanos não têm memória fraca. Sabem que seus avós sofreram graves atrocidades nas mãos dos imperialistas japoneses durante a ocupação, na primeira metade do século XX. E sabem que o país conquistou sua soberania na marra. Sabem que os EUA não permitiram e invadiram o sul da Península, instalando um regime fantoche que dura até hoje. Sabem que os EUA, para impedir a reunificação do país, despejaram mais bombas sobre a Coreia do Norte durante a Guerra da Coreia (1950-1953) do que haviam despejado em todo o Pacífico durante a II Guerra Mundial, incluindo mais de 30 mil toneladas de napalm [10]. Sabem que quase três milhões de pessoas perderam a vida naquela agressão imperialista, a maioria delas norte-coreanas. Sabem que seu país perdeu quase um terço da população que tinha [11]. Sabem também que os EUA ordenaram o massacre em massa de civis [12] e que quase utilizaram a bomba atômica naquela intervenção genocida [13].

Após a devastação provocada pelo imperialismo estadunidense, com total apoio da mesma ONU que hoje chama a Coreia de Norte de inimiga da paz, começaram as sanções. Elas não vêm de hoje. Assim como Cuba, a parte norte da Coreia sempre foi um país bloqueado. Enquanto existiu a União Soviética e os sistemas da chamada “Cortina de Ferro”, ela ainda pôde contar com alguma parceria. Depois disso, sofreu novamente com um brutal isolamento, aumento das sanções e catástrofes naturais que destruíram a maior parte das colheitas e parte de sua infraestrutura, causando sérias mazelas sociais durante os anos 90.

Foi a época mais dura para o país em quase 50 anos. O cerco imperialista asfixiou a Coreia do Norte, que teve de arrumar uma maneira para não ser vítima do ataque final: a destruição de sua soberania e de seu sistema, que, apesar de tudo, garante o atendimento de todas as necessidades básicas de sua população, como educação, saúde, moradia e segurança. O país teve de desenvolver mecanismos de dissuasão, teve de se armar à altura de seus agressores, fabricando armas nucleares e focando grande parte de seus recursos nas forças armadas (política conhecida como Songun, que significa justamente “o exército em primeiro lugar”).

Isso aconteceu também porque o governo norte-coreano viu o que ocorria ao redor do mundo. Após a chamada “Guerra Fria” (na verdade, tentativa de asfixia do imperialismo para derrubar a URSS), o imperialismo não deteu seus ataques. Arranjou novos inimigos. Destruiu muitos países mais, sendo os casos recentes mais conhecidos as invasões do Iraque, do Afeganistão, da Líbia e da Síria. Em alguns desses casos, como o Iraque e a Líbia, seus governos caíram no canto da sereia de que, se abandonassem seus programas nucleares, não sofreriam qualquer ameaça. Pelo contrário, a Coreia do Norte viu que esses dois países foram completamente destruídos, suas populações massacradas, seus líderes assassinados, seu território dividido, suas riquezas assaltadas. A Coreia do Norte não quer sofrer esse destino.

Todos os testes de mísseis, todos os lançamentos de foguetes, todas as bombas desenvolvidas e toda a força demonstrada nas suas paradas militares, além de toda a retórica de advertência são claros avisos aos imperialistas de que a Coreia do Norte vai defender sua soberania e suas conquistas até o fim. É muito improvável que os EUA tentem se aventurar contra um país que se mostrou mais preparado para se defender do que qualquer outro exemplo recente. Até porque uma nova guerra da Coreia teria uma magnitude infinitamente maior do que a primeira. Envolveria o mundo todo e poderia desencadear uma terceira guerra mundial, senão uma guerra nuclear nunca antes vista que destruiria boa parte do mundo como o conhecemos. A Coreia poderia até mesmo ser varrida do mapa, mas uma coisa ela garante: pelo menos um soco na cara (e bem dado) dos EUA ela daria. Acho que os EUA não querem isso, porque seria uma gigantesca humilhação.

O povo norte-coreano, ao contrário do propaga(ndea)do pela mídia terrorista a serviço do imperialismo, está consciente de que é preciso defender o seu país. Em agosto, impressionantes 3,5 milhões de pessoas buscaram se alistar nas forças armadas para defender a RPDC dos agressores ianques [14]. E na semana seguinte à declaração pública de Kim Jong Un respondendo às ameaças de Trump, nada menos que 4,7 milhões de estudantes e trabalhadores se voluntariaram para ingressar nas fileiras militares, incluindo 1,2 milhões de mulheres [15]. Esse não é um país que se ajoelhará para o saque imperialista.

NOTAS

[1] “Qual é o arsenal nuclear dos EUA que Trump diz estar ‘mais poderoso do que nunca’?”. UOL, 10/08/2017. https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2017/08/10/qual-e-o-arsenal-nuclear-dos-eua-que-trump-se-gaba-ao-ameacar-os-coreanos.htm

[2] Guillermo D. Olmo. “La inmensa red militar con la que Estados Unidos domina el mundo”. ABC, 17/04/2017. http://www.abc.es/internacional/abci-inmensa-militar-estados-unidos-domina-mundo-201704171957_noticia.html

[3] Oliver Holmes. “What is the US military’s presence near North Korea?”. The Guardian, 09/08/ 2017. https://www.theguardian.com/us-news/2017/aug/09/what-is-the-us-militarys-presence-in-south-east-asia

[4] Robert Collins. “A Brief History of the US-ROK Combined Military Exercises”. 38 North, 26/02/2014. http://www.38north.org/2014/02/rcollins022714/

[5] Jack Kim y Kaori Kaneko. “Bombardeios dos EUA sobrevoam península coreana em reação a míssil norte-coreano”. Reuters, 31/08/2017. https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/reuters/2017/08/31/bombardeiros-dos-eua-sobrevoam-peninsula-coreana-em-reacao-a-missil-norte-coreano.htm?utm_source=facebook.com&utm_medium=social&utm_campaign=fb-noticias&utm_content=geral

[6] Macarena Vidal Liy. “Porta-aviões dos EUA ‘Carl Vinson’ inicia manobras com a Coreia do Sul”. El País, 30/04/2017. https://brasil.elpais.com/brasil/2017/04/29/internacional/1493483830_392354.html

[7] Julian Ryall. “What is THAAD? South Korea’s best defense against a missile attack”. The Telegraph, 05/09/2017. http://www.telegraph.co.uk/news/0/thaad-south-koreas-best-defence-against-missile-attack/

[8] Eli Watkins. “CIA chief signals desire for regime change in North Korea”. CNN, 21/07/2017. http://edition.cnn.com/2017/07/20/politics/cia-mike-pompeo-north-korea/index.html

[9] Choe Sang Hun. “South Korea Plans ‘Decapitation Unit’ to Try to Scare North’s Leaders”. The New York Times, 12/09/2017. https://www.nytimes.com/2017/09/12/world/asia/north-south-korea-decapitation-.html

[10] Charles K. Armstrong. “The Destruction and Reconstruction of North Korea, 1950-1960”. The Asia-Pacific Journal, 16/03/2009. http://apjjf.org/-Charles-K.-Armstrong/3460/article.html

[11] Michel Chossudovsky. “North Korea: ‘Their Health System Sucks’, Do They have Schools and Hospitals… In America, We’ve Got Medicare…”. Global Research, 16/08/2017. http://www.globalresearch.ca/north-korea-their-health-system-sucks-do-they-have-schools-and-hospitals-in-america-weve-got-medicare/5604293

[12] David Morgan. “Report: Korean War-Era Massacre Was Policy”. AP, 14/04/2007. https://www.cbsnews.com/news/report-korean-war-era-massacre-was-policy/

[13] Robert Farley. “What if the United States had Used the Bomb in Korea?”. The Diplomat, 05/01/2016. http://thediplomat.com/2016/01/what-if-the-united-states-had-used-the-bomb-in-korea/

[14] “Mais de 3 milhões de norte-coreanos desejam se alistar para lutar contra EUA”. EFE, 12/08/2017. https://www.msn.com/pt-br/noticias/mundo/mais-de-3-milh%C3%B5es-de-norte-coreanos-desejam-se-alistar-para-lutar-contra-eua/ar-AApUrCv

[15] “N.K. claims 4.7 mln young people volunteer to join military against U.S.”. Yonhap, 28/09/2017. http://english.yonhapnews.co.kr/news/2017/09/28/0200000000AEN20170928005700315.html

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