Por que os nazistas do MBL arremeteram contra uma exposição de arte?

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Domingo (10) foi encerrada, um mês antes do previsto, a exposição Queermuseu, em Porto Alegre, no Santander Cultural. A exposição reunia 270 obras de 85 artistas e tinha como tema a “diversidade de expressão de gênero”. O encerramento antecipado da exposição foi resultado de um ataque e de uma campanha do Movimento Brasil Livre (MBL), organização de direita financiada por estrangeiros e por partidos de direita durante a operação golpista que derrubou o governo da presidenta eleita Dilma Rousseff.

Campanha Financeira 3

Segundo o curador da exposição, Gaudêncio Fidélis, os ataques do MBL aconteciam da seguinte maneira: “eles entravam continuamente na exposição e agrediam verbalmente os visitantes, artistas e até organizadores. A tática que usam é de filmar principalmente crianças e adolescentes e perguntar, aos gritos, se são tarados ou pedófilos. Os seguranças não deram conta de tirá-los do espaço”.

Ou seja, a ação foi organizada para assediar os frequentadores da exposição e impedi-los de vê-la. O pretexto dos nazistas do MBL para realizar esse assédio é que algumas obras expostas seriam, segundo eles, uma “apologia” a crimes como pedofilia e zoofilia. Um argumento que a direita tenta usar contra obras de arte a todo tempo, apontando a representação de qualquer coisa como uma apologia, para enquadrá-las em um crime previsto em lei. Os coxinhas também levantaram como argumento para acabar com o evento o fato de que algumas obras ofenderiam religiões cristãs, como se estivéssemos sob uma monarquia absolutista religiosa medieval.

A ação do selvagem MBL para censurar a arte serviu de estímulo para outros coxinhas e já teve desdobramentos em outros lugares. Em Campo Grande um quadro exposto no Marco (Museu de Arte Contemporânea) foi denunciado por deputados estaduais e apreendido pela polícia civil. O quadro, da exposição Cadafalso, uma denúncia contra o machismo e a pedofilia, intitulado “Pedofilia”, foi acusado de… “pedofilia”. Outras exposições foram “inspecionadas” pelo país por parlamentares de direita inimigos do povo e da liberdade de expressão, aspirantes a censores.

O pretexto em todos esses casos é apenas isso: um pretexto. A verdadeira motivação dos conservadores para impedir a expressão alheia é ideológica. Querem impor uma determinada moral para o conjunto da sociedade, usando para isso o Estado, por meio de acusações criminais, ou simplesmente atacando pessoas como fizeram em Porto Alegre.

A motivação ideológica desses obscurantistas, no entanto, é superficial. No fundo da questão, como sempre, está a luta de classes.

O golpe de Estado de 2016 foi um ataque frontal contra a classe trabalhadora, que colocou a burguesia na ofensiva, em todos os aspectos, inclusive na frente ideológica. Desde que deram o golpe, os direitistas já promoveram uma destruição catastrófica no Brasil, com a reforma trabalhista, o corte de gastos públicos com serviços para a população, a destruição da política de conteúdo nacional no setor de petróleo e o leilão do pré-sal. Todo esse desastre ainda é apenas o começo, caso os golpistas consigam continuar implementando seu programa de liquidação do país.

Nesse cenário de terra arrasada que a direita está preparando contra os trabalhadores e a população em geral, a tendência é muito forte de que o povo resista. A direita precisa impedir essa resistência, que pode colocar tudo a perder. E para impedir essa resistência, parte do plano consiste em controlar o que as pessoas pensam, bloqueando as críticas ao regime que está sendo estabelecido no marco da perseguição às organizações operárias, aos partidos de esquerda, aos sindicatos e aos movimentos populares.

Em 1938, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, Leon Trótski, junto com o poeta surrealista André Breton, lançou o Manifesto por uma arte revolucionária independente. O texto trazia uma palavra de ordem central: toda liberdade em arte! O manifesto alertava: “nunca a civilização humana esteve ameaçada por tantos perigos quanto hoje”. Um desses perigos era justamente o ataque às condições da criação intelectual, na cultura em geral (ciências, artes, etc.). Trótski denunciava o cerco à cultura sob o capitalismo, seja em sua forma democrática ou fascista, e também na URSS sob a burocracia stalinista.

O problema para esses regimes era a tendência revolucionária das artes. Trótski explicava: “A revolução comunista não teme a arte. Ela sabe que ao cabo das pesquisas que podem ser feitas sobre a formação da vocação artística na sociedade capitalista que desmorona, a determinação dessa vocação somente pode ocorrer como o resultado de uma colisão entre o homem e um certo número de formas sociais que lhe são adversas”. Um pouco adiante, continuava: “A necessidade de emancipação do espírito só precisa seguir seu curso natural para ser levada a fundir-se e a revigorar-se nessa necessidade primordial: a necessidade de emancipação do homem.”

É essa tendência revolucionária inerente à cultura que a direita precisa anular hoje no Brasil. É por isso que a direita é inimiga da liberdade de expressão e da cultura em geral. Para aplicar o programa neoliberal no Brasil, o programa do imperialismo para os países atrasados, a direita precisa esmagar os trabalhadores. Inclusive sua liberdade de expressão para criticar o regime. E também a liberdade de expressão de artistas, que tenderão a entrar em um embate contra a destruição provocada pelos golpistas.

Sob a censura moralista, que é real, esconde-se essa outra censura, fundamental na luta da burguesia para aumentar a exploração neste momento de crise. A operação da direita já vai muito além da da censura contra exposições de arte. Há o projeto cinicamente chamado de “Escola Sem Partido”, o projeto dos partidos de direita para se apoderar da escola, que consiste em vigiar e assediar professores para impor uma ideologia de direita nas escolas.

Para a direita já não é suficiente o monopólio da imprensa capitalista por meio de seus jornais, canais de TV e de rádio e grandes sítios eletrônicos. A direita precisa exercer um controle ideológico direto sobre escolas e universidades em todo o território nacional. O Brasil dominado definitivamente pelos golpistas precisa ser um país amordaçado. Por isso o ataque da direita contra os trabalhadores e suas organizações é acompanhado de uma campanha para estabelecer e justificar a censura e para destruir a liberdade de expressão e a liberdade nas artes e na cultura em geral.

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