Sacco e Vanzetti: a justiça em favor dos poderosos

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Há 90 anos, no dia 23 de agosto de 1927, nos Estados Unidos, os operários Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti foram executados na cadeira elétrica, por um crime que não cometeram. Nos autos do processo, nenhuma prova da autoria do crime.

A propósito desta data nossa coluna quer lembrar do caso e também do belíssimo filme do italiano Giuliano Montaldo que retratou o episódio com maestria que traz um tema muito atual para os dias de hoje.

No dia 15 de abril 1920 ocorreu um assalto a uma fábrica de calçados na cidade de South Braintree, no Estado de Massachussets, Estados Unidos. Durante o assalto dois homens foram mortos. Tudo indicava que esse era mais um crime realizado por uma das muitas quadrilhas que atacavam fabricantes e comerciantes. A burguesia local com medo da revolta popular iminente exigiu uma rápida solução para o caso.

Em 5 de maio do mesmo ano, dois homens foram presos. Eram operários, estrangeiros e anarquistas.  O sapateiro Nicola Sacco e o peixeiro Bartolomeu Vanzetti. De início foram acusados por porte de arma ilegal e em seguida acusados de dois assassinatos ocorridos em meados de abril do mesmo ano.

A imprensa burguesa norte-americana imediatamente passou a divulgar a prisão dos “bandidos italianos” e a sua filiação anarquista como prova moral que justificasse a criminalidade.

O juiz nomeado para o caso, Webster Thayer, que não tinha nenhuma inclinação à imparcialidade e o procurador, Frederick Katzmann, um burguês agarrado as suas tradições e que controlava as principais atividades econômicas do Estado de Massachusetts se juntaram para condenar os dois operários italianos.

No julgamento, mais de 107 pessoas testemunharam que os acusados não estavam na cena do crime. Tudo foi desconsiderado. As testemunhas de acusação, sob forte pressão da opinião pública de direita, se contradiziam. De todas as testemunhas, apenas três afirmaram terem visto Sacco em South Braintree antes do acontecido.

Sete anos, foi o tempo que a justiça levou para condená-los, a contar do recebimento da denúncia do promotor de justiça pelo juiz em 1920 ao veredito em 1927. Durante estes longos sete anos o caso de  Sacco e Vanzetti teve repercussão internacional,  comitês de defesa foram criados e uma campanha nacional e internacional foi feita por trabalhadores, sindicatos, associações de diversos países.  Os advogados de defesa inclusive encontraram um dos homens que cometeu o crime na fábrica em South Braintree, mas o juiz desconsiderou o depoimento do culpado e não absolveu Sacco e Vanzetti da condenação à cadeira elétrica.

O filme de Giuliano Montaldo, de 1971, com os ótimos atores Gian Maria Volonté, como Vanzetti, e Riccardo Cucciolla, como Sacco, é extremamente comovente. Embalado pela magnífica trilha sonora do mestre Ennio Morricone e na voz da cantora Joan Baez. A obra cinematográfica é facilmente encontrada em DVD ou na internet. Vale a pena assistir.

Outras obras artísticas foram realizadas a partir do caso dos operários anarquistas condenados pelo imperialismo. Pelo menos dois livros romanceados, um de Howard Fast e outro de Katherine Anne Porter, mas também peças de teatro, ilustrações e muitos livros documentais, um deles escrito por Clovis Moura, “Sacco e Vanzetti: o Protesto Brasileiro”.

O caso de Sacco e Vanzetti é um dos milhares de casos onde a justiça faz o que mais sabe, atuar em favor dos poderosos. No Brasil outro conhecidíssimo caso é dos Irmãos Naves, Sebastião e Joaquim dois lavradores da cidade de Araguari em Minas Gerais, também presos, torturados por um crime que não cometeram em 1937, durante a ditadura Vargas. O tema também já foi retratado no cinema no também belíssimo filme de Luís Sérgio Person, “O Caso dos Irmãos Naves” (1967).

O tema é recorrente. No Brasil de 2013, Rafael Braga, 29 anos, foi preso durante as manifestações no Rio de Janeiro, por portar dois frascos: um de desinfetante Pinho Sol e outro de água sanitária. A Polícia Militar o acusou de portar material explosivo. O jovem negro e pobre amarga a prisão enquanto que Breno Fernando Solon Borges, de 37 anos, foi preso em flagrante, em abril deste ano, com 129,9 quilos de maconha e munições para armas de calibre 7,62 mm e 9 mm. Como ele é filho da presidente do Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul, Tânia Garcia Freitas, recebeu habeas corpus e vai receber tratamento psiquiátrico.

A perseguição política continua, o caso do momento é a caça insana de Sérgio Moro e todo o aparato do Estado, aí incluso a imprensa golpista, à Lula e qualquer um que não interessar aos donos do golpe. A condenação e prisão de Lula é peça fundamental dos golpistas para garantir que as dezenas de conquistas retiradas com as reformas trabalhista e da previdência, terceirização, cortes de verbas por 20 anos, privatização das empresas, universidades, rodovias, Amazônia e tudo o mais que for vendável seja mantido. É mais um caso da justiça em favor dos poderosos. O que muitos que se abstêm ou simplesmente se opõem à luta contra a condenação de Lula é que se hoje prendem ele nessas condições completamente arbitrárias, amanhã pode ser qualquer um. Inclusive você!

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