Para o PSTU não existe nacionalismo em lugar nenhum

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Terça-feira (5), depois de uma reunião dos BRICS, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, declarou o seguinte sobre a crise da Coreia do Norte em uma entrevista coletiva: “Alimentar a histeria militar não levará a nada de bom. Pode levar a uma catástrofe mundial”. Putin colocou-se contra as novas sanções econômicas impostas à Coreia do Norte E fez duras críticas à diplomacia norte-americana. “É ridículo nos colocar na mesma lista de sanções que a COreia do Norte e então pedir que ajudemos a impor essas sanções contra a Coreia do Norte. Isso está sendo feito por gente que confunde a Austrália com a Áustria [referência a uma gafe de George W. Bush, quando era presidente dos EUA].”

Ao mesmo tempo, Putin condenou os testes da Coreia do Norte, uma concessão ao imperialismo. Em um único assunto, Putin tem uma posição anti-imperialista e conciliadora com o imperialismo ao mesmo tempo. Esse exemplo recente é justamente o que caracteriza o nacionalismo burguês dos países atrasados no mundo inteiro. Por um lado, a burguesia nacional se apoia nos trabalhadores contra o imperialismo e tem que buscar uma conciliação com a classe operária, por meio de programas sociais e direitos trabalhistas. Por outro lado, a burguesia nacional busca um acordo com o próprio imperialismo.

Nacionalismo burguês e imperialismo

Da vacilação inerente à política dos governos nacionalistas burgueses em países atrasados, a esquerda pequeno-burguesa se apressa em concluir que os governos nacionalistas burgueses são governos do próprio imperialismo. Negam-se a reconhecer as contradições entre as burguesias nacionais e a burguesia imperialista. Cada concessão das burguesias nacionais é exibida pela esquerda pequeno-burguesa triunfalmente como prova definitiva de que não há contradições entre um determinado governo e o imperialismo. Para isso, a esquerda pequeno-burguesa recorre ao mito, e ajuda a alimentá-lo, de que o nacionalismo deveria ser absolutamente intransigente com o imperialismo.

O problema é que uma característica fundamental de um governo nacionalista burguês em um país atrasado é justamente a conciliação com o imperialismo. O governo nacionalista burguês inflexível diante do imperialismo não pode ser encontrado em nenhum lugar do mundo a não ser na mitologia da pequena burguesia de esquerda. As burguesias de países atrasados são fracas e não têm capacidade de enfrentar o imperialismo. Só a classe trabalhadora pode ser consequente até o fim na luta contra a dominação imperialista em um país atrasado. Uma luta internacional, da classe trabalhadora mundial. O embate da burguesia nacional com o imperialismo é necessariamente limitado.

Ao substituir uma análise objetiva das contradições entre as burguesias nacionais e a burguesia imperialista por uma ideia abstrata de nacionalismo como oposição absoluta ao imperialismo, a esquerda pequeno-burguesa não entende e torna-se cúmplice da política do próprio imperialismo.

PSTU

É o caso do PSTU em relação à Venezuela, ao Egito, à Ucrânia e ao próprio Brasil. Diante da campanha imperialista para derrubar o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, o PSTU está pedindo um “venezuelaço” para derrubar Maduro (Um ‘venezuelaço’ para derrubar Maduro”, publicado no dia 2 de agosto no sítio eletrônico do PSTU)). Um dos argumentos é justamente o de que o chavismo não é suficientemente anti-imperialista. “Quem não rompe com o imperialismo e o capital financeiro, cedo ou tarde, acaba sendo seu instrumento”, diz o PSTU.

Nenhum nacionalismo burguês rompe com o imperialismo. Se isso acontece, o governo deixa de ser nacionalista burguês, é um deslocamento à esquerda, com a adoção de uma política que corresponde aos interesses da classe trabalhadora. O PSTU não compreende esse problema, não enxerga as contradições entre o imperialismo e a burguesia nacional dos países atrasados e por isso apoia os golpes de Estado perpetrados pelo imperialismo enquanto diz defender uma política revolucionária.

Durante a revolução cubana, iniciada por um movimento nacionalista burguês, houve um deslocamento à esquerda. A própria pressão do imperialismo levou o processo mais à esquerda, porque ficou claro que não seria possível combater o imperialismo de forma consequente mantendo uma política burguesa e mantendo uma burguesia cubana que fatalmente levaria ao retrocesso da luta contra a dominação estrangeira. A Venezuela se encontra hoje nessa mesma encruzilhada. O que o PSTU propõe é ignorar as contradições do nacionalismo burguês com o imperialismo e na prática apoiar o golpe do imperialismo. Em plena campanha do imperialismo para derrubar o governo.

Foi a mesma incompreensão que levou o PSTU a apoiar um golpe militar no Egito, que estabeleceu uma ditadura pior do que a anterior e levou à proibição do maior partido do país e à perseguição de seus membros. Assim como o golpe na Ucrânia, com a participação de nazistas e do imperialismo.

Brasil

No Brasil, o PSTU levou adiante essa mesma política, apesar de estar diante dos acontecimentos. O erro da análise política do PSTU levou a todo tipo de objeções à constatação objetiva de que havia contradições entre o governo nacionalista burguês e a burguesia imperialista. A lei antiterrorismo remendada, mas sanciuonada, por Dilma Rousseff, era indicada pelo PSTU como evidência de que o PT estaria fazendo um governo para o imperialismo. As reformas feitas pelos governos petistas também eram apontadas como evidência de que o PT já estaria fazendo o que o imperialismo pretendia para o Brasil.

Persistindo nesses erros, o PSTU deu sua contribuição ao golpe espalhando a confusão entre a esquerda no país. As reformas dos golpistas demonstram uma colossal diferença entre o que o imperialismo pretende para o Brasil e o que o PT vinha fazendo. O PT era um obstáculo para o imperialismo.

A esquerda pequeno-burguesa insiste nesse erro até hoje, e continua afirmando que não haveria grande diferença entre o PT e o golpe, a ponto de negar, junto com a Folha de S. Paulo, o Estado de S. Paulo e O Globo que tenha sequer havido um golpe. É uma frente do PSTU com a família Marinho para negar o golpe que todos estão vendo.

Essa postura leva a esquerda pequeno-burguesa a ser cúmplice do governo golpista, embelezando suas reformas. A destruição da CLT, a terceirização, a venda do pré-sal, a destruição da política de conteúdo nacional, os cortes em gastos sociais e nos gastos públicos, o plano de fazer uma reforma da Previdência etc., tudo isso fica encoberto pela esquerda pequeno-burguesa quando os partidos pequeno-burgueses de esquerda comparam o governo petista ao governo do golpe.

A esquerda pequeno-burguesa foi cúmplice do golpe por ocasião da subida da direita ao poder, e continua sendo cúmplice do golpe agora que a direita leva adiante no Brasil o plano imperialista para os países atrasados: a catástrofe neoliberal.

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