Desaforos: música de Chico Buarque é tapa na cara da direita

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Em época de golpe de Estado está aflorada a polarização de posições políticas nas ruas, calçadas, reuniões de família, restaurantes, conselhos, assembleias e em todas as esferas públicas da sociedade. Chico Buarque vivenciou um bate boca na porta de um restaurante no bairro do Leblon, Rio de Janeiro em 2016, que serviu de inspiração para uma música do seu mais novo trabalho como compositor.

Atacado por suas posições políticas de esquerda, Chico Buarque assume que compôs “Desaforos”, de seu recém-lançado álbum “Caravanas”, pensando nessas agressões. Durante entrevista Chico diz ter partido da ideia de fazer algo com a “elegância popular” de um “samba-canção do Cartola”, ele diz: “De repente ela começou a ficar parecida com coisas que acontecem hoje em dia, não digo nem nas redes sociais, mas até mesmo nos restaurantes e na rua. Tem pessoas que viram a cara para você e você não sabe: ‘O que eu fiz?”

As cenas cotidianas que se transformam em ataques pessoais são demonstrações de parte da sociedade conservadora e reacionária que atacam aqueles que lutam contra o golpe.  Nada melhor do que tapa na cara em forma de música deste que sempre soube inserir em suas musicas criticas irônicas dos momentos políticos, com elegância de luva de pelica.

Desaforos

Alguém me disse
Que tu não me queres
E que até proferes desaforos pro meu lado
Fico admirado por incomodar-te assim
Jamais pensei
Que pensasses em mim

Nunca bebemos
Do mesmo regato
Sou apenas um mulato que toca boleros
Custo a crer que meros Iero-Ieros de um cantor
Possam te dar
Tal dissabor

Vejo-te a fianar pela avenida
Como dama
Florescida num viveiro
E em salões que nunca vi
Serei o primeiro a duvidar
Que em horas vagas
Os teus lábios delicados
Roguem pragas por aí

Ouço dizer, mas
Deve ser mentira
Nem a tua ira eu acredito que mereça
Ou que vires a cabeça pra enxergar no breu
Um vagabundo como eu

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