Hitler: pioneiro das privatizações e do neoliberalismo

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Quando um nazista de Facebook diz que Aécio Neves é comunista, embora a frase seja ridícula, podemos adivinhar o que o idiota está tentando dizer: o autor de um comentário desses é tão direitista que, em relação a ele, Aécio Neves estaria aparentemente à esquerda. Seguindo seu próprio “raciocínio”, a lógica interna de sua insanidade, o coxinha extrapola suas conclusões chegando ao resultado de que tudo que não seja uma ditadura absoluta do capital é “comunismo”.

É assim que nasce também o falso debate de que o nazismo seria “de esquerda”. Como o neoliberalismo precisaria ir mais longe do que Hitler em sua ditadura do capital contra os trabalhadores, para um monstro neoliberal Hitler não seria suficientemente direitista. Por isso alguns chegam ao ponto de dizer que o nazismo seria “de esquerda”, do mesmo jeito que um fascista de internet esbraveja contra os “comunistas” do PSDB. Eles ao mesmo tempo querem ser piores do que Hitler e se livrar de sua má fama.

Mas deve-se dizer que, no caso de Hitler, os neoliberais não apenas fazem uma afirmação sem nenhum sentido como também cometem uma injustiça com seu parceiro de combate aos trabalhadores e aos comunistas. Adolf Hitler foi um pioneiro do neoliberalismo e quem levou o neoliberalismo mais longe até hoje, dadas as condições em que se encontrava. Esse é o autêntico “neoliberalismo real”.

Em plena guerra os grandes capitalistas tinham liberdade para decidir como fariam seus investimentos na Alemanha nazista. Foi em favor desses grandes capitalistas que o nazismo foi colocado no poder, por esses próprios capitalistas. Esse é o fato fundamental da história da subida do fascismo ao poder no século XX. A burguesia decidiu que precisava de uma ditadura feroz para derrotar o comunismo e esmagar os trabalhadores.

Além disso, a burguesia alemã empreenderia uma guerra imperialista pelo controle do mercado mundial contra as demais nações imperialistas. Para financiar essa empreitada o Estado burguês alemão precisava de dinheiro para impulsionar a indústria armamentista. Foi nesse marco que a burguesia colocou em marcha um grande programa de privatizações sob o comando do governo nazista.

O programa nazista de privatizações

Os nazistas moldaram os regimes burgueses contemporâneos de muitas formas. Do canhão de água para reprimir manifestações de rua, passando por torturas usadas por policiais em “interrogatórios” em toda parte até a teoria do “domínio do fato” utilizada no Brasil para perseguir petistas na esfera jurídica. Uma das contribuições do nazismo ao regime burguês foi um programa pioneiro de privatizações.

Os alemães inventaram até uma palavra para a privatização de empresas privadas que tinham sido compradas pelo Estado, especialmente depois do crash de 1929. A palavra “Reprivatisierung”, que entraria para o inglês como “reprivatization” e hoje pode ser encontrada nos dicionários da língua portuguesa como “reprivatização”.

Com a crise de 29 os estados nacionais da burguesia tinham comprado grandes empresas e bancos para salvar o decadente modo de produção capitalista e mantê-lo funcionando artificialmente, sustentando o sistema de exploração da classe trabalhadora. Na década de 30 nenhum dos países mais importantes e desenvolvidos do capitalismo estava promovendo privatizações do modo que se tornaria comum no último quarto do século XX. Com uma exceção: a Alemanha nazista.

Como mostra um estudo assinado por Germà Bel, da Universidade da Catalunha, publicado na revista The Economic History Review de fevereiro de 2010, sob o título “Against the mainstream: Nazi privatization in 1930s Germany”, o governo Hitler promoveu a venda de bancos, ferrovias, empresas de mineração, estaleiros etc. Muito antes de sermos obrigados a amargar editoriais do Globo, do Estado de S. Paulo ou da Folha de S. Paulo louvando as privatizações, o debate sobre as privatizações tomou conta da Alemanha logo que os nazistas foram colocados no poder pelos grandes capitalistas.

Venda de tudo

Hitler e seu banqueiro, Hjalmar Schacht, responsável no governo nazista pela privatização de tudo

Hoje, Michel Temer, o golpista colocado pelo imperialismo no lugar de Dilma Rousseff, derrubada por um

processo fraudulento de impeachment, está liquidando todo o patrimônio nacional. Muitos antes dele o fizeram, como por exemplo o general Augusto Pinochet, no Chile, durante sua ditadura militar. Pinochet teve a assistência de Milton Friedman para traçar seu plano econômico. Para essa mesma tarefa, Hitler nomeou um banqueiro como ministro da Economia na primeira fase de seu governo. Hjalmar Schacht comandou a venda do patrimônio público alemão até 1937. Quando deixou o cargo as privatizações já estavam concluídas.

O governo nazista vendeu a maior empresa pública do mundo na época, a Deutsche Reichsbahn, companhia de ferrovias. Vendeu também a Gelsenkirchen Bergbau, empresa de mineração que dava ao governo controle de um grande conglomerado de siderurgia. O Estado alemão tinha adquirido a Gelsenkirchen Bergbau em 1932, justamente para ter controle sobre a siderurgia nacional, evitando que caísse em mãos estrangeiras e socializando as perdas dos capitalistas com a Grande Depressão. A compra foi feita por 364% do valor. Os nazistas venderiam a empresa e o controle da siderurgia passaria às mãos de Fritz Thyssen, um dos grandes industriais que apoiaram o partido nazista.

Além das ferrovias e de grandes empresas de mineração e siderurgia, os nazistas também venderam estaleiros e o controle de rotas de transporte pelo mar. Finalmente, Schacht comandou a transferência para mãos privadas dos bancos públicos. Por causa da crise capitalista, o Estado alemão passou a deter 70% do sistema bancário, contra 40% antes da crise. Schacht reverteu esse processo e devolveu grandes bancos para a iniciativa privada. Entre 1935 e 1937, tratou de privatizar o Deutsche Bank, herança dos nazistas que dura até hoje, um suplício para os trabalhadores da Alemanha e de todos os países da União Europeia (UE).

 

Ingratos

Por tudo isso, os neoliberais de hoje revelam enorme ingratidão com seu grande antecessor. Apegam-se a diferenças circunstanciais entre o que imaginam como ideal e a política de Hitler para tentar se desfazer de sua herança política. Isso acontece hoje porque ser um entusiasta do nazismo tornou-se feio. Antes de os nazistas fazerem tudo o que fizeram contra os trabalhadores e comunistas alemães e contra as populações dos países invadidos pelos nazistas, no entanto, não era assim. Os precursores do neoliberalismo não renegavam o fascismo como fazem hoje.

É por isso que Ludwig von Mises, por exemplo, um guru dos chamados “libertários”, ala ideológica mais extremista do neoliberalismo hoje, fazia grandes elogios ao fascismo no começo do movimento, e até chegou a fazer parte do governo austrofascista católico de Engelbert Dolfuss.

Em 1927, von Mises dizia o seguinte sobre o fascismo, em seu livro Liberalismo segundo a tradição clássica, em passagem já citada neste espaço anteriormente: “Não se pode negar que o fascismo e movimentos semelhantes, visando ao estabelecimento de ditaduras, estejam cheios das melhores intenções e que sua intervenção, até o momento, salvou a civilização europeia. O mérito que, por isso, o fascismo obteve para si estará inscrito na história. Porém, embora sua política tenha propiciado salvação momentânea, não é do tipo que possa prometer sucesso continuado. O fascismo constitui um expediente de emergência”. A emergência era derrotar os trabalhadores com muito violência, expediente que pode ser usado de novo, com apoio entusiasmado de “liberais” e “libertários”.

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