Bandido bom é bandido morto

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Você sai de carro e para em um sinal de trânsito. De repente, do nada, aparece aquele sujeito com uma arma na mão. É você e ele, a arma apontada para sua cabeça, e ele pedindo, exigindo algo, seu carro, sua carteira.

O momento é de terror, porque você vê sua vida por um fio. Aquele sujeito, o assaltante, pode ou não ter controle sobre seus atos, pode ser um principiante (sim, assaltantes principiantes têm o gatilho mais leve, o risco é maior), e com certeza estará tenso.

Nessa ocasião, que podem ser segundos ou minutos, mas para você parecerá uma eternidade, tudo o que é construído socialmente terá influência, imperceptível na ocasião, mas terá.

Todo esse discurso de ódio, de bandido bom é bandido morto, se alastra pela sociedade, pelo consciente e inconsciente das pessoas, e, espalhado pelo meio social, não tem corrente política, não encontra limite apenas nas pessoas que se conceituam como pessoas de bem.

Aquele sujeito com a arma na sua cabeça também estará influenciado pelo bandido bom é bandido morto, um dito tão vulgar e adaptável que, falando rápido, só sobressai a palavra MORTO.

E não adianta o argumento de que com o bandido bom é bandido morto teremos menos bandidos. Aliás, difícil até para a polícia saber quem são todos os bandidos, se apenas, nas expectativas mais otimistas, 8% dos crimes de homicídio, por exemplo, chegam a ser levados à justiça.

Não, o mantra bandido bom é bandido morto não diminui a quantidade de crimes, mas, para além de difundir um pensamento que é criminoso por si só, acaba espalhado pelo meio social, atingindo a todos com sua mensagem de morte e intolerância, de abandono do estado de direito.

Naquele momento crucial da sua vida, em que você rezará para que o assaltante não puxe o gatilho, porque o que está em jogo é apenas um bem material, naquele momento em que você pedirá aos céus tranquilidade para o próprio assaltante, para que ele não use de violência desnecessária para obter o que é comprável, naquele momento estará lá todo o espectro propagado pela frase bandido bom é bandido morto.

Não vivemos em uma sociedade saudável, com estabilidade econômica e justiça social, sabemos disso, a insatisfação se dá em variados níveis. A palavra bandido, como se usa no Brasil, acaba se encaixando em muitas situações (é o vizinho bandido, o político bandido, o profissional incompetente e mal intencionado bandido, o motorista bandido, o marido ou a esposa bandidos etc), e ela estará lá, a frase estará lá, pairando sobre a cabeça do assaltante e do assaltado.

O tal bandido, mesmo o bandido que assalta a mão armada, não é bandido vinte e quatro horas por dia. Fora aqueles minutos do assalto, ele pode ser um pai, um irmão, é um filho, pode ter uma casa e morar em um bairro, pobre, mas um bairro comum. Com certeza, o assaltante tem contato com a mídia, social e televisiva, e ouve constantemente o bandido bom é bandido morto.

Os próprios bandidos institucionalizados nas penitenciárias consideram uns bandidos e outros não, porque a palavra bandido serve para cristalizar o mal presente na sociedade em uma pessoa, possibilitando com que o sentimento sobre o mal, identificado e direcionado, se alivie na imolação do outro.

Resta torcer para não ser assaltado. Contudo, nem as autoridades de segurança pública têm mais ideia de quantos assaltos, furtos ou roubos, acontecem na esquina da sua casa. Muitas pessoas sequer se dão ao trabalho de enfrentar a burocracia de uma delegacia de polícia para narrar um furto a fim de sair de lá com o seu precioso boletim de ocorrência.

O mote bandido bom é bandido morto acaba sendo como uma espécie de catarse, um grito irracional de desespero onde se deposita o descontentamento com toda a injustiça social, com a criminalidade e a violência, mas não é, sem dúvida, uma frase mágica.

O bandido bom é bandido morto não mete medo no criminoso, mas tem ocasionado mais ódio, mais raiva, mais indiferença, podendo influenciar naquele momento crucial em que a sua vida ou o seu relógio estão em jogo.

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