Até onde vai o morenismo?

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Há 100 anos, a classe trabalhadora russa tomou o poder do Estado na revolução proletária mais acabada da história até o momento. Organizados em um partido consciente de sua tarefa, os trabalhadores foram bem sucedidos em derrotar a burguesia e em tomar o Estado em suas mãos, criando um modelo para as revoluções futuras. A experiência da revolução russa é repleta de lições políticas para o movimento operário, é uma escola da estratégia revolucionária. As lições da Revolução Russa não servem apenas para os momentos em que há uma revolução iminente na ordem do dia, mas para a luta política em geral.

Uma dessas lições é a divisão das classes intermediárias diante de uma polarização política mais intensa entre as duas classes fundamentais em luta no capitalismo, o proletariado e a burguesia. Entre a burguesia e o proletariado, a pequena burguesia tende a rachar. Durante a revolução russa, as direções dos partidos pequeno-burgueses, os mencheviques e socialistas revolucionários, terminariam se colocando ao lado da burguesia contra os trabalhadores e os bolcheviques.

Os dirigentes pequeno-burgueses se colocaram ao lado da contrarrevolução, combatendo os trabalhadores, os bolcheviques e a revolução. Enquanto parte de suas bases se deslocou para o lado dos trabalhadores. O socialista revolucionário Alexandre Kerenski chegou ao ponto de encabeçar um governo burguês, tentando continuar com a guerra que penalizava a população e reprimindo brutalmente os bolcheviques.

Os socialistas revolucionários também foram completamente para a direita durante a guerra civil que se seguiu à revolução. Em sua autobiografia, Minha vida, Leon Trótski, comandante do Exército Vermelho durante o conflito, conta como coordenava as ações dos vermelhos a partir de um trem. Por meio desse trem, em que ele viajava pessoalmente, Trótski fazia a ligação entre os diversos frontes e a retaguarda. Ao longo da guerra, os socialistas revolucionários juntaram-se ao exército branco e chegaram a atacar esse trem, além de atentarem contra a vida de Lênin.

Diz Trótski, no capítulo “O Trem”: “O trem ganhou o ódio de seus inimigos e tinha orgulho disso. Mais de uma vez, os socialistas revolucionários fizeram planos para destruí-lo. No julgamento dos socialistas revolucionários, a história foi contada em detalhes por Semyonov, que organizou o assassinato de Volodarsky e o atentado contra a vida de Lênin, e também tomou parte nos planos para a destruição do trem.”

Ou seja, diante do antagonismo entre o proletariado e a burguesia, nos momentos decisivos da revolução, os dirigentes pequeno-burgueses passaram completamente para o lado da contrarrevolução, fazendo uma frente com a burguesia para tentar derrotar os trabalhadores.

Venezuela

Hoje na Venezuela também há uma polarização intensa entre a burguesia e os trabalhadores, embora não esteja colocada uma situação de revolução iminente. De um lado, o imperialismo pressiona o governo cada vez mais, e a burguesia ligada diretamente ao imperialismo procura sabotar o País. Do outro lado, o governo de Nicolás Maduro é apoiado pelos trabalhadores e por setores da burguesia nacional ligados ao Estado.

Diante dessa polarização, setores da esquerda pequeno-burguesa venezuelana já estão se bandeando para o lado da contrarrevolução, em plena campanha golpista da direita. É o caso dos grupos que reivindicam a herança de Nahuel Moreno, revisionista do marxismo que se reivindicava “trotskista”. Como os grupos morenistas Marea Socialista, ligado ao brasileiro Movimento Esquerda Socialista (MES, corrente de Luciana Genro no Psol); Unidade Socialista dos Trabalhadores (UST), ligado ao PSTU e membro da LIT-QI; e do Partido Socialismo e Liberdade (PSL), ligado à Corrente Socialista dos Trabalhadores (CST), corrente do ex-deputado Babá no Psol.

O PSL levantou a palavra de ordem de “Fora Maduro!”, enquanto a UST pede um “venezuelaço” para derrubar Maduro. A política da Marea Socialista vai no mesmo sentido. O erro dos morenistas na Venezuela, em uma conjuntura mais dramática, é parecido com o erro cometido no Brasil diante do golpe do imperialismo contra o governo do PT. Os morenistas propõem uma revolução para superar Maduro como política imediata, no momento em que não há nenhuma revolução em curso. Propõem uma miragem política enquanto a direita ataca o governo para tomar o poder. Na prática, apoiam a direita golpista na Venezuela, da mesma forma que apoiaram no Brasil. A “revolução” dos morenistas nesta conjuntura significa não fazer nada.

Na Venezuela, o governo nacionalista burguês de Maduro está sendo pressionado pelos golpistas. Os trabalhadores estão com Maduro e por isso a direita quer derrubar seu governo. O ataque ao governo é para esmagar os trabalhadores organizados. Diante dessa situação, o chavismo pode ser empurrado à esquerda. Para derrotar os golpistas, na luta contra a derrubada do governo Maduro, a única saída para os trabalhadores será expropriar os capitalistas e tomarem o poder, caso contrário os capitalistas continuarão usando seu poder econômico para sabotar a economia e para derrubar o governo. Caso os trabalhadores tomem essa direção, e superem o chavismo por sua experiência própria (não pela pregação abstrata dos morenistas), os grupos morenistas indicam desde já que estarão ao lado da contrarrevolução.

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