A cilada do “Lugar de Fala”

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Vitor Teixeira

Rascunho automático 67

Imagine um debate em um coletivo negro em que uma mulher nordestina de pais negros, cabelo encaracolado e lábios grossos é impedida de falar sobre o preconceito que sofre, por não ter a pele escura. Esse é o relato de Carolina*, militante do movimento negro que se deparou com o conceito do lugar de fala. Suas colegas de “militância” a proibiram de falar sobre determinada opressão por não ter a pele escura o suficiente. As quelóides apresentadas por Carolina – característica da pele negra – não foram suficientes para comprovar sua negritude.

Círculos reduzidos de uma classe média abastada criaram uma tese, dentro de movimentos sociais identitários e universidades, que sustenta que uma pessoa só pode falar sobre um determinado grupo social caso ela pertença a este grupo social. Segundo a teoria, só pode falar de assuntos relativos aos negros quem for negro, só fala de homossexuais quem é homossexual, só fala de mulher quem é mulher. Se você não respeitar essa regra, será impedido de falar, como aconteceu com Carolina. Será “lacrado”, para usar outra expressão do dicionário pós-moderno.

Mas o lugar de fala não é uma conclusão isolada, senão que faz parte de um pacote de conceitos que determinam raça/opção sexual/gênero como premissa para toda e qualquer discussão. Empoderamento através de artigos de moda que evidenciem seu pertencimento a determinado grupo social; e representatividade através da participação de negros e mulheres na publicidade e em programas de TV; são alguns exemplos deste pacote. Segundo essa ótica, o racismo, a homofobia e a misoginia seriam exterminados através da disseminação desse ideário, e conceitos clássicos como a luta de classes, como ferramenta central para a emancipação do povo negro e das mulheres, seriam tema do passado, algo obsoleto, superado.

Recentemente, um funcionário do Ministério das Relações Exteriores, escreveu um texto em seu Facebook sobre a “mercadofobia”. No texto, o cidadão aponta que “a mercadofobia é um dos maiores preconceitos do Brasil”, e alerta que “somos muitos, e estamos saindo do armário, com muito orgulho do anseio de liberdade que empunhamos; só queremos viver em paz, livres para contratar como e quem quisermos”. Em resumo, o cidadão vestiu seu idealismo neoliberal com o pacote identitário esquerdista.

Não é de hoje que outros setores de fora da esquerda vêm se apropriando do dicionário identitário. Já existe um sem número de peças publicitárias que defendem o direito das “minorias” de terem seu lugar de fala garantido nos meios de comunicação burgueses. A marca de cerveja Skol, da internacional Ambev, fez latas com cores de pele para propagandear a luta contra o racismo; a Coca-Cola Company fez uma lata de Coca Cola com os dizeres “Essa Coca é Fanta sim, e daí?” para celebrar o dia do Orgulho LGBT; a marca de cosméticos Boticário colocou transexuais e pessoas gordas numa propaganda de TV para celebrar a “diversidade entre corpos”; entre muitos outros exemplos recentes. O mercado notou que o “lacre” pode dar lucro, muito lucro.

Todo movimento social tem autodeterminação para traçar sua própria política, mas se consultarmos a história das lutas desses movimentos, é raro encontrar um momento em que os agentes de comunicação do capitalismo se apropriaram de maneira tão clara de teorias idealizadas por movimentos sociais auto-proclamados de esquerda. Seria natural criticar esse enlace de empresas e conceitos emancipatórios criados na academia, caso não houvesse nesse pacote idealista o conceito de lugar de fala.

Recentemente o vereador pelo DEM Fernando Holiday foi enquadrado por militantes de esquerda por estar fazendo uma espécie de ronda ideológica em escolas municipais da cidade de São Paulo. Os militantes usaram o termo “capitão do mato” para ilustrar o absurdo da ação, em alusão aos negros que caçavam escravos fujões para seu senhor de engenho. A ex-secretária adjunta de direitos humanos da cidade de São Paulo, e funcionária da Rede Globo, Djamila Ribeiro, saiu em defesa de Holiday utilizando seu lugar de fala: “Não, pessoas brancas, vocês não podem usar um termo que vocês mesmos criaram e se beneficiam. Que o discurso dele é desprezivel, sem dúvida, mas cobrar-se e aos seus pares pela manutenção do racismo, a branquitude não faz. Tomar vergonha na cara, a branquitude não quer”.

Na mesma linha, outro caso periclitante é a criação dos sensitivity readers, por editoras de livros. Os editores levaram as demandas do lugar de fala tão à sério que “leitores sensíveis” serão contratados para revisar obras, para certificar que nenhuma “opressão” seja publicada. Trocando em miúdos, em breve os pós-modernos serão funcionários de uma versão suavizada da Divisão de Censura do Departamento de Polícia Federal, responsáveis por apagar polêmicas e esmagar opiniões divergentes. Uma censura branca para um golpe branco.

Essa série de exemplos demonstra que a esquerda pequeno-burguesa chegou, com o lugar de fala, no ponto mais alto de suas alucinações. Ganharam postos em programas e propagandas de TV em troca da sua subserviência ao capitalismo e do abandono da luta de classes. Em breve veremos a defesa de novos extratos sociais, afinal, só fala da bolsa de valores quem for acionista e só fala de capitalismo quem for capitalista.

*Carolina é um nome fictício criado para evitar retaliações.

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