A derrota da contrarrevolução de Kornilov em agosto de 1917

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Em agosto de 1917, ocorreu uma tentativa de golpe de Estado contrarrevolucionário na Rússia. Como já salientamos em outros artigos, a correlação de forças na Revolução Russa entre fevereiro e outubro de 1917 não foi um processo contínuo, na verdade, assemelhou-se a um pêndulo entre a revolução e a contrarrevolução.

Depois das Jornadas de Julho, o governo Kerensky convocou a conferência de Moscou para tentar estabelecer uma maior centralização política, mas como apreciou o líder do Partido Cadete Miliukov “o país estava dividido em dois campos entre os quais não poderia haver nem reconciliação, nem acordo” (citado por Trotski, História da Revolução Russa, p.566).

O governo provisório apoiado pelos partidos dos democratas conciliadores (mencheviques e socialistas revolucionários) era tragado pela polarização e demonstrava-se completamente incapaz em lidar com as contradições a cada dia mais agudas na conjuntura revolucionária. Por sua vez, a direita prepara uma alternativa contra-revolucionária: a derrubada do governo dos conciliadores e através de um golpe militar estabelecendo um regime contrarrevolucionário.

Kerensky , cúmplice da conspiração, aspirava ele próprio dirigir o complô, entretanto os setores ligados à burguesia e às forças conservadores pretendiam um regime de força que esmagasse o menor vestígio da Revolução de Fevereiro de 1917. Para essa finalidade, foi arquitetado um golpe militar contra Kerensky, dirigido pelo general Kornilov, que apresentava como programa central não simplesmente a deposição do governo, mas a criação de um poder forte contra o povo.

O governo demonstrava irresolução e indecisão: “os conciliadores se assustaram perante as massas e Kerensky perante as classes possuidores. As massas populares exigem a abolição da pena de morte no front. Kornilov, os cadetes, as embaixadas da Entente, exigem a instituição dessa pena na retaguarda.“ ( Trotski, História da Revolução Russa).

A política dos golpistas do Exército Russo foi a mesma adotada pela classe dominante francesa na derrota da guerra Franco-Prussiana em 1870 e na preparação para o esmagamento da Comuna de Paris, em 1871. Preferiram entregar a capital do País para o inimigo externo para decapitar as forças revolucionárias, mesmo que para isso tivessem que desmoralizar as instituições nacionais e preparar a capitulação e reprimir o movimento de massas.

A sublevação de Kornilov era preparada abertamente, e consistia em tomar o centro do poder por fora, com a aproximação das tropas golpistas de Petrogrado, combinado por um movimento por dentro, com tropas no interior da capital fieis aos golpistas ocupando os pontos centrais de comando, além de invadir o Instituto Smolny, dissolvendo os sovietes e liquidando os trabalhadores, em especial os militantes bolcheviques.

“Durante aqueles mesmos dias Petrogrado vivia de uma dupla ansiedade. A tensão política, exagerada propositalmente pela imprensa, comportava uma exploração. A queda de Riga aproximou o front.” (Trotski, idem). A evacuação da capital, apresentada como uma necessidade da guerra, era um pretexto para o deslocamento dos regimentos revolucionários para fora da capital, para garantir o sucesso do golpe.

Depois de muito hesitar, Kerensky destitui Kornilov do comando do Exército, quando o golpe já estava em andamento. Entretanto, a derrota desmoralizante do golpe de Kornilov, quando as tropas golpistas não conseguiram nem sequer chegar em Petrogado, e teve seus efetivos desarticulados antes do combate, foi fruto da ação decisiva dos bolcheviques, que mesmo perseguidos e caluniados pelo Governo, lutaram contra a derrubada do governo dos conciliadores pelos golpistas contra-revolucionários.

Os conciliadores e o governo estavam completamente prostrados diante dos golpistas, capitulando vergonhosamente para a contrarrevolução. Será o Partido Bolchevique que organizará de maneira decisiva a resistência contra o golpe, e através dos agitadores políticos atuaram por dentro das próprias tropas de Kornilov, para dissuadi-las do enfrentamento.

Além disso, através da sabotagem do deslocamento das tropas, a dispersão dos contrarrevolucionários foi completa. Isso é significativo para entender que até mesmo as questões técnicas eram no fundo questões políticas.

“Os generais haviam-se habituados, durante os anos de guerra, a pensar que os transportes e os serviços de Ligação fossem meras questões de técnica. Eram agora obrigados a constatar que aqueles serviços também constituíam questões de política”( Trotski, idem, 603p.)
O aspecto mais relevante na política bolchevique era a concretude e sobretudo a capacidade de articulação dos aspectos táticos com a luta estratégica para a conquista do poder. Assim, não houve nenhuma vacilação em lutar contra o golpe da direita, mesmo que isso significasse impedir a queda de um governo conciliador, ou seja, para atuar efetivamente é preciso saber estabelecer uma hierarquia das prioridades e diferenciar os adversários.

Em relação a isso, Leon Trótski ilustra a política bolchevique a partir da descrição de uma passagem no interior das prisões do governo Kerensky:

“Durante as horas de folga, os marinheiros acorriam à prisão, para visitar os homens de Kronstadt, ali detidos, assim como para visitar Trotsky, Raskolnikov e outros. “ já não é tempo de prender o Governo?” perguntavam os visitantes? “Não, ainda não é,”_ ouviam como resposta: “colocai o fuzil no ombro de Kerensky, e atirai contra Kornilov. Acertaremos as contas com Kerensky depois” ( Trotski, idem,p.605).

A vitória da contrarrevolução e do golpe da direita representaria o esmagamento da revolução, sendo que os próprios bolcheviques certamente seriam destroçados pelos golpistas, como a experiência da chegada dos nazistas ao poder na Alemanha viria demonstrar nos anos 30.

Longe do “ Fora Todos”, que na prática seria apoiar o golpe de Kornilov, o eixo central da política bolchevique era a derrota em primeiro lugar do golpe da direita. Essa política de mobilização revolucionária para evitar o golpe da direita que derrubaria o governo conciliador e levaria a uma intensa repressão contra os trabalhadores, permitiu não somente a organização da resistência contra o golpe e foi um passo decisivo que preparou concretamente a mobilização pela conquista do poder pelos trabalhadores.
Uma análise da Revolução Russa não pode ser uma mera distração acadêmica como tanta outras da ” esquerda marxiana” nas universidades. Neste sentido, é importante ressaltar a importância da apreensão das lições da política bolchevique na luta contra o golpe de Kornilov para a formulação de uma tática política correta nos dias atuais no Brasil.
Chama atenção que a política revolucionário dos bolcheviques em relação ao golpe da direita é o oposto da política da esquerda -pequeno burguesa no Brasil. Ao contrário, dos bolcheviques que enfrentaram o golpe da direita, os supostos ” socialistas” do PSTU e muitas parcelas do PSOL apoiaram a queda do governo do PT, e em nome do ” esquerdismo” e da luta contra a ” corrupção” adotaram uma posição favorável aos golpistas da direita. Certamente nas inúmeras ” comemorações” dos 100 anos da Revolução Russa nas universidades pelo país afora, vamos ver o desfile das ” estrelas marxianas” da esquerda burguesa ( PCB,PSOL e PSTU e seus rachas) falando que a revolução foi isso e foi aquilo, entretanto, precisamos perguntar ao eminentes Doutores marxianos como explicar a política contra-revolucionária e anti-bolchevique de fazer frente com a direita mais reacionária, que se traduziu no apoio ou a omissão diante do golpe da direita no Brasil em 2016.

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