Jornadas de Julho em 1917 na Rússia: os bolcheviques evitam o esmagamento da Revolução ao rejeitar a tomada prematura do poder Parte II

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Antonio Eduardo Alves de Oliveira

As forças imperialistas pressionaram o Governo Provisório russo para retomar o envio das tropas russas como bucha de canhão na I Guerra. Acontece que um dos motivos fundamentais para a realização da revolução foi justamente a estrondosa oposição da população, em particular dos próprios soldados, contra a participação dos efetivos russos nos combates da Grande Guerra.

A retomada da ofensiva militar russa, ou seja, dos compromissos com as potências imperialistas aliadas, França e Inglaterra, era mascarado sob o argumento que seria em defesa da “revolução”, assim a aprovação pelo Parlamento de um novo empréstimo de guerra; apelidado pelas forças apoiadoras do governo de “empréstimo da Liberdade”.

Os preparativos para as Jornadas de Julho relacionam-se com o descontentamento com os péssimos resultados da “ofensiva”, ou seja, a continuidade da mortandade dos soldados russos; além disso, a negativa dos conciliadores dirigentes dos sovietes em tomar efetivamente o poder. Acontece que a percepção dessa situação era muito aguda em Petrogrado, não sendo apreendida na sua real dimensão pelo conjunto do país. Sendo que a impaciência era muito mais sentida entre os soldados, como destacou Trótski ao analisar o estado de ânimo das massas nas vésperas das Jornadas de Julho.

“Os soldados, via de regra , mostravam-se mais impacientes que os operários: primeiro porque estavam sob a ameaça direta de serem enviados ao Front; segundo porque assimilavam com maior dificuldade as razões da estratégia política” (Trótski, História da Revolução Russa).

As palavras de ordem lançadas pelos bolcheviques desde de abril, contra o apoio ao governo provisório pelas direções conciliadoras “Nenhum apoio ao Governo Provisório“, sobretudo “Todo poder aos sovietes”, colocava em xeque a política de coabitação do poder entre as direções dos trabalhadores e a burguesia. Entretanto, um problema chave era que as direções majoritárias dos sovietes não estavam dispostas a romper com o Governo Provisório e tomar o poder para os sovietes.

Neste processo de deterioração política, a própria burguesia apresenta uma política de desgaste político do Governo Provisório, com o abandono em fins de junho de quatro ministros Cadetes do governo. Dessa forma, os conciliadores não conseguem a governabilidade compartilhada e a ofensiva na guerra apresentava seus primeiros sinais de esgotamento. O principal dirigente do partido burguês MiliuKov oferece uma política de encurralamento dos conciliadores, buscando uma situação crítica para estabelecer um governo sem compromissos (ainda que parciais) com os sovietes.

Em 3 de julho, uma manifestação armada é organizada; com destaque para o 1º Regimento de metralhadoras da capital, que ao apresentar a reivindicação de “Abaixo a ofensiva!” já apontava “Todo poder aos Sovietes”, e propunham a derrubada do governo com a mobilização por “Abaixo Kerensky!”
Realizam inúmeros meetings, bastante tumultuados, que evidenciavam a efervescência política que tomava conta da capital e indicava um desenvolvimento importante das massas para posições revolucionarias “as circunstâncias e os estados de opinião modificam-se tão rápida e bruscamente que mesmo a mais flexível das organizações como sovietes se atrasavam” ( Trótski, idem).

Um aspecto da efervescência política é a realização de meeting massivos, mas marcados por improvisações, em que ao mesmo tempo indicavam a disposição para a luta como também impaciência e mesmo um relativo tumulto, em que tentativa de análise de forças, era apresentada como irresolução. Neste cenário, Trótski assinala o surgimento de tendências anarquistas ou semi-anarquistas de colocar “fogo na fogueira”, em que “insinuam-se de surpresa elementos ocasionais nem sempre muitos seguros”.

Neste sentido, como acompanhar “Fio a Fio, o complexo tecido dos movimentos de massas”, essa questão foi decisiva para a vitória da revolução. O Partido Bolchevique liderado por Lênin através da análise e da ação conseguiu efetivamente liderar o movimento para evitar a derrota em Julho e depois derrotar a contra –revolução em agosto e promover a insurreição vitoriosa em outubro em 1917.

“Petrogrado adquiria consciência da sua força tomava impulso, esquecendo de olhar para trás, para as províncias, ou para frente, para o Front o próprio partido Bolchevique, já não era mais capaz de moderar a capital. Nesta conjuntura somente a experiência poderia ajudar”. Uma manifestação armada. O que vamos fazer? “não nos manifestaremos, mas não podemos abandonar os operários à própria sorte, e é por isso marchamos com eles” , (Trótski, idem).

Por sua vez, no Palácio Taúride – os conciliadores classificam as Jornadas de Julho como uma conspiração bolchevique. O Governo Provisório e a “democracia oficial”reprimiu duramente as manifestações das massas populares e dos soldados, sendo que a “democracia oficial” aproveitou a ocasião para acirrar e atacar os trabalhadores e soldados, pois apesar das forças repressivas não terem condições de derrotar a manifestação, em julho, ainda eram suficientemente poderosas para desorganizar e dispersar as massas através da provocação repressiva. Evidentemente, que o governo e os conciliadores colocam toda responsabilidade nas próprias vitimas, uma vez que os excessos eram atribuídos aos “anarco bolcheviques”, apresentados como agentes do imperialismo alemão.

As Jornadas de Julho tiveram como saldo 29 mortos e 114 feridos. Essa derrota foi importante, mas não foi decisiva, sobretudo pela atuação do Partido Bolchevique que evitou um enfrentamento prematuro e de maior envergadura entre as massas revolucionárias e as forças repressivas (naquela ocasião formalmente controladas pelos “democratas”).

Do ponto de vista da avaliação política, a experiência das Jornadas de Julho, teve uma relevância inclusive para clarificar para o próprio Partido Bolchevique o desenvolvimento do processo revolucionário. Assim, para Lênin “o partido julgava ainda possível o desenvolvimento pacífico das transformações políticas, por meio da mudança da política nos sovietes, ao passo que, na realidade, os mencheviques e os socialistas-revolucionários já se achavam de tal maneira desnorteados e presos pelos entendimentos com a burguesia e esta se tornara de maneira contra-revolucionária que não se podia pensar em qualquer espécie de desenvolvimento pacífico”. A esse respeito comenta Trótski: “os manifestantes entregar poder dos sovietes e, para isto, era indispensável que os sovietes consentissem toma-lo”.

Na sua obra Historia da Revolução Russa, Leon Trótski assinala que o Partido Bolchevique evitou dois erros que teriam consequências catastróficas para a política revolucionária. Uma primeira questão é que de forma nenhuma um partido revolucionário pode abandonar as massas a sua própria sorte, apresentando um doutrinarismo tipicamente pequeno-burguês, ou seja “as massas estão erradas” e “não seguem os líderes certos”. Isso levaria o movimento para a exasperação e a consolidação de uma política desesperada de lideranças ou grupos inconsistentes em termos da estratégia revolucionária.

“Se o partido bolchevique, teimando em julgar doutrinariamente ‘inoportuno’ o movimento de Julho, tivesse voltado as costas às massas, a semi-inserreição teria, inevitavelmente caído nas mãos da direção dispersiva e sem planejamento dos anarquistas, dos aventureiros, de interpretes ocasionais da indignação das massas, e teria derramado todo o seu sangue em convulsões estéreis”.

Um outro ponto seria, o inverso, ou seja adotar uma política aventureira de que é possível em qualquer circunstância tomar o poder, sem levar em conta a correlação de forças, e a perspectiva geral.

“Se tivesse, colocando-se à frente dos metralhadores e dos operários de Putilov, tivesse renunciado ao julgamento sobre a situação no seu todo, e tivesse deslizado pelo caminho dos combates decisivos, a insurreição, indubitavelmente, teria alcançado amplitude audaciosa, e os operários e os soldados, sob a direção dos bolcheviques, ter-se-iam. Todavia, apoderado do poder, tão somente para prepararem o desmembramento da revolução”.

Na Rússia, os bolcheviques evitaram a desagregação, e apesar da derrota, o movimento revolucionário apreendeu com a experiência, “a classe operária, ao sair da prova, não estava nem decapitada nem exausta. Conservou integralmente os quadros de combate e esses quadros aprenderam muito” (Trótski). Sendo que “o partido das massas deveria colocar-se no terreno em que se colocavam as massas a fim de ajuda-las a assimilar as deduções indispensáveis com o menor número de perdas possível sem participar absolutamente das ilusões delas”.

Neste sentido, os bolcheviques que tudo fizeram para limitar o movimento de julho a uma manifestação de forças, evitando uma luta decisiva, para Lenin, as Jornadas de Julho era algo intermediário entre uma manifestação e uma revolução, uma vez que havia na manifestação elementos de uma insurreição.

A atuação do partido bolchevique foi fundamental na bifurcação política nas Jornadas de Julho em 1917 na Rússia, evitando duas variantes históricas de revoluções derrotas na França no século XIX, ambas analisadas por Marx: o esmagamento do proletariado em junho 1848 e em 1871, na experiência da Comuna de Paris.

Um outro exemplo histórico marcante que revela pela negativa a importância de uma política correta em momentos decisivos como as Jornadas de Julho, foi o resultado de revolução não concluída que levou ao fascismo na Alemanha.

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