Efeito Corbyn: conservadores perderam distrito que controlavam há 176 anos

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As eleições de 8 de junho no Reino Unido foram marcadas pelo fracasso do Partido Conservador em manter sua maioria no Parlamento. A primeira-ministra Theresa May antecipou as eleições, que poderiam acontecer apenas em 2020, para tentar garantir uma vitória a tempo de evitar o crescimento do Partido Trabalhista. Na imprensa burguesa, essa manobra foi apresentada como uma tentativa de May de se fortalecer diante das negociações do Brexit, mas na verdade May estava tentando impedir uma catástrofe para seu partido.

A manobra, no entanto, mesmo nessa perspectiva foi fracassada. May perdeu a maioria no Parlamento e foi obrigada a compor uma coalizão com um pequeno partido da Irlanda do Norte ligado à extrema-direita, o DUP (Partido Unionista Democrático). Sua posição para negociar os termos do Brexit ficou prejudicada, começando pelas próprias discordâncias dentro da nova coalizão, com o DUP. Por conta disso, sua liderança começa a ser contestada dentro do partido, o que poderia levar à sua substituição e até mesmo a novas eleições.

Essa situação representa uma crise do regime político no Reino Unido. Essa crise do regime levou primeiro a uma crise do bipartidarismo, com a formação de uma grande bancada dos Liberais Democratas em 2010, que participaram do governo conservador em uma coalizão. Depois disso, houve o grande crescimento eleitoral da extrema-direita, como no resto da Europa, com o UKIP (Partido da Independência do Reino Unido), então sob a liderança de Nigel Farage. O UKIP não conquistou uma grande bancada parlamentar graças à eleições distritais.

A crise do regime, também como no resto da Europa, é resultado da crise da política neoliberal, de cortes de gastos públicos e ataques aos direitos trabalhistas. Depois da crise do bipartidarismo e da ascensão eleitoral da extrema-direita, um problema bem mais consistente surgiu diante da burguesia britânica no último período. A classe trabalhadora, por meio de seus sindicatos, tomou a liderança do Partido Trabalhista, o partido de esquerda do regime, apoiando a eleição de Jeremy Corbyn para comandar o partido a partir de 2015.

Imediatamente, a extrema-direita entrou em crise e praticamente desapareceu nessas eleições, diante do deslocamento à esquerda de um dos principais partidos do regime. Fenômeno que por enquanto nao se repetiu nos demais países europeus, onde a esquerda continua atrelada ao projeto neoliberal e a extrema-direita aparece, com seu discurso demagógico, como única opositora dos ajustes impostos pela União Europeia (UE).

Além de liquidar a extrema-direita, a liderança de Jeremy Corbyn está tendo outro efeito sobre o regime. Contra toda a campanha da imprensa burguesa, Corbyn fez seu partido crescer no Parlamento, enquanto a direita entrou em declínio. Um distrito foi particularmente ilustrativo nesse sentido. No distrito de Canterbury, a deputada Rosie Duffield foi eleita com 45% dos votos, destronando Julian Brazier, que reinava no distrito há 30 anos.

Muito mais do que 30 anos, a região era representada por deputados conservadores há 176 anos. Uma demonstração do terremoto político que o deslocamento do trabalhismo poderá causar no Reino Unido, com uma mobilização caracterizada pela oposição frontal ao neoliberalismo.

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