“Jornadas de Julho” em 1917 na Rússia: os bolcheviques evitam o esmagamento da Revolução ao rejeitar a tomada prematura do poder Parte I

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O desenvolvimento da crise revolucionária em 1917, colocou o movimento de massas e as organizações operárias e populares diante de muitas variáveis políticas, mas que no fundamental indicava uma situação pendular entre a constituição do poder revolucionário dos trabalhadores ou esmagamento da revolução pela forças contra-revolucionárias.

A intervenção do Partido Bolchevique, sobretudo a partir da chegada de Lenin em abril, foi decisiva para a vitória da revolução proletária. A defesa da independência política dos trabalhadores, com a recusa de uma política de conciliação, expressa na negativa em apoiar o Governo Provisório, ( “Nenhum Apoio ao Governo Provisório”) e na defesa da palavra-de-ordem Todo Poder Aos Sovietes são exemplos contundentes da importância da política bolchevique para clarificar as tarefas concretas colocadas na revolução. Da mesma forma, a ação ativa e eficaz para tomar efetivamente o poder no momento determinante em outubro é marcante quando analisamos em retrospecto o papel relevante do partido revolucionário comandado por Lênin em 1917.

Entretanto, existe uma intervenção fundamental do Partido Bolchevique , que é pouco salientada ou mesmo eclipsada quando se analisa a Revolução Russa, refiro-me a atuação Bolchevique nas chamadas “ Jornadas de Julho”. Por intermédio de uma compreensão justa da correlação de forças e com uma atuação concreta, os bolcheviques assumiram a direção das massas para impedir um confronto prematuro, que levaria ao esmagamento das possibilidades revolucionárias.

A magnitude da importância do estudo do significado das “ jornadas de Julho” e do papel dos Bolcheviques naquela ocasião pode ser mensura pelo destaque dado por Leon Trotski na sua monumental obra Historia da Revolução Russa. Encontramos os três capítulos iniciais do Segundo Volume dedicados a análise das “ jornadas de Julho” ( cap1. As “ jornadas de julho”: Preparativos e Inicio; cap2 : As “ Jornadas de Julho”: ponto culminante e esmagamento; cap.3 Poderiam os bolcheviques tomar o poder em julho?).

Uma semi-revolução ou uma revolução isolada na capital arrastaria as massas revolucionárias para um confronto direto contra o Governo Provisório, sendo que apesar do rápido deslocamento para posições políticas revolucionárias e mesmo o sentimento de impaciência das massas com a continuidade da política de colaboração com a burguesia por parte das direções oficiais ( mencheviques e bolcheviques) notadamente em Petrogrado, ainda perduravam muitas ilusões nos conciliadores sobretudo nas localidades afastadas do capital.

Além do mais, como as massas não estavam preparadas para a luta decisiva, uma imprudente tentativa de tomada do poder, quando as condições ainda não estavam plenamente maduras, não acarretaria uma duradoura conquista do poder (apenas ocasionaria a derrubada por curto lapso de tempo do governo burguês), e provocaria em contrapartida um refluxo da onda revolucionária e favoreceria a contra-revolução. Fato esse, que pode ser comprovado a partir da analise das experiências históricas das revoluções derrotadas ( principalmente na Alemanha). Neste sentido, é correto afirmar que uma ação precipitada ( tomar o poder a qualquer custo) certamente teria como resultado a própria liquidação da revolução.

Quando acompanhamos a descrição e a análise de Trotski sobre o que foram e sobretudo qual o significado das “ Jornadas de Julho” para o desenvolvimento posterior da revolução, bem como a partir de analogias históricas como uma política errada diante de outras “ jornadas de julho” levaram a derrotas colossais, fica o questionamento porque os intelectuais “marxistas “ou melhor “marxianos” (sic) ligados a esquerda pequeno burguesa acadêmica procuram “ pular” ou evitar uma discussão sobre as “ jornadas de julho” e sobretudo a tática bolchevique nestes acontecimentos.
Isso ocorre, por uma questão muito simples, o verdadeiro conteúdo do debate sobre a Revolução Russa, e sua real importância é que não é apenas uma descrição de acontecimentos de cem anos atrás, mas relaciona-se com ação política na atualidade.

Assim,a relevância do estudo e do debate sobre a Revolução Russa não é simplesmente uma mera querela acadêmica( entre muitas outras) ou uma disputa entre os “ figurões marxistas “ da esquerda pequeno burguesa ( que na sua esmagadora maioria ou apoiaram veladamente o golpe ou de maneira conveniente se calaram) para saber quem sabe mais ou quem tem a melhor “interpretação” sobre a Revolução Russa.

Na verdade, uma parte da intelectualidade ligada ao PT procura evitar a discussão sobre as “ Jornadas de Julho”, pois precisam desviar o debate sobre real significado da política de conciliação: a defesa do regime político burguês pelos conciliadores. Uma das conclusões mais importante das ‘ jornadas de Julho” na Revolução Russa é o papel de defensor da ordem burguesa pelos partidos conciliadores ( mencheviques e socialistas –revolucionários), que se colocaram contra as massas mobilizadas em nome da defesa da “ governabilidade”, mais que isso, aplicavam um programa capitalista contra os trabalhadores.

Essa política de conciliação de classes e de defesa da ordem burguesa,não é uma exclusividade do PT e do PcdoB. A defesa do regime em nome da “ democracia” é o cerne da política do PSOL, como ficou patente na últimas eleições municipais no Rio de Janeiro, quando Marcelo Freixo sinalizou que faria um governo com a burguesia na famosa ” carta aos cariocas”.

Por outro lado, para os setores mais “ radicais” da esquerda pequeno burguesa, como o PSTU (e seus satélites) discutir ou mesmo “ comemorar” a Revolução Russa é parte do ritual dogmático, que procura reforçar uma política de auto-engano, alimentando a ilusão que são “ socialistas” ou até mesmo “revolucionários”. Bem, depois do PSTU ter apoiado o golpe de Estado da direita no Brasil e agora na Venezuela isso soa cada vez mais ridículo, até mesmo para morenistas tradicionais. ( por isso, tem muito intelectual ex-PSTU nas universidades e no Andes com síndrome de FHC apagando os vestígios da defesa do golpe e pedindo para esquecermos o que escreveram ou falaram).

Depois de defender junto com a Globo, Caiado, Bolsonaro, entre outros expoentes da direita reacionária ” Fora Dilma”, a atual política morenista de defesa da tomada do poder pelos “ operários e povo pobre” aparenta ser uma caricatura da política bolchevique. Inclusive, existe uma critica de setores da esquerda pequeno burguesa( geralmente ligados ao PSOL) ao PSTU , afirmando que os morenistas erram por fazer uma “transposição sem medição” da política bolchevique de 1917 para a realidade atual. Na verdade, essa critica serve apenas confundir mais ainda, pois trata-se inclusive de um embelezamento das posições sectárias do PSTU, uma vez que a política morenista não tem o menor vestígio de bolchevismo.

A defesa da tomada do poder em qualquer circunstância, independente da correlação de força, nunca foi uma política bolchevique. Inclusive, esse tipo de politica, semi-anarquista e aventureira de ocasião foi duramente combatida pelos bolcheviques nas “ jornadas de Julho”’.

Na segunda parte, vamos discutir com mais detalhes o que foram as “ jornadas de Julho” e sua importância política na Revolução Russa.

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