Boulos e a criação do Partido da Lava Jato

Compartilhar:

Eliane Cantanhêde, colunista do jornal O Estado de S. Paulo, anuncia na edição de sexta-feira (23) da publicação golpista a criação de “Novos partidos” (título de sua coluna). Refere-se à reunião entre Guilherme Boulos, ex-colunista da Folha de S. Paulo e liderança do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), e lideranças do Psol e do PT, incluindo Tarso Genro e o senador Lindbergh Farias. Cantanhêde, usando uma reportagem da Folha de S. Paulo assinada por Cátia Seabra, tenta ver nessa reunião a criação de um novo partido. Esse partido talvez nunca venha a existir, mas desde já é impulsionado nas páginas do Estado.

Ano passado houve um golpe de estado no Brasil, com o roubo de 54 milhões de votos. O objetivo desse golpe era muito maior do que simplesmente derrubar o PT do governo. O programa do golpe é o programa do imperialismo para os países atrasados: fazer os trabalhadores pagarem pela crise e devastar a economia nacional, para que as multinacionais estrangeiras marchem em triunfo sobre as ruínas. Se o plano der certo até o final, um dia alcançaremos o vigoroso atraso do Haiti.

Nesse cenário dos sonhos para os donos do golpe pode ser que haja até espaço para um partido de esquerda. O sucesso do golpe passa pela destruição do PT, que está em curso, mas muito longe de estar garantida. A imprensa burguesa frequentemente brada contra a “irresponsabilidade” do PT por denunciar as reformas. Um editorial do Estado de S. Paulo publicado segunda-feira (19) é particularmente ilustrativo. Sob o título “O que o PT tem a ensinar”, o jornal golpista exorta Michel Temer, o usurpador, a vir a público “com a mesma determinação de seus tinhosos adversários petistas” para defender “de forma mais enfática as reformas econômicas de que o País [o Brasil, não o Haiti] tanto necessita”.

Embora apeado do governo que ganhou pelo voto, o PT continua sendo um obstáculo para a política dos golpistas. Por isso os golpistas precisam destruí-lo. É disso que a coluna de Cantanhêde trata, em tom de torcida. Segundo ela, “a esquerda articula um partido contra o PT”. No curto prazo, isso poderia ser uma manobra para tirar votos do PT nas eleições presidenciais, se houver eleições. Mas Cantanhêde vai mais longe, e imagina Boulos, “não necessariamente como candidato”, como uma liderança para a esquerda no marco de um novo regime.

A operação Lava Jato foi uma peça fundamental do golpe de estado. Cantanhêde, entusiasmada com os resultados da operação, diz que surgirá daí um “novo equilíbrio” e uma “reaglutinação de forças” políticas. E conclui: “Reaglutinação implica novas lideranças, debates sobre o País e reunião de pessoas que veem o mundo, o Brasil, a política, a economia, o papel do Estado e a força do setor privado sob a mesma ótica. É fundamental nesse processo excluir os condenados pela Justiça e os que criaram falsos partidos só para levar vantagem. Logo, reaglutinação partidária sem reforma política é chover no molhado”.

De fato, o golpe precisa impor um novo regime para aplicar seu programa. Um regime que exclua a classe operária completamente da política institucional. Esse é o sentido dos ataques ao PT, hoje reconhecido por dezenas de milhões de trabalhadores como seu representante eleitoral e como representante de seus interesses. Para excluir os trabalhadores de qualquer participação política no Estado, o golpe precisa excluir o PT. É o “novo equilíbrio” que a Lava Jato estaria ajudando a trazer.

Para isso, a imprensa burguesa espera ter a colaboração de setores da própria esquerda. Mais especificamente, da esquerda pequeno-burguesa. Nas páginas amarelas da Veja, o deputado petista Humberto Costa disse, em março, que seria o momento de “virar a página do golpe”. Eliane Cantanhêde espera que Boulos crie um partido capaz de “virar a página do PT”. O significado é o mesmo, encerrar a luta contra o golpe para que um novo regime político seja estabelecido. Com ou sem um “novo partido” esquerdista pouco representativo para referendar o novo regime golpista. O que importa mesmo é tirar o PT de cena para consolidar o golpe.

artigo Anterior

Mulher ganha ação contra companhia área de Israel

Próximo artigo

Servidores auxiliares da Justiça na Bahia estão em greve

Leia mais

Deixe uma resposta