160 anos de “As flores do mal” de Charles Baudelaire: ao Leitor

Compartilhar:

Ao Leitor

Charles Baudelaire
Trad. Fernando Fagundes Ribeiro

A tolice, o pecado, a usura, o desatino,
Corroem nossos corpos, nosso pensamento
E a remorsos amáveis damos alimento,
Como mendigos nutrem vermes no intestino.

Pecados insistentes, perdão nem falar;
As nossas confissões liberamos a custo,
E retornamos pelos pântanos sem susto,
Crendo com pranto vil nossas manchas lavar.

Na almofada do mal é Satã Trimegista
Que longamente embala o nosso coração,
E o valioso metal da vontade de ação
Dissolvido se vê pelo sábio alquimista.

É o Diabo que nos sustém, por fios seguros!
A tudo que repugna achamos natural;
Cada dia para o Inferno vamos um degrau,
Sem horror, através de pútridos escuros.

Como um devasso pobre que beija e come
Da velha prostituta o seio denegrido,
Subtraímos esquivos prazer escondido
Como velha laranja espremida com fome.

Denso, e a pulular como um milhão de helmintos,
Um povo de Demônios assalta a razão,
E quando respiramos, a Morte no pulmão
Desce, invisível rio, em lamentos furtivos.

Se o estupro, o veneno, o incêndio, a punhalada,
Ainda não bordaram com traços ditosos
O tecido de nossos destinos piedosos,
É que nossa alma, ai ai! Não é bastante ousada.

Mas em meio às panteras, aos chacais e aos linces,
Macacos, escorpiões, abutres e serpentes,
Os monstros guinchadores, urrantes, frementes,
No infamante estábulo de nossos crimes,

Há bicho ainda mais feio, e bem mais imundo!
Que mesmo sem causar excessivo alvoroço,
Faria de bom grado da terra um destroço
E num bocejo só devastaria o mundo.

É o Tédio! – No olho brota uma lágrima então,
Sonha com cadafalsos fumando cachimbo.
Tu conheces, leitor, esse monstro grã-fino,
– Hipócrita leitor, – meu igual, meu irmão !

artigo Anterior

160 anos de “As flores do mal” de Charles Baudelaire: o relógio

Próximo artigo

Snowden – O Filme

Leia mais

Deixe uma resposta