“Mulher Maravilha”: de heroína feminista a defensora de crimes de guerra

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Muito tem se falado do novo filme “Mulher Maravilha” baseada na super heroína da DC Comics. O filme já é classificado como um “novo marco para as mulheres” no cinema e há até pesquisas de que crianças, meninas, mudem de comportamento após assistirem o filme, tornando-se mais corajosas e independentes.

O filme, assim como Gal Gadot, a atriz principal, explodiu no mundo todo. Críticas surgiram de todos os lugares e uma das mais importantes foi feita pela palestina Susan Abulhawa, redatora do jornal Al Jazeera. Em sua crítica Abulhawa toca em ponto importantes, de como o novo filme da Mulher Maravilha, interpretada por uma ex-soldada israelense é mais uma propaganda sionista da guerra contra o povo árabe.

Abulhawa começa seu texto (que pode ser lido em inglês aqui), lembrando de como ela, quando era uma criança, assim como várias meninas do mundo de sua geração, cresceram assistindo programas de televisão de super heroinas e feiticeiras, fantasiando terem super poderes. Essas personagens tiveram o poder de mudar a vida de todas as garotas, como uma inspiração, mas no fundo com a consciência de que esses super poderes eram uma mera fantasia causada pelo entretenimento.

Hoje, afirma Abulhawa, o mundo mudou muito desde sua juventude quando a imprensa, o rádio e a televisão ensinavam as mulheres a serem esposas obedientes e agradáveis, boas mães e donas de casa eficientes. E naturalmente, como todas as mulheres, Susan ficou ansiosa quando soube que Hollywood estava produzindo um longa-metragem de grande orçamento sobre a Mulher Maravilha, finalmente depois de vários filmes sobre o Batman, Homem Aranha, Super Homem e outros filmes masculinos. E ainda mais porque o tão aguardado filme foi também dirigido por uma mulher.

Porém Abulhawa e todas as mulheres palestinas depararam com o choque.

A Mulher Maravilha, em sua versão hollywoodiana, é uma sionista declarada e uma entusiasta de crimes de guerra. Gal Gadot, a atriz no papel principal, é uma atriz e modelo israelense. Em 2007, Gadot participou de uma sessão de fotos para a revista Maxim intitulada “Mulheres do Exército Israelense”, que apresentou modelos de Israel que eram membros do exército daquele pais. Gadot foi uma soldada ativa do exército israelense que invadiu e bombardeou o sul do Líbano em 2006.

Em 2014, Gadot enviou uma mensagem de apoio a soldados israelenses enquanto estes massacravam mais de 2.100 seres humanos palestinos presos em um enclave à beira-mar sem lugar para ninguém se esconder ou escapar. Israel, nessa época, bombardeou bairros inteiros, enterrando famílias nos escombros de suas casas demolidas. Durante 52 dias, eles bombardeavam do céu, da terra e do mar, um dos lugares mais densamente povoado da Terra.

Israel tem uma das forças armadas mais mortíferas do mundo, com as máquinas mais avançadas e tecnológicas, e eles usaram seu poder repetidas vezes contra a população de Gaza principalmente desarmada que não tinham como se defender. O que Israel fez na Palestina e em particular em Gaza, é inconcebível. Ele sobe para as piores formas de opressão e injustiça dentre décadas.

O sionismo não pode andar junto com o feminismo, o feminismo do novo filme da Mulher Maravilha é o feminismo do enclave imperialista, e pertence a outra era, a era de quando as feministas lutaram pelo direito ao voto, mas apenas para as mulheres brancas, da pequena e alta burguesia.

Abulhawa é uma das poucas que buscou analisar o que significa lançar uma sionista no papel de uma personagem símbolo da luta das mulheres, no entretenimento. O roteiro é familiar, Israel está lutando contra terroristas. Israel está se defendendo, apenas tentando manter seu judaísmo de modo dominante no meio de uma região bárbara, não-judaica. A mesma narrativa que o apartheid da África do Sul deu quando aprisionou Nelson Mandela, quando assassinou crianças em escola em Soweto, ou quando massacrou manifestantes em Sharpeville. Eles também se defenderam contra os nativos que não aceitavam ser oprimidos.

Abulhawa questiona: e se Hollywood fizesse esse filme na década de 1980 e lançasse um militante apoiador do apartheid para papel da Mulher Maravilha? A imprensa dos EUA também se concentraria em sua beleza e talento na atuação, em vez do fato de que ela afirma abertamente e orgulhosamente seu direito, como uma mulher branca, subjugar os nativos de seu país?

O mais revoltante ainda na história toda, é que Gadot está sendo promovida como a pioneira da luta das mulheres, está sendo promovida como feminista, que luta ao lado dos direitos femininos. Abulhawa ainda lembra que a família de Gal Gadot chegou à Palestina como colonizadores e conquistadores, e como a maioria dos sionistas, seus pais mudaram o sobrenome de Greenstein para Gadot, para se higienizarem, mas isso não altera quem são.

A posição de privilégio de Gadot na vida é escorada na dor, no desespero, roubo e destruição da terra e do povo palestino, onde sua família hoje habita. E mesmo com todo esse histórico, Gadot não tem vergonha e nem desculpas, mas sim orgulho. As discussões sobre o feminismo que ronda este filme deixaram de lado a história da protagonista. Os produtores, a diretora e toda a imprensa omitiram a história da atriz e seus atos violentos de matança desonesta que levou a morte de 547 crianças em menos de dois meses.

Abulhawa afirma, não se enganem, o sionismo jamais pode se conciliar com o feminismo, e cita Jaime Omar Yassin, que com toda a razão afirma: “o feminismo não pode ser sionista, assim como não pode ser neonazista”  o feminismo que não tem uma compreensão de como ele se interpõe com a opressão racial e étnica e de classe é simplesmente uma diversificação da supremacia branca, imperialista e burguesa.

E conclui: “eu não vi o filme, nem tenho a intenção de fazê-lo. Mas milhões de meninas têm ou vão, incluindo pequenas meninas palestinas, como a versão mais nova de mim. Eles verão o poder feminino simbolizado em um super-herói que detém desdém, desconsidera e despreza as vidas palestinas. É uma coisa dolorosa de contemplar. E eu só posso agradecer o Líbano e a Tunísia – e indivíduos em todo o mundo – por boicotar o filme.”

 

 

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