Corra, o racismo não acabou

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A democracia, tal como a conhecemos, tem uma certa magia dentro da esquerda pequeno-burguesa. Essa esquerda, por exemplo, sequer consegue enxergar que houve um golpe de Estado no Brasil. Acha que a democracia, as eleições, o parlamento e os juízes irão resolver tudo para o bem dos povos.

Por esse motivo, o problema do racismo muitas vezes se transforma em um problema legal, de lei, não de luta, organização e mobilização do negro. Um filme recente mostra que, na verdade, falta um bom bocado para que o negro possa ter uma vida normal, pelo menos foi o que eu achei. 

É o “Corra”, em inglês Get Out, que trata da vida de um rapaz negro, Chris (Daniel Kaluuya) que tem um relacionamento com uma moça branca (branca mesmo), Rose (Allison Williams), e, ao conhecer a família da moça, o rapaz atravessa um verdadeiro inferno.

Ela afirma que sua família é super democrática. O pai dela recebe o rapaz com um fraterno abraço, mas, com o desenvolver da história, se descobre que não são apenas racistas, mas possuem um plano macabro com o corpo e o cérebro do rapaz.

Desde o início, um amigo de Chris alerta sobre os perigos de se conhecer e conviver com uma família branca. Em tom cômico, o amigo Rod Williams (o comediante Lil Rel Howery) afirma a todo momento que ele, Chris, precisa sair da casa, precisa se livrar da mulher antes que o pior aconteça. E o pior acontece, mas, para o filme ser filme mesmo, de ficção, o negro consegue escapar vivo ao final, e com requintes de crueldade na vingança, ufa, que satisfação!

O interessante do filme é abordar uma forma ficcional do racismo. É tão moderno, em termos de imagens e outros aspectos, que causa certa estranheza em conhecermos uma família racista naquele grau, porém, o filme revela uma realidade.

É uma espécie de aviso. “Cuidado, ainda existe racismo, e dos mais perversos”, mesmo após a eleição de um negro para a presidência dos EUA, mesmo após a luta dos direitos civis, etc..

Tive mesmo a impressão de que era um aviso para quem acha que tudo foi e será resolvido pela democracia. A viva impressão de que se o negro quiser liberdade, terá de derramar algum sangue.

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