A foice e o martelo

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A foice e o martelo (☭) invertida com um “4” sobreposto. Símbolo da IV Internacional, correto? Não exatamente.

Capa da revista “Quarta Internacional”, editada pelo “Comitê Executivo Europeu da IV Internacional”, mais tarde “Secretariado Europeu da IV Internacional”, dirigido por Michel Pablo

A foice e o martelo usada hoje por uma infinidade de organizações que se reivindicam trotskistas não é o símbolo da IV Internacional fundada por Leon Trótski na década de 30. Foi adotada depois, nos anos 40, quando Michel Pablo (pseudônimo do grego Michalis N. Raptis) tornou-se secretário geral da IV Internacional.

Em 1952 a IV Internacional se dividiria em dois blocos, que posteriormente se esfacelariam em inúmeras facções (comandadas por Mandel, Moreno, Posadas etc.) Na raiz da ruptura estava a tentativa de revisão radical do programa revolucionário pela maioria da direção internacional, encabeçada por Pablo.

Da dissolução da IV Internacional em uma infinidade de seitas políticas, resultou também a multiplicação de “foices e martelos” estilizados com o “4”.

O pablismo e suas derivações (mandelismo, morenismo, posadismo) são uma expressão do centrismo presente na esquerda nos últimos 60 anos. O companheiro Rui Costa Pimenta tratou desse problema no livro Autópsia de uma campanha de calúnias, publicado no ano 2000:

“Se nos primeiros anos da III Internacional, o centrismo se encontrava nas tendências que se desprendiam da social-democracia em direção ao bolchevismo e na década de 30 da social-democracia e do stalinismo em direção ao trotskismo, no período do pós-guerra, as tendências centristas que oscilam entre os stalinistas e social-democratas e o trotskismo encontrar-se-ão, também, em parte, no interior da própria IV Internacional, com a dominação do pablismo sobre ela e o seu conseqüente esfacelamento organizativo (…)

“O pablismo é a variante mais insidiosa de centrismo não apenas porque recobre as suas posições oportunistas com a bandeira da IV Internacional, como porque é um centrismo de direita cristalizado e endurecido na luta precisamente contra as posições revolucionárias e a tradição da IV Internacional. No Brasil, os pablistas dividiram-se em duas organizações, a Democracia Socialista [DS] e a Convergência Socialista [hoje, PSTU]”.

O centrismo expresso na miríade de secretariados, comitês, coordenações, ligas, frações e tendências pela “quarta internacional” que derivam das rupturas subsequentes do pablismo (e do morenismo, do mandelismo, do posadismo, do lambertismo…), portanto, se opõe à própria IV Internacional, ao trotskismo, o marxismo, o comunismo, sua política e tradição organizativa.

1º brasão da União Soviética

A história da foice e do martelo

A foice e o martelo é um símbolo da revolução proletária. Foi usada oficialmente, isto é, por decisão do governo da Rússia revolucionária, pela primeira vez no 1º de Maio de 1918. Era a proposta de um Eugênio Kamzolkin, que queria expressar, em uma peça decorativa, a união dos operários e camponeses que derrubaram a autocracia. Em 1923, foi incorporada ao brasão e à bandeira da União Soviética. É uma marca do Estado operário, da ditadura do proletariado.

Apareceu em milhões de publicações, bandeiras, manifestações etc. Está, como a bandeira vermelha, o hino A Internacional, indissociavelmente ligada ao comunismo. Não poderia, nem deveria ser diferente. É a marca da revolução vitoriosa na Rússia e da revolução mundial.

O túmulo de Leon Trótski, sob a bandeira da União Soviética.

Não era diferente na época em que Trótski e seus seguidores propuseram, diante da catástrofe da Internacional Comunista (a III Internacional) construir um novo partido mundial da revolução proletária, a IV Internacional.

A política desastrosa da direção stalinista da União Soviética, que levou à dissolução da III Internacional e rendeu a Stálin o apelido de coveiro da revolução, não é, de modo nenhum, motivo para repudiar a revolução, suas lições, sua história e seus símbolos. Não era o que propunham os bolchevique-leninistas, do momento que começaram a combater a política centrista de Stálin dentro do Partido Comunista e do governo da URSS, como oposição de esquerda, à sua decisão de construir um novo partido, separado, como vanguarda revolucionária da classe operária.

Não há motivo, portanto, para adotar outro símbolo – muito menos o que foi incluído na história da “quarta internacional” pelos liquidadores da política revolucionária e do marxismo – no lugar da foice e do martelo que entrou para a história como um ícone da revolução, do governo operário e do comunismo.

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