Uma nova esquerda? Que esquerda?

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A noção de uma “nova esquerda”, ou de uma “outra esquerda possível” é reveladora das posições de setores apoiadores do golpe que procuram se passar como de “esquerda” para conseguir faturar com a crise política.

A matéria intitulada “Uma nova esquerda é possível”, escrita por Luiz Sérgio Henriques (organizador do site gramsci.org), publicada no prestigiado ‘’Espaço Aberto’’ do Estadão ( 17/6/16), precisa ser lida com atenção, pois aponta as posições tradicionais da esquerda pequeno burguesa de negação do golpe de Estado no Brasil e defesa da operação Lava Jato, advoga as possibilidades de uma nova “esquerda” como subproduto do próprio golpe.

“Seja qual for o destino do PT e de seu máximo – e solitário – chefe, resta começar de novo”

Num sentido mais amplo, para além da polêmica com os argumentos apresentados no artigo analisado, a proposta da “nova esquerda” é uma operação da esquerda pequeno burguesa com um apoio da burguesia que tem como finalidade construir um verniz de esquerda para uma política de direita (apoiar o golpe, posições de liquidacionistas no terreno partidário, lutar supostamente contra a corrupção etc).

Com essa farsa grotesca, estes seguimentos (desde os reformistas até os “ultramegarevolucionários”) visam herdar os espólios políticos e, sobretudo, os dividendos eleitorais do PT, e ocupar uma pequena cancha política nas instituições “democráticas” (parlamentos, governos, universidades, sindicatos etc) nas reconfigurações após golpe.

Os filhotes do Juiz Moro: Lava Jato como elemento constituidor de uma ‘’nova esquerda’’

No artigo em questão, apresenta-se, sem constrangimento, um apoio explícito à “melhoria da qualidade da democracia” após as “ ações originadas em Curitiba”. A tese apresentada é de que é possível construir uma nova “esquerda’ a partir dos desdobramentos políticos da Lava Jato, em consequência do colapso do sistema partidário vigente.

A analogia histórica é evidentemente com a Itália e com a “operação mãos limpas” e seus impactos no sistema partidário italiano. Para justificar essa comparação o autor do artigo menciona inclusive que o “celebrado” artigo do juiz Sergio Moro sobre a operação mãos limpas, publicado ainda em 2004, “quando a percepção de haver algo podre no reino da Dinamarca ainda não havia sido imensamente ampliada com os fatos que levaram à Ação Penal 470 e às investigações atuais sobre a ocupação da Petrobrás e outras empresas públicas”.

O sentido geral das noções justificadoras de uma “nova esquerda possível” apresentadas pelo artigo de Luiz Sérgio Henriques é parte do esforço para construir um campo de uma “esquerda” que procura emergir da crise política, tendo como orientação fundamental apoiar-se nas campanhas da mídia golpista em defesa abstrata da “luta contra a corrupção”, ou seja, escamotear o verdadeiro significado da lava Jato como justificadora do golpe.

Qual o significado da propalada crise da representação política?

O desenvolvimento da crise do regime político em escala internacional tem provocado um claro deslocamento do espectro político para uma polarização cada vez mais acentuada. O centro político representado pelo partidos tradicionais tem perdido cada vez mais posições, o que coloca em risco a tal “ governabilidade”, com a acentuação da crise da “representação” dos sistemas partidários eleitorais.

O imperialismo diante da crise econômica internacional tem adotado como orientação fundamental de apoio a golpes e intervenções militares, que se expressa em sucessivos golpes em países periféricos, como no Egito, (no conturbado contexto de agressões e invasões imperialistas no Oriente Médio), Honduras e Paraguai ( América Latina) e mesmo no coração da Europa, como na Ucrânia, com a atuação de agrupamentos nitidamente nazistas.

Nos países centrais ou classificados como de “democracia consolidada”, essa tendência à polarização política também tem acontecido de maneira aguçada. Sendo que a quebra do centro tradicional expressa o deslocamento da política burguesa para a direita através do crescimento eleitoral de partidos de direita, ou seja, a mesma tendência autoritária dos golpes e guerras, mas ainda expressa na linguagem escamoteada do jogo das instituições democráticas.

A crise do pacto de conciliação de classe e seus impactos na esquerda tradicional

Este fenômeno tem atingindo também a esquerda tradicional ou centro-esquerda, representada nos países centrais nos partidos socialdemocratas ou socialistas e em países como o Brasil no PT.

A crise dessa esquerda tradicional é subproduto da crise de conjunto do regime de dominação, que se apresenta institucionalmente e formalmente através das instituições democráticas, com eleições periódicas e parlamentos. Na verdade, essa centro esquerda ascendeu a posições importantes no jogo institucional democrático, na medida em que representava um componente de esquerda da própria política burguesa. No caso da esquerda europeia, como o Partido Trabalhista na Inglaterra ou Partido Socialista na França, é uma política não somente democrática mas, sobretudo, imperialista.

No Brasil, a chegada do PT ao executivo federal através da constituição da Frente Popular com a vitória de Lula e depois Dilma, sinaliza um marcador do ápice do pacto de conciliação de classe, que remota as características do período da transição política, expresso juridicamente na constituição de 1988, e nos governos da Nova República.
A crise política que se manifesta no golpe político contra o governo Dilma nada mais é do que a evidência da inviabilidade da continuidade desse pacto que sustenta o regime político com as características semidemocráticas. O elemento central da crise política é o colapso do centro, e o deslocamento político das forças tradicionais burguesas para uma posição golpista e, como o artigo publicado no Estadão evidencia, um deslocamento para direita também da esquerda pequeno burguesa.

A busca de novas possibilidades da “ esquerda alternativa” no novo pacto antidemocrático burguês

A esquerda pequeno burguesa, ela própria parte do pacto geral de representatividade e governabilidade do regime político burguês, não tem nenhuma análise da crise político e do sentido geral da quebra dos marcos democráticos do regime.

Mas como ninguém é totalmente imune à própria crise, a esquerda pequeno burguesa consegue farejar o colapso do pacto, e espera tirar dividendos da crise do PT e ocupar um espaço no espectro político com tendências à polarização.

Na visão do autor do artigo publicado pelo Estadão, a esquerda nova (não corrupta e sobretudo antipetista), teria que aproveitar as oportunidades abertas pela crise do sistema partidário para criar uma nova forma de encaixe dentro da nova ordem oriunda da “renovação” saneadora da Operação Lava Jato. Novamente em comparação com os resultados da Operação Mãos Limpas na Itália, o autor lamenta a ausência de uma agremiação política reformista de esquerda no modelo do PCI.

Esse lamento tem razão de ser, uma vez que a esquerda pequeno burguesa brasileira é ainda mais débil do que foi o stalinismo reciclado na Itália para ser uma eixo aglutinador para a recomposição do sistema partidário e do próprio regime político.

Na verdade, o que sinaliza a “nova esquerda” é a busca alucinada por um lugar ao sol na nova ordem golpista, logicamente sem um partido de esquerda de massas como é o PT, imagina-se que as instituições democráticas precisarão de parlamentares de “esquerda” sem, necessariamente, com a ‘pauta histórica socialista”, mas, necessariamente, com as bravatas e as inovações da “esquerda possível”.
Essa “nova esquerda” apresenta estruturas partidárias apenas nominalmente, pois de fato são aglomerados e articulação de interesses, como a Rede ou a Raiz, que têm como principal exemplo paradigmático o PSOL ( um condomínio de agrupamentos da esquerda pequeno burguesa em forma de legenda eleitoral).

Não poderia deixar de assinalar uma apreciação política relevante sobre os resultados efetivos da operação Mãos Limpas na Itália, que, diga-se de passagem, tanto o autor do artigo omite de maneira proposital, como o Juiz Sergio Moro no seu “celebrado” artigo e todos os defensores de esquerda do Lava Jato assim também o fazem. A Operação Mãos Limpas na Itália não garantiu nem aumentou minimamente as características democráticas das instituições políticos da Itália. Aconteceu exatamente o inverso, ou seja, o resultado foi o aumento do autoritarismo e das tendências protofascistas depois da Operação Mãos Limpas, uma evidência foram os governos Berlusconi e o crescimento do extremismo de direita, como a Liga Norte.

O artigo salienta somente os erros do PT, creditando a crise das instituições quase que exclusivamente à “desastrosa política do PT”, que não tem uma visão correta da “complexidade” do país. Na verdade, o fracasso das instituições burguesas, em especial do parlamento e do poder legislativo, é apresentado não como fruto da política burguesa, mas da maneira como o PT lidou com os parlamentares, tratando o congresso como “ uma assembleia de picaretas”. Essa é a tese bem estilo moral da “nova esquerda”, que não identifica a crise como um produto da luta de classes, mas como “ erros “ do PT, como se o problema da crise política é que o PT teria que ter sido ‘ético” e não fazer o “jogo sujo da política”.

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